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2016-03-29

Nem a distança das mia - Zé da Luz



Severino de Andrade Silva (Zé da Luz), nasceu em Itabaiana em 29 de março de 1904 e faleceu no Rio de Janeiro em 12 de fevereiro de 1965.

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2015-10-21

A Casa que a Fome Mora - Antônio Francisco (Literatura de cordel)

Eu de tanto ouvir falar
Dos danos que a fome faz,
Um dia eu sai atrás
Da casa que ela mora.
Passei mais de uma hora
Rodando numa favela
Por gueto, beco e viela,
Mas voltei desanimado,
Aborrecido e cansado.
Sem ter visto o rosto dela.

Vi a cara da miséria
Zombando da humildade,
Vi a mão da caridade
Num gesto de um mendigo
Que dividiu o abrigo,
A cama e o travesseiro,
Com um velho companheiro
Que estava desempregado,
Vi da fome o resultado,
Mas dela nem o roteiro.

Vi o orgulho ferido
Nos braços da ilusão
Vi pedaços de perdão
Pelos iníquos quebrados,
Vi sonhos despedaçados
Partidos antes da hora,
Vi o amor indo embora,
Vi o tridente da dor,
Mas nem de longe via a cor
Da casa que a fome mora.

Vi num barraco de lona
Um fio de esperança,
Nos olhos de uma criança,
De um pai abandonado,
Primo carnal do pecado,
Irmão dos raios da lua,
Com as costas seminuas
Tatuadas de caliça,
Pedindo um pão de justiça
Do outro lado da rua.

Vi a gula pendurada
No peito da precisão,
Vi a preguiça no chão
Sem ter força de vontade,
Vi o caldo da verdade
Fervendo numa panela
Dizendo: aqui ninguém come!
Ouvi os gritos da fome,
Mas não vi a boca dela.

Passei a noite acordado
Sem saber o que fazer,
Louco, louco pra saber
Onde a fome residia
E por que naquele dia
Ela não foi na favela
E qual o segredo dela,
Quando queria pisava,
Amolecia e Matava
E ninguém matava ela?

No outro dia eu saio
De novo a procura dela,
Mas não naquela favela,
Fui procurar num sobrado
Que tinha do outro lado
Onde morava um sultão.
Quando eu pulei o portão
Eu vi a fome deitada
Em uma rede estirada
No alpendre da mansão.

Eu pensava que a fome
Fosse magricela e feia,
Mas era uma sereia
De corpo espetacular
E quem iria culpar
Aquela linda princesa
De tirar o pão da mesa
Dos subúrbios da cidade
Ou pisar sem piedade
Numa criança indefesa?

Engoli três vezes nada
E perguntei o seu nome
Respondeu-me: sou a fome
Que assola a humanidade,
Ataco vila e cidade,
Deixo o campo moribundo,
Eu não descanso um segundo
Atrofiando e matando,
Me escondendo e zombando
Dos governantes do mundo.

Me alimento das obras
Que são superfaturadas,
Das verbas que são guiadas
Pro bolsos dos marajás
E me escondo por trás
Da fumaça do canhão,
Dos supérfluos da mansão,
Da soma dos desperdícios,
Da queima dos artifícios
Que cega a população

Tenho pavor da justiça
E medo da igualdade,
Me banho na vaidade
Da modelo desnutrida
Da renda mal dividida
Na mão do cheque sem fundo,
Sou pesadelo profundo
Do sonho do bóia fria
E almoço todo dia
Nos cinco estrelas do mundo.

Se vocês continuarem
Me caçando nas favelas,
Nos lamaçais das vielas,
Nunca vão me encontar,
Eu vou continuar
Usando o terno Xadrez,
Metendo a bola da vez,
Atrofiando e matando,
Me escondendo e zombando
Da Burrice de vocês.

