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2017-06-09

Vivam Apenas - José Gomes Ferreira


Vivam, apenas
Sejam bons como o sol.
Livres como o vento.
Naturais como as fontes.

Imitem as árvores dos caminhos
que dão flores e frutos
sem complicações.

Mas não queiram convencer os cardos
e transformar os espinhos
em rosas e canções.

E principalmente não pensem na morte.
Não sofram por causa dos cadáveres
que só são belos
quando se desenham na terra em flores.

Vivam, apenas.
A morte é para os mortos!

José Gomes Ferreira (n. no Porto a 9 de junho de 1900, m. em Lisboa, 8 de fevereiro de 1985)

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2017-02-08

XXVIII [Dia de Chuva na Cidade] - José Gomes Ferreira

(No Rossio os ardinas vendem em Separatas da «Seara
Nova» duas canções de Graça; a «Mãe Pobre» com versos
de Carlos Oliveira e a «Jornada» com versos meus.)


Dia de chuva na cidade
triste como não haver liberdade.

Dia infeliz
com varões de água
a fecharem o mundo numa prisão.
E alguém a meu lado com voz múrmura que diz:
"está a cair pão."

Ah! que vontade de gritar àquela criança seminua
sem pão nem sol de roupa:
"Eh! pequena! Deita-te na rua
e abre a boca..."

(Dia em que urdo
este sonho absurdo.)

José Gomes Ferreira (n. Porto, 9 de junho de 1900; m. Lisboa, 8 de fevereiro de 1985)

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2016-06-09

Se Eu Agora Inventasse o Mundo - José Gomes Ferreira



Se eu agora inventasse o mundo
criaria a luz da manhã já explicada
sem o luto que pesa
na sombra dos homens
- conspiração da noite
com as pedras.

Luz que o cheiro das ervas da madrugada
aproxima os mortos do silêncio
com esqueletos de asas
- conluio com o sol
para estarem mais presentes
no tacto da pele da manhã,
mil mãos a afogarem a paisagem,
bafo de flores donde cai
o enlace das sementes...

Abro a janela
O mundo cheira tão bem a trevos ausentes!

Bons dias, mortos. Bons dias, Pai.

in Elegia Fria com Lírios Inventados

José Gomes Ferreira(n. Porto, 9 de junho de 1900; m. Lisboa, 8 de fevereiro de 1985)

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2016-02-08

Entrei no café com um rio na algibeira - José Gomes Ferreira

Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação...

A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.

Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.

E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
-onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.

José Gomes Ferreira(n. Porto, 9 de junho de 1900; m. Lisboa, 8 de fevereiro de 1985)

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2015-07-09

Cala-te - José Gomes Ferreira

Cala-te, voz que duvida
e me adormece
a dizer-me que a vida
nunca vale o sonho que se esquece.

Cala-te, voz que assevera
e insinua
que a primavera
a pintar-se de lua
nos telhados,
só é bela
quando se inventa
de olhos fechados
nas noites de chuva e de tormenta.

Cala-te, sedução
desta voz que me diz
que as flores são imaginação
sem raiz.

Cala-te, voz maldita
que me grita
que o sol, a luz e o vento
são apenas o meu pensamento
enlouquecido….

(E sem a minha sombra
o chão tem lá sentido!)

Mas canta tu, voz desesperada
que me excede.
E ilumina o Nada
Com a minha sede.

José Gomes Ferreira (n. no Porto a 9 de junho de 1900, m. em Lisboa a 8 de fevereiro de 1985)

Ler do mesmo autor, neste blog:

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2015-06-09

Porque é que este sonho... . José Gomes Ferreira

Porque é que este sonho absurdo
a que chamam realidade
não me obedece como os outros
que trago na cabeça?

Eis a grande raiva!
Misturem-na com rosas
e chamem-lhe vida.


José Gomes Ferreira (n. no Porto a 9 de junho de 1900, m. em Lisboa a 8 de fevereiro de 1985)

Ler do mesmo autor, neste blog:

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2014-06-09

Álbum / XII - José Gomes Ferreira

Todos nascemos nus
– condição dos vermes,
dos punhais
e da luz.

Os filhos só têm a mais
o terror das diferenças
das mães a vesti-los com os braços
- destinos feios
de mijo a chorar nas rendas
e violinos em trapos.

Todos nascemos nus
- condição dos seios,
das açucenas
e dos sapos.

Mas até os seios das mães
São diferentes.
Uns cheiram a sedas quentas,
Outros, a urina de cães.

Bem. Agora devia sofrer
Cuspir nos espelhos
Dos remorsos.
E esbofetear o céu
Com gritos de mãos de ossos.

