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2012-02-29

Swifts - Ruth Pitter

Low over the warm roof of an old barn,
Down in a flash to the water, up and away with a cry
And a wild swoop and a sharp turn
And a fever of life under a thundery sky,
So they go over, so they go by.

And high and high and high in the diamond light,
Soaring and crying in sunshine when heaven is bare,
with the pride of life in their strong flight
And a rapture of love to lift them and carry them there,
High and high in the diamond air.

And away with the summer, away life the spirit of glee,
Flashing and calling, strong on the wing, and wild in their play,
With a high cry to the high sea,
And a heart for the south, a heart for the diamond day,
So they go over, so go away.

Emma Thomas "Ruth" Pitter (b. 7 November 1897 in Ilford, Greater London, UK - 29 February 1992)

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2012-02-28

PESQUISA - Paulo Mendes Campos

Tempo é espaço interior. Espaço é tempo exterior.
Novalis

A gaivota determinada mergulha na água
Verde. Há um tempo para o peixe
E um tempo para o pássaro
E dentro e fora do homem
Um tempo eterno de solidão.
Muitas vezes, fixando o meu olhar no morto,
Vi espaços claros, bosques, igapós,
O sumidouro de um tempo subterrâneo
(Patético, mesmo às almas menos presentes)
Vi, como se vê de um avião,
Cidades conjugadas pelo sopro do homem,
A estrada amarela, o rio barrento e torturado,
Tudo tempos de homem, vibrações de tempo, vertigens.

Senti o hálito do tempo doando melancolia
Aos que envelhecem no escuro das boîtes,
Vi máscaras tendidas para o copo e para o tempo.
Com uma tensão de nervos feridos
E corações espedaçados.
Se acordamos, e ainda não é madrugada,
Sentimos o invisível fender do silêncio,
Um tempo que se ergue ríspido na escuridão.
Cascos leves de cavalos cruzam a aurora.
O tempo goteja
Como o sangue.
Os cães discursam nos quintais, e o vento,
Grande cão infeliz,
Investe contra a sombra.

O tempo é audível; também se pode ouvir a eternidade.


Paulo Mendes Campos nasceu em 28 de Fevereiro de 1922 em Belo Horizonte, Minas Gerais e faleceu no Rio de Janeiro em 1 de Julho de 1991

Ler do mesmo autor, neste blog: Amor Condusse Noi Ad Una Morte

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Benfica: Parabéns pelo 108º aniversário



Querido Benfica: não te esqueças que estás no Guiness como o clube que mais sócios tem no mundo.

Não são os Calheiros, Benquerenças, Proenças, Xistras, Sousas, Ferreiras & Cia. (a que se tem de juntar os Miguéis que não vêm o penalty sobre o Aimar do tamanho do Big-Ben, o corte com o braço do jogador da Académica no início do jogo, mas vêm foras de jogo inexistentes - acompanhado do ar de risota e de satisfação do juíz assistente pela garantia de dois pontos de recuperação atribuídos ao FCP, enquanto no Dragão não se vê a cotovelada de Janko mas inventa-se um fora de jogo dum jogador feirense que se isolava - com um adversário recuado mais de 2 metros - mas no minuto seguinte já se vê o penalty e expulsão) que impediram e impedirão o Glorioso de ser (sempre) o maior.

Na próxima sexta-feira à noite contra ventos e marés teremos de estar unidos para lutar contra os apitos dourados, as provocações e contra mais uns senhores que certamente para lá serão enviados para complicar ainda mais a vida da equipa que melhor joga futebol em Portugal. Como é possível perante a evidente diferença de "futebóis" exibidos estarem as duas equipas empatadas? Pois...pois...

Tu, querido Benfica, fazes hoje 108 anos de vida! Mas fizeste 108 anos contados desde o primeiro ano. Ou seja fizeste um ano de vida, dois, três, quatro, cinco e por daí em diante ... dez ... vinte... cinquenta... cem. A contagem normal e cronológica dos anos que vais fazendo é recomendada às criancinhas pelos professores da Didáctica da Matemática. Ou seja, a tua história é conhecida ininterruptamente durante todo esse tempo de vida. Não saltaste 20 anos de existência ... só para apareceres mais velho do que és realmente.

É verdade que nestas duas últimas semanas os teus adeptos estão tristes. Tristes mas não conformados, sequer convencidos e muito menos vencidos! Na verdade durante e após o jogo da Académica o meu sentimento foi mais de "extorquido" tal como quando vejo o IRS pago no meu recibo de ordenado ou a factura da água. Será também as tuas não vitórias deliberadas pela "troika"?

Os dois próximos jogos são no teu Glorioso estádio. Vamos mostrar ao FCP e aos russos de que matéria é feita os verdadeiros campeões. Como poderemos ser derrotados por uma equipa eliminada da Champions por um clube de Chipre? Um jogo é (só) um jogo. Mas neste temos todos de nos reunir e com vontade, perseverança, luta e capacidade garantir o triunfo ... reavivando o entusiasmo e confiança para daqui por uma semana conseguirmos outra vitória e passarmos às melhores oito equipas da Europa.

Vamos lá: Força Benfica! Benfica! Benfica! E muitos parabéns...

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2012-02-27

Nomeei-te no meio dos meus sonhos - Ruy Belo

Nomeei-te no meio dos meus sonhos
chamei por ti na minha solidão
troquei o céu azul pelos teus olhos
e o meu sólido chão pelo teu amor

RUY de Moura Ribeiro BELO nasceu em São João da Ribeira, Rio Maior (Ribatejo) a 27 de Fevereiro de 1933 e faleceu em Queluz a 8 de Agosto de 1978.

Ler do mesmo autor:

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Happy Birthday Mayra Suarez


Mayra Suarez, Nothingandall

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2012-02-26

Toada Para as Mães Acalentarem os Filhos - Augusto Gil

Ó Desgraça! Vai-te embora,
Que esta linda criancinha
Andou no meu ventre e agora
Trago-a nos braços. É minha!…

Do berço, segue-me os passos;
Onde eu vou, seus olhos vão…
E quando a aperto nos braços
- Abraço o meu coração.

Quando o seu choro receio,
Embalo-a, faço que aceite
A alegria do meu seio
Na brancura do meu leite…

E quando assim não descansa,
Que tristezas me consomem!
- Mas antes chore em criança
Que depois, quando for homem…

Se ao dá-lo ao mundo sofri
Tormentos, ânsias mortais,
Desgraça, vai-te de aqui,
O que pretendes tu mais!?

Bate as asas, mas ao voares
Não me apagues esta estrelha.
Se alguém de aqui precisares,
- Aqui me tens, em vez dela.

Tocam à ave-marias.
Foi-se o sol. Não vem a lua.
Luzinha que me alumias,
Que sorte será a tua?…

Riquezas tenhas tão grandes,
E tal bondade também,
Que ao redor donde tu andes
Não fique pobre ninguém.

Que a todos chegue a ventura:
Toda a boca tenha pão,
Toda a nudez cobertura,
Toda a dor, consolação…

Mas se o oiro é mau caminho,
- Antes tu venhas a ser
O pobre mais pobrezinho
De quantos pobres houver.

Iremos por esses montes
Altos e azuis como os céus…
Que onde há frutos e onde há fontes,
- Está a mesa de Deus!

E, quando a neve cair
E as seivas adormecerem,
Iremos então pedir…
(Aceitar o que nos derem!)

Andaremos à mercê
Dos génios bons e dos falso,
Léguas e léguas a pé,
Rotinhos, magros, descalços…

E onde houver urzes e tojos,
Pedras que rasgam a pele,
Porei o corpo de rojos
- Passarás por cima dele!

