Blog Widget by LinkWithin
Mostrar mensagens com a etiqueta Guerra Junqueiro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Guerra Junqueiro. Mostrar todas as mensagens

2014-07-07

Regresso ao Lar - Guerra Junqueiro

Ai, há quantos anos que eu parti chorando
deste meu saudoso, carinhoso lar!...
Foi há vinte?... Há trinta?... Nem eu sei já quando!...
Minha velha ama, que me estás fitando,
canta-me cantigas para me eu lembrar!...

Dei a volta ao mundo, dei a volta à Vida...
Só achei enganos, decepções, pesar...
Oh! a ingénua alma tão desiludida!...
Minha velha ama, com a voz dorida.
canta-me cantigas de me adormentar!...

Trago d'amargura o coração desfeito...
Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!
Nunca eu saíra do meu ninho estreito!...
Minha velha ama que me deste o peito,
canta-me cantigas para me embalar!...

Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho
pedrarias d'astros, gemas de luar...
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!...
Minha velha ama, sou um pobrezinho...
Canta-me cantigas de fazer chorar!...

Como antigamente, no regaço amado
(Venho morto, morto!...), deixa-me deitar!
Ai, o teu menino como está mudado!
Minha velha ama, como está mudado!
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!...

Canta-me cantigas manso, muito manso...
tristes, muito tristes, como à noite o mar...
Canta-me cantigas para ver se alcanço
que a minha alma durma, tenha paz, descanso,
quando a morte, em breve, ma vier buscar!


in «Os Simples»

Extraído de Guerra Junqueiro Antologia, Moderna Editorial Lavores, Estarreja

Guerra Junqueiro (n. Freixo de Espada à Cinta 15 de setembro de 1850 ; m. Lisboa a 7 de julho de 1923).
Ler do mesmo autor:
Adoração
A Moleirinha
Morena
Canção Perdida
Os Pobrezinhos
Memória de minha mãe
A Árvore do Mal

Read More...

2013-07-07

Adoração - Guerra Junqueiro (na passagem dos 90 anos sobre o seu desaparecimento)

Ao luarimagem daqui

Eu não te tenho amor simplesmente. A paixão
Em mim não é amor; filha, é adoração!
Nem se fala em voz baixa à imagem que se adora.
Quando da minha noite eu te contemplo, aurora,
E, estrela da manhã, um beijo teu perpassa
Em meus lábios, oh! quando essa infinita graça
do teu piedoso olhar me inunda, nesse instante
Eu sinto ? virgem linda, inefável, radiante,
Envolta num clarão balsâmico da lua,
A minh'alma ajoelha, trémula, aos pés da tua!
Adoro-te!... Não és só graciosa, és bondosa:
Além de bela és santa; além de estrela és rosa.
Bendito seja o deus, bendita a Providência
Que deu o lírio ao monte e à tua alma a inocência,
O deus que te criou, anjo, para eu te amar,
E fez do mesmo azul o céu e o teu olhar!...

extraído de Os dias do Amor, Um poema para cada dia do ano, Recolha, selecção e organização de Inês Ramos, Prefácio de Henrique Manuel Bento Fialho, Ministério dos Livros Editores.


Guerra Junqueiro (n. Freixo de Espada à Cinta 17 de Setembro de 1850 ; m. Lisboa a 7 de Julho de 1923).
Ler do mesmo autor:
Adoração
Regresso ao Lar
A Moleirinha
Morena
Canção Perdida
Os Pobrezinhos
Memória de minha mãe
A Árvore do Mal

Read More...

Nos 90 anos da morte de Guerra Junqueiro: FIEL

Quando a luz se apaga é que a consciência se ilumina.
As almas são como os morcegos: vêm melhor às escuras.

     
Na luz do seu olhar tão lânguido, tão doce,
        Havia o que quer que fosse
        D’um íntimo desgosto:
Era um cão ordinário, um pobre cão vadio
Que não tinha coleira e não pagava imposto.
Acostumado ao vento e acostumado ao frio,
Percorria de noite os bairros da miséria
        Á busca dum jantar. 
E ao ver surgir da lua a palidez etérea,
O velho cão uivava uma canção funérea,
Triste como a tristeza ossiânica do mar.
Quando a chuva era grande e o frio inclemente,
Ele ia-se abrigar às vezes nos portais;
E mandando-o partir, partia humildemente,
Com a resignação nos olhos virginais.
Era tranquilo e bom como as pombinhas mansas; 
Nunca ladrou dum pobre à capa esfarrapada:
E, como não mordia as tímidas crianças,
As crianças então corriam-no a pedrada.