Mas não. Sorrio.
Todos nascemos nus
- condição dos mortos
despidos pelo frio.


José Gomes Ferreira (n. no Porto a 9 Jun 1900, m. em Lisboa a 8 Fev 1985)

Ler do mesmo autor, neste blog:

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2013-06-09

Viver sempre também cansa - José Gomes Ferreira

Viver sempre também cansa!

O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase-verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima, os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe, automóveis de corrida...

E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima de um divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas por mim, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com o teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...


José Gomes Ferreira (n. no Porto a 9 Jun 1900, m. em Lisboa a 8 Fev 1985)

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2013-02-08

Oh pastor que choras - José Gomes Ferreira


Oh pastor que choras 

o teu rebanho onde está? 

Deita as mágoas fora, 

carneiros é o que mais há 


uns de finos modos 

outros vis por desprazer... 

Mas carneiros todos 

com carne de obedecer. 


Quem te pôs na orelha 

essas cerejas, pastor? 

São de cor vermelha, 

vai pintá-las de outra cor. 


Vai pintar os frutos, 

as amoras, os rosais... 

Vai pintar de luto, 

as papoilas dos trigais.

(Letra de José Gomes Ferreira/música e voz de Fausto Bordalo Dias)



Ler do mesmo poeta, neste blog

José Gomes Ferreira (n. no Porto a 9 Jun 1900, m. 8 Fev 1985)

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2011-06-09

Dá-me a tua mão - José Gomes Ferreira

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Dá-me a tua mão

Deixa que a minha solidão
prolongue mais a tua
- para aqui os dois de mãos dadas
nas noites estreladas,
a ver os fantasmas a dançar na lua.
Dá-me a tua mão, companheira,
até o Abismo da Ternura Derradeira.

José Gomes Ferreira (n. no Porto a 9 Jun 1900, m. 8 Fev 1985)

in Poemas de Amor, Antologia de poesia portuguesa, organização e prefácio de Inês Pedrosa, Publicações Dom Quixote

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2011-02-08

Ah! Se acontecesse enfim qualquer coisa! - José Gomes Ferreira


Rosa Vermelha/ Red Rose
Ah! Se acontecesse enfim qualquer coisa!

Se de repente saísse da terra um braço
e atirasse uma rosa
para o espaço!

Mas não.

Lá está o sol do costume
com a exactidão
duma bola de lume
desenhada a compasso...

...sol que à noite continua
a andar em redor
nas entranhas da lua
- que é sol com bolor...

e desde que nasci,
haja paz ou guerra,
nunca vi outra coisa.

Ah! Como queres que acredite em ti
- braço que hás-de romper a terra
e atirar uma rosa?

José Gomes Ferreira (n. no Porto a 9 Jun 1900, m. em Lisboa a 8 Fev 1985)

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2010-06-09

José Gomes Ferreira nasceu há 110 anos

imagem daqui
XXVII


Eh! velhos pinheiros!
Cá estou outra vez
a falar com vocês
numa língua estranha
que não é português
nem espanhol...
Mas esta alegria de princípio do mundo
de andar com mãos roubadas de vagabundo
a atirar pedras aos pássaros e ao sol

(Areia (1938) 1950)
in Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora

e que melhor homenagem ao poeta senão seguirmos as suas "instruções"?

Vivam, apenas

Vivam, apenas
Sejam bons como o sol.
Livres como o vento.
Naturais como as fontes.

Imitem as árvores dos caminhos
que dão flores e frutos
sem complicações.

Mas não queiram convencer os cardos
e transformar os espinhos
em rosas e canções.

E principalmente não pensem na morte.
Não sofram por causa dos cadáveres
que só são belos
quando se desenham na terra em flores.

Vivam, apenas.
A morte é para os mortos!


José Gomes Ferreira (n. no Porto a 9 Jun 1900, m. 8 Fev 1985)

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2010-02-08

VII - José Gomes Ferreira, no 25º. aniversário da sua morte

(Um morto qualquer, assassinado pela polícia em qualquer parte)

Não insultem este morto com flores

Enterrem-no assim mesmo nu, com peso de raiz,
desamparado de lágrimas e canções,
o corpo rasgado do inferno dos homens
e a boca ainda aberta no último grito
-longo até o riso das caveiras do futuro.

Flores para quê?
Para cobrir de música o roxo do Outro Frio?

Atirem-lhe antes cardos e espinhos,
ásperos desta cólera sagrada
onde a sua alma continuará a arder
até o fim da humanidade dos hommens
-no brilho comum
dos nossos olhos de bandeira.


