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2017-02-14

SONHO HUMILDE - Alceu Wamosi


Assim te quero amar; quero adorar-te assim,
sempre de joelhos, sempre, ó mármore sagrado;
e que teu corpo ideal não seja, para mim,
mais que um horto de sonho, ou que um jardim fechado.

Em todo amor defeso há um encanto sem fim,
que o faz extreme e leal, lúcido e iluminado:
A mulher que se adora é a Torre de Marfim,
mais alta do que o mal, para além do pecado.

O amor deve viver perpetuado no sonho!
Só desejar é bom: Possuir é renunciar
à ilusão, que nos torna o desejo risonho.

Ter só teu corpo é ter um tesouro maldito;
mas, possuir-te na alma e adorar-te no olhar,
é ter o céu inteiro, é ter todo o infinito!

Alceu de Freitas Wamosy naceu em Uruguaiana, Rio Grande do Sul (RS) a 14 de fevereiro de 1895 e faleceu em Livramento (RS) a 13 de setembro de 1923

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2011-02-14

O Grande Sonho - Alceu Wamosy


... e eu sonho que hás de vir. Sonho que um dia
mais ardente e mais bela do que eras,
virás encher de graça e de harmonia
meu jardim de tristíssimas quimeras.

Sonho que hás de trazer toda a alegria,
todo o encanto das tuas primaveras,
ou que em um reino antigo de poesia,
o meu amor, entre rosais, esperas.

E fico na ilusão de que tu vieste
E nesse sonho de ouro mergulhado,
o teu vulto alvoral surgindo vejo
sobre as próprias feridas que fizeste...

E fico na ilusão de que tu vieste
o bálsamo estendendo do teu beijo,
sobre as próprias feridas que fizeste...

Alceu de Freitas Wamosy naceu em Uruguaiana, Rio Grande do Sul (RS) a 14 de Fevereiro de 1895 e faleceu em Livramento (RS) a 13 de Setembro de 1923
Ler do mesmo autor, neste blog:
Duendes
Duas Almas
Noturno
Ária Antiga
Melancolia
Eterna Tarde

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2010-09-13

DUENDES - Alceu Wamosy

Nas mudas solidões da alma da gente,
Pela noite sem termo, andam vagando
Dolorosos espectros tristemente,
Em soluçante e doloroso bando...

Uns têm o aspecto cândido, inocente,
E os olhos cheios de lágrimas, chorando.
Outros, da rebeldia impenitente,
Vão, na fúria danada, estertorando.

É toda a dor amarga que nos prosta,
Que, num cortejo fúnebre, se mostra,
- Duendes vagando na alma - sem rebouços...

São as acerbas mágoas, os gemidos
Profundos, revoltados, doloridos,
E as blasfêmeas, e as pragas, e os soluços...

Alceu de Freitas Wamosy naceu em Uruguaiana, Rio Grande do Sul (RS) a 14 de Fevereiro de 1895 e faleceu em Livramento (RS) a 13 de Setembro de 1923

Ler do mesmo autor, neste blog:
Duas Almas
Noturno
Ária Antiga
Melancolia
Eterna Tarde

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2010-02-14

Duas Almas - Alceu Wamosy

Ó tu, que vens de longe, ó tu, que vens cansada,
entra e, sob este tecto, encontrarás carinho;
eu nunca fui amado e vivo tão sozinho,
vives sozinha sempre e nunca foste amada…

A neve anda a branquear, lividamente, a estrada…
e a minha alcova tem a tepidez de um ninho.
Entra, ao menos, até que as curvas do caminho
se banhem no esplendor nascente da alvorada.

E amanhã, quando a luz do sol dourar, radiosa,
essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,
podes partir de novo, ó nómada formosa!

Já não serei tão só, nem irás tão sozinha:
há-de ficar comigo uma saudade tua...
hás-de levar contigo uma saudade minha...

Alceu de Freitas Wamosy naceu em Uruguaiana, Rio Grande do Sul (RS) a 14 de Fevereiro de 1895 e faleceu em Livramento (RS) a 13 de Setembro de 1923. Afilhado por procuração de Guerra Junqueiro, foi o padrinho quem lhe escolheu o nome de um poeta grego. Dedicou-se à boémia, ao jornalismo e à política. Durante a revolução de 1923, foi gravemente baleado e, acolhido no hospital de sangue, veio a morrer poucos dias depois, assistido pela mãe e pela noiva, com quem casou «in extremis». Foi um dos últimos simbolistas e a sua poesia, melancólica, outonal e crepuscular, de grande poder sugestivo e de muita musicalidade, que trai a influência de Verlaine, Verhaeren, Rodenbach, Samain, Laforgue, Régnier e até de Chopin ou Debussy, contrasta vivamente com a personalidade revolucionária do autor, caído no campo de batalha.

Soneto e nota biobibliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

Ler do mesmo autor, neste blog:
Noturno
Ária Antiga
Melancolia
Eterna Tarde

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2009-02-14

Melancolia - Alceu Wamosy

Mon âme est malade aujourd'hui
Mon âme est malade de absences...
Murice Maeterlinck


Uma tarde tão triste; um céu de tanta bruma;
nem um adeus de sol pela planura rasa;
nem um rumor de canto, a alegria de uma asa,
tudo se esbate em sombra e em tristeza se esfuma.

