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2015-08-24

Cosmogonia - Jorge Luís Borges



Nem treva nem caos. A treva
Requer olhos que veem, como o som.

E o silêncio requer o ouvido,
O espelho, a forma que o povoa.

Nem o espaço nem o tempo. Nem sequer
Uma divindade que premedita

O silêncio anterior à primeira
Noite do tempo, que será infinita.

O grande rio de Heráclito o Escuro
Seu irrevogável curso não há empreendido,

Que do passado flui para o futuro,
Que do esquecimento flui para o esquecimento.

Algo que já padece. Algo que implora.
Depois a história universal. Agora.


(Tradução de Héctor Zanetti)

Jorge Luís Borges Acevedo (n. Buenos Aires, 24 de Agosto de 1899 — m. Genebra, 14 de Junho de 1986)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Soneto do Vinho
Arte Poética
The Art of Poetry
Do que nada se sabe
Limites;
O Mar

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2012-06-14

As Coisas / Las Cosas - Jorge Luís Borges

A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro,
Um livro e em suas páginas a ofendida
Violeta, monumento de uma tarde,
De certo inesquecível e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas e taças, cravos,
Nos servem como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão muito além de nosso olvido:
E nunca saberão que havemos ido.

Trad. de Ferreira Gullar (extraído daqui)

ORIGINAL

LAS COSAS

El bastón, las monedas, el llavero,
la dócil cerradura, las tardías
notas que no leerán los pocos días
que me quedan, los naipes y el tablero,
un libro y en sus páginas la ajada
violeta, monumento de una tarde
sin duda inolvidable y ya olvidada,
el rojo espejo occidental en que arde
una ilusoria aurora. Cuántas cosas,
limas, umbrales, atlas, copas, clavos,
nos sirven como tácitos esclavos,
ciegas y extrañamente sigilosas
durarán más allá de nuestro olvido;
no sabrán nunca que nos hemos ido.

In: Elogío de la Sombra, 1969

Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo (n. em Buenos Aires a 24 de agosto de 1899; f. Genebra 14 de junho de 1986).

Ler do mesmo autor, neste blog:
Cosmogonia
Soneto do Vinho
Arte Poética
The Art of Poetry
Do que nada se sabe
Limites;
O Mar

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2011-08-24

Cosmogonia - Jorge Luís Borges


Nem treva nem caos. A treva
Requer olhos que veem, como o som.

E o silêncio requer o ouvido,
O espelho, a forma que o povoa.

Nem o espaço nem o tempo. Nem sequer
Uma divindade que premedita

O silêncio anterior à primeira
Noite do tempo, que será infinita.

O grande rio de Heráclito o Escuro
Seu irrevogável curso não há empreendido,

Que do passado flui para o futuro,
Que do esquecimento flui para o esquecimento.

Algo que já padece. Algo que implora.
Depois a história universal. Agora.


(Tradução de Héctor Zanetti)

Jorge Luís Borges Acevedo (n. Buenos Aires, 24 de Agosto de 1899 — m. Genebra, 14 de Junho de 1986)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Soneto do Vinho
Arte Poética
The Art of Poetry
Do que nada se sabe
Limites;
O Mar

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2010-06-14

Soneto do Vinho - Jorge Luís Borges



Em que reino, em que século, sob que silenciosa
Conjunção dos astros, em que dia secreto
Que o mármore não salvou, surgiu a valorosa
E singular idéia de inventar a alegria?
Com outonos de ouro a inventaram.
O vinho flui rubro ao longo das gerações
Como o rio do tempo e no árduo caminho
Nos invada sua música, seu fogo e seus leões.
Na noite do júbilo ou na jornada adversa
Exalta a alegria ou mitiga o espanto
E a exaltação nova que este dia lhe canto
Outrora a cantaram o árabe e o persa.
Vinho, ensina-me a arte de ver minha própria história
Como se esta já fora cinza na memória.


¿En qué reino, en qué siglo, bajo qué silenciosa
conjunción de los astros, en qué secreto día
que el mármol no ha salvado, surgió la valerosa
y singular idea de inventar la alegría?

