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2011-12-06

Cartas de Amor - Maria Sabina

Quando recebo as minhas cartas cada dia,
tenho um lindo momento de alegria!
São notícias diversas
das criaturas amigas que, dispersas
por este mundo, aos quatro ventos,
recordam-se de mim com amizade
e, para suavizar a distância e a saudade,
vêm conversar comigo alguns momentos.
E alguém me disse um dia:
“Se tens tamanho encanto
em receber cartas amigas simplesmente,
tu que te alegras tanto,
certamente
enlouquecias de alegria,
estremecias de fervor
se estas cartas comuns fossem Cartas de Amor!"
E então me recordei que no lindo romance
que foi o meu amor,
tive tudo o que estava ao meu alcance,
todo o esplendor,
a beleza, a ternura, o encanto, a ânsia,
mas não tive a Distância
nem as Cartas de Amor.
E hoje que a Eterna Ausência nos separa
e que a Distância que ninguém transpôs,
como uma Via Láctea imensa e clara
se estende entre nós dois,
como seria bom se as estrelas cadentes,
riscando a noite com seu fulgor,
pequeninos correios refulgentes,
trouxessem lá do céu minhas Cartas de Amor!

Extraído daqui

Maria Sabina de Albuquerque, nasceu em Barbacena (MG), no dia 6 de dezembro de 1898 e faleceu, em 17 de julho de 1991, no Rio de Janeiro.

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2011-11-15

Este Poema De Amor Não É Lamento - Jorge de Lima

Love poem

Este poema de amor não é lamento
nem tristeza distante, nem saudade,
nem queixume traído nem o lento
perpassar da paixão ou pranto que há-de

transformar-se em dorido pensamento,
em tortura querida ou em piedade
ou simplesmente em mito, doce invento,
e exaltada visão da adversidade.

É a memória ondulante da mais pura
e doce face (intérmina e tranquila)
da eterna bem-amada que eu procuro;

mas tão real, tão presente criatura
que é preciso não vê-la nem possuí-la
mas procurá-la nesse vale obscuro.


Extraído de 366 poemas que falam de amor, uma antologia organizada por Vasco da Graça Moura, Quetzal Editores

Jorge Matheus de Lima (nasceu em União de Palmares, Alagoas a 23 de Abril de 1893 e faleceu no Rio de Janeiro a 15 de Novembro de 1953).

Ler do mesmo autor:
O Acendedor de Lampiões
Distribuição Da Poesia
O Mundo do Menino Impossível
Minha Sombra

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2011-08-06

Entardecer na Praia da Luz - Albano Martins

Hibiscos - Acrílico em Tela; 130cm x 60cm x 4cm; Gilda Rachele

Espreguiçados, os ramos
das palmeiras filtram
a luz que sobra
do dia. É já noite
nas folhas. O branco
das paredes recolhe
o sangue e o vinho
de buganvílias
e hibiscos. Bebe-os
de um trago: saberás
que, mais do que cegueira, a noite
é uma embriaguez perfeita.

in "Castália e Outros Poemas"

Albano Dias Martins (nasceu na aldeia do Telhado - e não, como consta do seu registo de nascimento, em Póvoa de Atalaia -, no concelho de Fundão em 6 de Agosto de 1930)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Crepúsculo de Agosto
E me disseste: vem

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2011-06-26

Recordações - Francisco Otaviano


Oh! se te amei! Toda a manhã da vida
Gastei-a em sonhos que de ti falavam!
Nas estrelas do céu via teu rosto,
Ouvia-te nas brisas que passavam:
Oh! se te amei! Do fundo de minh’alma
Imenso, eterno amor te consagrei...
Era um viver em cisma de futuro!
Mulher! oh! se te amei!

Quando um sorriso os lábios te roçava,
Meu Deus! que entusiasmo que sentia!
Láurea coroa de virente rama
Inglório bardo, a fronte me cingia;
À estrela alva, às nuvens do Ocidente,
Em meiga voz teu nome confiei.
Estrela e nuvens bem no seio o guardam;
Mulher! oh! se te amei!