Uma vez casualmente, um mísero pintor
        Um boémio, um sonhador,
Encontrara na rua o solitário cão;
O artista era uma alma heróica e desgraçada,
Vivendo num escura e pobre água furtada,
Onde sobrava o génio e onde faltava o pão.
Era desses que tem o rubro amor da glória, 
        O grande amor fatal,
Que umas vezes conduz às pompas da vitória,
E que outras vezes leva ao quarto do hospital.
E ao ver por sobre o lodo o magro cão plebeu,
Disse-lhe: - “O teu destino é quase igual ao meu:
Eu sou como tu és, um proletário roto,
Sem família, sem mãe, sem casa, sem abrigo;
E quem sabe se em ti, ó velho cão de esgoto,
Eu não irei achar o meu primeiro amigo!...”
No céu azul brilhava a lua etérea e calma;
E do rafeiro vil no misterioso olhar
Via-se o desespero e ânsia d’uma alma,
Que está encarcerada, e sem poder falar.
O artista soube ler naquele olhar em brasa
A eloquente mudez dum grande coração;
E disse-lhe: - “Fiel, partamos para casa:
Tu és o meu amigo, e eu sou o teu irmão.–“

E viveram depois assim por longos anos,
Companheiros leais, heróicos puritanos,
Dividindo igualmente as privações e as dores.
Quando o artista infeliz, exausto e miserável,
Sentia esmorecer o génio inquebrantável
            Dos fortes lutadores;
Quando até lhe acudiu às vezes a lembrança
Partir com uma bala a derradeira esp’rança,
Por um ponto final no seu destino atroz;
Nesse instante do cão os olhos bons, serenos,
Murmura-lhe: - Eu sofro, e a gente sofre menos,
Quando se vê sofrer também alguém por nós. –

Mas um dia a Fortuna, a deusa milionária,
Entrou-lhe pelo quarto, e disse alegremente:
“Um génio como tu, vivendo como um pária,
Agrilhoado da fome à lúgubre corrente!
Eu devia fazer-te há muito esta surpresa,
Eu devia ter vindo aqui p’ra te buscar;
Mas moravas tão alto! E digo-o com franqueza
Custava-me subir até ao sexto andar.
Acompanha-me; a glória há de ajoelhar-te aos pés!...”
E foi; e ao outro dia as bocas das Frinés
Abriram para ele um riso encantador;
A glória deslumbrante iluminou-lhe a vida
Como bela alvorada esplêndida, nascida
A toques de clarim e a rufos de tambor!

            Era feliz. O cão
Dormia na alcatifa à borda do seu leito,
E logo de manhã vinha beijar-lhe a mão,
Ganindo com um ar alegre e satisfeito.
Mas aí! O dono ingrato, o ingrato companheiro,
Mergulhado em paixões, em gozos, em delícias,
Já pouco tolerava as festivas carícias
            Do seu leal rafeiro.

Passou-se mais um tempo; o cão, o desgraçado,
        Já velho e no abandono,
Muitas vezes se viu batido e castigado
Pela simples razão de acompanhar seu dono.
Como andava nojento e lhe caíra o pelo,
Por fim o dono até sentia nojo ao vê-lo,
E mandava fechar-lhe a porta do salão.
Meteram-no depois num frio quarto escuro,
E davam-lhe a jantar um osso branco e duro,
Cuja carne servira aos dentes d’outro cão.

E ele era como um roto, ignóbil assassino,
Condenado à enxovia, aos ferros, às galés:
Se se punha a ganir, chorando o seu destino,
Os exibia ao sol as podridões obscenas,
Poisava-lhe no dorso o causticante enxame
criados brutais davam-lhe pontapés.
Corroera-lhe o corpo a negra lepra infame.
Quando exibia ao sol as podridões obscenas,
Poisava-lhe no dorso o causticante enxame
            Das moscas das gangrenas.