Con otoños de oro la inventaron. El vino
fluye rojo a lo largo de las generaciones
como el río del tiempo y en el arduo camino
nos prodiga su música, su fuego y sus leones.

En la noche del júbilo o en la jornada adversa
exalta la alegría o mitiga el espanto
y el ditirambo nuevo que este día le canto

otrora lo cantaron el árabe y el persa.
Vino, enséñame el arte de ver mi propia historia
como si ésta ya fuera ceniza en la memoria.

Jorge Luís Borges Acevedo (n. Buenos Aires, 24 de Agosto de 1899 — m. Genebra, 14 de Junho de 1986)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Arte Poética
The Art of Poetry
Do que nada se sabe
Limites;
O Mar

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2009-08-24

Arte Poética - Jorge Luís Borges (nos 110 anos do seu nascimento)

Olhar o rio feito de tempo e água,
e recordar que o tempo é outro rio,
saber que nos perdemos como o rio
e que passam os rostos como a água.

Descobrir que a vigília é outro sonho
que sonha não sonhar; sentir que a morte
que teme nossa carne é essa morte
de cada noite, que se chama sonho.

No breve dia ou no ano ver um símbolo
dos dias do homem e também seus anos,
e o longo ultraje converter dos anos
num rumor, numa música e num símbolo:

ver o sonho na morte, ver no ocaso
um ouro triste – tal é a poesia,
que é imortal e pobre. A poesia
retorna como a aurora ou como o ocaso.

Às vezes, pelas tardes, uma cara
nos mira desde o fundo de um espelho:
a arte deve ser como esse espelho
que nos revela nossa própria cara.

Contam que Ulisses, farto de prodígios,
chorou de amor ao divisar sua Ítaca
humilde e verde. A arte é essa Ítaca,
de verde eternidade, e não prodígios.

Também é como um rio interminável
que passa e fica, e é o cristal de um mesmo
Heráclito inconstante, que é o mesmo
e é outro, como o rio interminável.


(Tradução de Renato Suttana)

Jorge Luís Borges Acevedo (n. Buenos Aires, 24 de Agosto de 1899 — m. Genebra, 14 de Junho de 1986)

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The Art of Poetry - Jorge Luís Borges

To gaze at a river made of time and water
And remember Time is another river.
To know we stray like a river
and our faces vanish like water.

To feel that waking is another dream
that dreams of not dreaming and that the death
we fear in our bones is the death
that every night we call a dream.

To see in every day and year a symbol
of all the days of man and his years,
and convert the outrage of the years
into a music, a sound, and a symbol.

To see in death a dream, in the sunset
a golden sadness--such is poetry,
humble and immortal, poetry,
returning, like dawn and the sunset.

Sometimes at evening there's a face
that sees us from the deeps of a mirror.
Art must be that sort of mirror,
disclosing to each of us his face.

They say Ulysses, wearied of wonders,
wept with love on seeing Ithaca,
humble and green. Art is that Ithaca,
a green eternity, not wonders.

Art is endless like a river flowing,
passing, yet remaining, a mirror to the same
inconstant Heraclitus, who is the same
and yet another, like the river flowing.


Jorge Luis Borges Acevedo (b. Buenos Aires, 24 August 1899 — d. Geneve, 14 June 1986)

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2009-06-14

Do que Nada se Sabe - Jorge Luís Borges

A lua ignora que é tranquila e clara
E não pode sequer saber que é lua;
A areia, que é a areia. Não há uma
Coisa que saiba que sua forma é rara.

As peças de marfim são tão alheias
Ao abstracto xadrez como essa mão
Que as rege. Talvez o destino humano,
Breve alegria e longas odisseias,

Seja instrumento de Outro. Ignoramos;
Dar-lhe o nome de Deus não nos conforta.
Em vão também o medo, a angústia, a absorta

E truncada oração que iniciamos.
Que arco terá então lançado a seta
Que eu sou? Que cume pode ser a meta?

(versão original)

La luna ignora que es tranquila y clara
y ni siquiera sabe que es la luna;
la arena, que es la arena. No habrá una
cosa que sepa que su forma es rara.

