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2009-10-12

São peças bem unidas desunidas - João Rui de Sousa

As peças do teu corpo bem ligadas
desligam-se para os gestos mais perfeitos:
são joelhos e coxas separadas,
é desalinho de ombros e de seios.

E os lábios também vão desordenados...
E os infindáveis braços sobrevoam-se...

E nesses movimentos sem regresso
em perdidas peças transviadas,
eu também me perco e sou um voo
muito além de tudo o que entrevejo
nesta ondulação onde balouço...

São peças bem unidas desunidas
pelo caudal das sedes debatidas
em lençóis de sumo rumoroso.



in Os dias do Amor, Um poema para cada dia do ano. Recolha, selecção e organização de Inês Ramos; prefácio de Henrique Manuel Bento Fialho, Ministério dos Livros.

João Rui de Sousa [n. em Lisboa, 12 de Outubro de 1928]

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2008-10-12

Este azul que me convida - João Rui de Sousa

Sou este azul que me convida.

E transcrevo a paz, o sol dos dias.

E també, parto. E também ardo.

Depois disso desse suposto eu abreviado,
tão transparente e nítido, mas
tão transitivo
apenas gestos rasos que são cardos,
apenas pedras fundas que sao sombras,
pequenos meteoritos que são conchas
de deuses antiquissimos e cansados.

in Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea, Um panorama, Organização de Alberto da Costa e Silva e Alexei Bueno, Lacerda Editores

João Rui de Sousa (n. em Lisboa a 12 de Outubro de 1928

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2007-10-12

Roteiro - João Rui de Sousa

Astrolábio árabe do sec. XIII daqui



Meu jeito visionário — meu astrolábio.
Meu ser mirabolante — um alcatruz.
De variadas coisas fiz a minha esperança
e sempre em várias coisas vi a minha cruz.

Aos padrões que em vários pontos encontrei
na rota íntima de vestes tropicais
eu dei as mãos, serenas e intactas,
as minhas dores mais certas e reais.

Nos vários sítios que — abismos —
toldaram minha voz por um olhar,
eu evitei o perigo e os prejuízos
à voz feita de calma, meu cantar.

Aos rasgos que, de outrora, evocados
foram sempre pelo seu valor,
eu dei a minha tez de dúvida e de espanto,
o meu silêncio amargo, o meu calor,

E aos pontos cardeais que em volta, vacilantes,
desalentavam já meu ser cativo,
parei o gesto, roubei o pólo sul da esperança
como lembrança para um dia altivo.

João Rui de Sousa (n. 12 Out. 1928; ~)

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