Oh! se te amei! As lágrimas vertidas,
Alta noite por ti; atroz tortura
Do desespero d’alma, e além, no tempo,
Uma vida sumir-se na loucura...
Nem aragem, nem sol, nem céu, nem flores,
Nem a sombra das glórias que sonhei...
Tudo desfez-se em sonhos e quimeras...
Mulher! oh! se te amei!


Francisco Otaviano de Almeida Rosa (n. no Rio de Janeiro a 26 de Jun 1825; m. no Rio de Janeiro a 28 Maio 1889 ou 28 de Junho de 1889)

Ler do mesmo autor: Soneto: Morrer, dormir, não mais...;
Ilusões de Vida

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2011-01-23

O AMOR - Ibn Al-Farid

É o amor. Preserva as tuas entranhas,
porque a paixão não é fácil,
e tudo o que se elege se consome,
ainda que tenha razão.
Vive livre dele,
porque a calma do amor é a fadiga,
indisposição o seu começo, e morte o seu final.
Para mim, sem dúvida,
o morrer por amor é um viver,
e o favor o devo àquele que amo.
Dou-te estes conselhos
porque conheço muito bem o que é o amor.
Mas se tu preferes contradizer-me,
escolhe o que muito bem te agradar.
Se desejas viver prazenteiramente
morre mártir por ele; se não o fizeres,
o amor tem já a sua própria gente.
Quem não morre de amor, por ele não vive.
E o mel não o podes colher
sem te expores às picadas das abelhas.



in Qual é a Minha Língua ou a Tua Cem poemas de amor de outras línguas, organização Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim

Ibn al-Farid (Arab poet), b. March 22, 1181 or March 11, 1182; d. Cairo Jan. 23, 1235

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2011-01-21

Primavera esperada - Manuel Neto dos Santos

Vem amor, quando chegar a Primavera,
Fazer com que floresça o meu sorrir,
Prender-me com os teus braços de hera
E amar-me no regaço do devir.
Vem amor, quando a terra florescer
E o ar almiscarado de perfume,
Em brisa de ternura te disser
Que acendas no meu corpo esse teu lume.
Vem amor, quando a greda revolvida
Florir, numa aguarela aveludada;
Boninas, lírios brancos, açucenas...

Vem, amor! Quando o dia, a alvorada,
Florir as flores, mesmo as mais pequenas
E traz-me, então, de volta a própria vida.


in Os dias do Amor, Um poema para cada dia do ano; recolha, selecção e organização de Inês Ramos; Prefácio de Henrique Manuel Bento Fialho. Ministério dos Livros.

Manuel Neto dos Santos nasceu em Alcantarilha, Silves no dia 21 de Janeiro de 1959.

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2011-01-20

AO PERDER-TE - Ernesto Cardenal

1.
Ao perder-te a ti perdemos os dois
eu porque tu eras o que eu mais amava
e tu porque eu era quem mais te amava.
Mas de nós os dois és tu quem perde mais
porque eu poderei amar outras como te amava a ti.
Mas a ti não te hão-de amar como eu te amava

2.
Contaram-me que estavas apaixonada por outro
e então fui para o meu quarto
e escrevi um artigo contra o governo
razão pela qual estou preso

in Qual é a Minha ou a Tua Língua. Cem poemas de amor de outras línguas. Organização de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim

Ernesto Cardenal Martínez (nasceu em 20 de janeiro de 1925 em Granada na Nicarágua).

PS: quando se tem desgostos de amor apetece escrever contra o governo e vai-se preso

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2010-12-08

O Nosso Livro - Florbela Espanca

Livro do meu amor, do teu amor,
Livro do nosso amor, do nosso peito…
Abre-lhe as folhas devagar, com jeito,
Como se fossem pétalas de flor.

Olha que eu outro já não sei compor
Mais santamente triste, mais perfeito
Não esfolhes os lírios com que é feito
Que outros não tenho em meu jardim de dor!

Livro de mais ninguém! Só meu! Só teu!
Num sorriso tu dizes e digo eu:
Versos só nossos mas que lindos sois!