Antônio Francisco Teixeira de Melo nasceu em Mossoró, Rio Grande do Norte, Brasil, a 21 de outubro de 1949

Pode ainda ouvir "Os Animais Têm Razão"


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2013-09-20

Literatura de cordel: A Moça que se casou 14 vezes e continuou donzela - Apolônio Alves

1
No outro século passado
na fazenda Jequié
havia uma donzela,
religiosa de fé
no seu batísmo lhe deram
o nome de Salomé,

Salomé era uma virgem
de estimada simpatia,
filha de um fazendeiro
criou-se muito sadia,
era a moça mais formosa
do estado da Bahia

Contava 22 anos
aquela jovem tão bela
sempre, sempre aparecia,
namorado para ela
casou-se 14 vezes
e continuou donzela

Um daqueles namorados,
que Salomé arranjou,
era um rapaz forte e moço
em poucos dias casou,
mas sua morte súbita
todo mundo admirou

2
Porque em menos dum ano
que ele tinha casado,
começou enfraquecendo
pálido e desfigurado
a noite deitou se vivo
e amanheceu finado.

Salomé ficou viuva,
a noite inteira chorou
o seu primeiro marido,
a morte ingrata o levou
mas que ainda era virgem
a ninguém nada contou.

Acontece que um dia
na festa dum batizado,
viuvinha arranjou
o segundo namorado
com 15 dias casou-se
num dia tão festejado.

Por segurança dos bens
casou também no juiz
a sua lua de mel
foram passar em Paris
Salomé voltou viuva
chorando a sorte infeliz.

Mas continuou a mesma
viuva virgem sem sorte
porque o segundo esposo,
que era sadio e forte
esse também embarcou,
no barco negro da morte

3
Porém Salomé por ser,
viuva de polidez
não demorou muito tempo,
casou-se terceira vez
com outro rapagão moço,
filho de um português.

Esse não durou um mês
começou ficando fraco
amarelo cadavérico,
da grossura dum cavaco
em poucos dias também
foi pra dentro do buraco.

Todo povo comentava,
- este caso è muito sério
o que há com Salomé
até parece um mistério,
já trés maridos que ela
manda para o cemitério.

A quarta vês para ela
apareceu um baiano
um rapagão muito forte
decendente de cigano
noivaram no mês de outubro
casaram no fim do ano.

Esse também se findou,
no próximo ano vindouro
começou se definhando,
e o povo fazendo agouro
que no fim do mesmo ano,
também entregou o couro.

4
Coitada da Salomé
ficou viuva de novo
vivia tão pensativa,
calada que só um ovo
envergonhada de ouvir,
o comentário do povo.

Após passar muito tempo,
lamentando a desventura
apareceu outro jovem,
de forte musculatura
foi o quinto esposo dela
a entrar na sepultura.

Logo apareceu o sexto
era um rapaz arrazado
vendo que ela era filha
de um velho recursado
pensando enricar tambem
acertou logo o noivado.

Embora contrariado,
o velho o casório fez
esse também morreu logo
vivo não passou um mês
Salomé ficou viuva,
pela sua sexta vez.

Casou pela sétima vez
com um rapaz forasteiro
tocador de violão
boémio e aventureiro
esse casou-se em dezembro
e faleceu em janeiro.

5
Certo dia ela contou
aquele segredo dela
a uma sua amiguinha
lhe dizendo: Maristela
Já me casei 7 vezes,
mas ainda estou donzela.

E logo pediu a ela
para guardar o segredo
porém a amiga falsa
no outro dia bem cedo
saiu pela vizinhança
espalhando aquele segredo.

O povo pra criticar
lhe chamavam na surdina
de viuva mata sete
ou viuvinha assassina
assim a pobbre vivia,
lastimando a sua sina

Os homens todos diziam
o fato não é comum
já se casou 7 vezes
e ainda está em jejum,
porque é que seus maridos
não fica vivo nenhum?

Assim a pobre vivia
neste dilema sofrido
por onde passava ouvia
do povo o "estampido"
- lá vai a viuva virgem
matadora de marido.

6
Ela vendo que ali,
rapaz nenhum lhe queria
por está muito manjada,
decidiu certo dia
viajou pra outro estado
que ninguem lhe conhecia.

