Blog Widget by LinkWithin
Mostrar mensagens com a etiqueta Almeida Garrett. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Almeida Garrett. Mostrar todas as mensagens

2015-12-09

Voz e Aroma - Almeida Garrett

A brisa voga no prado,
Perfume nem voz não tem.
Quem canta é o ramo agitado.
O aroma é da flor que vem.

A mim, tornem-me essas flores
Que uma a uma eu vi murchar,
Restituam-me os verdores
Aos ramos que eu vi secar...

E em torrentes de harmonia
Minha alma se exalará,
Esta alma que muda e fria
Nem sabe se existe já.

in Folhas Caídas, 1853

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (n. no Porto a 4 de fevereiro de 1799; m. em Lisboa 9 de dezembro de 1854)

Read More...

2015-02-04

Adeus, Mãe - Almeida Garrett


- «Adeus, mãe! adeus, querida
Que eu já não posso coa vida
E os anjos chamam por mim.
Adeus, mãe, adeus!... Assim,
Junta os teus lábios aos meus
E recebe o último adeus
Neste suspiro... Não chores
Não chores: aquelas dores
Já sinto acalmar em mim.
Adeus, mãe, adeus!... Assim,
Junta os teus lábios aos meus...
Um beijo - um último... Adeus!»

E o corpo desanimado
No colo da mãe caía;
E ela o corpo... só pesado,
Só mais pesado o sentia!
Não se lamenta, não chora,
E quase a sorrir, dizia:
«Que tem este filho agora,
Que tanto pesa? Não posso...»
E uma a uma, osso por osso,
Com a mão trémula tenta
As mãozinhas descarnadas,
As faces cavas, mirradas,
A testa inda morna e lenta.
«Que febre, que febre!», diz;
E em tudo pensa a infeliz,
Tudo que há mau lhe ocorreu,
Tudo - menos que morreu.

Como nos gelos do Norte
O sono traidor da morte
Engana o desfalecido
Que imagina adormecer,
Assim cansado, esvaído
De tão longo padecer,
Já não há no coração
Da mãe força de sentir;

Não tem já lume a razão
Senão só para a iludir.

Acorda, ó mãe desgraçada,
Que é tempo de despertar!
Anda ver a eça armada,
As luzes que ardem no altar.
Ouves? É a rouca toada
Dos padres a salmear!...
Vamos, que a hora é chegada,
É tempo de o amortalhar.

E os anjos cantavam:
«Aleluia!»
E os santos clamavam:
«Hossana!»

Ao triste cantar da Terra
Responde o cantar do Céu;
Todos lhe bradam: « Morreu!»
E a todos o ouvido cerra.

E os sinos a tocar,
E os padres a rezar,
E ela ainda a acalentar
Nos braços o filho morto,

Que já não tem mais conforto,
Mais sossego neste mundo
Que o jazigo húmido e fundo
Onde há-de ir a sepultar.

Levai, ó anjos de Deus,
Levai essa dor aos Céus.
Com a alma do inocente
Aos pés do Juiz Clemente
Aí fique a santa dor
Rogando à Eterna Bondade
Que estenda a imensa piedade
A quantos pecam de amor.

Extraído de Cem Poemas Portugueses sobre a Infância - selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria, Terramar

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (n. no Porto a 4 de Fev. 1799; m. em Lisboa 9 Dez. 1854)

Ler do mesmo autor:
Os Cinco Sentidos
Não Te Amo
A Rosa - Um Suspiro
Os Meus Desejos
Seus Olhos
Este Inferno de Amar
Rosa sem Espinhos
Seus Olhos
Destino

Read More...

2014-12-09

A Rosa - Um Suspiro - Almeida Garrett

Se esta flor tão bela e pura,
Que apenas uma hora dura,
Tem pintado no matiz
O que o seu perfume diz,
Por certo na linda cor
Mostra um suspiro d'amor:
Dos que eu chego a conhecer
É este o maior prazer.
E a rosa como um suspiro
Há-de ser; bem se discorre:
Tem na vida o mesmo giro,
É um gosto que nasce e - morre.


in Folhas Caídas, 1853

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (n. no Porto a 4 de Fev. 1799; m. em Lisboa 9 Dez. 1854)

Ler do mesmo autor:
Os Meus Desejos
Este Inferno de Amar
Rosa sem Espinhos
Seus Olhos
Destino
Não És Tu
Os Cinco Sentidos
Não Te Amo

Read More...

2014-02-04

Os Cinco Sentidos - Almeida Garrett

            São belas – bem o sei, essas estrelas,
            Mil cores – divinais têm essas flores;
            Mas eu não tenho, amor, olhos para elas:
                         Em toda a natureza
                         Não vejo outra beleza
                         Senão a ti – a ti!