Dorme, dorme, meu menino,
Foi-se o sol. Nasceu a lua.
Qual será o teu destino?
Que sorte será a tua?…

Se um crime tens de fazer,
Antes fique vago um trono,
Antes um palácio a arder,
Do que uma enxada sem dono…

Se, porém, no teu destino,
Há tão cruentos sinais,
Dorme, dorme, meu menino,
- Não tornes a acordar mais!…

Augusto César Ferreira Gil (nasceu em Lordelo do Ouro, Porto,31 Jul. 1873; m. em 26 Fev. 1929).
Vae ser pedida. Casa qualquer dia
Balada da Neve
Em Vagon
O Passeio de Santo António
Grão de Incenso

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2012-02-25

Cristalizações - Cesário Verde

Faz frio. Mas, depois de uns dias de aguaceiros,
Vibra uma imensa claridade crua.
De cócaras, em linha os calceteiros,
Com lentidão, terrosos e grosseiros,
Calçam de lado a lado a longa rua.

Como as elevações secaram do relento,
E o descoberto Sol abafa e cria!
A frialdade exige o movimento;
E as poças de água, como um chão vidrento,
Reflectem a molhada casaria.

Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita,
Disseminadas, gritam as peixeiras;
Luzem, aquecem na manhã bonita,
Uns barracões de gente pobrezita
E uns quintalórios velhos, com parreiras.

Não se ouvem aves; nem o choro duma nora!
Tomam por outra parte os viandantes;
E o ferro e a pedra - que união sonora! -
Retinem alto pelo espaço fora,
Com choques rijos, ásperos, cantantes.

Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros, baços,
Cuja coluna nunca se endireita,
Partem penedos; cruzam-se estilhaços.
Pesam enormemente os grossos maços,
Com que outros batem a calçada feita.

A sua barba agreste! A lã dos seus barretes!
Que espessos forros! Numa das regueiras
Acamam-se as japonas, os coletes;
E eles descalçam com os picaretes
Que ferem lume sobre pederneiras.

E engelhem, muito embora, os fracos, os tolhidos,
Em tudo encontro alegremente exacto.
Lavo, refresco, limpo os meus sentidos.
E tangem-me, excitados, sacudidos,
O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto!


Pede-me o corpo inteiro esforços na friagem
De tão lavada e igual temperatura!
Os ares, o caminho, a luz reagem;
Cheira-me a fogo, a sílex, a ferragem;
Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura.

Mal encarado e negro, um pára enquanto eu passo;
Dois assobiam, altas as marretas
Possantes, grossas, temperadas de aço;
E um gordo, o mestre, com ar ralaço
E manso, tira o nível das valetas.

Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas!
Que vida tão custosa! Que diabo!
E os cavadores descansam as enxadas,
E cospem nas calosas mãos gretadas,
Para que não lhes escorregue o cabo.

Povo! No pano cru rasgado das camisas
Uma bandeira penso que transluz!
Com ela sofres, bebes, agonizas;
Listrões de vinho lançam-lhe divisas,
E os suspensórios traçam-lhe uma cruz!

De escuro, bruscamente, ao cimo da barroca,
Surge um perfil direito que se aguça;
E ar matinal de quem saiu da toca,
Uma figura fina, desemboca,
Toda abafada num casaco à russa.

Donde ela vem! A actriz que tanto cumprimento
E a quem, à noite, na plateia, atraio
Os olhos lisos como polimento!
Com seu rostinho estreito, friorento,
Caminha agora para o seu ensaio.

E aos outros eu admiro os dorsos, os costados
Como lajões. Os bons trabalhadores!
Os filhos das lezírias, dos montados:
Os das planícies, altos, aprumados;
Os das montanhas, baixos, trepadores!

Mas fina de feições, o queixo hostil, distinto,
Furtiva a tiritar em suas peles,
Espanta-me a actrizita que hoje pinto,
Neste Dezembro enérgico, sucinto,
E nestes sítios suburbanos, reles!

E neste rude mês, que não consente as flores,
Fundeiam, como esquadra em fria paz,
As árvores despidas. Sóbrias cores!
Mastros, enxárcias, vergas! Valadores
Atiram terra com as largas pás...

Eu julgo-me no Norte, ao frio - o grande agente!
Carros de mão que chiam carregados,
Conduzem saibro, vagarosamente;
Vê-se a cidade, mercantil, contente:
Madeiras, águas, multidões, telhados!

Negrejam os quintais; enxuga a alvenaria;
Em arco, sem as nuvens flutuantes,
O céu renova a tinta corredia;
E os charcos brilham tanto que eu diria
Ter ante mim lágoas de brilhantes!


Como animais comuns, que uma picada esquente,
Eles, bovinos, másculos, ossudos,
Encaram-na, sanguínea, brutamente;
E ela vacila, hesita, impaciente,
Sobre as botinas de tacões agudos.

Porém, desempenhando o seu papel na peça,
Sem que inda o público a passagem abra,
O demonico arrisca-se, atravessa
Covas, entulhos, lamaçais, depressa,
Com seus pezinhos rápidos, de cabra.

Extraído de Antologia de Poemas Portugueses Modernos por Fernando Pessoa e António Botto, Ática Poesia.

José Joaquim Cesário Verde (n. em Lisboa a 25 de Fev 1855; m. Lisboa, 19 Jul 1886).

Ler ainda do mesmo autor, neste blog:
Eu e Ela
O Sentimento Dum Ocidental I - Ave Marias
Noite Fechada
Cobertos de folhagem na verdura...
Arrojos
Lúbrica
CONTRARIEDADES
Nós III
Vaidosa
De Tarde

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2012-02-24

Casa - David Mourão-Ferreira

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.

Extraído de Cem Sonetos Portugueses, selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria, Terramar

David de Jesus Mourão-Ferreira (n. em Lisboa a 24 Fev. 1927; m. Lisboa a 16 Jun 1996)

Ler do mesmo autor:
E Por Vezes
Ilha
Nocturno
Paraíso
Ternura
Labirinto
Penelope
Primavera
Equinócio
Soneto do Cativo

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Acalentar meninos - Teófilo Braga

Embala, preta, embala
Menino do teu senhor;
Canta-lhe bem amoroso,
Anima-lo com amor.
Embala, preta, embala,
Como o fez San José,
Que os anjos cantarão:
Pater nostre domine.

San José, a trabalhar,
Embalava com seu pé:
«Calai-vos, Jesus Menino,
Nascido em Nazaré,»
Meu San José, acudi
Dai-me da vossa graça,
Com que enxugue ao meu menino
Suas lágrimas de prata.

Embala, preta, embala,
Como a Virgem faria,
Que os anjos cantarão:
«Gratia Plena Ave-Maria».
Cantigas cantou a Virgem
Quando embalou Jesus:
-Calai-vos, meu bento filho,
Que haveis de morrer na cruz.
Nossa Senhora, acudi,
Dai-me o vosso tesouro,
Com que cale o meu menino
Que chora lágrimas de ouro.

in Cem Poemas Portugueses sobre a Infância, selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria, Terramar

Joaquim Teófilo Fernandes Braga nasceu em Ponta Delgada, ilha de São Miguel, Açores a 24 de Fevereiro de 1843 — m. Lisboa, 28 de Janeiro de 1924. Presidiu ao primeiro governo republicano e foi Presidente da República em substituição de Manuel de Arriaga, exercendo o cargo no período compreendido entre 29 de Maio de 1915 e 4 de Agosto do mesmo ano.

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2012-02-23

Nas Cidades do Sul - Luiza Neto Jorge

Nas cidades do sul
há violência e há excesso,
de semente.
Estalam os rios e foge a água.
O corpo, encortiçado, racha.

Lendas vêm de há séculos assoreando
as margens.
E quando à boca de um poço vamos
provar o nosso eco,
águas puras irrompem,
noutra língua.

Extraído de Cem Poemas Portugueses no Feminino, selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria, Terramar

 Maria Luiza Neto Jorge nasceu a 10 de Maio de 1939 em Lisboa, onde faleceu a 23 de Fevereiro de 1989.