Salomé saiu dizendo,
aqui eu não volto mais
partindo se despediu,
de seus extremosos pais
foi parar no Amazonas
a terra dos seringais.

Casou-se no Amazonas
comn um velho serinbgueirp
com 59 anos
mas ainda era solteiro
em pouco tempo tambem,
deu serviço ao coveiro.

Para encurtar a história,
Salomé foi se casando,
até inteirar quatorze
e viuva ia ficando
por fim se desenganou
sua sorte praguejando

Naquilo havia um misterio
que ninguem não connhecia,
que Salomé se casava,
õ seu marido morria
o porquê desse mistério,
nem mesmo ela sabia.

7
Foi um bruxo que queria
se casar com Salomé
e apaixonou-se por ela,
um dia num condomblé
mas ela lhe deu um fora
mandou o chupar picolé

Por isso o bruxo maldito
fez pra ela um malefício
que a pobre Salomé
vivia neste suplício
levando todos os maridos
a borda do precipicio

Toda vez qu'ela casava
o feitiço acontecia
porque na noite de núpcia
seu marido adoecia
sem conhecer a doença,
pelo desgosto morria.

Porque na primeira noite,
na hora do tererê
que o marido encostava
o seu corpo em Salomé
a sua moral caís
nunca mais ficava em pé.

Porem o seu ultimo esposo
por ser esperto e matreiro
correu logo e procurou
um famoso feiticeiro
pra desmanchar o feitiço
do bruxo catimbozeiro.

8
Perguntaram a Salom´e
se ela se lembraria
o nome daquele bruxo
de tamanha covardia
que fizera para ela
essa horrenda bruxaria.

Ela disse que sabia
o nome do infiel
então o segundo bruxo
logo pegou num papel,
escreveu em cruz o nome,
do feiticeiro cruel.

Disse para Ezequiel
vou desmanchar o feitiço
porem só por 2 milhões
posso fazer o serviço
e você pode assumir
sua esposa. sem enguiço

Ezequiel conseguiu
findou-se todo o mistério
Salomé ficou feliz
desfrutando aquele império
após enterrarem o nome
do bruxo no cemitério.

Ainda teve dois filhos
A moça de Jequié,
Livrou-se da bruxaria,
vivendo cheia de fé
Ezequiel adorava,
Sia esposa Salomé. - FIM

Apolônio Alves dos Santos nasceu em 20 de setembro de 1926, em Guarabira, Paraíba; motrreu em 1998 em Campina Grande, Paraíba


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2013-09-18

Perfil do candidato mentiroso - Marciano Medeiros (literatura de cordel)

E porque as eleições autárquicas estão à porta...


Existem muitos políticos
Repletos de malandragem
Que no tempo das campanhas
Esbanjam camaradagem
Dizendo pras multidões
Escutem minha mensagem

– Eu quero ser candidato
Por me sentir preparado
O meu plano de governo
Logo mais tem resultado,
Essa é a fala padrão
Do candidato safado

Assim prossegue o barulho
Combate o adversário
No seu discurso inflamado
Promete dar mais salário
Vem pregar na praça pública
O tal conto do vigário

Vemos muita agitação
Nos comícios populares
Candidato esculhambando
Falando coisas vulgares
E até amigos de infância
Brigam nas portas dos bares
1
É preciso ter cuidado
Com teses escandalosas
Não se deixando levar
Por falas audaciosas
Rejeitando as pilantragens
Das mentes maliciosas

Na campanha eleitoral
Nós vemos grandes mentiras
Onde falsos democratas
Falam repletos de iras
E a reputação dos outros
É rasgada em feias tiras

A promessa sendo feita
Pra toda população
O candidato farsante
Melhora a entonação
Dizendo que cumpre tudo
Se ganhar a eleição

