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2016-06-21

A UMA OPERÁRIA JOVEM - Domingos Carvalho da Silva



Como a árvore que pode
dar apenas seu fruto,
floresces. E sobre a terra
amplias o horizonte de tua sombra.

Na fábrica as engrenagens
multiplicam o movimento
e as polias giram como vento
em remoinho.

Na fábrica os fatos
repetem-se como as estações,
as estrelas iguais de cada noite,
o pão fresco de todas as manhãs.

Teu sangue circula como a abelha
na órbita da rosa
e, como a água dos estanques, há de voltar
à fonte.

Na fábrica
os espelhos sonham com teu riso.

(De À MARGEM DO TEMPO - 1963)

Domingos Carvalho da Silva (nasceu em Leirós, Pedroso, Vila Nova de Gaia a 21 de junho de 1915, faleceu em São Paulo, Brasil a 26 de abril de 2003)

Ler do mesmo autor:
Na Despedida de Ignez
Teoria do Poema
A Fénix Refractária

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2011-06-21

Na Despedida de Ignez - Domingos Carvalho da Silva

Estão mudos os poemas,
não tenho mais tua voz para cantá-los.
O som corre vazio nas palavras
sem que teus ouvidos possam dar-lhes vida.
A luz se extingue,
pois tuas pálpebras estão cerradas para o sol
e em teus olhos
cresceu a longa treva sem a espera
do alvorecer.

Os rios não mais são necessários,
pois já não corre tua memória em suas águas.
Já não são necessários os caminhos,
que não mais poderão seguir-te os passos.
O livro que lias não chegou
a abrir a última folha,
as teclas do piano esperam esquecidas
o afago vibrante de tuas mãos,
que libertavam das pautas a harmonia.

Perdeu nossa casa a presença grácil
da castelã medieva,
o perfil de virtude
da senhoril esposa
romana.

Na face e nos lábios de pétalas dobradas
vi-te partir mais bela
que as rosas da manhã:
as últimas que te ornaram
foram cumprir contigo o teu silêncio.


Domingos Carvalho da Silva (nasceu em Pedroso, Vila Nova de Gaia a 21 de Junho de 1915, faleceu em 26 de Abril de 2003)

Ler do mesmo autor:
Teoria do Poema
A Fénix Refractária

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2009-06-21

Teoria do Poema - Domingos Carvalho da Silva

Este poema há tanto tempo morto
sob o meu chão, renasce como um grito
de labareda exausta, água secreta,
e no papel projeta o seu caminho.

O asilo do mar procura o rio
que cedo abriu a porta de sua casa
ou sepulcro onde estava repartido
e no rumo da foz cava uma estrada.

Que rios passam sob o chão do poema
que no papel escorre como as águas,
como as águas é fonte e, como as águas,
é o eu nele inventamos e mais nada?

A mesma força que impulsiona o poema
abriu a rua aos rios e os arrasta
pra onde vão rimar sua discreta
língua de signos em estâncias de algas.

Que inventamos no poema? — A manhã clara
de frágil transparência, o amor perdido,
aqueduto de areia e de palavras,
coisa móvel e morta como um rio.

Inventamos o tempo que dá às rosas
l´espace d´un matin, a suicida
amante do troiano, a angústia oca,
o never more, a solidão vazia.

No mar renasce o poema em arco-íris
ou nuvem que alimenta o cio eterno
da terra, que gerou no doce inferno
do ventre escuro o girassol e os rios.

Eterno ou transeterno, ardente ou frio,
é transitório sol e deixa a marca
na inconstância das águas este rio
que a si mesmo cavalga na jornada.


Domingos Carvalho da Silva (nasceu em Pedroso, Vila Nova de Gaia a 21 de Junho de 1915, faleceu em 26 de Abril de 2003)

Ler do mesmo autor A Fénix Refractária

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2008-06-21

A Fénix Refractária - Domingos Carvalho da Silva


Sobre o teu corpo nu, meus olhos frios
são corvos que se agitam impacientes.
Sob a tua pele, fervem as torrentes
do teu sangue, em murmúrio como os rios.

Não sei se são meus lábios ou os meus dentes
que procuram tua boca. Estão vazios
meus sonhos de paisagem. Desvarios
me disfarçam de iogue entre serpentes.

Não sei se te desejo ou se antes quero
violar-te as entranhas, como Nero,
ou arrancá-las, como o triste Anúbis.

Late em meu peito o coração à lua.
Do céu me vem o gume da charrua
que há-de lavrar as agras do teu púbis.

Domingos Carvalho da Silva nasceu em Pedroso (Vila Nova de Gaia) a 21 de Junho de 1915 mas, radicado desde 1924 no Brasil, formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito de São Paulo (1937), naturalizando-se nesse mesmo ano como cidadão brasileiro. Advogado, funcionário federal e jornalista, foi também poeta, contista e ensaísta e leccionou Teoria da Literatura na universidade de Brasília. Eis alguns dos seus livros de versos: «Rosa Extinta» (1945) e «Praia Oculta» (1949). O principal mérito da sua poesia reside na versatilidade de formas, temas e tons.

Soneto e Nota biobliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

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