Ah, meu Amor! Mas quanta, quanta gente
Dirá, fechando o livro docemente:
"Versos só nossos, só de nós os dois!…"


Florbela Espanca (n. Vila Viçosa, 8 Dez. 1894; m. Matosinhos em 8 Dez. 1930)

Ler neste blog da mesma autora:
Horas Rubras
Tarde de Mais
Ser poeta é
Amar!
Soror Saudade
Se tu viesses ver-me hoje à tardinha
Cantigas leva-as o vento

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2010-11-13

Love - What Is Love? - Robert Louis Stevenson

LOVE - what is love? A great and aching heart;
Wrung hands; and silence; and a long despair.
Life - what is life? Upon a moorland bare
To see love coming and see love depart.


Robert Louis Stevenson was born in Edinburgh, Scotland, on Nov. 13, 1850; d. Dec. 3, 1894, Apia, Samoa)

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2010-10-19

Cântico - Vinicius de Moraes (na passagem do 97º. aniversário)

Inesquecível Vinicius não podia deixar de ser relembrado aqui hoje na passagem do 97º. aniversário, com mais um poema/cântico em que o amor sempre está presente. Nos livros muitas vezes começo por ler as últimas páginas como aperitivo para a sua leitura. Pois a selecção do poema de hoje começou pela leitura dos últimos versos:

Oh, deixa-me brincar, que te amo tanto
Que se não brinco, choro, e desse pranto
Desse pranto sem dor, que é o único amigo
Das horas más em que não estás comigo.

Mas aí vai, então, o poema completo:

Cântico

Não, tu não és um sonho, és a existência
Tens carne, tens fadiga e tens pudor
No calmo peito teu. Tu és a estrela
Sem nome, és a morada, és a cantiga
Do amor, és luz, és lírio, namorada!
Tu és todo o esplendor, o último claustro
Da elegia sem fim, anjo! mendiga
Do triste verso meu. Ah, fosses nunca
Minha, fosses a idéia, o sentimento
Em mim, fosses a aurora, o céu da aurora
Ausente, amiga, eu não te perderia!
Amada! onde te deixas, onde vagas
Entre as vagas flores? e por que dormes
Entre os vagos rumores do mar? Tu
Primeira, última, trágica, esquecida
De mim! És linda, és alta! és sorridente
És como o verde do trigal maduro
Teus olhos têm a cor do firmamento
Céu castanho da tarde – são teus olhos!
Teu passo arrasta a doce poesia
Do amor! prende o poema em forma e cor
No espaço; para o astro do poente
És o levante, és o Sol! eu sou o giro
O giro, o girassol. És a soberba
Também, a jovem rosa purpurina
És rápida também, como a andorinha!
Doçura! lisa e murmurante... a água
Que corre no chão morno da montanha
És tu; tens muitas emoções; o pássaro
Do trópico inventou teu meigo nome
Duas vezes, de súbito encantado!
Dona do meu amor! sede constante
Do meu corpo de homem! melodia
Da minha poesia extraordinária!
Por que me arrastas? Por que me fascinas?
Por que me ensinas a morrer? teu sonho
Me leva o verso à sombra e à claridade.
Sou teu irmão, és minha irmã; padeço
De ti, sou teu cantor humilde e terno
Teu silêncio, teu trêmulo sossego
Triste, onde se arrastam nostalgias
Melancólicas, ah, tão melancólicas...
Amiga, entra de súbito, pergunta
Por mim, se eu continuo a amar-te; ri
Esse riso que é tosse de ternura
Carrega-me em teu seio, louca! sinto
A infância em teu amor! cresçamos juntos
Como se fora agora, e sempre; demos
Nomes graves às coisas impossíveis
Recriemos a mágica do sonho
Lânguida! ah, que o destino nada pode
Contra esse teu langor; és o penúltimo
Lirismo! encosta a tua face fresca
Sobre o meu peito nu, ouves? é cedo
Quanto mais tarde for, mais cedo! a calma
É o último suspiro da poesia
O mar é nosso, a rosa tem seu nome
E recende mais pura ao seu chamado.
Julieta! Carlota! Beatriz!
Oh, deixa-me brincar, que te amo tanto
Que se não brinco, choro, e desse pranto
Desse pranto sem dor, que é o único amigo
Das horas más em que não estás comigo.

