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2016-06-04

Da Vida... não Fales Nela - Jorge de Sena

Da vida... não fales nela,
quando o ritmo pressentes.
Não fales nela que a mentes.

Se os teus olhos se demoram
em coisas que nada são,
se os pensamentos se enfloram
em torno delas e não
em torno de não saber
da vida... Não fales nela.

Quanto saibas de viver
nesse olhar se te congela.
E só a dança é que dança,
quando o ritmo pressentes.

Se, firme, o ritmo avança,
é dócil a vida, e mansa...
Não fales nela, que a mentes.

in 'Pedra Filosofal'

Jorge Cândido de Sena (n. em Lisboa a 2 de novembro de 1919; m. em Santa Bárbara, Califórnia a 4 de junho de 1978)

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2015-11-02

Fidelidade - Jorge de Sena


Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como só a presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?

Diz-me asim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.

Jorge Cândido de Sena(n. em Lisboa a 2 de novembro de 1919; m. em Santa Bárbara, Califórnia a 4 de junho de 1978)

Extraído de Poemas de Amor, Antologia de poesia portuguesa, Organização e prefácio de Inês Pedrosa, Publicações Dom Quixote

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2015-06-04

Génesis VI - Jorge de Sena

De mim não falo mais: não quero nada.
De Deus não falo: não tem outro abrigo.
Não falarei também do mundo antigo,
pois nasce e morre em cada madrugada.

Nem de existir, que é a vida atraiçoada,
para sentir o tempo andar comigo;
nem de viver, que é liberdade errada,
e foge todo o Amor quando o persigo.

Por mais justiça ... - Ai quantos que eram novos
em vão a esperaram porque nunca a viram!
E a eternidade...Ó transfusão dos povos!

Não há verdade: O mundo não a esconde.
Tudo se vê: só se não sabe aonde.
Mortais ou imortais, todos mentiram.

in Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI. Selecção, organização, introdução e notas: Jorge Reis e Rui Lage; Prefácio: Vasco da Graça Moura. Porto Editora, 2009

Jorge Cândido de Sena (n. em Lisboa a 2 de novembro de 1919; m. em Santa Bárbara, Califórnia a 4 de junho de 1978)

Ler neste blog do mesmo autor:
Quando se Pensa Nesse Amor
A Canalha
Suma Teológica
Carta a Meus Filhos Sobre os Fusilamentos de Goya
Glosa à Chegada do Outono
O Corpo Não Espera
Entre-Distância
Amo-te muito meu amor
Como Queiras, Amor
Fidelidade
A diferença que há...
Rígidos seios de redondas, brancas...

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2014-11-02

Fidelidade - Jorge de Sena

Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como só a presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?

Diz-me asim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.


Extraído de Poemas de Amor, Antologia de poesia portuguesa, Organização e prefácio de Inês Pedrosa, Publicações Dom Quixote

Jorge Cândido de Sena (n. em Lisboa a 2 Nov 1919; m. em Santa Bárbara, Califórnia a 4 Jun 1978)

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2014-06-04

Quando se Pensa Nesse Amor - Jorge de Sena

Quando se pensa neste amor que é feito
De tão variados modos sempre iguais
(ou de modos semelhantes tão diversos),
e se viveram já mais de trinta anos
de sonhá-lo, e fazê-lo, e desejá-lo
ainda e sempre como adolescente
sempre temendo quanto não conhece
( e ao mesmo tempo nada é já surpresa
no prazer que não cansa como nós)-
quando pensamos quantas vezes, quanta
gente por nós passou que possuímos
( se era de quem sempre desejou
um outro corpo além do que abraçava,
mesmo se o corpo fora o desejado mais)-
quando se pensa na ternura, o anseio
nos rodeando a vida que nos foge
e sendo como o que ainda mais a afasta
na dor de ser-se amado não se amando
senão o amor e não quem nos amara
por nós e em nós e não do que fazemos-
desde o nascer á morte, desde o instante
em que o prazer do sexo se descobre
até quando será memória extinta
nada sentido tem, nem o desejo
que sem sentido continua a ser
o só que vale a pena de ter tido
no desespero irónico de ser-se.


Jorge Cândido de Sena (n. em Lisboa a 2 de novembro de 1919; m. em Santa Bárbara, Califórnia a 4 de junho de 1978)

Ler neste blog do mesmo autor:
A Canalha
Suma Teológica
Carta a meus filhos sobre os fusilamentos de Goya
Glosa À Chegada do Outono
O Corpo Não Espera
Génesis VI
Entre-Distância
Amo-te muito meu amor
Como queiras amor
Fidelidade
A diferença que há...
Rígidos seios de redondas, brancas...