Até que um dia, enfim, sentindo-se morrer,
Disse ”Não morrerei ainda sem o ver;
A seus pés quero dar meu último gemido...”
Meteu-se-lhe no quarto, assim como um bandido.
E o artista ao entrar viu o rafeiro imundo,
            E bradou com violência:
“Ainda por aqui o sórdido animal!
É preciso acabar com tanta impertinência,
Que esta besta está podre, e vai cheirando mal!”
E, pousando-lhe a mão cariciosamente,
Disse-lhe com um ar de muito bom amigo:
“Ó meu pobre Fiel, tão velho e tão doente,
Ainda que te custe anda daí comigo.”

E partiram os dois. Tudo estava deserto.
A noite era sombria; o cais ficava perto;
E o velho condenado, o pobre lazarento,
            Cheio de imensas mágoas
Sentiu junto de si um pressentimento
O fundo soluçar monótono das águas.

Compreendeu enfim! Tinha chegado à beira
            Da corrente. E o pintor,
Agarrando uma pedra atou-lh’a na coleira,
Friamente cantando uma canção d’amor.

E o rafeiro sublime, impassível, sereno,
Lançava o grande olhar às negras trevas mudas
Com aquela amargura ideal do Nazareno
Recebendo na face o ósculo de Judas.
Dizia para si: “È o mesmo, pouco importa.
Cumprir o seu desejo é esse o meu dever:
Foi ele que me abriu um dia a sua porta:
Morrerei, se lhe dou com isso algum prazer.”

            Depois, subitamente
O artista arremessou o cão na água fria.
E ao dar-lhe o pontapé caiu-lhe na corrente
            O gorro que trazia
Era uma saudosa, adorada lembrança
            Outrora concedida
Pela mais caprichosa e mais gentil criança,
Que amara, como se ama uma só vez na vida.

E ao recolher à casa ele exclamava irado:
“E por causa do cão perdi o meu tesouro!
Andava bem melhor se o tenho envenenado!
Maldito seja o cão! Dava montanhas d’oiro,
Dava a riqueza, a glória, a existência, o futuro,
Para tornar a ver o precioso objecto,
Doce recordação daquele amor tão puro.”
E deitou-se nervoso, alucinado, inquieto.
            Não podia dormir.
Até nascer da manhã o vivido clarão,
Sentiu bater à porta! Ergueu-se e foi abrir.
Recuou cheio de espanto: era o Fiel, o cão,
Que voltava arquejante, exânime, encharcado,
A tremer e a uivar no último estertor,

Caindo-lhe da boca, ao tombar fulminado,
            O gorro do pintor!

in A Musa em Férias (Idílios e Sátiras)

Abilio Manuel Guerra Junqueiro nasceu em Freixo de Espada à Cinta em  - faleceu em Lisboa a 7 de Julho de 1923

Read More...

2011-09-17

OS POBRESINHOS - Guerra Junqueiro

Pobres de pobres são pobresinhos,
Almas sem lares, aves sem ninhos…

Passam em bandos, em alcateias,
Pelas herdades, pelas aldeias.

É em Novembro, rugem procellas… Deos nos acuda, nos livre d'ellas!

Vem por desertos, por estevaes,
Mantas aos hombros, grandes bornaes.

Como farrapos, coisas sombrias,
Trapos levados nas ventanias…

Filhos de Christo, filhos d'Adão,
Buscam no mundo codeas de pão!

Ha-os ceguinhos, em treva densa,
D'olhos fechados desde nascença.

Ha-os com f'ridas esburacadas,
Roxas de lirios, já gangrenadas.

Uns de voz rouca, grandes bordões,
Quem sabe lá se serão ladrões!…

Outros humildes, riso magoado,
Lembram Jesus que ande disfarçado…

Engeitadinhos, rotos, sem pão,
Tremem maleitas d'olhos no chão…

Campos e vinhas!… hortas com flores!…
Ai, que ditosos os lavradores!

Olha, fumegam tectos e lares…
Fumo tão lindo!… branco, nos ares!…

Batem ás portas, erguem-se as mães,
Choram meninos, ladram os cães…

Resam e cantam, levam a esmola,
Vinho no bucho, pão na sacola.

Fructa da horta, caldo ou toucinho,
Dão sempre os pobres a um pobresinho.

Um que tem chagas, velho, coitado,
Quer ligaduras ou mel-rosado.

Outro, promessa feita a Maria,
Deitam-lhe azeite na almotolia.

Pelos alpendres, pelos curraes,
Dormem deitados como animaes.