Extraído de Vinicius de Moraes - Antologia Poética, Publicações Dom Quixote

Vinicius de Moraes (n. Rio de Janeiro a 19 Out 1913; m. Rio de Janeiro, 9 Jul 1980)

Ler neste blog do/sobre o autor:
Soneto da Separação
Saudades do Brasil em Portugal
Soneto do Amor Total
Poética I
Mar
Poema de Todas as Mulheres
Soneto de Fidelidade
Pela luz dos olhos teus
Dialectica
Aquarela
Amigos

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2010-10-18

Força de Cretcheu - Eugénio Tavares

Ca tem nada nes' vida
mas grande qui amor,
se Deus ca tem medida,
amor inda é maior,
amor inda ê maior
maior que mar, que céu
ma de entre otos cretcheu
di meu inda ê maior

Crecheu más sabe,
É quel que é de meu.
El é que é chabe
Que abrim nha ceu...
Crecheu mas sabe
É quel
Que q'rem...
Se já'n perdel
Morte já bem...

Ó força de cretcheu,
Abri nha asa em flor
Pam pode subi ceu,
Pam bá pidi simenti
De amor coma es di meu,
Pam bem da tudo gente,
Pa tudo conchê céu!

Eugénio de Paula Tavares (n. Ilha Brava, Cabo Verde a 18 Out 1861; m. 1 Junho de 1930)

Ler do mesmo autor: Canção ao Mar

Ouçamos esta bela morna na voz de Gardénia Benrós
Força Di Cretcheu by Gardénia Benrós on Grooveshark

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2010-07-16

Un Poema de Amor - Nicolás Guillén

No sé. Lo ignoro.
Desconozco todo el tiempo que anduve
sin encontrarla nuevamente.
¿Tal vez un siglo? Acaso.
Acaso un poco menos: noventa y nueve años.
¿O un mes? Pudiera ser. En cualquier forma
un tiempo enorme, enorme, enorme.

Al fin, como una rosa súbita,
repentina campánula temblando,
la noticia.
Saber de pronto
que iba a verla otra vez, que la tendría
cerca, tangible, real, como en los sueños.
¡Qué explosión contenida!
¡Qué trueno sordo
rodándome en las venas,
estallando allá arriba
bajo mi sangre, en una
nocturna tempestad!
¿Y el hallazgo, en seguida? ¿Y la manera
de saludarnos, de manera
que nadie comprendiera
que ésa es nuestra propia manera?
Un roce apenas, un contacto eléctrico,
un apretón conspirativo, una mirada,
un palpitar del corazón
gritando, aullando con silenciosa voz.
Después
(ya lo sabéis desde los quince años)
ese aletear de las palabras presas,
palabras de ojos bajos,
penitenciales,
entre testigos enemigos.
Todavía
un amor de "lo amo",
de "usted", de "bien quisiera,
pero es imposible"... De "no podemos,
no, piénselo usted mejor"...
Es un amor así,
es un amor de abismo en primavera,
cortés, cordial, feliz, fatal.
La despedida, luego,
genérica,
en el turbión de los amigos.
Verla partir y amarla como nunca;
seguirla con los ojos,
y ya sin ojos seguir viéndola lejos,
allá lejos, y aun seguirla
más lejos todavía,
hecha de noche,
de morderdura, beso, insomnio,
veneno, éxtasis, convulsión,
suspiro, sangre, muerte...
Hecha
de esa sustancia conocida
con que amasamos una estrella.

Nicolás Cristóbal Guillén Batista (n. Camagüey, Cuba, 10 de jul de 1902 - m. La Habana 16 de jul de 1989).

Ler do mesmo autor neste blog:
Responde tu (version original)
Responde tu (tradução em português)

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2010-07-06

Feiticeira - Delfim Guimarães

Nunca lhe confessara o amor ardente
Que ela em mim despertou, mal eu a vira;
Escondia-o no peito, avaramente,
Receando que alguém mo descobrira

Guardava-o o'ra comigo unicamenre...
Arrancar-mo? Ninguém o conseguira!
Dizer-lho a ela? Nem sequer à mente
Essa ideia, confesso, me acudira.

