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2017-01-25

Saudades Não As Quero - Afonso Lopes Vieira

Bateram fui abrir era a saudade
vinha para falar-me a teu respeito
entrou com um sorriso de maldade
depois sentou-se à beira do meu leito
e quis que eu lhe contasse só a metade
das dores que trago dentro do meu peito

Não mandes mais esta saudade
ouve os meus ais por caridade
ou eu então deixo esfriar esta paixão
amor podes mandar se for sincero
saudades isso não pois não as quero

Bateram novamente era o ciúme
e eu mal me apercebi de que batera
trazia o mesmo ódio do costume
e todas as intrigas que lhe deram
e vinha sem um pranto ou um queixume
saber o que as saudades me fizeram

Não mandes mais esta saudade,
ouve os meus ais por caridade,
ou eu então deixo esfriar esta paixão,
amor podes mandar se for sincero,
saudades isso não pois não as quero.

in Antologia Poética

Afonso Lopes Vieira (n. em Leiria a 26 de janeiro de 1878 e faleceu em Lisboa a 25 de janeiro de 1946).

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2016-01-26

À Senhora Maria Laranjo da Praia da Nazaré

À Senhora Maria Laranjo
da Praia da Nazaré

Minha boa Amiga senhora Maria
Laranjo, da praia da Nazaré,
em quem tanto admiro essa fidalguia
de um povo que na Europa o mais fino é,
muito agradecido pelo almoço Real
que aí me deu junto às ondas do mar;
tivera Camões comido um igual,
fazia-lhe versos, mas não a zombar.
Minha boa Amiga, senhora Maria
Laranjo, da praia da Nazaré,
por minha mulher a receberia
(se a minha Amiga quisesse, já se vê)
se acaso a conheço quando era solteiro,
para ser agora, — ventura tamanha —
em vez de pobre doutor, marinheiro,
mendigo do mar, arrais de companha.
Estando da banda dos pobres do mar
já eu não teria, como tenho às vezes,
remorsos tamanhos e tão graves fezes
de ver tantas dores em roda a penar;
assim penaria e acreditaria
como eles, por lindo milagre da fé,
que depois no mar do Paraíso seria
o pescador mais feliz da Nazaré!...
Mas já que eu errei, por destino fatal,
o que era a minha pura, certa vocação,
saiba que em si louvo e admiro Portugal
no que tem de belo — alma e coração.
E saibam as altas senhoras princesas
que há uma fidalga aí na Nazaré
com quem elas podem aprender finezas
e a dar um almoço que tão fino é.

Onde a terra se acaba e o mar começa, 1940

Afonso Lopes Vieira (n. em Cortes, Leiria a 26 de janeiro de 1878 e faleceu em Lisboa a 25 de janeiro de 1946).

Ler do mesmo autor, neste blog:
A Última Cantiga

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2015-01-26

Dança do Vento - Afonso Lopes Vieira

Vento imagem daqui

O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia.
Baila, baila e rodopia
E tudo baila em redor.
E diz às flores, bailando:
- Bailai comigo, bailai!
E elas, curvadas, arfando,
Começam, débeis, bailando.
E suas folhas, tombando,
Uma se esfolha, outra cai.
E o vento as deixa, abalando,
- E lá vai!...
O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia,
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor.
E diz às altas ramadas:
Bailai comigo, bailai!
E elas sentem-se agarradas
Bailam no ar desgrenhadas,
Bailam com ele assustadas,
Já cansadas, suspirando;
E o vento as deixa, abalando,
E lá vai!...
O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor!
E diz às folhas caídas:
Bailai comigo, bailai!
No quieto chão remexidas,
As folhas, por ele erguidas,
Pobres velhas ressequidas
E pendidas como um ai,
Bailam, doidas e chorando,
E o vento as deixa abalando
- E lá vai!
O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia,
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor!
E diz às ondas que rolam:
- Bailai comigo, bailai!
e as ondas no ar se empolam,
Em seus braços nus o enrolam,
E batalham,
E seus cabelos se espalham
Nas mãos do vento, flutuando
E o vento as deixa, abalando,
E lá vai!...
O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia,
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor!


Afonso Lopes Vieira (n. em Cortes (Leiria) a 26 de Janeiro de 1878 e faleceu em Lisboa a 25 de Janeiro de 1946).

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2012-01-25

A última cantiga - Afonso Lopes Vieira

Esta palavra saudade
Aquele que a inventou
A primeira vez que a disse
Com certeza que chorou.

E tão felizes correm os meus dias
E o meu sono é aqui tão descansado,
Que inda espero pagar em agonia
Cada dia de agora, sossegado!

Afonso Lopes Vieira (n. em Cortes (Leiria) a 26 de Janeiro de 1878 e faleceu em Lisboa a 25 de Janeiro de 1946).

Ler do mesmo autor, neste blog:

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2011-01-26

Cavaleiro do cavalo de pau - Afonso Lopes Vieira


Vai a galope o cavaleiro e sem cessar
galopando no ar sem mudar de lugar.

E galopa e galopa e galopa, parado,
e galopa sem fim nas tábuas do sobrado.

Oh! que bravo corcel, que doidas galopadas,
- crinas de estopa ao vento, e as narinas pintadas!