Em caravanas, em alcateias,
Vão por herdades, vão por aldeias…

Sabem cantigas, oraçõesinhas,
Contos d'estrellas, reis e rainhas…

Choram cantando, penam resando,
Ai, só a morte sabe até quando!

Mas no outro mundo Deos lhes prepara
Leito o mais alvo, ceia a mais rara…

Os pés doridos lh'os lavarão
Santos e santas com devoção.

Para laval-os, perfumaria
Em gomil d'ouro, d'ouro a bacia.

E embalsamados, transfigurados,
Tunicas brancas, como em noivados,

Viverão sempre na eterna luz,
Pobres bemditos, amen, Jesus!…


Outubro—91

in Os Simples, PORTO, TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL, MDCCCXCII


Guerra Junqueiro (n. em Ligares, povoação de Freixo de Espada à Cinta 17 ou 15 de Setembro de 1850* ; m. Lisboa a 7 de Julho de 1923).

* Não há unanimidade quanto à data de nascimento dividindo-se os autores entre estas duas datas

Ler do mesmo autor, neste blog:
Introdução (excerto)
Morena
A Árvore do Mal
Adoração
Regresso ao Lar
A Moleirinha
Canção Perdida
À Memória de Minha Mãe

Read More...

2011-07-07

Morena - Guerra Junqueiro

Não negues, confessa,
Que tens certa pena,
Que as mais raparigas,
Te chamem morena.

Pois eu não gostava,
Parece-me a mim,
De ver o teu rosto
Da cor do jasmim.

Eu não… mas enfim
É fraca a razão,
Pois pouco te importa
Que eu goste ou que não.

Mas olha as violetas
Que, sendo umas pretas,
O cheiro que têm!
Vê lá que seria,
Se Deus as fizesse
Morenas também!

Tu és a mais rara
De todas as rosas;
E as coisas mais raras
São mais preciosas.

Há rosas dobradas
E há-as singelas;
Mas são todas elas
Azuis, amarelas,

De cor de açucenas,
De muita outra cor;
Mas, rosas morenas,
Só tu, linda flor.

E olha que foram
Morenas e bem
As moças mais lindas
De Jerusalém.
E a Virgem Maria
Não sei… mas seria
Morena também.

Moreno era Cristo.
Vê lá depois disto
Se ainda tens pena
Que as mais raparigas
Te chamem morena!


in 366 poemas que falam de amor: uma antologia organizada por Vasco da Graça Moura, Quetzal Editores

Guerra Junqueiro (n. Freixo de Espada à Cinta 15 de Setembro de 1850* ; m. Lisboa a 7 de Julho de 1923).

Ler do mesmo autor, neste blog:
Introdução (excerto)
A Árvore do Mal
Adoração
Regresso ao Lar
A Moleirinha
Canção Perdida
À Memória de Minha Mãe

Read More...

2010-09-15

A Árvore do Mal - Guerra Junqueiro (nos 160 anos do nascimento)

imagem daqui

Por baixo do azul sereno, entre a fragrância
Dos mirtos, dos rosais,
Viviam numa doce e numa eterna infância
Nossos primeiros pais.


Seus corpos juvenis, mais alvos do que a Lua,
Mais puros do que os diamantes,
Conservavam ainda a virgindade nua
Das coisas ignorantes.


Pôs Deus nesse jardim com sua mão astuta
Ao lado da inocência
A Árvore do Mal que produzia a fruta
Venenosa da ciência.


E, apesar de conter venenos homicidas
E o germe do pecado,
Era Deus quem comia à noite, às escondidas,
Esse fruto vedado.


Por isso Jeová tinha ciência infinda,
Tinha um poder secreto,
E Adão que não provara os frutos era ainda
Um anjo analfabeto.


Eva colheu um dia o belo fruto impuro,
O fruto da Razão.
Nesse instante sublime Eva tinha o Futuro
Na palma da sua mão!


O homem, abandonado a submissão covarde,
Viu o fruto e comeu.
Esse fruto é a Luz que a Júpiter mais tarde
Roubará Prometeu.


E ao ver igual a si a estátua que criara,
O homem réprobo e nu,
Jeová exclamou: «Maldita seja a seara
Cuja semente és tu!»


Veio depois a Igreja e repetiu aos crentes
De toda a humanidade:
«Maldito seja sempre o que enterrar os dentes
Nos frutos da verdade!»


