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2016-07-11

Porto Celeste - Afonso Celso


Andei em longas excursões distantes:
Vi palácios, sacrários, monumentos,
Fócos da indústria, artísticos portentos...
Praças soberbas, capitais gigantes.

Mas lia, em toda a parte, nos semblantes,
Dores... lutas... idênticos tormentos...
— Onde a pátria dos risos?!... Desalentos
Colhi apenas, mais cruéis que dantes.

Achei, enfim, num pequenino porto,
Crenças, consolações, calma, conforto,
Tudo que anima, enleva e maravilha:

Ninho de encantos que a inocência habita
Promontório do céu, plaga bendita.
É junto ao berço teu, ó minha filha.

Afonso Celso de Assis Figueiredo Jr. (n. em Ouro Preto, Minas Gerais, a 31 de março de 1860, m. Rio de Janeiro a 11 de julho de 1938)

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2016-03-31

No Baile - Afonso Celso




Ontem ao contemplá-la decotada,
Ao primor do seu colo descoberto,
Senti-me tonto, da vertigem perto,
Fremente o pulso, a vista deslumbrada.

E, como em láctea fonte perfumada,
Sorvi-lhe sonhos mil no seio aberto,
Com a sede de um filho do deserto
Que encontre enfim a linfa suspirada.

Giram em derredor das níveas flores,
Sofregamente, insetos zumbidores ...
- Meus desejos então foram assim...

Mas arredei os olhos, de repente,
Pois meu olhar podia, de tão quente,
Crestar-lhe a fina cútis de cetim!

(in Poesias escolhidas)


Afonso Celso de Assis Figueiredo Jr. nasceu em Ouro Preto (MG) a 31 de março de 1860 e expirou no Rio de Janeiro a 11 de julho de 1938. Doutorou-se em Direito em 1881 e foi deputado em 1882. Filho do visconde de Ouro Preto, acompanhou o pai no exílio após a proclamação da República (1889), mas era abolicionista, socialista e anticlerical. De regresso, abandonou a política, recebeu o título de Conde Romano, em 1905, graças à sua poesia religiosa, e veio a ser director da Faculdade de Direito do Rio. Foi um representante do parnasianismo, pois revela influência de Gonçalves Crespo, mas um talento versátil levou-o a dispersar-se pela ficção, teatro, crítica e história, conferências e discursos, trabalhos jurídicos, etc.

Nota biobliográfica extraída de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

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2011-07-11

No baile - Afonso Celso

Ontem ao contemplá-la decotada,
Ao primor do seu colo descoberto,
Senti-me tonto, da vertigem perto,
Fremente o pulso, a vista deslumbrada.

E, como em láctea fonte perfumada,
Sorvi-lhe sonhos mil no seio aberto,
Com a sede de um filho do deserto
Que encontre enfim a linfa suspirada.

Giram em derredor das níveas flores,
Sofregamente, insetos zumbidores ...
- Meus desejos então foram assim...

Mas arredei os olhos, de repente,
Pois meu olhar podia, de tão quente,
Crestar-lhe a fina cútis de cetim!

Afonso Celso de Assis Figueiredo Jr. (n. em Ouro Preto, Minas Gerais, a 31 Mar 1860, m. Rio de Janeiro a 11 Jul 1938)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Anjo Enfermo
Rosa
Porto celeste
A Confiança

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2011-03-31

A confiança - Afonso Celso

Sem ti, a mente se afunda,
Minada em seus alicerces:
Feliz daquela em que exerces
Tua ascendência fecunda.

De quem te adota por guia
Quão segura a diretriz!
Sim! Feliz o que confia,
Feliz, três vezes feliz!

Mas, como o vidro, és frangível.
Não raro, a um gesto, a uma frase,
De chofre vai-se-te a base;
Cais, e, depois, é terrível.

O vidro quebrado corta
A mão que incauta o apertou...
Oh! como a confiança morta,
Coração, te retalhou!

Tudo falácia e quimera...
- Tem talvez sorte bendita
Esse que em nada acredita,
Nada esperou, nada espera.


Afonso Celso de Assis Figueiredo Jr. (n. em Ouro Preto, Minas Gerais, a 31 Mar 1860, m. Rio de Janeiro a 11 Jul 1938)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Anjo Enfermo
Rosa
Porto Celeste

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2010-03-31

Nos 150 anos do nascimento de Afonso Celso - Anjo Enfermo

Geme no berço enferma a criancinha,
Que não fala, não anda e já padece...
Penas assim cruéis por que as merece
Quem mal entrando na existência vinha?!

Ó melindroso ser, ó filha minha,
Se os céus ouvissem a paterna prece
E a mim o teu sofrer passar pudesse,
Gozo me fora a dor que te espezinha.

Como te aperta a angústia o frágil peito!
E Deus, que tudo vê, não ta extermina,
Deus que é bom, Deus que é pai, Deus que é perfeito...

Sim... é pai, mas a crença no-lo ensina:
— Se viu morrer Jesus, quando homem feito,
Nunca teve uma filha pequenina!...

Afonso Celso de Assis Figueiredo Jr. nasceu em Ouro Preto (MG) a 31 de Março de 1860 e expirou no Rio de Janeiro a 11 de Julho de 1938. Doutorou-se em Direito em 1881 e foi deputado em 1882. Filho do visconde de Ouro Preto, acompanhou o pai no exílio após a proclamação da República (1889), mas era abolicionista, socialista e anticlerical. De regresso, abandonou a política, recebeu o título de Conde Romano, em 1905, graças à sua poesia religiosa, e veio a ser director da Faculdade de Direito do Rio. Foi um representante do parnasianismo, pois revela influência de Gonçalves Crespo, mas um talento versátil levou-o a dispersar-se pela ficção, teatro, crítica e história, conferências e discursos, trabalhos jurídicos, etc.

Soneto e Nota biobliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.


Ler do mesmo autor, neste blog:
Rosa
Porto Celeste

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2008-03-31

Porto celeste - Afonso Celso

Andei em longas excursões distantes:
Vi palácios, sacrários, monumentos,
Fócos da indústria, artísticos portentos...
Praças soberbas, capitais gigantes.

Mas lia, em toda a parte, nos semblantes,
Dores... lutas... idênticos tormentos...
— Onde a pátria dos risos?!... Desalentos
Colhi apenas, mais cruéis que dantes.

Achei, enfim, num pequenino porto,
Crenças, consolações, calma, conforto,
Tudo que anima, enleva e maravilha:

Ninho de encantos que a inocência habita
Promontório do céu, plaga bendita.
É junto ao berço teu, ó minha filha.

Afonso Celso de Assis Figueiredo Jr. (n. em Ouro Preto, Minas Gerais, a 31 Mar 1860, m. Rio de Janeiro a 11 Jul 1938)

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2006-07-11

Rosa - Afonso Celso

Rosa colhia sozinha
Lindas rosas no jardim
E nas faces também tinha
Duas rosas de carmim.

Cheguei-me e disse-lhe: Rosa
Qual dessas rosas me dás?
As da face primorosa
Ou essas que unindo estás?...

Ela fitou-me sorrindo,
Ainda mais enrubesceu;
Depois, ligeira fugindo,
De longe me respondeu:

"Não dou-te as rosas das faces
Nem as que tenho na mão:
Daria, se me estimasses,
As rosas do coração."

Afonso Celso de Assis Figueiredo Jr. (n. em Ouro Preto, Minas Gerais, a 31 Mar 1860, m. Rio de Janeiro a 11 Jul 1938)

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