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2016-05-17

CHAFARIZ - José Emílio-Nelson


Peixinhos da cinta aos pés
Num chafariz até ao umbigo.
E vermelhinhos
Nadam na sua doçura para o aquário cristalino. E tanto faz
Se depois são enxugados com pano cardinalício
Ou cinza de incensário.

José Emílio de Oliveira Marmelo e Silva, que usa o pseudónimo de José Emílio-Nélson, nasceu em Espinho, em 17 de maio de 1948

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2014-05-17

NO HORTO - José Emílio-Nelson


Não há morte que não dedilhe
nesta pedra
de seco arbusto
de nós.
Lassidão, temor, rosas pregadas.
(E eu disse entretanto:)
Rosas esmaecidas
diante das lágrimas do Filho e
desde sempre a sofrer.

in Mosaico

José Emílio de Oliveira Marmelo e Silva, que usa o pseudónimo de José Emílio-Nélson, nasceu em Espinho, em 17 de maio de 1948

Ler do mesmo autor, neste blog:
Canção Punitiva
Mahler
Arte Poética


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2013-05-17

ARTE POÉTICA - José Emílio-Nelson

Demão depois da lixa, zarcão e betume na madeira, a sonoridade
da tinta nas passagens em que deixei que os crisântemos que
se interpunham fossem mais do verso que os espelhasse. Li até
escurecer os olhos. Abandonado, vale dizer.
Para uns, ainda, a poesia não dispensa
que o autor nas horas certas contemple as flores de papel. Era
assim pacientemente a florescência de um verso crescia no
canteiro. Eu, no toucador, agora debruçado escrevo
vírgulas que, de algum modo, dificultam pelo esforço da repetição
o andar da tarde. E o entardecer deixa que, na dobra das
nuvens, toque o canto rouco que escreve sem balbucios a única
página celeste folheada.


(in Mosaico)

José Emílio de Oliveira Marmelo e Silva, que usa o pseudónimo de José Emílio-Nélson, nasceu em Espinho, em 17 de Maio de 1948

Ler do mesmo autor, neste blog:
Canção Punitiva
Mahler

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2012-05-17

CANÇÃO PUNITIVA - José Emílio-Nelson


Atarda-me o olhar naquela escarpa
(Distância intranquila de sombra
Ou penas de pássaros acamadas?)
Pena de mim mesmo enquanto lembro
No pálido ar, homem obscuro,
A sua imagem, inacessível.
Desconheço o azul de mulher tão lívida.
O coração é uma pequenina pedra rosa.
As minhas lágrimas são de metal.
 

(in Polifemo e Outros Poemas)

José Emílio de Oliveira Marmelo e Silva, que usa o pseudónimo de José Emílio-Nélson, nasceu em Espinho, em 17 de Maio de 1948.

Ler do mesmo autor, neste blog: Mahler

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2011-05-17

MAHLER - José Emílio-Nelson

(A Canção de Deus e Morte)


No jardim das almas
A fala caída.
Como se fosse a canção de
Deus e Morte.
A canção do cadáver
Sombrosa e rente.
Uivo. Brechas.
Ululante.
Compassadamente
O coração solto
Rasgado contra o céu maciço.
E de abismo ou de crateras
Um ardil. Incessante
Profundidade e permanência interminável
Na terra ímpia.
O relâmpago rasteja Deus.
Abre-se a solidão
Nos ombros do Inferno.

Quem vislumbra pérfido
No alçapão da sombra?
E o ricochete da luz?
Que castigo inexpiável?
Haverá uma música da fatalidade?
E quem lhe deve obedecer?
Sou miserável e perturbante.
Dou-me à paisagem destituída.
À árvore devastadora. À borboleta esmagada.
(O restolho enovelando.
Um bestiário precipitando-se.
Sacudindo-me.
Que aurora imprevista
Impulsivamente no mundo?)
Cantava a impaciência
Melancólica.
A dor radiante.

A vastidão.

(in A Palidez do Pensamento, 1990)

Extraído de Poemas Portuguesas Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI

José Emílio-Nélson nasceu em Espinho em 17 de Maio de 1948

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