Ler da mesma autora, neste blog:
Anos Quarenta, os Meus
Desinferno II
Minibiografia
As casas vieram de noite
O poema ensina a cair
Magnólia
Ritual
Baixo-Relevo

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Na minha época passada - Zé Saldanha

Na minha época passada
Namoro foi sacrifício;
A moça num edifício
E pelo pai vigiada
Pra poder ser namorada
Pedia licença aos pais
Hoje a moça e o rapaz
Vão se abraçar, se beijar
O mundo só veio prestar
Quando eu não prestava mais.

Meu tempo foi diferente
Digo porque me convém;
As moças queriam bem
Mas tinham medo da gente
Todo pai era valente
Hoje perderam o cartaz
A filha sai com um rapaz
Beber, namorar, farrar
O mundo só veio prestar
Quando eu não prestava mais.

A lembrança ainda tenho
Dos vestidos do passado,
Hoje é curto e ligado
Que só manjarra de engenho
Mostrando todo desenho
Do corpo na frente e atrás
Tudo que a moderna faz
Eu só falto morrer de olhar
O mundo só veio prestar
Quando eu não prestava mais

Hoje nada mais é certo
Amor nem religião;
A moderna, a corrupção
Com seu mundanismo esperto
Deixando tudo em alerto
Olhando a novela o que faz
Mulheres, moças e rapaz
Semi nus a se beijar
O mundo só veio prestar
Quando eu não prestava mais

José Saldanha Menezes Sobrinho nasceu em 23 de fevereiro de 1918, na fazenda Piató, município de Santana dos Matos, no Rio Grande do Norte; faleceu a 9 de agosto de 2011

Poema extraído daqui onde pode ficar a conhecer melhor este grande autor de literatura do cordel

Ler ainda mais aqui sobre o autor

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2012-02-22

Quero-te para além das coisas justas - Joaquim Pessoa

Quero-te para além das coisas justas
e dos dias cheios de grandeza.
A dor não tem significado quando ma roubam as árvores,
as ágatas, as águas.
O meu sol vem de dentro do teu corpo,
a tua voz respira a minha voz.
De quem são os ídolos, as culpas, as vírgulas
dos beijos? Discuto esta noite
apenas o pudor de preferir-te
entre as coisas vivas.

Joaquim Pessoa (n. no Barreiro a 22 Fev 1948 )


Ler do mesmo autor, neste blog:
Bastava-nos amar. E não bastava...
Se ao menos soubesses tudo o que eu não disse
A Ausência VIII

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2012-02-21

Pêssego - Manoel de Barros

Proust
Só de ouvir a voz de Albertine entrava em
orgasmo. Se diz que:
O olhar de voyeur tem condições de phalo
(possui o que vê).
Mas é pelo tato
Que a fonte do amor se abre.
Apalpar desabrocha o talo.
O tato é mais que o ver
É mais que o ouvir
É mais que o cheirar.
É pelo beijo que o amor se edifica.
É no calor da boca
Que o alarme da carne grita.
E se abre docemente
Como um pêssego de Deus.

Manoel Wenceslau Leite de Barros (nasceu em Cuiabá, Mato Grosso, a 19 de dezembro de 1916)

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2012-02-20

Outro Testamento - Vitorino Nemésio

Quando eu morrer deitem-me nu à cova
Como uma libra ou uma raiz,
Dêem a minha roupa a uma mulher nova
Para o amante que a não quis.

Façam coisas bonitas por minha alma:
Espalhem moedas, rosas, figos.
Dando-me terra dura e calma,
Cortem as unhas aos meus amigos.

Quando eu morrer mandem embora os lírios:
Vou nu, não quero que me vejam
Assim puro e conciso entre círios vergados.
As rosas sim; estão acostumadas
A bem cair no que desejam:
Sejam as rosas toleradas.

Mas não me levem os cravos ásperos e quentes
Que minha Mulher me trouxe:
Ficam para o seu cabelo de viúva,
Ali, em vez da minha mão;
Ali, naquela cara doce...
Ficam para irritar a turba
E eu existir, para analfabetos, nessa correcta irritação.

Quando eu morrer e for chegando ao cemitério,
Acima da rampa,
Mandem um coveiro sério
Verificar, campa por campa
(Mas é batendo devagarinho
Só três pancadas em cada tampa,
E um só coveiro seguro chega),
Se os mortos têm licor de ausência
(Como nas pipas de uma adega
Se bate o tampo, a ver o vinho):
Se os mortos têm licor de ausência
Para bebermos de cova a cova,
Naturalmente, como quem prova
Da lavra da própria paciência.

Quando eu morrer. . .
Eu morro lá!
Faço-me morto aqui, nu nas minhas palavras,
Pois quando me comovo até o osso é sonoro.

Minha casa de sons com o morador na lua,
Esqueleto que deixo em linhas trabalhado:
Minha morte civil será uma cena de rua;
Palavras, terras onde moro,
Nunca vos deixarei.

Mas quando eu morrer, só por geometria,
Largando a vertical, ferida do ar,
Façam, à portuguesa, uma alegria para todos;
Distraiam as mulheres, que poderiam chorar;
Dêem vinho, beijos, flores, figos a rodos,
E levem-me - só horizonte - para o mar.

Poema extraído de Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI; Selecção, organização, introdução e notas de Jorge Reis-Sá e Rui Lage; Prefácio de Vasco da Graça Moura.

Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva (n. Praia da Vitória, Ilha Terceira, Açores a 19 de Dezembro de 1901 — m. em Lisboa, 20 de Fevereiro de 1978)

Ler do mesmo autor:
Teu só sossego aqui contigo ausente
Natal das Ilhas
Já um pouco de vento se demora
A Árvore do Silêncio
Semântica electrónica
26
Loa
Concha

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2012-02-19

A UM TI QUE EU INVENTEI - António Gedeão

Pensar em ti é coisa delicada.
É um diluir de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.
Um pesar grãos de nada em mínima balança,
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.
Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir.
Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas com o pensar te pudesses partir.

 in Obra Completa de António Gedeão, Relógio D´Água Editores


António Gedeão (pseudónimo de Rómulo Vasco da Gama de Carvalho, n. em Lisboa a 24 Nov. 1906; m. 19 Fev. 1997)

Ler do mesmo autor:
Poema da Eterna Presença
Impressão Digital
Poema do Amor
Poema das Coisas Belas
Poema das Coisas
Poema do Gato
Tempo de Poesia
Tudo é foi
Lição sobre a água
Poema da auto-estrada
Rosa branca ao peito
Pedra filosofal
Lágrima de preta
Minha Aldeia

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2012-02-18

Soneto: Desponta a estrela d'alva... - Fagundes Varela

Desponta a estrela d'alva, a noite morre.
Pulam no mato alígeros cantores,
E doce a brisa no arraial das flores
Lânguidas queixas murmurando, corre.

Volúvel tribo a solidão percorre
Das borboletas de brilhantes cores;
Soluça o arroio; diz a rola amores
Nas verdes balsas donde o orvalho escorre.

Tudo é luz e esplendor; tudo se esfuma
Às carícias d'aurora, ao céu risonho,
Ao flóreo bafo que o sertão perfuma!

Porém minh'alma triste e sem um sonho
Repete olhando o prado, o rio, a espuma:
- Oh! mundo encantador, tu és medonho!

Luís Nicolau Fagundes Varela nasceu em Santa Rita do Rio Claro (RJ) a 17 de Agosto de 1841 e faleceu de apoplexia em Niterói (RJ) a 18 de Fevereiro de 1875.

