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2016-08-01

O Rosto Evidente - António Rebordão Navarro

Sempre o rosto da amada é transparente,
por ele passa o mundo, passa gente,
vão, por si sós, desde a boca do Verão
aos cabelos do Inverno
as árvores mais claras e as mais fortes.

Sempre o rosto da amada é infinito,
uma escada que sobe como um grito
e nunca pára, suspenso entre o dia e a noite,
no violento espaço que ocupam duas mãos,
todos os frutos, os peixes que navegam com o sol,
os dragões soltos pela Primavera e mesmo o filho
que um dia partiu e volta agora,
todo o corpo mordido
pelas vorazes pulgas da miséria.

Sempre o rosto da amada é solidário
ao tempo e, rico e vário,
vai do vermelho ao rosa,
repousa no azul, salta no mar.
É varado de balas na Bolívia,
bombardeado no Vietname,
feito radiografia no Biafra.
Fiel é no entanto o rosto à vida
e tanto que palpita, ri e chora.


in «366 poemas que falam de amor»,
selecção de Vasco Graça Moura

António Augusto Rebordão e Cunha Navarro nasceu no Porto em 1 de agosto de 1933, faleceu em abril de 2015.

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2012-08-01

Reservo-me o domingo - António Rebordão Navarro

Reservo-me o domingo para a busca
receosa e teimosa da alegria.
Meu coração devia ser alegre
como um pássaro novo,
meu coração devia ser alegre
como o vinho ou o fogo
No entanto, onde está a alegria?
onde estão as sementes da alegria?
onde vive a alegria? No entanto,
pergunto às coisas e às gentes
de domingo onde está a alegria.
Mesmo que a não encontre
destino-lhe o domingo,
este e outros domingos,
este sol e outros ventos,
este mar e outras ruas,
estas mãos e estes olhos.
Assim acho razão para não estar triste.

in O Dia Dentro da Noite - Poemas (1952 - 1982)
Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda

António Rebordão Navarro nasceu no Porto em 1 de Agosto de 1933.

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