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2013-11-02

A Canalha - Jorge de Sena

Como esta gente odeia, como espuma
por entre os dentes podres a sua baba
de tudo sujo nem sequer prazer!
Como se querem reles e mesquinhos,
piolhosos, fétidos e promíscuos
na sarna vergonhosa e pustulenta!
Como se rabialçam de importantes,
fingindo-se de vítimas, vestais,
piedosas prostitutas delicadas!
Como se querem torpes e venais
palhaços pagos da miséria rasca
de seus cafés, popós e brilhantinas!
Há que esmagar a DDT, penicilina
e pau pelos costados tal canalha
de coxos, vesgos, e ladrões e pulhas,
tratá-los como lixo de oito séculos
de um povo que merece melhor gente
para salvá-lo de si mesmo e de outrem.


Publicado na revista Hífen, Porto, nº 6, Fevereiro de 1991

in Dedicácias, Mécia de Sena, 1999. Três Sinais, editores

Jorge Cândido de Sena (n. em Lisboa a 2 Nov 1919; m. em Santa Bárbara, Califórnia a 4 Jun 1978)

Ler neste blog do mesmo autor:
Suma Teológica
Carta a meus filhos sobre os fusilamentos de Goya
Glosa À Chegada do Outono
O Corpo Não Espera
Génesis VI
Entre-Distância
Amo-te muito meu amor
Como queiras amor
Fidelidade
A diferença que há...
Rígidos seios de redondas, brancas...

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2013-06-04

Fidelidade - Jorge de Sena (na passagem do 35º aniversário do seu desaparecimento)

Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como só a presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?

Diz-me asim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.



Extraído de Poemas de Amor, Antologia de poesia portuguesa, Organização e prefácio de Inês Pedrosa, Publicações Dom Quixote

Jorge Cândido de Sena (n. em Lisboa a 2 Nov 1919; m. em Santa Bárbara, Califórnia a 4 Jun 1978)

Ler neste blog do mesmo autor:
Suma Teológica
Glosa À Chegada do Outono
O Corpo Não Espera
Amo-te muito meu amor
Como queiras amor
A diferença que há...
Rígidos seios de redondas, brancas...
Carta a meus filhos sobre os fusilamentos de Goya
Génesis VI
Entre-Distância
Uma Pequenina Luz

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2012-11-02

Suma Teológica - Jorge de Sena

Não vim de longe, meu amor, nem sossobraram
navios no alto mar, quando nasci.

Nada mudou. Continuaram as guerras;
continuou a subir o preço do pão;
continuaram os poetas, uma vez por outra,
a perguntar por ti.

É certo que, então, imensa gente
envelheceu instantânea e misteriosamente.

Mas até isso, meu amor, se não sabe ainda
se foi por minha causa,
se por causa de outros que terão nascido
ao mesmo tempo que eu.


in Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI
Selecção, organização, introdução e notas: Jorge Reis e Rui Lage; Prefácio: Vasco da Graça Moura. Porto Editora, 2009.

Jorge Cândido de Sena (n. em Lisboa a 2 Nov 1919; m. em Santa Bárbara, Califórnia a 4 Jun 1978)

Ler neste blog do mesmo autor:
Carta a meus filhos sobre os fusilamentos de Goya
Glosa À Chegada do Outono
O Corpo Não Espera
Génesis VI
Entre-Distância
Amo-te muito meu amor
Como queiras amor
Fidelidade
A diferença que há...
Rígidos seios de redondas, brancas...

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2011-11-02

Carta a Meus Filhos Sobre os Fuzilamentos de Goya - Jorge de Sena

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem sequer isto
o que vos interessa para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensam assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse com suma piedade e sem efusão de sangue.
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais do que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.


Lisboa, 25/6/1959
(Metamorfoses 1963)

Jorge de Sena nasceu em Lisboa, a 2 de Novembro de 1919, e faleceu em Santa Barbara, Califórnia, a 4 de Junho de 1978.
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Como Queiras, Amor...
Génesis VI
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Amo-te muito meu amor
Fidelidade
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2011-06-04

Como Queiras, Amor... - Jorge de Sena

Como queiras, Amor, como tu queiras.
Entregue a ti, a tudo me abandono,
seguro e certo, num terror tranquilo.
A tudo quanto espero e quanto temo,
entregue a ti, Amor, eu me dedico.