Ler do mesmo poeta, neste blog: Eu Passava Na Vida Errante; Flor do Maracujá


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Acontecimento do Soneto - Lêdo Ivo

A doce sombra dos cancioneiros
em plena juventude encontro abrigo.
Estou farto do tempo, e não consigo
cantar solenemente os derradeiros

versos de minha vida, que os primeiros
foram cantados já, mas sem o antigo
acento de pureza ou de perigo
de eternos cantos, nunca passageiros.

Sôbolos rios que cantando vão
a lírica imortal do degredado
que, estando em Babilônia, quer Sião,

irei, levando uma mulher comigo,
e serei, mergulhado no passado,
cada vez mais moderno e mais antigo.

Lêdo Ivo nasceu em Maceió (AL) a 18 de Fevereiro de 1924.

Ler do mesmo autor, neste blog:
Soneto de Abril
O Alvo

E agora leiam este pequeno excerto de um discurso de Lêdo Ivo durante a reunião da Academia Brasileira de Letras em 4 de Agosto de 2011:

Durante 25 minutos, este auditório ouviu, ininterruptamente, ganidos, gemidos, vagidos, coaxos, grasnidos, uivos, ladridos, miados, pipilos e arrulhos intoleráveis, senão obscenos, de um macilento boquirroto ostensivamente deliberado a tisnar e perturbar a minha exposição.

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2012-02-17

As Estrelas - Luíz Guimarães Júnior

Boas amigas, imortais estrelas,
Eu vos comparo, oh níveas criaturas,
Ao ver-vos caminhar n'essas Alturas,
A um rebanho de lúcidas gazelas.

Bem se assemelha o vosso olhar ao delas,
Ninho de amor e ternas amarguras,
Mas sois mais puras que as gazelas puras,
Boas amigas, imortais estrelas!

As vezes, levo as noites, fielmente,
A vos seguir aí nas nebulosas
Planícies como um cão triste e dormente...

Mas vós fugis de mim!—silenciosas
Mergulhais no Infinito, de repente,
Como um bando de letras luminosas.

In: GUIMARÃES JÚNIOR, Luiz. Sonetos e rimas: lírica. 3.ed. Pref. Fialho d'Almeida. Lisboa: Liv. Clássica Ed. de A. M. Teixeira

Luís Caetano Pereira Guimarães JR. nasceu no Rio de Janeiro a 17 de Fevereiro de 1845; m. em Lisboa a 20 de Maio de 1898).

Ler do mesmo autor:
O Sono de um Anjo
Visita à Casa Paterna

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2012-02-16

O Boi / Il Bove - Giosuè Carducci



Amo-te, ó pio boi! Um sentimento
de vigor e de paz tu me ofereces
quando, impassível como um monumento,
o olhar nos campos verdes adormeces,

Preso à canga, momento por momento,
mais útil e paciente me pareces.
O homem te ordena e tu, no macilento
volver dos olhos tristes, lhe obedeces.

Pela tua narina escura e fria
teu espírito passa e é um hino ardente
teu mugido cortado de agonia.

E em teu olhar, que pelo azul se perde,
se esconde, longe e dolorosamente,
verde, a planura do silêncio verde.


IL BOVE (Giosué Carducci)

T'amo, o pio bove; e mite un sentimento
Di vigore e di pace al cor m'infondi,
O che solenne come un monumento
Tu guardi i campi liberi e fecondi,

O che al giogo inchinandoti contento
L'agil opra de l'uom grave secondi:
Ei t'esorta e ti punge, e tu co'l lento
Giro de' pazienti occhi rispondi.

Da la larga narice umida e nera
Fuma il tuo spirto, e come un inno lieto
Il mugghio nel sereno aèr si perde;

E del grave occhio glauco entro l'austera
Dolcezza si rispecchia ampio e quïeto
Il divino del pian silenzio verde.

Giosuè Carducci n. Valdicastello 27_de julho 1835 — m. Bolonha, 16 de fevereiro de 1907

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2012-02-15

Benfica adia decisão da qualificação para os quartos-de-final da Champions ao perder(-se) no frio de S. Petersburg

Zenit

3-2

Benfica



E o empate a dois golos estava quase garantido...

O jogo disputou-se em condições atmosféricas muito más com o campo irregular e um frio de rachar, ainda que os 9 graus negativos se afastassem da situação mais dramática dos últimos dias em que a temperatura se aproximou dos -20º C.

Ainda assim na primeira parte a equipa do Benfica esteve bem apesar do contratempo da saída de Rodrigo, lesionado por Bruno Alves que veria o cartão amarelo, já depois de Luisão o ter visto pela primeira vez no jogo.

A ausência do guarda-redes titular no Zenit teve influência no jogo uma vez que falhou nos dois golos encarnados. Com efeito aos 20' após livre marcado por Cardozo, o guarda-redes defende mas dando condições a Maxi Pereira inaugurar o marcador na recarga. Porém este também esteve associado a três golos: marcando o primeiro dos encarnados mas com culpas (algumas) no segundo e (muitas) no terceiro golos dos russos..

Em desvantagem a reação do Zenit foi forte e o empate não demorou muito tempo com Shirokov a finalizar de primeira após cruzamento da esquerda de Tomáš Hubočan.

A inferioridade física de Rodrigo era patente e deu-se a primeira substituição do jogo entrando Aimar. A primeira parte terminaria com o Benfica a controlar aparentemente o jogo sem se livrar, porém, de ver um segundo jogador, Bruno César, amarelado antes do intervalo.

No início da segunda parte surgiu Semak no lugar de Zyryanov, na equipa do Zenit. Com o relvado (?) em más condições percebiam-se as dificuldades do futebol mais técnico do Benfica enquanto os russos aplicavam um futebol mais directo apesar de algumas iniciativas de Maxi e de Gaitán pela direita levarem algum perigo para a área dos russos. Sem grandes oportunidades viriam a ser os locais a ganhar vantagem após lançamento comprido para a direita do ataque com vários duelos a serem ganhos pelos jogadores da equipa da casa e finalmente Maxi a deixar passar a bola, finalizando Semak de calcanhar com a bola ainda a tabelar no poste.

Por essa altura a equipa do Benfica passou por algum desnorte com vários passes transviados e Aimar a ver um cartão amarelo que o indisponibiliza disciplinarmente para o jogo da Luz.

Jesus fez entrar Nolito para o lugar de Bruno César e o Benfica pareceu encaminhado para um grande resultadio qyuando após um remate falhado de Gaitán o guarda-redes russo deu a segunda "abébia", largando a bola para a frente, o que permitiu a Cardozo o empate a dois golos.

Não contavam os benfiquistas que logo a seguir Maxi Pereira (esteve em três golos: um a favor e dois contra) metesse a bola nos pés de Shirokov que bisou e finalizou o score.

O Benfica sai em desvantagem - o que não é bom - e por isso sem poder os seus jogadores vangloriarem-se de heróis de São Petersburgo, mas os dois golos obtidos fora dão esperança à equipa portuguesa de fazer a reviravolta na eliminatória o que será atingido se ganhar mesmo apenas por um golo de avanço que seja desde que não sofra mais de um golo. De qualquer modo vai estar a perder durante duas semanas...

Round of 16, First leg - 15/02/2012 - 18:00CET (21:00 local time) - Stadion Petrovskiy - St Petersburg

Árbitro: Jonas Eriksson (SWE)


Zenit: Zhevnov, Anyukov, Bruno Alves, Lombaerts, Hubočan, Shirokov, Zyryanov (Semak ao int.), Fayzulin (Rosina 89') , Denisov, Kerzhakov, Kanunnikov (Bystrov 66') (SUBS: Borodin, Luković, Cheminava, Rosina, Huszti, Semak, Bystrov.