           Divina – ai! Sim, será a voz que afina
           Saudosa – na ramagem densa, umbrosa.
           Será; mas eu do rouxinol que trina
                         Não oiço a melodia,
                         Nem sinto outra harmonia
                         Senão a ti – a ti!

           Respira – n’aura que entre as flores gira,
           Celeste – incenso de perfume agreste.
           Sei... não sinto, minha alma não aspira,
                        Não percebe, não toma
                        Senão o doce aroma
                        Que vem de ti – de ti!

           Formosos – são os pomos saborosos,
           É um mimo – de néctar o racismo:
           E eu tenho fome e sede... sequiosos,
                        Famintos meus desejos
                        Estão... mas é de beijos,
                        É só de ti – de ti!
          Macia – deve a relva luzidia
          Do leito – ser por certo em que me deito.    
         
          Mas quem, ao pé de ti, quem poderia           
                        Sentir outras carícias,                     
                        Tocar noutras delícias                     
                        Senão em ti – em ti!                      
          A ti! ai, a ti só os meus sentidos,                  
                        Todos num confundidos,                
                        Sentem, ouvem, respiram, 
                        Em ti, por ti deliram.
                        Em ti a minha sorte,
                        A minha vida em ti;
                        E quando venha a morte,
                        Será morrer por ti.


João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (n. no Porto a 4 de Fev. 1799; m. em Lisboa 9 Dez. 1854)

Ler do mesmo autor:
Não Te Amo
A Rosa - Um Suspiro
Os Meus Desejos
Seus Olhos
Este Inferno de Amar
Rosa sem Espinhos
Seus Olhos
Destino

Read More...

2013-12-09

NÃO ÉS TU - Almeida Garrett

Era assim, tinha esse olhar,
A mesma graça, o mesmo ar,
Corava da mesma cor,
Aquela visão que eu vi
Quando eu sonhava de amor,
Quando em sonhos me perdi.

Toda assim; o porte altivo,
O semblante pensativo,
E uma suave tristeza
Que por toda ela descia
Como um véu que lhe envolvia,
Que lhe adoçava a beleza.

Era assim; o seu falar,
Ingénuo e quase vulgar,
Tinha o poder da razão
Que penetra, não seduz;
Não era fogo, era luz
Que mandava ao coração.

Nos olhos tinha esse lume,
No seio o mesmo perfume,
Um cheiro a rosas celestes,
Rosas brancas, puras, finas,
Viçosas como boninas,
Singelas sem ser agrestes.

Mas não és tu...ai! não és:
Toda a ilusão se desfez.
Não és aquela que eu vi,
Não és a mesma visão,
Que essa tinha coração,
Tinha, que eu bem lho senti.


(Folhas Caídas 1853)

Extraído de Poemas Portugueses, Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (n. no Porto a 4 de Fev. 1799; m. em Lisboa 9 Dez. 1854)

Ler do mesmo autor:
Não Te Amo
A Rosa - Um Suspiro
Os Meus Desejos
Seus Olhos
Este Inferno de Amar
Rosa sem Espinhos
Destino

Read More...

2013-02-04

Não Te Amo - Almeida Garret


Não te amo, quero-te: o amar vem d'alma.
E eu n'alma - tenho a calma,
A calma - do jazigo.
Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida - nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai! não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.
Extraído de Poemas Portugueses, Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (n. no Porto a 4 de Fev. 1799; m. em Lisboa 9 Dez. 1854)

Ler do mesmo autor:
A Rosa - Um Suspiro
Os Meus Desejos
Seus Olhos
Este Inferno de Amar
Rosa sem Espinhos
Seus Olhos
Destino
Não És Tu

Read More...

2012-02-04

NÃO TE AMO - Almeida Garrett



Não te amo, quero-te: o amar vem d'alma.
E eu n'alma - tenho a calma,
A calma - do jazigo.
Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida - nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai! não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.

Extraído de Poemas Portugueses, Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (n. no Porto a 4 de Fev. 1799; m. em Lisboa 9 Dez. 1854)

Ler do mesmo autor:
A Rosa - Um Suspiro
Os Meus Desejos
Seus Olhos
Este Inferno de Amar
Rosa sem Espinhos
Seus Olhos
Destino
Não És Tu

Read More...

2011-12-09

A Rosa - Um Suspiro - Almeida Garrett



Se esta flor tão bela e pura,
Que apenas uma hora dura,
Tem pintado no matiz
O que o seu perfume diz,
Por certo na linda cor
Mostra um suspiro de amor:
Dos que eu chego a conhecer
É este o maior prazer.
E a rosa como um suspiro
Há-de ser; bem se discorre:
Tem na vida o mesmo giro,
É um gosto que nasce e - morre.