Nada há que eu não conheça, que eu não saiba
e nada, não, ainda há por que eu não espere
como de quem ser vida é ter destino.

As pequeninas coisas da maldade, a fria
tão tenebrosa divisão do medo
em que os homens se mordem com rosnidos
de mal contente crueldade imunda,
eu sei quanto me aguarda, me deseja,
e sei até quanto ela a mim me atrai.

Como queiras, Amor, como tu queiras.
De frágil que és, não poderás salvar-me.
Tua nobreza, essa ternura tépida
quais olhos marejados, carne entreaberta,
será só escárnio, ou, pior, um vão sorriso
em lábios que se fecham como olhares de raiva.
Não poderás salvar-me, nem salvar-te.
Apenas como queiras ficaremos vivos.

Será mais duro que morrer, talvez.
Entregue a ti, porém, eu me dedico
àquele amor por qual fui homem, posse
e uma tão extrema sujeição de tudo.

Como tu queiras, Amor, como tu queiras.

Jorge de Sena (n. Lisboa 2 Nov. 1919; m. em Santa Bárbara, Califórnia, 4 Jun 1978)

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2010-12-10

I Had No Time To Hate - Emily Dickinson on 180th birthday

I had no time to Hate -
Because
The Grave would hinder Me -
And Life was not so
Ample I
Could finish - Enmity -

Nor had I time to Love -
But since
Some Industry must be -
The little Toil of Love -
I thought
Be large enough for Me -


(em português)

Para o Ódio nunca tive –
Tempo –
pois que a Morte espreita –
E a vida nunca foi
tanta
Que uma Aversão se acabasse.

Nem tempo tive de Amar –
Ocupar-me
Era preciso –
Do amor o simples Trabalho –
Como achei –
Que Me bastava.


Tradução de Jorge de Sena

Emily Elizabeth Dickinson (December 10, 1830 – May 15, 1886)

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2010-11-02

Génesis VI - Jorge de Sena

De mim não falo mais: não quero nada.
De Deus não falo: não tem outro abrigo.
Não falarei também do mundo antigo,
pois nasce e morre em cada madrugada.

Nem de existir, que é a vida atraiçoada,
para sentir o tempo andar comigo;
nem de viver,que é liberdade errada,
e foge todo o Amor quando o persigo.

Por mais justiça ... - Ai quantos que eram novos
em vão a esperaram porque nunca a viram!
E a eternidade...Ó transfusão dos povos!

Não há verdade: O mundo não a esconde.
Tudo se vê: só se não sabe aonde.
Mortais ou imortais, todos mentiram.


in Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI
Selecção, organização, introdução e notas: Jorge Reis e Rui Lage; Prefácio: Vasco da Graça Moura
Porto Editora, 2009

Jorge Cândido de Sena (n. em Lisboa a 2 Nov 1919; m. em Santa Bárbara, Califórnia a 4 Jun 1978)

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Suma Teológica
Glosa À Chegada do Outono
O Corpo Não Espera
Amo-te muito meu amor
Como queiras amor
Fidelidade
A diferença que há...
Rígidos seios de redondas, brancas...

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2010-06-04

Suma Teológica - Jorge de Sena

Não vim de longe, meu amor, nem sossobraram
navios no alto mar, quando nasci.

Nada mudou. Continuaram as guerras;
continuou a subir o preço do pão;
continuaram os poetas, uma vez por outra,
a perguntar por ti.

É certo que, então, imensa gente
envelheceu instantânea e misteriosamente.

Mas até isso, meu amor, se não sabe ainda
se foi por minha causa,
se por causa de outros que terão nascido
ao mesmo tempo que eu.


in Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI
Selecção, organização, introdução e notas: Jorge Reis e Rui Lage
Prefácio: Vasco da Graça Moura
Porto Editora, 2009

Jorge Cândido de Sena (n. em Lisboa a 2 Nov 1919; m. em Santa Bárbara, Califórnia a 4 Jun 1978)

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Glosa À Chegada do Outono
O Corpo Não Espera
Amo-te muito meu amor
Como queiras amor
Fidelidade
A diferença que há...
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2009-11-02

Glosa à Chegada do Outono - Jorge de Sena, na passagem do 90º. aniversário do nascimento do poeta

O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sêde, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo...

Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou

in 366 poemas que falam de amor, uma antologia organizada por Vasco da Graça Moura, Quetzal Editores

Jorge de Sena (n. Lisboa, 2 Nov 1919; m. 4 Jun 1978)

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2009-06-04

Relembrando Jorge de Sena na passagem do 31º. aniversário da sua morte


Rígidos seios de redondas, brancas
frágeis e frescas inserções macias,
cinturas, coxas rodeando as ancas
em que se esconde o corredor dos dias;

torsos de finas, penugentas, frias,
enxutas linhas que nos rins se prendem,
sexos, testículos, que inertes pendem
de hirsutas liras, longas e vazias

da crepitante música tangida,
húmida e tersa, na sangrenta lida
que a inflada ponta penetrante trila;

dedos e nádegas, e pernas, dentes.
Assim no jeito infiel de adolescentes,
a carne espera, incerta, mas tranquila.

in Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, Selecção, prefácio e notas de Natália Correia, Antígona Frenesi, Lisboa 2005

Jorge Cândido de Sena (n. em Lisboa a 2 Nov 1919; m. em Santa Bárbara, Califórnia a 4 Jun 1978)

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Fidelidade
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2008-11-02

O Corpo Não Espera - Jorge de Sena (no dia do 89º aniversário do poeta)


O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sêde, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo.

Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.

Jorge Cândido de Sena (n. em Lisboa a 2 Nov 1919; m. em Santa Bárbara, Califórnia a 4 Jun 1978)

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2008-06-04

Fidelidade - Jorge de Sena morreu há 30 anos

Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como só a presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?

Diz-me asim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.

Jorge Cândido de Sena (n. em Lisboa a 2 Nov 1919; m. em Santa Bárbara, Califórnia a 4 Jun 1978)

Extraído de Poemas de Amor, Antologia de poesia portuguesa, Organização e prefácio de Inês Pedrosa, Publicações Dom Quixote

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2008-06-01

Dia da Criança

Acção de graças

Às vezes, com a minha filha no chão junto de mim
fecho os olhos numa acção de graças...

Mas logo ela galreia,nem por isso me consente.

E regresso um pouco triste a uma alegria imensa.

Jorge de Sena

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2007-11-02

.... e Jorge de Sena nasceu há 88 anos em Lisboa

De mim a ti ouço-te e convivo,
e dás-me o que és e eu perco e não conheço
enquanto mo não tires e não sejas
no dia-a-dia em que te perdes sendo.
A tua voz tão clara, as tuas mãos tão certas,
só de as lembrar são outras, como tu,
diferente que vais sendo, nem a mim me escutas,
e, de tocar-te, sabes que toquei.
Mesmo o que sabes, sabes que não sabem
do não-saber que é ter sabido outrora.
A uma distância infinfda estamos, pois, tão perto,
por que? - Como as palavras ditas,
sinais, que foram, do que então morria,
nem no ar ficam que entre nós medeia,
gestos que fiz os fiz, e a carne penetrada,
como a que penetra, em seu fervor conhece
o tenso contactar que de vibrar se esgota,
alheiamente atenta à própria forma ansiosa:
de nunca repetir nos repetimos,
de nunca possuir nos possuímos,
de nunca ouvir ao longe nos ouvimos,
e de não sermos mais, que frente-a-frente,
duas ausências que a não ser se assistem-
eu ouço-te, eu vejo-te, eu tenho-te,
convivo.

Jorge Cândido de Sena (n. em Lisboa a 2 Nov 1919; m. em Santa Bárbara, Califórnia a 4 Jun 1978)

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Como queiras amor
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2007-06-04

A Diferença Que Há - Jorge de Sena

A diferença que há entre os estudiosos e os poetas
É que aqueles passam a vida inteira com o nariz num assunto
A ver se conseguem decifrá-lo, e estes
Abrem o livro, lêem três páginas, farejam as restantes
(nem sequer todas) e sabem logo do assunto
o que os outros não conseguiram saber. Por isso é que
os estudiosos têm raiva dos poetas,
capazes de ler tudo sem ter lido nada
( e eles não leram nada tendo lido tudo).
O mal está em haver poetas que abusam do analfabetismo,

E desacreditam a gaya Scienza

Jorge Cândido de Sena (n. em Lisboa a 2 Nov 1919; m. em Santa Bárbara, Califórnia a 4 Jun 1978)
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Glosa à chegada do Outono

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