E essa ausente não vem, para alumiar-me a casa
com o seu riso leal, que o meu ermo perfuma,
e aquelas suaves mãos - carne feita de pluma -
que atenuam a febre que meu corpo abrasa...

Como eu me sinto só, dentro do fim do dia!
Todo o meu coração é uma alcova sombria.
Tenho à boca o amargor de uma taça de fel.

E este abandono... Esta incertez que me aflige...
Ó Georges Rodembach! Ó meu Cisnes de Bruges!
Ó "Crepuscule Pluvieux" de Ephraim Mikhael!


Alceu de Freitas Wamosy (n. em Uruguaiana, Rio Grande do Sul (RS) a 14 de Fevereiro de 1895 — m. em Santana do Livramento (RS) a 13 de Set. de 1923)

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Noturno
Ária Antiga
Duas Almas

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2008-09-13

Eterna Tarde - Alceu Wamosy


Foto: Praça do pôr do sol - Agnaldo Ribeiro daqui

A tarde vai morrer, calma como uma santa,
num êxtase de luz infinito e divino.
Há nas luzes do céu qualquer coisa que canta,
com músicas de cor, a tristeza de um hino.

Tudo, em torno de nós, se esbate e se quebranta.
Em nossos corações, como um dobre de sino,
e esperança agoniza; e a alma, triste, levanta
suas trêmulas mãos para o altar do destino.

Não é somente a tarde, a eterna moribunda,
que vai morrer, e espalha esta mágoa profunda
no nosso olhar, nas nossas mãos, na nossa voz...

É uma outra tarde — que nunca há de ser aurora
como a do céu será amanhã — que morre agora,
triste, dentro de nós...

Alceu de Freitas Wamosy (n. em Uruguaiana, Rio Grande do Sul (RS) a 14 de Fevereiro de 1895 — m. em Santana do Livramento (RS) a 13 de Set. de 1923)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Noturno
Ária Antiga
Duas Almas

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2008-02-14

Noturno - Alceu Wamosy


Tu pensarás em mim, por esta noite imensa
e erma, em que tudo é um frio e um silêncio profundo?
Tu pensarás em mim? Por esta noite, enfermo,
tendo os olhos em febre e a voz cheia de sustos,
eu penso em ti, no teu amor e na promessa
muda que o teu olhar me fez e que eu espero.

(Que dor de não saber se tu pensas em mim!)

Sob a tenda da noite estrelada de outono,
que eu contemplo através os cristais da janela,
junto ao manso tepor da lâmpada que escuta
— antiga confidente — os meus sonhos e as minhas
vigílias de tormento, eu penso em ti, divina.

(E tu talvez nem te recordes deste ausente!)

Penso em ti. Penso e evoco o teu vulto adorado.
Penso nas tuas mãos — um lis de cinco pétalas —
que, em vez de sangue, têm luar dentro das veias;
nos teus olhos, que são Noturnos de Chopin
agonizando à luz de uma tarde de sonho;
na tua voz, que lembra um beijo que se esfolha.
Penso.

(E nem sei se tu também pensas em mim!)

Talvez não. No tranquilo altar da tua alcova,
onde se extingue a luz de um velho candelabro
como uma lâmpada votiva, tu adormeces
sorrindo ao Anjo fiel que as tuas pálpebras fecha
para que tu não tenhas sonhos maus.
E eu penso
em ti, sem sono, a sós, angustiado e febril,
em ti, que nem eu sei se te lembras de mim...

ALCEU WAMOSY (n. em Uruguaiana, Rio Grande do Sul (RS) a 14 Fev. 1895; m. em Livramento (RS), em 13 Set.1923).

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2007-09-13

Ária Antiga - Alceu Wamosy

Quietud en el Atardecer Oil On Canvas 24" x 29"
by Ramon Vilanova


Chora o orvalho da luz sobre a rosa do dia
que se fecha. O jardim todo lembra um altar
para o qual sobe o incenso azul da nostalgia,
e onde os lírios estão de joelhos, a rezar.

Tu cantas para mim. Tua voz, triste e mansa,
vem trazendo, a gemer, dos confins da lembrança,
qualquer coisa de velho, onde a vida se esfume.

Quando a voz adormece um fantasma desperta.
A tua boca é como uma rosa entreaberta
que a saudade acalante e o passado perfume.

E essa velha canção que o teu lábio cicia,
no momento em que a tarde adormece no olhar,
enche o meu coração de uma vaga harmonia,
de um desejo pueril de ser bom, e chorar

Alceu de Freitas Wamosy (n. em Uruguaiana (RS) a 14 de Fev 1895, m. em Livramento (RS) a 13 Set 1923)

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2005-09-13

Duas Almas - Alceu Wamosy

Ó tu, que vens de longe, ó tu, que vens cansada,
entra e, sob este tecto, encontrarás carinho;
eu nunca fui amado e vivo tão sozinho,
vives sozinha sempre e nunca foste amada…

A neve anda a branquear, lividamente, a estrada…
e a minha alcova tem a tepidez de um ninho.
Entra, ao menos, até que as curvas do caminho
se banhem no esplendor nascente da alvorada.

E amanhã, quando a luz do sol dourar, radiosa,
essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,
podes partir de novo, ó nómada formosa!

Já não serei tão só, nem irás tão sozinha:
há-de ficar comigo uma saudade tua...
hás-de levar contigo uma saudade minha...

Alceu Wamosy (n. em Uruguaiana, 14 Fev 1895; m. em Livramento 13 Set 1923)

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