Extraído de "Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI. Selecção, organização, introdução e notas de Jorge Reis Sá e Rui Lage- Prefácio de Vasco Graça Moura. Porto Editora"

José Gomes Ferreira (n. no Porto a 9 Jun 1900, m. 8 Fev 1985)

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2009-06-09

O amor que sinto - José Gomes Ferreira

Labirinto Labirinto imagem daqui

O amor que sinto
É um labirinto.

Nele me perdi
com o coração
cheio de ter fome
do mundo e de ti
(sabes o teu nome),
sombra necessária
de um Sol que não vejo,
onde cabe o pária,
a Revolução
e a Reforma Agrária
sonho do Alentejo.
Só assim me pinto
neste Amor que sinto.

Amor que me fere,
chame-se mulher,
onda de veludo,
pátria mal-amada,
chame-se "amar nada"
chame-se "amar tudo".

E porque não minto
sou um labirinto.

José Gomes Ferreira (n. no Porto a 9 Jun 1900, m. 8 Fev 1985)

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2009-02-08

Recordando José Gomes Ferreira que faleceu há 24 anos

Um dia virás, hora doce e calma
sem as espadas dolorosas
que me sangram a alma
quando cismo...

Eu que até nas rosas
procuro um abismo.


************

Vive em cada minuto
a tua eternidade
- sem luto
nem saudade.

Vive-a, pleno e forte,
num frenesim
de arremesso.

Para que a tua morte
seja sempre um fim
e nunca um começo


in Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea, Um Panorama, Organização de Alberto da Costa e Silva e Alexei Bueno Lacerda Editores

José Gomes Ferreira (n. no Porto a 9 Jun 1900, m. 8 Fev 1985)

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2008-06-09

Não Choro - José Gomes Ferreira

A dor não me pertence.

Vive fora de mim, na natureza,
livre como a eletricidade.

Carrega os céus de sombra,
entra nas plantas,
desfaz as flores...

Corre nas veias do ar,
atrai nos abismos,
curva os pinheiros...

E em certos momentos de penumbra
iguala-me à paisagem,
surge nos meus olhos
presa a um pássaro a morrer
no céu indiferente.

Mas não choro. Não vale a pena!
A dor não é humana.

extraído de Rosa do Mundo 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim

José Gomes Ferreira (nasceu no Porto em 9 Jun 1900; m. 1985),

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2008-02-08

Dá-me a tua mão - José Gomes Ferreira

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Dá-me a tua mão

Deixa que a minha solidão
prolongue mais a tua
- para aqui os dois de mãos dadas
nas noites estreladas,
a ver os fantasmas a dançar na lua.
Dá-me a tua mão, companheira,
até o Abismo da Ternura Derradeira.

José Gomes Ferreira (n. no Porto a 9 Jun 1900, m. 8 Fev 1985)

in Poemas de Amor, Antologia de poesia portuguesa, organização e prefácio de Inês Pedrosa, Publicações Dom Quixote

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2007-06-09

Chove... - José Gomes Ferreira

photo: Raining (chuva)

Chove...

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.



José Gomes Ferreira (n. no Porto a 9 Jun 1900, m. 8 Fev 1985)

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2007-02-08

Porque é que este sonho... - José Gomes Ferreira

Porque é que este sonho absurdo
a que chamam realidade
não me obedece como os outros
que trago na cabeça?

Eis a grande raiva!
Misturem-na com rosas
e chamem-lhe vida.

José Gomes Ferreira (n. no Porto a 9 Jun 1900, m. 8 Fev 1985)

Ler do mesmo autor:

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2006-06-09

Álbum / XII - José Gomes Ferreira

Todos nascemos nus
– condição dos vermes,
dos punhais
e da luz.

Os filhos só têm a mais
o terror das diferenças
das mães a vesti-los com os braços
-destinos feios
de mijo a chorar nas rendas
e violinos em trapos.

Todos nascemos nus
-condição dos seios,
das açucenas
e dos sapos.

Mas até os seios das mães
São diferentes.
Uns cheiram a sedas quentas,
Outros, a urina de cães.

Bem. Agora devia sofrer
Cuspir nos espelhos
Dos remorsos.
E esbofetear o céu
Com gritos de mãos de ossos.

Mas não. Sorrio.
Todos nascemos nus
-condição dos mortos
despidos pelo frio.


José Gomes Ferreira (n. no Porto a 9 Jun 1900, m. 8 Fev 1985)

In “Urbano Tavares Rodrigues : os poemas da minha vida” – Público- 2ª. Edição Junho de 2005

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