Las piezas de marfil son tan ajenas
al abstracto ajedrez como la mano
que las rige. Quizá el destino humano
de breves dichas y de largas penas

es instrumento de otro. Lo ignoramos;
darle nombre de Dios no nos ayuda.
Vanos también son el temor, la duda

y la trunca plegaria que iniciamos.
¿Qué arco habrá arrojado esta saeta
que soy? ¿Qué cumbre puede ser la meta?


Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo (nasceu em Buenos Aires, 24 de Agosto de 1899 — faleceu em Genebra, 14 de Junho de 1986)

Ler do mesmo autor neste blog: Limites; O Mar

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2008-08-24

Limites - Jorge Luís Borges


Há uma linha de Verlaine que não voltarei a recordar,
Há uma rua próxima que está vedada a meus passos,
Há um espelho que me viu pela última vez,
Há uma porta que fechei até ao fim do mundo.
Entre os livros de minha biblioteca (estou vendo-os)
Há algum que já nunca abrirei.
Este verão cumprirei cinquenta anos:
A morte me desgasta, incessante.


Versão original:

Hay una línea de Verlaine que no volveré a recordar
Hay una calle próxima que está vedada a mis pasos
hay un espejo que me ha visto por última vez,
hay una puerta que he cerrado hasta el fin del mundo.
Ente los libros de mi biblioteca (estoy viéndolos)
hay alguno que ya nunca abriré.
Este verano cumpliré cinquenta años;
La muerte me desgasta, incesante.

Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo(n. Buenos Aires, Argentina 24 August 1899 – m. Geneva, 14 June 1986)

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2007-08-24

O Mar - Jorge Luís Borges




Antes que o sonho (ou o terror) tecera
mitologias e cosmogonias,
antes que o tempo se cunhasse em dias,
o mar, sempre o mar, já estava e era.
Quem é o mar? Quem é o violento
e antigo ser que destrói os pilares
da terra, e é só um e muitos mares,
e abismo e resplendor e azar e vento?
Quem o olha vê-o pela vez primeira,
sempre. Com o assombro tal que as coisas
elementares deixam, as formosas
tardes, a lua, o fogo da fogueira.
Quem é o mar, quem sou? Sei-o no dia
que virá logo após a minha agonia.

Jorge Luis Borges (n. em Buenos Aires a 24 Ago 1899, m. em Genebra a 14 de Junho de 1986)
Trad. José Bento
in Rosa do Mundo 2001 Poemas para o Futuro, Porto 2001, Assírio & Alvim

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2004-10-29

Instantes

Si pudiera vivir nuevamente mi vida.
En la próxima, trataría de cometer más errores,
No intentaría ser tan perfecto;
Me relajaría más.
Seria más tonto de lo que he sido,
De hecho, tomaría muy pocas cosas con seriedad;
Seria menos higiénico.
Correría más riesgos, haría mas viajes,
Contemplaría más atardeceres,
Subiría mas montañas, nadaría mas ríos.
Iría a más lugares donde nunca he ido,
Comería más helados y menos habas,
Tendría más problemas reales y menos imaginarios.

Yo fui una de esas personas que vivió sensata
Y prolíficamente cada minuto de su vida,
Claro que tuve momentos de alegría.
Pero si pudiera volver atrás, trataría de tener
Solamente buenos momentos.
Por si no lo saben, de eso esta hecha la vida, solo de
Momentos; no te pierdas el de ahora.
Yo era uno de esos que nunca iban a ninguna parte
Sin un termómetro, una bolsa de agua caliente,
Un paraguas y un paracaídas, si pudiera volver a vivir
Viajaría más liviano.
Si pudiera volver a vivir, comenzaría a andar descalzo a
Principios de la primavera, y seguiría así hasta concluir
El otoño. Daría mas vueltas en calesita, contemplaría
Mas amaneceres y jugaría con mas niños,
Si tuviera otra vez la vida por delante.
Pero ya ven,
Tengo ochenta y cinco años y se que me estoy muriendo.

Este poema é atribuido a Jorge Luis Borges mas erradamente. Em pesquisas na net consta que a autora é americana de nome Nadine Stair, no entanto, coloca-se esta informação sob reservas

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