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2016-09-29

EM SINTRA - Luís Miguel Nava


As águas maravilham-se entre os lábios
e a fala, rápidos
em Sintra espelhos surgem como pássaros,
a luz de que se erguem acontece às águas,
à flor da fala
divide os lábios e a ternura. Da linguagem
rebentam folhas duma cor incómoda, as de que
maravilhado de água surges entre
livros, algum crime, um
menino a dissolver-se ou dele os lábios e ergues
equívoca a luz depois. Rápidos
espelhos então cercam-te explodindo os pássaros.


Películas (1979); In Poesia Completa 1979-1994; Lisboa, Dom Quixote, 2002

Luís Miguel de Oliveira Perry Nava (nasceu em Viseu, 29 de setembro de 1957 — m. Bruxelas, 10 de maio de 1995)

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2015-09-29

Poema Inicial - Luís Miguel Nava

Poder-me-ão entender todos aqueles
de quem o coração for a roldana
do poço que lhes desce na memória.

Se alguma coisa vi foi com o sangue.
De alguém a quem o sangue serviu de olhos poderá
falar quem o fizer de mim

(Rebentação, 1984)

Luís Miguel de Oliveira Perry Nava (nasceu em Viseu, 29 de setembro de 1957 — m. Bruxelas, 10 de maio de 1995)

Do mesmo autor:
Sem outro intuito
As ondas que se encontram
Os Pratos da Balança
O Último Reduto

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2014-09-29

Sem outro intuito - Luís Miguel Nava


Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.


in Vulcão, Lisboa, Quetzal, 1994

Luís Miguel de Oliveira Perry Nava (nasceu em Viseu, 29 de setembro de 1957 — m. Bruxelas, 10 de maio de 1995)

As ondas que se encontram
Os Pratos da Balança
O Último Reduto

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2012-09-29

Os nós da Escrita - Luís Miguel Nava

Escrever é, para mim, tentar desfazer nós, embora o que na realidade acabo sempre
por fazer seja embrulhar ainda mais os fios. A própria caligrafia é sufocada.
Há todavia, um momento em que as palavras são cuspidas, saem em borbotões, e
o sangue e a saliva impregnam o sentido. É impossível separá-los.

Luís Miguel de Oliveira Perry Nava (nasceu em Viseu, 29 de Setembro de 1957 — m. Bruxelas, 10 de Maio de 1995)

Do mesmo autor, no Nothingandall:
As ondas que se enconttram
Os Pratos da Balança
O Último Reduto

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2011-09-29

As ondas que se encontram - Luís Miguel Nava

As ondas que se encontram
ainda agora em formação no espírito
dele já não vêm rebentar ao meu.

Por mim, não volto a vê-lo, encontros houve
com ele dos quais a alma ficou cheia de dedadas.

Já nem sequer dele quero ouvir falar,
saber que se ele
fosse uma cama estaria por fazer nada me traz
agora além de desconforto.
in Poemas, 1987

Luís Miguel de Oliveira Perry Nava (nasceu em Viseu, 29 de Setembro de 1957 — m. Bruxelas, 10 de Maio de 1995)

Os Pratos da Balança
O Último Reduto

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2010-09-29

Os Pratos Da Balança - Luís Miguel Nava

Balança cenográficaBalança cenográfica imagem daqui

Por entre as rochas um rapaz, nas mãos levando uma balança, avança em direcção ao mar. Vai procurar pesá-lo. Num dos pratos, o mar há-de revolver-se, debater-se, rebentar, há-de trazer à superfície a força das entranhas e atrair o céu, há-de-o fazer precipitar-se até com ele se confundir, e as próprias rochas através das quais o rapaz segue hão-de pesar no prato ferozmente. Imperturbável, o rapaz colocará no outro prato o seu sorriso.

Luís Miguel de Oliveira Perry Nava (nasceu em Viseu, 29 de Setembro de 1957 — m. Bruxelas, 10 de Maio de 1995)

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2009-09-29

O Último Reduto - Luís Miguel Nava

Naquilo a que chamamos eu há sempre um espaço inocupado, onde parece alimentar-se um mecanismo que de dentro de nós próprios se apostasse em escorraçar-nos, repelir-nos, algo cuja natureza nos é estranha e que não raro ocupa toda a nossa identidade. Vamos assim sendo confinados a um domínio que se exaure, a um território em progressiva retracção, que em breve se limita às mãos, aos lábios, ao rebordo de uma ferida, sendo na pele que inevitavelmente concentramos então tudo o que nos resta. Na pele é um modo de dizer: na roupa, nos adornos. São os brincos, as pulseiras e os anéis o que por vezes nos sustém, o que garante a nossa integridade, o último reduto contra esse mecanismo que de dentro de nós próprios nos rechaça e de que a pele, a plataforma a que, alarmados, então nos agarramos, é igualmente o carburante, numa duplicidade idêntica à de um livro cujas páginas entrassem e saíssem do espírito de quem o escrevesse.

(O Céu sob as entranhas)

in Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea, Um Panorama, Orrganização de Alberto da Costa e Silva e Alexei Bueno. Lacerda Editores

Luís Miguel de Oliveira Perry Nava (nasceu em Viseu, 29 de Setembro de 1957 — m. Bruxelas, 10 de Maio de 1995)

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