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2014-10-18

Partindo - Eugénio Tavares

Triste, por te deixar, de manhãzinha
Desci ao porto. E logo, asas ao vento,
Fomos singrando, sob um céu cinzento,
Como, num ar de chuva, uma andorinha.

Olhos na Ilha eu vi, amiga minha,
A pouco e pouco, num decrescimento,
Fugir o Lar, perder-se num momento
A montanha em que o nosso amor se aninha.

Nada pergunto; nem quero saber
Aonde vou: se voltarei sequer;
Quanto, em ventura ou lágrimas, me espera

Apenas sei, ó minha Primavera,
Que tu me ficas lagrimosa e triste.
E que sem ti a Luz já não existe.


Eugénio de Paula Tavares (n. Ilha Brava, Cabo Verde a 18 de outubro de 1861; m. 1 junho de 1930)

Ler do mesmo autor:
Canção ao Mar
Força de Cretcheu

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2011-10-18

Morna de Despedida (Hora di Bai) - Eugénio Tavares

Hora di bai,
Hora di dor,
Ja'n q'ré
Pa el ca manchê!
De cada bêz
Que 'n ta lembrâ,
Ma'n q'ré
Fica 'n morrê!

Hora di bai,
Hora di dor,
Amor,
Dixa'n chorâ!
Corpo catibo,
Ba' bo que é escrabo!
Ó alma bibo,
Quem que al lebabo?

Se bem é doce,
Bai é maguado;
Mas, se ca bado,
Ca ta birado!
Se no morrê
Na despedida,
Nhor Des na volta
Ta dano bida.

Dicham chorâ
Destino de home:
Es dor
Que ca tem nome:
Dor de crecheu,
Dor de sodade
De alguem
Que'n q'ré, que q'rem...

Dicham chorâ
Destino de home,
Oh Dor
Que ca tem nome!
Sofrí na vista
Se tem certeza,
Morrê na ausencia,
Na bo tristeza!

(tradução em português)
Hora de ir,
Hora de dor.
Já quero
Que não amanheça!
De cada vez
Que eu lembro,
Mais eu quero
Ficar e morrer!

Hora de ir,
Hora de dor!
Amor,
Deixe-me chorar!
Corpo cativo,
Vai tu que és escravo!
Ó alma viva,
Quem que já te levou?

Se voltar é doce,
Ir é magoado;
Mas, se não fores,
Não voltas!
Se nós morremos
Na despedida,
Senhor Deus na volta
Dá-nos vida.

Deixa-me chorar
Destino de homem:
Essa dor
Que não tem nome:
Dor de Crecheu
Dor de Saudades
De alguém
Que eu quero, e que me quer...

Deixa-me chorar
Destino de homem,
Ó dor
Que não tem nome!
Sofrer na vida
Se tem certeza,
Morrer na ausência,
Da tua tristeza!

Eugénio de Paula Tavares (Ilha Brava, 18 de outubro de 1867 — Vila Nova Sintra 1 de junho de 1930)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Canção ao Mar - Mar Eterno
Força de Cretcheu

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2010-10-18

Força de Cretcheu - Eugénio Tavares

Ca tem nada nes' vida
mas grande qui amor,
se Deus ca tem medida,
amor inda é maior,
amor inda ê maior
maior que mar, que céu
ma de entre otos cretcheu
di meu inda ê maior

Crecheu más sabe,
É quel que é de meu.
El é que é chabe
Que abrim nha ceu...
Crecheu mas sabe
É quel
Que q'rem...
Se já'n perdel
Morte já bem...

Ó força de cretcheu,
Abri nha asa em flor
Pam pode subi ceu,
Pam bá pidi simenti
De amor coma es di meu,
Pam bem da tudo gente,
Pa tudo conchê céu!

Eugénio de Paula Tavares (n. Ilha Brava, Cabo Verde a 18 Out 1861; m. 1 Junho de 1930)

Ler do mesmo autor: Canção ao Mar

Ouçamos esta bela morna na voz de Gardénia Benrós
Força Di Cretcheu by Gardénia Benrós on Grooveshark

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2006-10-18

Canção ao Mar - Mar Eterno - Eugénio Tavares


Oh mar eterno sem fundo sem fim
Oh mar das túrbidas vagas oh! Mar
De ti e das bocas do mundo a mim
Só me vem dores e pragas, oh mar

Que mal te fiz oh mar, oh mar
Que ao ver-me pões-te a arfar, a arfar
Quebrando as ondas tuas
De encontro às rochas nuas

Suspende a zanga um momento e escuta
A voz do meu sofrimento na luta
Que o amor ascende em meu peito desfeito
De tanto amar e penar, oh mar

Que até parece oh mar, oh mar
Um coração a arfar, a arfar
Em ondas pelas fráguas
Quebrando as suas mágoas

Dá-me notícias do meu amor
Que um dia os ventos do céu, oh dor
Os seus abraços furiosos, levaram
Os seus sorrisos invejosos roubaram

Não mais voltou ao lar, ao lar
Não mais o vi, oh mar
Mar fria sepultura
Desta minha alma escura

Roubaste-me a luz querida do amor
E me deixaste sem vida no horror
Oh alma da tempestade amansa
Não me leves a saudade e a esperança

Que esta saudade é quem, é quem
Me ampara tão fiel, fiel
É como a doce mãe
Suavíssima e cruel

Nas mágoas desta aflição que agita
Meu infeliz coração, bendita!
Bendita seja a esperança que ainda
Lá me promete a bonança tão linda

Eugénio de Paula Tavares (n. Ilha Brava, Cabo Verde a 18 Out 1861; m. 1 Junho de 1930)

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