Mas certo dia, em seu olhar tão doce
Vi fulgir um clarão, o quer que fosse
Que me intrigou...Interroguei-a a medo,

E soube então, surpreso e alvoroçado,
Que os seus olhos haviam desvendado
O que eu na alma guardava: o meu segredo!


in «Os Dias do Amor, um poema para cada dia do ano», recolha, selecção e organização de Inês Ramos, Ministério dos Livros

Delfim de Brito Guimarães (n. no Porto, em 4 de Agosto de 1872; m. na Amadora em 6 de Julho de 1933).

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2010-06-15

Citação do dia - A liberdade e o amor...

A liberdade é incompatível com o amor: um amante é sempre um escravo.


Marguerite Jeanne Cordier de Launay, baronne de Staal (n. Paris 30 Ago 1684 – 15 Jun 1750)

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2010-06-13

Dá a surpresa de ser - Fernando Pessoa

Dá a surpresa de ser.
É alta, de um louro escuro.
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem
(Se ela estivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem ter que haver madrugada.

E a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado.

Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?


Em «366 poemas que falam de amor, uma antologia organizada por Vasco da Graça Moura, Quetzal Editores»

FERNANDO António Nogueira PESSOA nasceu a 13 de Junho de 1888 e faleceu em Lisboa a 30 de Novembro de 1935).

Mais poemas de Fernando Pessoa, neste blog:
Deus Sabe Melhor Do Que Eu
Suspense / Ansiedade
Tabacaria
Liberdade
Não Quero Recordar Nem Conhecer-me (Ricardo Reis)
Intervalo - Bernardo Soares
O guardador de rebanhos - X (Alberto Caeiro)
O guardador de rebanhos - XXI (Alberto Caeiro)
O guardador de rebanhos - XXVIII (ALlberto Caeiro)
O Tejo é mais belo ...
Não sei se é sonho se é realidade
Odes - Ricardo Reis
Cruz na porta da tabacaria
Fragmentos do Livro do desassossego - Bernardo Soares
Afinal a melhor maneira de viajar é sentir...
Todas as cartas de amor são...
Se te queres matar ...
Dai-me rosas e lírios...
Sou vil, sou reles como toda a gente...
Não sei se é amor que tens
O que há em mim é sobretudo cansaço
Mar português
Ode marcial - h
Lycanthropy
Conselho
Para além da curva da estrada (Alberto Caeiro)
Sopra demais o vento
Poema da Canção sobre a Esperança
Soneto 1 de 35 sonetos (Poesia Inglesa) - em português
Sonnet 1 (from 35 Sonnets)
O amor é uma companhia
Quando vier a Primavera (Alberto Caeiro)

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2010-06-01

Castelo em Ruínas - António Feijó

Broken Heart  by Lucaszoltovskyimagem daqui

Meu triste coração, como um castelo antigo,
Que a legenda vestiu de espectro e visões,
A lembrança do tempo em que sonhou contigo
Sustenta-o como a hera as velhas construções,
Meu triste coração, como um castelo antigo,

De noite, quando o orvalho os lírios humedece,
Como se a lua andasse e os astros a chorar,
Nas sombras da ruína afirmam que aparece
Uma estranha visão de alvura singular,
De noite, quando o orvalho os lírios humedece.

Semelhante à visão que no castelo existe,
Também no coração, rasgado pela dor,
Eu sinto perpassar, no seu sudário triste,
O espectro sepulcral do meu perdido Amor,
Semelhante à visão que no castelo existe...


(in Poesias Completas, António Feijó, Caixotim Edições)

António Joaquim de Castro Feijó, nasceu em Ponte de Lima a 1 de Junho de 1859 e faleceu em Upsala na Suécia a 20 Junho 1917).