A Igreja permitia esse vedado pomo
Somente aos sacerdotes.
Da árvore do mal fugia o mundo, como
Os lobos dos archotes.


Se o sábio que buscava o oiro nas retortas
Ia como um ladrão
Roubar timidamente, à noite, às horas mortas,
Algum fruto do chão,


Tiravam-lhe da boca esse fruto daninho
Duma maneira suave:
Atando-lhe à garganta uma corda de linho
Suspensa duma trave.


Um dia um visionário, alma vertiginosa,
Espírito imortal,
Foi deitar-se, que horror! à sombra temerosa
Da Árvore do Mal.


A Igreja ao ver aquela intrépida heresia
Lança-lhe excomunhões;
Tomba por terra um fruto... e Newton descobria
A lei das atracções!


Sacudi, sacudi a árvore maldita,
Que os astros tombarão,
Como se sacudisse a abóbada infinita
Deus com a própria mão!


E quando o mundo inteiro enfim houver comido
Até à saciedade
O fruto que lhe estava há tanto proibido,
O fruto da Verdade,


Homens, dizei então a Jeová: -- «Tirano,
Vai-te embora daqui!
Contruímos de novo o paraíso humano;
Fizémo-lo sem ti.


Expulsaste do Olimpo a humanidade outrora,
Ó déspota feroz;
Pois bem: o Olimpo é nosso, e Jeová, agora
Expulsamos-te nós!»

Guerra Junqueiro (n. Freixo de Espada à Cinta 15 de Setembro de 1850* ; m. Lisboa a 7 de Julho de 1923).

Ler do mesmo autor, neste blog:
Introdução (excerto)
Adoração
Regresso ao Lar
A Moleirinha
Canção Perdida
Memória de minha mãe

Read More...

2010-07-07

Introdução (excerto) - Guerra Junqueiro

- Se há estrelas no céu e rosas pelo monte,
Se sabes ler Petrarca e ler Anacreonte,
Se a tua amante é bela e se o teu sangue é novo,
Deixa espingardar o coração do povo,
Deixa morrer Catão, deixa insultar a luz,
Deixa queimar Voltaire, deixa matar Jesus...
Não cessam de cantar por isso as cotovias,
Que o Pontífice lamba os pés das monarquias,
Que Tartufo conspire e D. João seduza,
Que a treva inunde a escola e a honra empenhe a blusa,
Que flamejem do mal as rúbidas crateras,
Que a tirania lance a liberdade às feras,
Que haja ódios, traições, roubos, assassinatos,
Que exerçam a justiça os filhos de Pilatos,
Que rezem cantochão as línguas das espadas,
Que o direito e Bodin caiam nas barricadas,
Que o povo tenha frio e se revolte e chore,
Que o trabalho produza, o capital devore,
E o milhão seja enfim o rei universal –
Que nos importa a nós? que importa o bem e o mal,
As velhas dissensões, a luta, o dogma, a crítica?
Os rouxinóis não têm opinião política.
As flores não sabem ler as obras de Proudhon;
Desejam simplesmente – água, terreno bom
E muitíssima luz. As fontes cristalinas
Não cessam de correr com medo às guilhotinas.
Os astros imortais, os astros cintilantes
Hão-de sempre girar como giravam d’antes;
Brilham da mesma forma em Londres e em Paris;
Não têm religião, nem códigos civis.

(A Morte de D. João, 1874)

in Poemas Portugueses, Antologia da PoesiaPortuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora

Guerra Junqueiro (n. Freixo de Espada à Cinta 17 de Setembro de 1850 ; m. Lisboa a 7 de Julho de 1923).

Ler do mesmo autor, neste blog:
Adoração
Regresso ao Lar
A Moleirinha
Canção Perdida
Memória de minha mãe

Read More...

2009-07-07

Adoração - Guerra Junqueiro (nos 86 anos da sua morte)

Ao luarimagem daqui

Eu não te tenho amor simplesmente. A paixão
Em mim não é amor; filha, é adoração!
Nem se fala em voz baixa à imagem que se adora.
Quando da minha noite eu te contemplo, aurora,
E, estrela da manhã, um beijo teu perpassa
Em meus lábios, oh! quando essa infinita graça
do teu piedoso olhar me inunda, nesse instante
Eu sinto ? virgem linda, inefável, radiante,
Envolta num clarão balsâmico da lua,
A minh'alma ajoelha, trémula, aos pés da tua!
Adoro-te!... Não és só graciosa, és bondosa:
Além de bela és santa; além de estrela és rosa.
Bendito seja o deus, bendita a Providência
Que deu o lírio ao monte e à tua alma a inocência,
O deus que te criou, anjo, para eu te amar,
E fez do mesmo azul o céu e o teu olhar!...

extraído de Os dias do Amor, Um poema para cada dia do ano, Recolha, selecção e organização de Inês Ramos, Prefácio de Henrique Manuel Bento Fialho, Ministério dos Livros Editores.