Benfica: Artur, Emerson, Luisão, Maxi Pereira, Garay, Bruno César (Nolito 76'), Gaitán (Miguel Vítor 90'), Matić, Witsel, Óscar Cardozo, Rodrigo (Aimar 30') SUBS: Eduardo, Miguel Vítor, Jardel, Nolito, Aimar, Nélson Oliveira, Saviola. Share on

Golos: 0-1 Maxi Pereira 20'; 1-1 Shirokov 27'; 2-1 Semak 71'; 2-2 Cardozo 87'; 3-2 Shirokov 88'

Disciplina:
13' Cartão amarelo para Luisão por falçta sobre Fayzulin.
17' Bruno Alves vê o cartão amarelo por falta dura sobre Rodrigo que fica lesionado e seria substituído mais tarde.
45+1' Cartão amarelo para Bruno César
63' Cartão amarelo para Anyukov por falta sobre Bruno César
75' Cartão amarelo para Aimar (falta assinalada sobre Kerzhakov) que retira-o do jogo da segunda-mão no Estádio da Luz


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A Uma Ausência - Barbosa Bacelar


Foto: Deserto

Sinto-me sem sentir, todo abrasado
no rigoroso fogo que me alenta;
o mal, que me consome, me sustenta;
o bem, que me entretém, me dá cuidado;

ando sem me mover, falo calado;
o que mais perto vejo se me ausenta
e o que estou sem ver mais me atormenta;
alegro-me de ver-me atormentado;

choro no mesmo ponto em que me rio;
no mor risco me anima a confiança;
do que menos se espera estou mais certo;

mas se, de confiado, desconfio,
é porque, entre os receios da mudança,
ando perdido em mim como em deserto.

António BARBOSA BACELAR nasceu em Lisboa em 1610 e faleceu na mesma cidade a 15 de Fevereiro de 1663. Formado em Direito Civil pela universidade de Coimbra, abandonou o magistério para se dedicar à magistratura. Historiador e poeta bilingue, a sua poesia é de carácter amoroso e jocoso e encontra-se espalhada pela «Fénix Renascida» e «Postilhão de Apolo».

Soneto e Nota biobliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria É a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

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Citação do Dia / Quotation of the day - Jeremy Bentham

Não importa se os animais são incapazes ou não de pensar. O que importa é que são capazes de sofrer.

(Animals) The question is not, Can they reason? nor, Can they talk? but Can they suffer

Jeremy Bentham (b. 15 February 1748, London, England; d. 6 June 1832, London)

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2012-02-14

É tarde! - Augusto Emílio Zaluar

É forçoso... não posso por mais tempo
Conter a acerba dor que me lacera;
Tem limites o humano sofrimento,
Que há-de ao coração dizer - espera?

Esperar! Quando sinto a cada instante
As minhas ilusões desvanecer-se;
E de meu peito ao arquejante abalo
Pouco a pouco a existência desprender-se!

Esperar! Quando vejo que a fortuna
Que sonhava tão alto em meu transporte
Se converte em promessa enganadora,
Pois onde cria a vida, encontro a morte!

Esperar! Tu não sabes o que pedes;
Não pesaste o valor dessa palavra!
É tarde! é muito tarde! Agora em chamas
O incêndio fugaz devora e lavra!

E tiveste a coragem reflectida,
De fria calcular os meus tormentos,
E rir do meu sofrer! rir de ti mesma!
E zombar dos mais santos pensamentos?!

Tão moça e tão descrente! Onde aprendeste
Essa lição fatal do desengano?
A dúvida que pousa junto ás campas,
Revelou-te no berço o negro arcano?

Oh! não, não acredito em teus receios:
O meu provado amor já não se ilude;
Tu pões a glória tua em ser-me infensa
Eu em ser-te fiel minha virtude?

Tu calculas, invocas mil pretextos,
Pensas, reflectes com sossego e calma;
Sujeitas à razão teus sentimentos;
Os meus são espontâneos da minh'alma.

És feliz! Foste tu quem o disseste:
Goza em paz essa máxima ventura;
Não irão perturbar os teus prazeres
Os queixumes da minha desventura!

Um dia, talvez digas, se a memória
Do meu amor na mente conservares;
"Extremos como os seus nunca mais tive!
Matou-o o meu desprezo e seus pesares!

Augusto Emílio Zaluar (n. Lisboa, 14 de fevereiro de 1826 – m. Rio de Janeiro, 3 de abril de 1882

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Pós-tudo - Augusto de Campos


extraído daqui

Augusto Luís Browne de Campos (n. São Paulo, 14 de fevereiro de 1931)

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2012-02-13

Última Hora: Sporting associa-se ao Governo...

O Governo anda a cortar nos feriados. Acaba de se saber que o Sporting não só aprova essa política como ainda foi mais longe: cortou nos Domingos. Com efeito, acabou-se a Paciência e Domingos já não é o treinador do Sporting! Agora vejam lá quem é que foi promovido: Sá Pinto... - expectativas altas para a melhoria da equipa de "full-contact"

Ler Comunicado à CMVM

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Só o fogo e o mar podem olhar-se - Eduardo Carranza

Só o fogo e o mar podem olhar-se
sem fim. Nem sequer o céu com suas nuvens.
Só o teu rosto, só o mar e o fogo.
As chamas, e as ondas, e os teus olhos.

...

Só o teu rosto interminavelmente.
Como o fogo e o mar. Como a morte.


Eduardo Carranza (n. Apiay, Villavicencio, Colombia, 23 Jul 1913 - m. Bogotá, Colombia, 13 de Fev. 1985)

Leia do mesmo autor: Elegia de Dezembro

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2012-02-12

Distribuição do Tempo - Julio Cortázar

Cada vez são mais os que crêem menos
Nas coisas que preenchem as nossas vidas,
Os mais altos, os incontestáveis valores de Platão e Goethe,
O verbo, a pomba sobre a arca da História,
A sobrevivência da obra, a descendência e as heranças.

Nem por isso caem do céu do neófito
Na ciência que expõe máquinas na lua;
Na verdade, tanto faz que o doutor Barnard
Faça transplantes do coração
Era preferível mil vezes que a felicidade de cada um
Fosse o exacto, o necessário reflexo da vida
Até que o coração insubstituível pudesse dizer simplesmente basta.

Cada vez mais são os que crêem menos
Na utilização do humanismo
Para o nirvana estereofónico
De mandarins e estetas.

Sem que isto queira significar
Que quando houver um instante de inspiração
Não sei leia Rilke, Verlaine ou Platão,
Ou se escute os nítidos clarins,
Ou se vislumbre os trémulos anjos
De Angélico.

Trad. Jorge Henrique Bastos, in Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim

Julio Cortázar [Jules Florencio Cortázar] n. na Embaixada Argentina em Bruxelas a 26 Ago. 1914; m. 12 Fev. 1984 em Paris, França.

Ler do mesmo autor: El Breve Amor; Happy New Year

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2012-02-11

Mirror / Espelho - Sylvia Plath



I am silver and exact. I have no preconceptions.
Whatever I see I swallow immediately
Just as it is, unmisted by love or dislike.
I am not cruel, just truthful -
The eye of a little god, four cournered.
Most of the time I meditate on the opposite wall.
It is pink, with speckles. I have looked at it so long
I think it is a part of my heart. But it flickers.
Faces and darkness separate us over and over.

Now I am a lake. A woman bends over me,
Searching my reaches for what she really is.
Then she turns to those liars, the candles or the moon.
I see her back, and reflect it faithfully.
She rewards me with tears and an agitation of hands
I am important to her. She comes and goes.
Each morning it is her face that replaces the darkness.
In me she has drowned a young girl, and in me an old woman
Rises toward her day after day, like a terrible fish.

Espelho

Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.
Tudo o que vejo engulo imediatamente
Do jeito que for, desembaçado de amor ou aversão.
Não sou cruel, apenas verdadeiro -
O olho de um pequeno deus, de quatro cantos.
Na maior parte do tempo medito sobre a parede em frente.
Ela é rosa, pontilhada. Já olhei para ela tanto tempo,
Eu acho que ela é parte do meu coração. Mas ela oscila.
Rostos e escuridão nos separam toda hora.

