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2012-11-12

5ª Edição do BookCrossing Blogueiro



1, o livro de poesia de Gonçalo M. Tavares, foi  por mim selecionado para dar concretização à 5ª. Edição do  BookCrossing Blogueiro, uma iniciativa da Luz de Luma, yes Party e já com grande adesão na comunidade blogueira, e que visa dar vida (isto é dar andamento, divulgar, dar, permitir que outros leiam) à vida intrínseca que os livros têm, mas que pode estar em estado de "coma" quando encostados numa estante durante, dias, meses, anos... sem partilha.

Dele extraímos, para que todos que visitam este espaço o possam ler (e não apenas o felizardo que encontrar o livro "perdido" num banco do jardim S. Lázaro no Porto - por sinal pertinho da Biblioteca Municipal do Porto):

o perto, o longe

Não há definições minuciosas, quando aproximamos
O olhar daquilo que conhecemos surge o espanto,
Por vezes assustamo-nos; é no pormenor
Daquilo que é familiar que surge o perigo, e um certo
Desencanto. Por vezes é
Melhor não olharmos tempo de mais para o que
Amamos, alguém disse.
Dá atenção ao inimigo para o conseguires
Amar, não analises o que amas para que nenhum erro
Se infiltre no encanto. Se fiz isto, se o faço?

(Gonçalo M. Tavares, in "1"/ Relógio D' Água Editores)

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2011-07-08

O hospital - Gonçalo M. Tavares


imagem daqui; autor: Maria Rita

Faz bem, de quando em quando, contactares com
o sofrimento dos outros.
Aprendes assim que, para além do sol,
há outros astros. A noite, instrumentos exactos e fundos.
Um enfermeiro passa de calças brancas
transportando na maca um moribundo ou um morto.
As calças são quase transparentes e por baixo são visíveis
as cuecas do enfermeiro,
com tiras verticais. Um pormenor.
Enfermeiro simpático, que sorri para quem se encontra
sentado a ver passar o moribundo ou o morto.
E ainda mais. Uma negra segurando
o filho de 20 anos que mal consegue andar.
O velho com tiques nas sobrancelhas, a barba branca,
assimétrica, feia; e uma rapariga que atravessa
o corredor com uma saia curta e dois seios grandes
à frente. Apesar de tudo, disse um amigo
em conversa, mesmo num hospital o número de
pessoas excitadas deve ultrapassar o número de mortos.
E se isto não salva, em definitivo, a humanidade,
pelo menos ajuda-a temporariamente.
É um corredor de hospital, o que não pressupõe,
logo à partida, nada de maravilhoso,
mas a vontade dos vivos é ainda quem manda.
E tudo isto é também sinal de que não estamos em guerra,
morremos não por bombas, mas por tropeçar
desastradamente nos hábitos ou na vida;
facto que, como toda a gente
sabe, não é raro em nenhuma profissão.


Extraído de 1, Relógio D'Água, 2ª. Edição, Março de 2011.

Gonçalo M. Tavares nasceu em Angola em Agosto de 1970

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