O povo logo animado
Acredita na mudança
Achando que vale a pena
Conservar toda esperança
Memoriza o tal discurso
Guarda tudo na lembrança
2
O político mentiroso
Tem enorme plataforma
Afirma que seu partido
A legislação transforma
E quem quiser votar nele
Sentirá boa reforma

Diz ser bastante capaz,
O favorito do povo
Todos precisam dar chance
A um candidato novo
Que entrando na prefeitura
Trará bastante renovo

Esse político farsante
Tem profissão de enganar
Diz que terá o emprego
Pra seu compadre ajudar
Mas logo assumindo o cargo
Só lembra de humilhar

Bota uma trava eletrônica
Na porta da prefeitura
Criando falso governo
Com muita descompostura
Vai mentir na capital
Essa maldosa figura
3
Você vai pedir trabalho
Ele dar pobre gorjeta
Desejando que o povo
Sempre viva na sarjeta
O eleitor sofre tanto
Que sai fazendo careta

Todo cidadão conhece
O assunto profundamente
Enrolação de político
Dum safado incompetente
Que vive para enganar
Iludindo a nossa gente

Ligeiro faz seu teatro
No horário eleitoral
Numa campanha nanica
E até mesmo federal
Obedece ao marqueteiro
Pra derrotar o rival

Assistimos as conversas
Todas elas prepararadas
Nos truques das eleições
As cenas são formuladas
E nos programas gratuitos
Elas são apresentadas
4
Mesmo sendo analfabeto
O cara fica falante
Usando terno bonito
Passando por elegante
E quando anda na rua
Faz a pose de importante

Abraça o povo sorrindo
Chamando de companheiro
Visita toda favela,
Boteco de cachaceiro
Mas voltando para casa
Vai se lavar no chuveiro

Discursando é envolvente
Faz extensa analogia
Dizendo representar
A tal da democracia
Mas quem for inteligente
Percebe a demagogia

Candidato mentiroso
Chama o povo de querido
Sem que ninguém fale nisso
Proclama-se o preferido
Afirma que vencerá
Tendo o pleito garantido
5
E vive fazendo intrigas
Sendo muito temerário
Só leva sua bandeira
Quem ele pagar salário
Pois tem mais de dez processos
No poder judiciário

Não respeita o concorrente
Só quer desmoralizar
Falando das baixarias
Na hora de improvisar
As propostas do partido
Termina por não contar

Declara pra toda gente
Que só confia em dinheiro
Tenta comprar o seu voto
O político aventureiro
Quando vence a eleição
Viaja pro estrangeiro

Comemora na Espanha
Ou na América do Norte
Não agradecendo os votos
Pensa apenas que foi sorte
Compra o poder com dinheiro
Imaginado ser forte
6
Ao terminar a viagem
Regressa pra governar
Tendo cargo de prefeito
Muda logo o celular
Depois que passa três meses
O seu carro vai trocar

Se não teve maioria
Compra “bons” parlamentares
Que das suas roubalheiras
Passam a ser os pilares
Mas nos comícios da vida
Dizem que são exemplares

É claro que não são todos
No Brasil temos valores
Os políticos verdadeiros
Não gostam dos impostores
Deixando muitos exemplos
Nos gestos renovadores

Nunca aprovam safadeza
Dos festins e das orgias
E quando assumem funções
Batalham por melhorias
Vamos votar nos corretos
Para vermos novos dias
7
Tenha bastante cuidado
Preserve a cidadania
Pois quando a gente se omite
Ajuda a patifaria
Um candidato correto
Só defende a melhoria

Quem gasta muito dinheiro
Na campanha eleitoral
Seja em cidade pequena
Ou mesmo na capital
Vai tirar o prejuízo
De maneira desleal

Na força deste folheto
Preguei a democracia
Dizendo muitas verdades
Com pouca diplomacia
Então que evitemos sempre
Toda prática que vicia

Viva o povo brasileiro
Abaixo a corrupção
Preservando honestidade
Faremos na votação
Dessa Pátria do cruzeiro
A mais gigante nação.