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2010-04-08

Convite - Egito Gonçalves

Woman with a Flower - 1932
by Pablo Picasso (nasceu em Málaga a 25 Out 1881
e m. em Mougins, França a 8 Abr. 1973)


Nesta fase em que só o amor me interessa
o amor de quem quer que seja
do que quer que seja
o amor de um pequeno objecto
o amor dos teus olhos
o amor da liberdade

o estar à janela amando o trajecto voado
das pombas na tarde calma

nesta fase em que o amor é a música de rádio
que atravessa os quintais
e a criança que corre para casa
com um pão debaixo do braço

nesta fase em que o amor é não ler os jornais

podes vir podes vir em qualquer caravela
ou numa nuvem ou a pé pelas ruas
- aqui está uma janela acolá voam as pombas -

podes vir e sentar-te a falar com as pálpebras
pôr a mão sob o rosto e encher-te de luz

porque o amor meu amor é este equilíbrio
esta serenidade de coração e árvores

(in 366 poemas que falam de amor, uma antologia organizada por Vasco Graça Moura, Quetzal Editores)

José Egito de Oliveira Gonçalves (nasceu em Matosinhos, 8 de Abril de 1922 - m. Porto, 29 de Janeiro de 2001)

Ler do mesmo autor, neste blog:
O Teu Ombro Sabe
A Aventura É Ficar
Com palavras

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2010-03-27

Silêncio amoroso - Affonso Romano de Sant'Anna

Deixe que eu te ame em silêncio.
Não pergunte, não se explique, deixe
Que nossas línguas se toquem, e as bocas
E a pele
Falem seus líquidos desejos.

Deixe que eu te ame sem palavras
A não ser aquelas que na lembrança ficarão
Pulsando para sempre
Como se o amor e a vida
Fossem um discurso
De impronunciáveis emoções.

in Os dias do Amor, um poema para cada dia do ano; recolha, selecção e organização de Inês Ramos; Prefácio de Henrique Manuel Bento Fialho; Ministério dos Livros

Affonso Romano de Sant'Anna (nasceu em Belo Horizonte a 27 de Março de 1937)

Ler do mesmo autor, neste blog, Arte-final

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2010-02-28

Amor Condusse Noi Ad Una Morte - Paulo Mendes Campos

Quando o olhar adivinhando a vida
Prende-se a outro olhar de criatura
O espaço se converte na moldura
O tempo incide incerto sem medida

As mãos que se procuram ficam presas
Os dedos estreitados lembram garras
Da ave de rapina quando agarra
A carne de outras aves indefesas

A pele encontra a pele e se arrepia
Oprime o peito o peito que estremece
O rosto a outro rosto desafia

A carne entrando a carne se consome
Suspira o corpo todo e desfalece
E triste volta a si com sede e fome.

Paulo Mendes Campos nasceu em Belo Horizonte (MG) a 28 de Fevereiro de 1922 e faleceu no Rio de Janeiro a 1 de Julho de 1991. Em Porto Alegre (RS), cursou a Escola Preparatória de Cadetes e tentou Direito, Odontologia, Veterinária, antes de se fixar no Rio, em 1945, onde se dedicou ao jornalismo. Cronista e poeta, o soneto que o representa nesta colectânea foi tirado de «A Palavra Escrita» (1951).

Poema e nota biobliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto

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2010-02-01

Esta Areia Fina - Fernando Assis Pacheco

Não sei
se o que chamam amor é este apaziguamento.
Não sei se comias fogo. Tuas abelhas
voam agora em círculos tranquilos.
Mães serenam seus filhos no ventre,
não sei se o que enfim chamam
amor é esta areia fina.

Agora estamos um dentro do outro,
fazemos longas visitas deslumbradas
porque «o nosso prazer lembra um rio vagaroso
no meio de juncos ao cair da tarde.»

As palavras tornam-se esquivas. Com o silêncio
falaríamos melhor de tudo isto.
Não sei se o que chamam amor
é a cama desfeita o sol fugindo,
uma vontade louca de beber
a grandes goles a noite entorpecente.

Com o silêncio, o silêncio sem nome:
morrermos a meio do filme
simples, calada, delicadamente.
Eras tu, amor? — Era eu, era eu!

Um barco junto à margem. E cegonhas.

in 366 poemas que falam de amor, uma antologia organizada poor Vasco da Graça Moura, Quetzal Editores

Fernando Santiago Mendes de Assis Pacheco (n. Coimbra, 1 de Fevereiro de 1937; m. em Lisboa a 30 de Novembro de 1995)

Ler do mesmo autor neste blog
Sem que tu soubesses
Um Vento Leve Uma Espuma
O Dia em Que Nasci

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