Extraído de Poemas Portugueses, Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (n. no Porto a 4 de Fev. 1799; m. em Lisboa 9 Dez. 1854)

Ler do mesmo autor:
Os Meus Desejos
Seus Olhos
Este Inferno de Amar
Não te amo
Rosa sem Espinhos
Seus Olhos
Destino
Não És Tu

Read More...

2011-02-04

Os Meus Desejos - Almeida Garrett

Id arbitror
Adprime in vila esse utile, ne quid nimis.
Terent.

  Se entre os diversos dons da natureza
Me fora dada escolha,
Não me atraíra o fasto das riquezas,
Nem a pompa da glória.
Brilhante engenho, divinais talentos,
Quanto folgara tê-los!
Mas ai! tantos no mundo os possuíram,
E foram desgraçados!
D'Aquiles o cantor de terra em terra
Foragido esmolava;
O primeiro brasão da nossa glória,
Vate de Inês divino
Entre as garras da esquálida penúria
Desamparado expira;
Ao sublime cantor da maga Armida,
De Hermínia, de Clorinda
Sobre o cume do erguido Capitólio
Já o esperava o louro,
Do cisne de Vauclusa a sombra arguta
Já revoava em torno,
Quer ser-lhe guia, dirigir-lhe os passos
Na difícil vereda...
Eis após longa teia de infortúnios
A morte... E a morte é tudo!
E a ti, britano bardo, não bastavam
As trevas e a cegueira?
Tu que da miseranda humanidade
Na harpa de Sião choraste
Primeira perda, tudo enfim perdeste:
Tudo!... Restou-te a filha,
Sobejou-te a razão: que importa ao sábio
O resto do universo?
Empunhando a cicuta é grande ainda
O modelo dos sábios,
Consolando os amigos que o pranteiam
É venturoso ainda.
Guardai os vossos dons, glória e fortuna,
Vossas mercês levai-as;
Deixai-me um coração puro e sensível,
Um peito generoso,
Dai-me a ventura num fiel amigo,
Na razão dai-me um guia.
Extraído de Poemas Portugueses, Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (n. no Porto a 4 de Fev. 1799; m. em Lisboa 9 Dez. 1854)

Ler do mesmo autor:
Seus Olhos
Este Inferno de Amar
Não te amo;
Rosa sem Espinhos;
Seus Olhos;
Destino
Não És Tu

Read More...

2010-12-09

Não És Tu - Almeida Garrett

Era assim, tinha esse olhar,
A mesma graça, o mesmo ar,
Corava da mesma cor,
Aquela visão que eu vi
Quando eu sonhava de amor,
Quando em sonhos me perdi.

Toda assim: o porte altivo,
O semblante pensativo,
E uma suave tristeza
Que por toda ela descia
Como um véu que lhe envolvia,
Que lhe adoçava a beleza.

Era assim; o seu falar,
Ingénuo e quase vulgar,
Tinha o poder da razão
Que penetra, não seduz;
Não era fogo, era luz
Que mandava ao coração.

Nos olhos tinha esse lume,
No seio o mesmo perfume,
Um cheiro a rosas celestes,
Rosas brancas, puras, finas,
Viçosas como boninas,
Singelas sem ser agrestes.

Mas não és tu...ai! não és:
Toda a ilusão se desfez.
Não és aquela que eu vi,
Não és a mesma visão,
Que essa tinha coração,
Tinha, que eu bem lho senti.

Extraído de Poemas Portugueses, Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (n. no Porto a 4 de Fev. 1799; m. em Lisboa 9 Dez. 1854)

Ler do mesmo autor:
Seus Olhos
Este Inferno de Amar
Não te amo;
Rosa sem Espinhos;
Seus Olhos;
Destino.

Read More...

2010-02-04

Seus Olhos - Almeida Garrett

Seus olhos - se eu sei pintar
O que os meus olhos cegou -
Não tinham luz de brilhar.
Era chama de queimar;
E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divino,
Como facho do Destino.

Divino, eterno! - e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tão fatal poder,
Que, um só momento que a vi,
Queimar toda a alma senti...
Nem ficou mais de meu ser,
Senão a cinza em que ardi.


in Cem Poemas Portugueses do Adeus e da Saudade; selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria; Terramar

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (n. no Porto a 4 de Fev. 1799; m. em Lisboa a 9 Dez. 1854)

Ler do mesmo autor:
Este Inferno de Amar
Não te amo;
Rosa sem Espinhos;
Seus Olhos;
Destino.