Extraído daqui

Marciano Batista de Medeiros nasceu em Santo Antônio/RN aos 18 de setembro de 1973

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2012-05-21

Estória de Marieta, a moça que dançou no inferno - No centenário do nascimento de Joaquim Batista de Sena


O mundo está desgraçado
a terra está corrompida
muitos já não crêem em Deus
e Maria Concebida
e vão no inferno e voltam
aqui mesmo nessa vida

Segundo as santas palavras
de Cristo e de Deus Eterno
este povo pecador
do nosso tempo moderno
que peca sem ter receio
está tudo no inferno

Esta semana uma velha
me contou um fraseado
que se deu com uma moça
neste carnaval passado
e cuja estória deixou-me
bastante impressionado

Marieta é uma moça
filha duma viuveta
destas que andam na terra
pra toda festa e retreta
tem uns 40 maridos
e só traja roupa preta

Elas moram em Fortaleza
de Pirambu para um lado
dizem que a Marieta
possuía um namorado
então os dois só gostavam
dum namorinho agarrado

Então no domingo gordo
começou o carnaval
e Marieta vestiu
um traje muito imoral
e foi dançar com o noivo
um tal Francisco Amaral

A mãe dela disse assim:
— Marieta que traje estranho!
ela respondeu: — Mamãe
eu com nada me acanho
hoje eu vou passar o dia
dançando e tomando banho

E vestiu um soutiens
quase da forma dum lenço
o maiô outro lencinho
que desta forma eu penso
que aonde ela passasse
era um carnaval imenso

E saiu dizendo assim
— Francisco vamos beber
e dançar agarradinhos
até o dia amanhecer
e tomar banho de mar
que hoje é bom pra valer

E saiu dali pulando
com o Francisco agarrada
beijo vai, beijo vem
e soltando gargalhada
entrançadinha com ele
que só renda de almofada

E foram dançar na festa
de uma tal de Iracema
o Francisco disse assim:
— Querida você não tema
vamos dançar ligadinhos
rasgando o passo da ema

Marieta respondeu:
— Querido eu te afianço
olhe, eu estando contigo
tendo música eu me balanço
até dentro do inferno
havendo quem toque eu danço

E nesta hora saíram
os dois na sala dançando
porém ele pressentiu
ela cansada e suando
e nos braços de Francisco
depressa foi desmaiando

Pararam a parte com pressa
e o Francisco levou
Marieta para um quarto
e numa cama a deitou
e ela ali desmaiada
um certo tempo passou

Quando despertou da síncope
estava muito suada
e contou uma estória
sinceramente narrada
que deixou aquela gente
na sala impressionada

Marieta ali contou
que quando estava dançando
com Francisco, olhou para ele
ele foi se transformando
num diabo horrendo e feio
e ela foi desmaiando

E viu ali que Francisco
virou-se no satanás
de chifre e olhos de fogo
um rabo comprido atrás
pegou ele, então voou
para as regiões infernais

Num segundo ela se viu
dentro dum prédio moderno
com uma placa de fogo
na frente, dizendo: "Inferno
onde bradam os condenados
dentro dum presídio eterno"

E olhou para todo lado
só viu a escuridão
e dentro daquela treva
uma enorme multidão
se mordendo indignados
na maior exclamação

Nisto o monstro que levou-a
disse: — Vamos passear
nesta nossa residência
pra você quando chegar
no mundo dos pecadores
de tudo saber contar

E saiu mostrando a ela
todo povo encarcerado
o ladrão, o assassino
o bêbado, o amasiado
a prostituta, o velhaco
o filho amaldiçoado

Ela viu lá o castigo
do sujeito preguiçoso
arrastando acorrentado
um peso grande, horroroso
trabalhando eternamente
sem um pequeno repouso

A mulher luxuosa
lá no inferno é despida
o corpo todo algemado
a cara toda franzida
se mordendo e dando gritos
cheia de pus e ferida

Ainda tinha outro castigo
pra mulher falsa ao marido
tem que beber todo instante
ferro e chumbo derretido
duma fornalha tremenda
gritando e dando bramido