Agora sou um lago. Uma mulher se dobra sobre mim,
Buscando na minha superfície o que ela realmente é.
Então ela se vira para aquelas mentirosas, as velas ou a lua.
Vejo suas costas, e as reflito fielmente.
Ela me recompensa com lágrimas e um agitar das mãos.
Sou importante para ela. Ela vem e vai.
A cada manhã é o seu rosto que substitui a escuridão.
Em mim ela afogou uma menina, e em mim uma velha
Se ergue em direção a ela dia após dia, como um peixe terrível.

trad. André Cardoso
(in 34 LETRAS, issue 5/6, Ed. 34 Literatura and Nova Fronteira, Brazil, 1989)


Sylvia Plath (n. Boston, Massachusetts, 27 Out. 1932; m. Londres 11 Fev. 1963 -suicídio-)

Ler também:
Lorelei
Mad Girl's Love Song
Canção de amor da jovem louca

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Porque será que, afinal, a realidade se repete em outros tempos, em outros espaços...

Levantem as mãos
bandidos não assumidos
não toquem no dinheiro público!
Pode não ser hoje
porém amanhã hão de pagar
com lágrimas de sangue
o que da Nação criminosamente levaram
gastando mais do que deviam
ou gastando o que nem gastar podiam.

Cléo Bernardo de Macambira Braga nasceu em Santarém, em 11 de fevereiro de 1918, e faleceu em Belém em 7 de setembro de 1984. Advogado, jornalista, poeta e cronista. Fundador do Partido Socialista no Pará, elegeu-se deputado estadual em diversas legislaturas. Voluntário da Força Expedicionária Brasileira nos campos da Itália na II Guerra Mundial, fundou a Associação dos Ex-Combatentes em Belém. Lecionou Direito Administrativo na Universidade Federal do Pará e, no Colégio Moderno, História e Economia. Teve seu mandato de deputado cassado pelo regime militar instalado no País em 1964, que lhe suspendeu também os direitos políticos. Cléo Bernardo morreu sem ver o Brasil retornar à normalidade democrática. Suas crônicas, que abarrotam os jornais de Belém, principalmente O Liberal, são expressão de um caráter sincero, honesto e verdadeiro, que mantêm uma atualidade impressionante. Parte delas foram reunidas em 1991 no tomo A pé com a Liberdade, editado pela Grafisa. São como pérolas fulgurantes, que devem ser (re)lidas com a mesma devoção com que se (re)lê um salmo na Bíblia. Qualquer semelhança com a realidade de hoje não é mera coincidência

(extraído daqui)

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2012-02-10

AS ÁGUAS - Onésimo da Silveira


A chuva regressou pela boca da noite
Da sua grande caminhada
Qual virgem prostituída
Lançou-se desesperada
Nos braços famintos
Das árvores ressequidas!

(Nos braços famintos das árvores
Que eram os braços famintos dos homens...)

Derramou-se sobre as chagas da terra
E pingou das frestas
Do chapéu roto dos desalmados casebres das ilhas
E escorreu do dorso descarnado dos montes!

Desceu pela noite a serenar
A louca, a vagabunda, a pérfida estrela do céu
Até que ao olhar brando e calmo da manhã
Num aceno farto de promessas
Ressurgiu a terra sarada
Ressumando a fartura e a vida!
Nos braços das árvores...
Nos braços dos homens...

(Hora grande, 1962)
Onésimo da Silveira nasceu no Mindelo, Ilha de S. Vicente, Cabo Verde, a 10 de Fevereiro de 1935

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2012-02-09

Madonna das Flores Nocturnas - Amy Lowell

Trabalhei o dia inteiro.
Agora estou cansada.
Chamo: "Onde estás?"
Mas há apenas o sussurro dos robles ao vento.
A casa sossegada, o sol brilha nos teus livros.
Na tesoura e no dedal que acabas de pousar,
Mas não te vejo. Subitamente acho-me só:
Onde estás?
Procuro.
Encontro-te,
parada sob uma copa de azul pálido
com um cesto de rosas pelo braço.
Fresca, como prata,
Sorris.
Imagino os sinos de Cantuária tocando uma melodia.

Dizes-me que as pétalas precisam de ser borrifadas,
Que as colubrinas invadiram tudo,
Que a pyrus japónica devia ser podada.
Dizes-me tudo isto.
Mas olho-te, coração de prata,
Argêntea chama reluzente,
Ardendo sob as flores azuis da copa,
E há um desejo súbito de ajoelhar-me a teus pés,
Enquanto à nossa volta ressoam alto doces os Te Deums dos sinos de Cantuária

Tradução de Miguel Martins
in Os dias do Amor, um dia para cada dia do ano, recolha, selecção e organização de Inês Ramos; prefácio de Henrique Manuel Bento Fialho; Ministério dos Livros

Amy Lawrence Lowell, nasceu a 9 de Fevereiro de 1874 em Brookline, Massachusetts, USA; m. 12 Maio de 1925 (Pulitzer Prize for Poetry 1926).

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2012-02-08

Proença pôs o Sporting no Jamor: expulsão de jogador do Nacional e penalty a favor do Sporting...

O Sporting é finalista da Taça de Portugal após triunfo frente ao Nacional por 2-1 (após o 2-2 da 1ª. mão em Alvalade). A Académica já se qualificara ontem ao empatar em Santa Maria da Feira onde jogou e empatou com a Oliveirense a dois golos, após triunfo em casa por 1-0.

O triunfo do Sporting que se adiantou na primeira parte com um golo de Rinaudo(aos 17') teve, porém, o selo de Pedro Proença, suposto melhor árbitro de Portugal (se este é o melhor, como vai a arbitragem em Portugal?!...), que teve uma actuação ao nível das melhores que já demonstrou saber fazer (lembram-se do penalty inventado por suposta falta de Yebda no Dragão a 10 minutos do final, quando o Benfica ganhava por 1-0?).

Uma expulsão ridícula a Rondon aos 56' (há dias assim, também ainda na semana passada Artur Soares Dias expulsou de modo caricato um jogador do Marítimo na Luz) em lance em que nem falta houve, foi contrariada com o golo do empate do Nacional num golpe de cabeça de Diego Barcellos aos 63'.

Em inferioridade numérica os madeirenses empatavam o jogo resultado que lhes dava a final da Taça de Portugal, se se mantivesse até ao final. Mas Pedro Proença não quis e assinalou um penalty inexistente num lance entre Claudemir e Insua. Wolfswinkel marcou o 2-1. Já no último minuto dos descontos com o Nacional em desespero à procura do empate uma grande jogada individual de João Pereira desequilibrou mais o marcador.

Domingos no final até aparecia arrependido de criticar os árbitros admitindo que estes fazem tudo para não errar. É muito fácil, na verdade, falar dos erros dos árbitros quando eles nos favorecem.

Se considerarmos o que aconteceu na primeira mão com o Sporting a recuperar de dois golos de desvantagem com o jogo inclinado na segunda parte por outra má arbitragem... é caso para dizer que o Nacional é da Madeira mas o Sporting é de Portugal...

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Caminho Errado (fragmento) - Mário Pederneiras

Eu preferia ter nascido
Um pesado burguês redondo e manso,
Alimentado e rude;
Desses que vivem a vender saúde,
Cuja vida, incolor e sem sentido,
É um cômodo vale de descanso.

Dos que da farta messe dos acervos
Sentimentais, que lhes parecem fúteis,
E o gozo de viver tornam lerdo, enfadonho
Suprimem logo, por banais e inúteis,
O Sonho,
O Coração e os Nervos.

E assim vazios,
Só com o bem-estar e o asco
Dos outros bens, que o ouro lhes trouxe,
Vão por largos e plácidos desvios
Seguindo a vida, qual se a Vida fosse
A secular Estrada de Damasco.