Read More...

2009-12-09

Este inferno de amar - Almeida Garrett

Este inferno de amar – como eu amo!
Quem mo pôs aqui n’alma… quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é vida – e que a vida destrói.
Como é que se veio atear,
Quando – ai se há-de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez… foi um sonho.
Em que a paz tão serena a dormi!
Oh! Que doce era aquele olhar…
Quem me veio, ai de mim! Despertar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei… Dava o Sol tanta luz!
E os meus olhos que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? Eu que fiz? Não o sei;
Mas nessa hora a viver comecei…
Por instinto se revela,
Eu no teu seio divino
Vim cumprir o meu destino...
Vim, que em ti só sei viver,
Só por ti posso morrer.



João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (n. no Porto a 4 de Fev. 1799; m. em Lisboa a 9 Dez. 1854)

Ler do mesmo autor: Não te amo; Rosa sem Espinhos; Seus Olhos; Destino.

Read More...

2009-02-04

Almeida Garret nasceu há 210 anos

Não te amo, quero-te: o amar vem d'alma.
E eu n'alma - tenho a calma,
A calma - do jazigo.
Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida - nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.

(in Os dias do Amor, Um poema para cada dia do ano, Recolha, selecção e organização de Inês Ramos, Prefácio de Henrique Manuel Bento Fialho; Ministério do Livro Editores)

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (n. no Porto a 4 de Fev. 1799; m. em Lisboa a 9 Dez. 1854).

Ler do mesmo autor: Rosa sem Espinhos; Seus Olhos; Destino

Read More...

2008-12-09

DESTINO - Almeida Garrett

Quem disse à estrela o caminho
Que ela há-de seguir no céu?
A fabricar o seu ninho
Como é que a ave aprendeu?
Quem diz à planta - «Floresce!» -
E ao mudo verme que tece
Sua mortalha de seda
Os fios quem lhos enreda?

Ensinou alguém à abelha
Que no prado anda a zumbir
Se à flor branca ou à vermelha
O seu mel há-de ir pedir?

Que eras tu meu ser, querida,
Teus olhos a minha vida,
Teu amor todo o meu bem...
Ai! não mo disse ninguém.
Como a abelha corre ao prado,
Como no céu gira a estrela,
Como a todo o ente o seu fado
Por instinto se revela,
Eu no teu seio divino
Vim cumprir o meu destino...
Vim, que em ti só sei viver,
Só por ti posso morrer.


João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (n. no Porto a 4 de Fev. 1799; m. em Lisboa a 9 Dez. 1854)

Rosa sem Espinhos

Seus Olhos
Não te Amo

Read More...

2008-08-15

Rosa sem Espinhos - Almeida Garrett


Para todos tens carinhos,
A ninguém mostras rigor!
Que rosa és tu sem espinhos?
Ai, que não te entendo, flor!

Se a borboleta vaidosa
A desdém te vai beijar,
O mais que lhe fazes, rosa,
É sorrir e é corar.

E quando a sonsa da abelha,
Tão modesta em seu zumbir,
Te diz: «Ó rosa vermelha,
Bem me podes acudir:

Deixa do cálix divino
Uma gota só libar...
Deixa, é néctar peregrino,
Mel que eu não sei fabricar ...»

Tu de lástima rendida,
De maldita compaixão,
Tu à súplica atrevida
Sabes tu dizer que não?

Tanta lástima e carinhos,
Tanto dó, nenhum rigor!
És rosa e não tens espinhos!
Ai !, que não te entendo, flor.

Read More...

2008-02-04

Seus Olhos - Almeida Garrett


Seus olhos - se eu sei pintar
O que os meus olhos cegou -
Não tinham luz de brilhar,
Era chama de queimar;
E o fogo que a ateou
Vivaz, eterno, divino,

Como o facho do Destino.

Divino, eterno! - e suave
Ao mesmo tempo: mas grave
E de tão fatal poder,
Que, um só momento que a vi,
Queimar toda a alma senti...
Nem ficou mais de meu ser,
Senão a cinza em que ardi.

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (n. no Porto a 4 de Fev. 1799; m. em Lisboa a 9 Dez. 1854)

(in 366 poemas que falam de amor, antologia organizada por Vasco da Graça Moura, Quetzal editores)

Ler do mesmo autor: Não te amo

Read More...

2007-12-09

Não Te Amo - Almeida Garrett


Não te amo, quero-te: o amar vem d'alma.
E eu n'alma - tenho a calma,
A calma - do jazigo.
Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida - nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (n. no Porto a 4 de Fev. 1799; m. em Lisboa a 9 Dez. 1854)

Read More...