Em curvas pelo ar, em velozes carreiras,
o cavalo de pau é o terror das cadeiras!

E o cavaleiro nunca muda de lugar,
a galopar a galopar a galopar!...


in Cem Poemas Portugueses sobre a Infância. Selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria, Terramar.

Afonso Lopes Vieira (n. em Cortes (Leiria) a 26 de Janeiro de 1878 e faleceu em Lisboa a 25 de Janeiro de 1946).

Ler do mesmo autor, neste blog:
Cantares dos Búzios
Linda Inês
Dança do Vento

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2011-01-25

Cantares dos Búzios - Afonso Lopes Vieira


Casa Portuguesa foto daqui

Nunca como em Veneza
Adoro a nossa pobreza
Portuguesa;
As nossas casas caiadas,
As nossas praias salgadas,
Os burricos berberes,
E na Batalha de pedras douradas
A saia pela cabeça das mulheres.

Ó Veneza oriental,
Marítimo tesouro
De púrpura, de mármores e de ouro:
- Em Portugal
Rico só é o céu que nos lá cobre.

Portugal teve o Mundo - e ficou pobre.


in Cem Poemas Portugueses sobre Portugal e o Mar, selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria, Terramar

Afonso Lopes Vieira (n. em Cortes (Leiria) a 26 de Janeiro de 1878 e faleceu em Lisboa a 25 de Janeiro de 1946).

Ler do mesmo autor, neste blog:
Linda Inês
Dança do Vento

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2009-01-26

Dança do vento - Afonso Lopes Vieira


O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia.
Baila, baila e rodopia
E tudo baila em redor.
E diz às flores, bailando:
- Bailai comigo, bailai!
E elas, curvadas, arfando,
Começam, débeis, bailando.
E suas folhas, tombando,
Uma se esfolha, outra cai.
E o vento as deixa, abalando,
- E lá vai!...
O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia,
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor.
E diz às altas ramadas:
Bailai comigo, bailai!
E elas sentem-se agarradas
Bailam no ar desgrenhadas,
Bailam com ele assustadas,
Já cansadas, suspirando;
E o vento as deixa, abalando,
E lá vai!...
O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor!
E diz às folhas caídas:
Bailai comigo, bailai!
No quieto chão remexidas,
As folhas, por ele erguidas,
Pobres velhas ressequidas
E pendidas como um ai,
Bailam, doidas e chorando,
E o vento as deixa abalando
- E lá vai!
O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia,
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor!
E diz às ondas que rolam:
- Bailai comigo, bailai!
e as ondas no ar se empolam,
Em seus braços nus o enrolam,
E batalham,
E seus cabelos se espalham
Nas mãos do vento, flutuando
E o vento as deixa, abalando,
E lá vai!...
O vento é bom bailador,
Baila, baila e assobia,
Baila, baila e rodopia,
E tudo baila em redor!

Afonso Lopes Vieira (n. em Cortes (Leiria) a 26 de Janeiro de 1878 e faleceu em Lisboa a 25 de Janeiro de 1946).

Ler do mesmo autor Linda Inês

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2008-01-25

Linda Inês - Afonso Lopes Vieira

Choram ainda a tua morte escura
aquelas que chorando a memoraram;
as lágrimas choradas não secaram
nos saudosos campos da ternura.

Santa entre as santas pela má ventura,
rainha mais que todas que reinaram;
amada, os teus amores não passaram
e és sempre bela e viva e loura e pura.

Ó linda, sonha aí, posta em sossego
no teu moimento de alva pedra fina,
como outrora na fonte do Mondego.

Dorme, sombra de graça e de saudade,
colo de garça, amor, moça, menina,
bem-amada por toda a eternidade.

Afonso Lopes Vieira
nasceu em Cortes (Leiria) a 26 de Janeiro de 1878 e faleceu em Lisboa a 25 de Janeiro de 1946. Era sobrinho-neto do poeta ultra-romântico Rodrigues Cordeiro. Matriculou-se, em 1895, na faculdade de Direito de Coimbra, onde se manteve até 1900, após o que chegou a exercer a advocacia na capital, embora por pouco tempo. Passava o inverno em Lisboa e o verão em São Pedro de Muel. Viajou por Espanha, França, Bélgica, Itália, Norte de África, Brasil (1928) e Angola (1931). O seu ideal consistia em «reaportuguesar Portugal, tornando-o europeu». Empreendeu, de 1910 a 1913, uma campanha vicentina, que consistiu em transpor dos livros para o tablado teatral peças de Mestre Gil. Restituiu à nossa língua obras como «O Romance de Amadis» (1922) e a «Diana» de Jorge de Montemor (1924). Traduziu para português «O Poema do Cid» (1929). Colaborou com o Dr. José Maria Rodrigues na edição nacional d' «Os Lusíadas» (1928) e da «Lírica» de Camões (1931). Reeditou as obras do seu conterrâneo Rodrigues Lobo. Escreveu para o cinema os diálogos dos filmes «Inês de Castro» (1945) e «Camões» (1946) de Leitão de Barros. Preso por motivos políticos, a experiência do cárcere fez-lhe dizer: «O Poeta português/ que não passar ao menos uma vez/ pelas prisões/ não será digno aluno de Camões».

Soneto e ficha bibliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado, Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa, Edições Unicepe, 2004»

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