Sem perceber, nem distinguir aspectos
De Luz, de Cor, que só parecem turvos
A seus olhos parados;
Que vivem como bem-aventurados
E que se são internamente curvos,
Nunca deixam de ser externamente retos.

Felizes os que assim nasceram
E que da Vida a perigosa aléia
Percorrem toda sem um desaponto ...

Viver assim... Sem Deus e sem Idéia,
Ou ter um Deus que receberam pronto
Idéias que os outros conceberam.

A esses não estorva o passo,
A almejada ração de uma alegria...
Não distinguem a Cor do Sol e do Mormaço.
E o Dia... é sempre o mesmo Dia.

Mário Veloso Paranhos Pederneiras (nasceu no Rio de Janeiro a 2 de Novembro de 1867 — morreu no Rio de Janeiro a 8 de Fevereiro de 1915).

Ler do mesmo autor:
Desolação
Eterna; Meu Casal; Trecho Final

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2012-02-07

O Sonho - Na passagem do 60º aniversário da morte do poeta setubalense Sebastião da Gama

Pelo sonho é que vamos,
Comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não frutos,
Pelo Sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
Que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
Com a mesma alegria, ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

-Partimos. Vamos. Somos.

Sebastião Artur Cardoso da Gama (n. em Vila Nogueira de Azeitão, Setúbal, a 10 de Abril de 1924; m. em Lisboa a 7 de Fevereiro de 1952

Do mesmo autor ler os belíssimos poemas:
Crepuscular
Nasci para ser ignorante
Pequeno Poema
O Sonho
Madrigal
Poema da Minha Esperança
Meu País Desgraçado
Largo do Espírito Santo, 2 - 2º
Anunciação
Poesia Depois da Chuva

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2012-02-06

Jardins - Carlos Vogt

Em frente à minha casa tem um pequeno jardim de rosas;
é o jardim da casa, mas antes o jardim de meu velho pai,
e sendo dele, porque ele o fez com zelo,
tem em cada flor a nostalgia de suas mãos de pai e de artesão.
No que me cabe é meu, por ser da casa,
que por ser minha na circunstância casual da posse e da ansiedade,
me deixa estar ali sentado nessa varanda de luz, ocaso e generosidade
a ruminarmos juntos e desdentados
velho um, outro criança
a lembrança neutra de vegetais no vaso.

Carlos Vogt nasceu em Sales Oliveira (SP) no dia 6 de fevereiro de 1943.

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2012-02-05

Taça da Liga: Benfica vence o Marítimo com Nélson Oliveira e Rodrigo (2) a fazerem os golos


Benfica logoMarítimo logo Benfica

3 - 0

Marítimo



... e a Primavera começa com um Benfica-Porto nas meias-finais da Taça da Liga


O Porto acabara de vencer o Vitória de Setúbal por 2-0 com golos dos reforços de Janeiro Lucho e Jamko quando as equipas entraram perante cerca de 19.600 espectadores para decidir o par dos portistas nas meias-finais da Taça da Liga que já vivera no escalonamento da outra meia-final uma grande surpresa com os «galos» do Gil Vicente a "bicarem" de modo mortal os "leões" em Alvalade e, assim, qualificarem-se para decidir com o Braga (vencedor do Portimonense com um golo de Hugo Viana em remate ainda do meio-campo defensivo!).

Sem Luisão e Emerson impedidos e, por isso, substituídos por Jardel e Capdevilla, Jesus mudou ainda vários outros jogadores com uma dupla inédita na frente: Nélson Oliveira e Saviola, e sem Witsel no meio-campo jogando Javi-Aimar-Nolito e Gaitán.

No Marítimo, equipa surpresa da época, o destaque era para a ausência de Bábá transferido para Sevilha durante a abertura do mercado de Janeiro pelo que a dependência da velocidade de Sami se perspectivava maior. Pois bem, a primeira oportunidade foi para o veloz extremo madeirense que aproveitou o avanço da equipa da Luz na marcação de um pontapé de canto, para fugir pela esquerda, evitar a entrada de Maxi e ainda com um colega para endossar a bola num dois contra o desamparado guarda.redes Eduardo se deslumbrar permitindo o sucesso da saída do hoje titular guarda-redes internacional português.

O início do jogo foi extraordinário com a equipa do Benfica a empurrar o Marítimo pasra zonas mais defensivas e as oportunidades a sucederem-se. Nélson Oliveira embala na direita e cruza para no segundo poste Nolito desperdiçar perante a defesa de Salin. Pouco depois é Saviola que remate para defesa incompleta do guarda-redes da equipa insular, desperdiçando o avançado argentino a recarga ao rematar mal ao lado.  Aos 13' redimiu-se quando numa transição ofensiva rápida fez a abertura para Nélson Oliveira que partindo em velocidade, deu para olhar para o assistente aferindo da sua posição regular e rematar de pé direito cruzado inaugurando o marcador. Três minutos depois é uma tabelinha Nolito-Aimar concluída pelo espanhol com um remate que fez brilhar Salin em defesa para canto.

 O jogo continuou fluido, bem disputado mas a partir dos vinte minutos a equipa do Funchal subiu mais no terreno e passou a discutir o tempo de posse de bola.

Aos 35' Maxi Pereira tira o pão da boca a Samir evitando jogada de perigo dos insulares. A capacidade defensiva do meio-campo encarnado é menor e a equipa do Marítimo consegue repartir o jogo.

O jogo tem pouco depois do recomeço (2' da segunda parte)  uma jogada semelhante ao golo encarnado mas desta vez Nélson Oliveira, de novo solicitado por Saviola, atirou a rasar o poste.
Aos 53' começou o desnorte do árbitro Artur Soares Dias. Jogada no meio-campo Javi Garcia ganha o Benfica parte com, perigo para o ataque e o árbitro interrompe o jogo para mostrar cartão amarelo a Rafael Miranda, que tivera entrada em falta sobre o médio benfiquista.

Pedro Martins achava que era hora de dar mais ideias ofensivas ao meio-campo da sua equipa e tirou João Luíz para entrar Benachour. Porém, o jogo ficou estragado com mais uma má decisão do árbitro. Em lance aéreo Pouga salta com Javi e o árbitro considerou que houve agressão no toque involuntário do braço no pescoço do jogador encarnado. Teria  mais que bastado o cartão amarelo.
A partir daqui o espectáculo sofreu um revés. O Marítimo deixou de mostrar capacidade e o Benfica, também, em algumas ocasiões, perdeu concentração com as facilidades.
Com a entrada de Ronaldo (para o lugar de Saviola) e após uma perdida escandalosa de Sami de baliza aberta ao segundo poste depois da tal desconcentração encarnada ter contagiado Eduardo que pôs a bola nos pés de um madeirense.

Este lance fez acordar a equipa local  que nos dez minutos seguintes criou várias oportunidades. Aos 73' em jogada de Nélson Oliveira pela direita deu para Gaitán que colocou no centro para Rodrigo de trás aparecer a fazer o 2-0. Aos 77' foi o extremo argentino a falhar a finalização e o golo, mas pouco depois desmarca Ronaldo que ganhou, com felicidade, o duelo com o guarda-redes Salim que saíra, com um ressalto que pôs a bola e a baliza à disposição fazendo o 3-0.

Djaló estreou-se aos 82' e ainda teve oportunidade para visar a baliza mas o remate foi fraco.

Nolito com Cardozo (que entrara  aos 85' substituindo Nélson Oliveira - excelente exibição) ao lado foi egoísta e desperdiçou o 4-0 e a hipótese de o avançado paraguaio ultrapassar um record que vem do tempo de Eusébio - marcar em mais de 8 jogos consecutivos.

