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2014-02-22

É Provável que Ainda a Ame - Joaquim Pessoa

É provável, sim, é provável que ainda a ame, que ame nela o que antes soube amar, a cabeleira escura, o ventre inquietante, o peito guardando a alegria de um coração solar. Os meus olhos profundos sempre a contemplaram visivelmente perturbados, até mesmo perdidos, quando ela caminhava abrindo rasgões no ar que se fechavam depois à sua passagem para cingir-lhe os braços, os seios e as ancas. A sua boca tremeu na minha com a sede da música e o seu contacto era o do musgo e o da cinza, e dessas cerejas maduras pelo lume de maio. Não sei se estou a endeusá-la ou se ela é uma deusa. Não sei mesmo se conseguirei dizer dela quanto gostaria. Ela está tão perto do meu corpo que a minha pele se acende, e tão longe dos meus olhos que só poderei lembrá-la. Fizémos muito amor e sempre muitas vezes, sem que entre nós esvoaçasse uma minima sombra. Quando ficávamos tristes, é que o espanto crescia até ao minuto primeiro da tristeza. É uma mulher maravilhosa, o seu nome que importa?, tão frágil como um menino inocente, assim desamparada, correndo para a loucura como antes correu para os meus braços. Nenhuma paixão poderia doer-me mais. Nenhuma ternura poderia mimar-me tanto. O meu poema é uma casa erguida com a sua beleza, onde ela entra e de onde sai e algumas vezes se demora. Poderei dizer que o meu coração é uma sala vazia? A sua recordação ainda me perturba e disso tenho consciência. Amo-a ainda, ou não a amo já, é impossível dizer. Mas é provável, sim, é provável que ainda a ame.

in 'Ano Comum'

Joaquim Maria Pessoa (n. Barreiro, 22 de fevereiro de 1948)

Passo a Passo
Quero-te para além das coisas justas
Bastava-nos amar. E não bastava...
Se ao menos soubesses tudo o que eu não disse
A Ausência VIII

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2013-02-22

Passo a passo - Joaquim Pessoa


A par e passo, passo neste espaço
abrindo a largos golpes largos espaços
e passas, nos meus passos, passo a passo
repassas em abraços os meus braços.
A peso, peso os passos quando piso
os traços com que traço e já trespasso
o passeio nos lenços que desfaço
em lassos laços quando passas
como um punhal perdido em plena praça.

in O Pássaro no Espelho

Joaquim Maria Pessoa (Barreiro, 22 de fevereiro de 1948)
Quero-te para além das coisas justas
Bastava-nos amar. E não bastava...
Se ao menos soubesses tudo o que eu não disse
A Ausência VIII




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2012-02-22

Quero-te para além das coisas justas - Joaquim Pessoa

Quero-te para além das coisas justas
e dos dias cheios de grandeza.
A dor não tem significado quando ma roubam as árvores,
as ágatas, as águas.
O meu sol vem de dentro do teu corpo,
a tua voz respira a minha voz.
De quem são os ídolos, as culpas, as vírgulas
dos beijos? Discuto esta noite
apenas o pudor de preferir-te
entre as coisas vivas.

Joaquim Pessoa (n. no Barreiro a 22 Fev 1948 )


Ler do mesmo autor, neste blog:
Bastava-nos amar. E não bastava...
Se ao menos soubesses tudo o que eu não disse
A Ausência VIII

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2011-02-22

Bastava-nos amar. E não bastava - Joaquim Pessoa

Bastava-nos amar. E não bastava
o mar. E o corpo? O corpo que se enleia?
O vento como um barco: a navegar.
Pelo mar. Por um rio ou uma veia.

Bastava-nos ficar. E não bastava
o mar a querer doer em cada ideia.
Já não bastava olhar. Urgente: amar.
E ficar. E fazermos uma teia.

Respirar. Respirar. Até que o mar
pudesse ser amor em maré cheia.
E bastava. Bastava respirar

a tua pele molhada de sereia.
Bastava, sim, encher o peito de ar.
Fazer amor contigo sobre a areia.


in Português Suave

Joaquim Pessoa, nasceu no Barreiro a 22 de Fevereiro de 1948

Ler do mesmo autor, neste blog:
A Ausência VIII
Quero-te para além das coisas justas

Se ao menos soubesses tudo o que eu não disse

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2010-02-22

A Ausência VIII - Joaquim Pessoa


Tu ensinaste-me a fazer uma casa:
com as mãos e os beijos.
Eu morri em ti e em ti os meus versos procuraram
voz e abrigo.
E em ti guardei meu fogo e meu desejo.
Construí a minha casa.
Porém não sei já das tuas mãos. Os teus lábios perderam-se
entre palavras duras e precisas
que tornaram a tua boca fria
e a minha boca triste como um cemitério de beijos.

Mas recordo a sede unindo as nossas bocas
mordendo o fruto das manhãs proibidas
quando as nossas mãos surgiam por detrás de tudo
para saudar o vento.

E vejo ainda o teu corpo perfumando a erva
e os teus cabelos soltando revoadas de pássaros
que agora se recolhem, quando a noite se move,
nesta casa de versos onde guardo o teu nome.

in Cem Poemas Portuguesas do Adeus e da Saudade, selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria, Terramar

Joaquim Pessoa, nasceu no Barreiro a 22 de Fevereiro de 1948

Ler do mesmo autor, neste blog:
Quero-te para além das coisas justas
Se ao menos soubesses tudo o que eu não disse

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2009-02-22

Se ao menos soubesses tudo o que eu não disse - Joaquim Pessoa (no dia do 61º aniversário)

Despedida Despedida imagem daqui

Se ao menos soubesses tudo o que eu não disse
ou se ao menos me desses as mãos como quem beija
e não partisses, assim, empurrando o vento
com o coração aflito, sufocado de segredos;
se ao menos percebesses que eram nossos
todos os bancos de todos os jardins;
se ao menos guardasses nos teus gestos essa bandeira de lirismo
que ambos empunhamos na cidade clandestina
Quando as manhas cheiravam a óleo e a flores
e o inverno espreitava ainda nas esquinas como uma criança tremendo;
se ao menos tivesses levado as minhas mãos para tocar os teus dedos
para guardar o teu corpo;
se ao menos tivesses quebrado o riso frio dos espelhos
onde o teu rosto se esconde no meu rosto
e a minha boca lembra a tua despedida,
talvez que, hoje, meu amor, eu pudesse esquecer
essa cor perdida nos teus olhos.

Joaquim Pessoa (nasceu no Barreiro em 22 de Fevereiro de 1948)

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2008-02-22

Quero-te para além das coisas justas - Joaquim Pessoa

foto uploaded by vaesium in flickr

Quero-te para além das coisas justas
e dos dias cheios de grandeza.
A dor não tem significado quando ma roubam as árvores,
as ágatas, as águas.
O meu sol vem de dentro do teu corpo,
a tua voz respira a minha voz.
De quem são os ídolos, as culpas, as vírgulas
dos beijos? Discuto esta noite
apenas o pudor de preferir-te
entre as coisas vivas.

Joaquim Pessoa (n. no Barreiro a 22 Fev 1948; - )

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