Guerra Junqueiro (n. Freixo de Espada à Cinta 17 de Setembro de 1850 ; m. Lisboa a 7 de Julho de 1923).
Ler do mesmo autor:
Regresso ao Lar
A Moleirinha
Canção Perdida
Memória de minha mãe

Read More...

2006-07-07

Adoração - Guerra Junqueiro

Eu não te tenho amor simplesmente. A paixão
Em mim não é amor; filha, é adoração!
Nem se fala em voz baixa à imagem que se adora.
Quando da minha noite eu te contemplo, aurora,
E, estrela da manhã, um beijo teu perpassa
Em meus lábios, oh! quando essa infinita graça
do teu piedoso olhar me inunda, nesse instante
Eu sinto ? virgem linda, inefável, radiante,
Envolta num clarão balsâmico da lua,
A minh'alma ajoelha, trémula, aos pés da tua!
Adoro-te!... Não és só graciosa, és bondosa:
Além de bela és santa; além de estrela és rosa.
Bendito seja o deus, bendita a Providência
Que deu o lírio ao monte e à tua alma a inocência,
O deus que te criou, anjo, para eu te amar,
E fez do mesmo azul o céu e o teu olhar!...

Poesias Dispersas


Guerra Junqueiro (n. Freixo de Espada à Cinta 17 de Setembro de 1850 ; m. Lisboa a 7 de Julho de 1923).

Ler do mesmo autor:
Regresso ao Lar
A Moleirinha
Canção Perdida
Memória de minha mãe

Read More...

2005-09-17

Canção perdida - Guerra Junqueiro

Hálitos de lilás, de violeta e d’opala,
Roxas macerações de dor e d’agonia,
O campo, anoitecendo e adormecendo, exala...

Triste, canta uma voz na síncope do dia:

Alguém de mim se não lembra
Nas terras d’além do mar...
Ó Morte, dava-te a vida,
Se tu lha fosses levar!...

Ó Morte, dava-te a vida,
Se tu lha fosses levar!...

Com o beijo do Sol na face cadavérica,
Beijo que a morte esvai em palidez algente,
Eis a Lua a boiar sonâmbula e quimérica...

Doce, canta uma voz melancolicamente:

O meu amor escondi-o
Numa cova ao pé do mar...
Morre o amor, vive a saudade...
Morre o Sol, olha o luar!...

Morre o amor, vive a saudade...
Morre o Sol, olha o luar!...

Latescente a neblina opálica flutua,
Diluindo, evaporando os montes de granito
Em colossos de sonho, extasiados de Lua...

Flébil, chora uma voz no letargo infinito:

Quem dá ais, ó rouxinol,
Lá para as bandas do mar?...
É o meu amor que na cova
Leva as noites a chorar!...

É o meu amor que na cova
Leva as noites a chorar!...

A Lua enorme, a Lua argêntea, a Lua calma,
Imponderalizou a natureza inteira,
Descondensou-a em fluido e embebeceu-a em alma...

Triste expira uma voz na canção derradeira:

Ó meu amor, dorme, dorme
Na areia fina do mar.
Que em antes da estrela d’alva
Contigo me irei deitar!...

Que em antes da estrela d’alva
Contigo me irei deitar!...


Abílio Guerra Junqueiro (n. Freixo de Espada à Cinta 17 de Setembro de 1850 ; m. Lisboa a 7 de Julho de 1923).

Read More...

À Memória de Minha Mãe - Guerra Junqueiro


À noite, quando a Lua é triste e calma,
Anseio ir ver-te, ó santa, lá nos céus;
Não posso, mas envio-te a minha alma,
Of'reço-te estes cantos, que são teus!

Guerra Junqueiro (n. Freixo de Espada à Cinta 17 de Setembro de 1850 ; m. Lisboa a 7 de Julho de 1923).