Bom jogo durante a primeira parte e uma segunda parte desequilibrada por uma decisão errada deste árbitro que teima em ser protagonista ao não fazer devidamente o enquadramento dos lances.

Jogo para a Taça da Liga
Estádio da Luz
Assistência: 19.594
Árbitro: Artur Soares Dias (AF Porto)

BENFICA: Eduardo, Garay, Jardel, Maxi Pereira, Capdevila, Nolito, Gaitán (Djaló 82'), Aimar, Javi García, Nélson Oliveira (Cardozo 85'), Saviola (Rodrigo 67')
MARÍTIMO: Salin, Roberge, João Guilherme, Briguel, Rafael Miranda (Heldon, 73), Roberto de Sousa, João Luíz (Benachour 58'), Luís Olim, Danilo Dias, Sami (Igor Rossi, 85), Pouga
Golos: 1-0 Nélson Oliveira 13', 2-0 Rodrigo 73'; 3-0 Rodrigo 80'
Disciplina:
53' Cartão Amarelo para Rafael Miranda (Marítimo).
59' Cartão Vermelho para Pouga (Marítimo). O árbitro considerou (mal) que num lance de disputa aérea o avançado do Maritimo agredira Javi Garcia
88' Cartão Amarelo para Maxi Pereira (Benfica).

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J. L. Runeberg

Who has given the wind wisdom,
Lent the air a tongue so lightsome,
Ready speech to the yard's rowan,
And the small birds' tender bevy?

(from 'All Seemed to Be Speaking, Speaking', translated by C.E. Tallqvist - 'Tala, tala tycktes alla' in Ett litet öde, 1845)

Johan Ludvig Runeberg (5 February 1804, Jakobstad, Kingdom of Sweden– 6 May 1877, Porvoo, Grand Duchy of Finland, Russian Empire

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2012-02-04

NÃO TE AMO - Almeida Garrett



Não te amo, quero-te: o amar vem d'alma.
E eu n'alma - tenho a calma,
A calma - do jazigo.
Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida - nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai! não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.

Extraído de Poemas Portugueses, Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (n. no Porto a 4 de Fev. 1799; m. em Lisboa 9 Dez. 1854)

Ler do mesmo autor:
A Rosa - Um Suspiro
Os Meus Desejos
Seus Olhos
Este Inferno de Amar
Rosa sem Espinhos
Seus Olhos
Destino
Não És Tu

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2012-02-03

CONSOLAÇÃO - João Penha

A um poeta lírico

Não sucumbas assim. À noite escura
Sucede a luz da aurora e o sol radioso:
Suspende as mágoas do violão choroso,
O lamento dos tristes sem ventura.

Limpa as fezes do cálix da amargura,
E, com vinho dum pâmpano gostoso,
Ergue um brinde ao amante venturoso
Da mulher que adoravas com loucura.

Nem outra vez me digas que na munda,
Ou na voragem das perdidas gentes,
Não há sofrer maior, nem mais profundo.

A terra é o grande val dos descontentes!
Oh! se tu visses num festim jucundo
A mágoa dum gastrónomo... sem dentes!


João de Oliveira Penha Fortuna, nascido a 29 de abril de 1838, em Braga e aí faleceu 3 de fevereiro de 1919

Do mesmo autor neste blog ler Última Vontade

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2012-02-02

Paz - Tomaz Kim

Aqui foi a casa:
Alva a toalha e o pão,
O berço além.

Breve a canção:
Bater de asa
O sorriso de mãe.

Veloz a hora:
Agora,
Só o coaxar nocturno e certo
Das rãs,
Enche o campo deserto.

(Flora e Fauna, 1958)


Tomaz Kim, mais propriamente Joaquim Fernandes Tomaz Monteiro-Grillo, nasceu a 2 de fevereiro de 1915, em Lobito, Angola e faleceu a 24 de janeiro de 1967, em Lisboa.

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Ordem do Dia - Bandeira Tribuzi

Há que remover a neve desta folha de papel!

Breve escutaremos o motor dos sentimentos
enchendo a manhã com sua algazarra. Eis a máquina se
movimentando! Da esquerda para a direita vão surgindo
os sulcos onde caem as sementes
da Emoção.

Na vasta planície
desvirginada
germina já o pólen da lírica.

Um vento de humana condição
(oh arte, coisa social!) faz voar até tuas mãos
esta lavoura mental.
Como bom descendente de um povo de camponeses
medes o rigor da semeadura,
sonhas as chuvas na raiz, o futuro pão...
Pão sonoro!

De repente,
as aves da poesia, que se alimentavam no campo semeado,
rompem vôo para o céu de tua inteligência
e desfecham seu canto maravilhoso
contra tua surpresa.

Teu coração é a corda do violino!
Eis a geração do poema:
sua mecânica, seu plantio,
sua colheita.
Estás diante de uma safra eterna!


(Safra / 1960)

Bandeira Tribuzi, nome literário de José Tribuzi Pinheiro Gomes, nasceu em São Luís, Maranhão a 2 de fevereiro de 1927, e faleceu na mesma cidade, a 8 de setembro de 1977.

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2012-02-01

Serias o amor português - Fernando Assis Pacheco

Variações sobre um fado
Muitas vezes te esperei, perdi a conta,
longas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos. Que me importa
que batam à porta, façam chegar
jornais, ou cartas, de amizade um pouco
- tanto pó sobre os móveis tua ausência.

Se não és tu, que me pode importar?
Alguém bate, insiste através da madeira,
que me importa que batam à porta,
a solidão é uma espinha
insidiosamente alojada na garganta.
Um pássaro morto no jardim com neve.

Nada me importa; mas tu enfim me importas.
Importa, por exemplo, no sedoso
cabelo poisar estes lábios aflitos.
Por exemplo: destruir o silêncio.
Abrir certas eclusas, chover em certos campos.
Importa saber da importância
que há na simplicidade final do amor.

Comunicar esse amor. Fertilizá-lo.
"Que me importa que batam à porta..."
Sair de trás da própria porta, buscar
no amor a reconciliação com o mundo.

Longas manhãs te esperei, perdi a conta.
Ainda bem que esperei longas manhãs
e lhes perdi a conta, pois é como se
no dia em que eu abrir a porta
do teu amor tudo seja novo,
um homem uma mulher juntos pelas formosas
inexplicáveis circunstâncias da vida.

Que me importa, agora que me importas,
que batam, se não és tu, à porta?

in Poemas de Amor, antologia da poesia portuguesa, organização de Inês Pedrosa, Publicações Dom Quixote

Fernando Santiago Mendes de Assis Pacheco (n. Coimbra, 1 de Fevereiro de 1937; m. em Lisboa a 30 de Novembro de 1995)

Do mesmo autor neste blog:
Esta Areia Fina
Sem que tu soubesses

Um Vento Leve Uma Espuma
O Dia em Que Nasci

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Musical suggestion of the day: Carta a Angela - Luís Cília




Carta a Ângela

Para ti, meu amor, é cada sonho
de todas as palavras que escrever,
cada imagem de luz e de futuro,
cada dia dos dias que viver.

Os abismos das coisas, quem os nega,
se em nós abertos inda em nós persistem?
Quantas vezes os versos que te dou
na água dos teus olhos é que existem!

Quantas vezes chorando te alcancei
e em lágrimas de sombra nos perdemos!
As mesmas que contigo regressei
ao ritmo da vida que escolhemos!

Mais humana da terra dos caminhos
e mais certa, dos erros cometidos,
foste de novo, e sempre, a mão da esperança
nos meus versos errantes e perdidos.

Transpondo os versos vieste à minha vida
e um rio abriu-se onde era areia e dor.
Porque chegaste à hora prometida
aqui te deixo tudo, meu amor!

Carlos de Oliveira (1921-1981), in "Poesias"

Luís Fernando Castelo Branco Cília, nasceu em Huambo, Angola, a 1 de Fevereiro de 1943.

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