Os compadres amigados
pra eles tem umas camas
nas profundas do inferno
com angustiosas flamas
e são enormes os bramidos
deles lá dentro das chamas

O guloso é atacado
de uma fome canina
lá dentro das labaredas
se maldizendo da sina
exclamando e sem auxílio
da Providência Divina

No inferno o invejoso
será sempre castigado
vendo as delícias do céu
para o bem aventurado
e ele dentro das chamas
do inferno acorrentado

Lá presente a Lúcifer
o orgulhoso é levado
então pra século sem fim
ele ali fica humilhado
perante o Príncipe das Trevas
nos pés dele acorrentado

O invejoso é laçado
por uma grande serpente
lá dentro das labaredas
uivando e rangindo o dente
bebendo todo instante
um caldo de ferro quente

O ladrão é açoitado
com toda rigorosidade
amarrado numa roda
para toda eternidade
e um diabo moendo
com toda velocidade

No inferno o cachaceiro
vive lá numa prisão
no fundo dum lamaçal
na enorme podridão
bebendo um caldo de chumbo
com enxofre e alcatrão

O rico lá no inferno
vai ser um pobre mendigo
faminto, descalço e nu
sem pão, sem lar, sem abrigo
conforme os gozos do mundo
tem no inferno o castigo

Então assim Marieta
percorreu todas prisões
de braços com Lúcifer
ouvindo as exclamações
das almas dos condenados
no auge das aflições

Nesta hora ela lembrou-se
da Virgem Nossa Senhora
e Lúcifer deu um grito
dizendo: — Pode ir embora
venha que eu vou deixar
você do lado de fora

Quando ela despertou
da síncope, estava deitada
muita gente em redor dela
e Marieta espantada
contou daquela visão
toda estória passada

Depois ela arrependida
deixou a farra e a dança
pois este exemplo ficou
gravado em sua lembrança
e de salvar sua alma
ainda tem esperança

E três minutos passou
sobre a cama desmaiada
quando despertou da síncope
ficou impressionada
pensando que há três anos
estava ali acamada

poema extraído daqui
Joaquim Batista de Sena nasceu no dia 21 de maio de 1912, em Fazenda Velha, do termo de Bananeiras, hoje pertencente ao município de Solânea-PB. Faleceu no distrito de Antônio Diogo (Redenção-CE) no início da década de 90.



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2012-02-23

Na minha época passada - Zé Saldanha

Na minha época passada
Namoro foi sacrifício;
A moça num edifício
E pelo pai vigiada
Pra poder ser namorada
Pedia licença aos pais
Hoje a moça e o rapaz
Vão se abraçar, se beijar
O mundo só veio prestar
Quando eu não prestava mais.

Meu tempo foi diferente
Digo porque me convém;
As moças queriam bem
Mas tinham medo da gente
Todo pai era valente
Hoje perderam o cartaz
A filha sai com um rapaz
Beber, namorar, farrar
O mundo só veio prestar
Quando eu não prestava mais.

A lembrança ainda tenho
Dos vestidos do passado,
Hoje é curto e ligado
Que só manjarra de engenho
Mostrando todo desenho
Do corpo na frente e atrás
Tudo que a moderna faz
Eu só falto morrer de olhar
O mundo só veio prestar
Quando eu não prestava mais

Hoje nada mais é certo
Amor nem religião;
A moderna, a corrupção
Com seu mundanismo esperto
Deixando tudo em alerto
Olhando a novela o que faz
Mulheres, moças e rapaz
Semi nus a se beijar
O mundo só veio prestar
Quando eu não prestava mais

José Saldanha Menezes Sobrinho nasceu em 23 de fevereiro de 1918, na fazenda Piató, município de Santana dos Matos, no Rio Grande do Norte; faleceu a 9 de agosto de 2011

Poema extraído daqui onde pode ficar a conhecer melhor este grande autor de literatura do cordel

Ler ainda mais aqui sobre o autor

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