Read More...

2005-07-07

A Moleirinha - Guerra Junqueiro (No 82º. aniversário da sua morte)

Pela estrada plana, toque, toque, toque
Guia o jumentinho uma velhinha errante
Como vão ligeiros, ambos a reboque,
Antes que anoiteça, toque, toque, toque
A velhinha atrás, o jumentinho adiante!...

Toque, toque, a velha vai para o moinho,
Tem oitenta anos, bem bonito rol!...
E contudo alegre como um passarinho,
Toque, toque, e fresca como o branco linho,
De manhã nas relvas a corar ao sol.

Vai sem cabeçada, em liberdade franca,
O jerico ruço duma linda cor;
Nunca foi ferrado, nunca usou retranca,
Tange-o, toque, toque, moleirinha branca
Com o galho verde duma giesta em flor.

Vendo esta velhita, encarquilhada e benta,
Toque, toque, toque, que recordação!
Minha avó ceguinha se me representa...
Tinha eu seis anos, tinha ela oitenta,
Quem me fez o berço fez-lhe o seu caixão!...

Toque, toque, toque, lindo burriquito,
Para as minhas filhas quem mo dera a mim!
Nada mais gracioso, nada mais bonito!
Quando a virgem pura foi para o Egipto,
Com certeza ia num burrico assim.

Toque, toque, é tarde, moleirinha santa!
Nascem as estrelas, vivas, em cardume...
Toque, toque, toque, e quando o galo canta,
Logo a moleirinha, toque, se levanta,
Pra vestir os netos, pra acender o lume...

Toque, toque, toque, como se espaneja,
Lindo o jumentinho pela estrada chã!
Tão ingénuo e humilde, dá-me, salvo seja,
Dá-me até vontade de o levar à igreja,
Baptizar-lhe a alma, prà fazer cristã!

Toque, toque, toque, e a moleirinha antiga,
Toda, toda branca, vai numa frescata...
Foi enfarinhada, sorridente amiga,
Pela mó da azenha com farinha triga,
Pelos anjos loiros com luar de prata!

Toque, toque, como o burriquito avança!
Que prazer d'outrora para os olhos meus!
Minha avó contou-me quando fui criança,
Que era assim tal qual a jumentinha mansa
Que adorou nas palhas o menino Deus...

Toque, toque, é noite... ouvem-se ao longe os sinos,
Moleirinha branca, branca de luar!...
Toque, toque, e os astros abrem diamantinos,
Como estremunhados querubins divinos,
Os olhitos meigos para a ver passar...

Toque, toque, e vendo sideral tesoiro,
Entre os milhões d'astros o luar sem véu,
O burrico pensa: Quanto milho loiro!
Quem será que mói estas farinhas d'oiro
Com a mó de jaspe que anda além no Céu!

Guerra Junqueiro (n. 17 Set 1850; m. 07 Julho 1923)

Ver ainda neste blogue Regresso ao lar

Read More...

2004-11-08

Regresso ao Lar - Guerra Junqueiro

Ai, há quantos anos que eu parti chorando
Deste meu saudoso, carinhoso lar!...
Foi há vinte?...há trinta? Nem eu sei já quando!...
Minha velha ama, que me estás fitando,
Canta-me cantigas para eu me lembrar!...

Dei a volta ao mundo, dei a volta à Vida...
Só achei enganos, decepções, pesar...
Oh! a ingénua alma tão desiludida!...
Minha velha ama, com a voz dorida,
Canta-me cantigas de me adormentar!...

Trago d'amargura o coração desfeito...
Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!
Nunca eu saíra do meu ninho estreito!...
Minha velha ama que me deste o peito,
Canta-me cantigas para me embalar!...

Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho
Pedrarias d'astros, gemas de luar...
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!...
Minha velha ama, sou um pobrezinho...
Canta-me cantigas de fazer chorar!

Como antigamente, no regaço amado,
(Venho morto, morto!...) deixa-me deitar!
Ai, o teu menino como está mudado!
Minha velha ama, como está mudado!
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!...

Canta-me cantigas, manso, muito manso...
Tristes, muito tristes, como à noite o mar...
Canta-me cantigas para ver se alcanço
Que a minh'alma durma, tenha paz, descanso,
Quando a Morte, em breve, ma vier buscar!...

Guerra Junqueiro (n. 1850; m. 1923)

Read More...