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2017-07-03

Ironia do Coração - Luís Murat


Como estavas formosa entre o mar e a minh'alma!
Ias partir... no céu vinha rompendo a aurora.
Eu te pedia - luz, tu me pedias - calma;
Eu te dizia: - "Crê"; tu me dizias: - "Chora!"

Beijei-te as mãos, beijei-te os pequeninos pés,
Como os lábios de um padre um assoalho sagrado.
Longe, ouvia-se ainda, entre os caramanchéis,
A melodiosa voz do luar apaixonado.

"É a voz do nosso amor, nos esponsais das flores.
Não chores mais, acalma a tua ansiedade.
Assim, como hei de eu dar tréguas às minhas dores,
E recalcar no peito esta amarga saudade?"

Partiste... Sobre mim cerrou-se a escuridão.
E eu não ouso subir aos meus sonhos agora,
Porque, irônico e mau, me grita o coração,
Quando não creio: "crê!", quando não choro: "chora!"

Poesias escolhidas, 1917

Luís Morton Barreto Murat (nasceu em Resende, RJ, em 4 de maio de 1861, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 3 de julho de 1929).

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2015-07-03

Além Ainda... - Luís Murat

Caminheiro que vais ao fim do dia
Demandando o crepúsculo das dores,
Não te percas na lágrima sombria
Da tormenta de anseios e amargores!

Além da sepultura principia
O caminho dos sonhos redentores,
Na alvorada perene da harmonia,
Aureolada de eternos resplendores.

Desolado viajor, ergue teus olhos!
Não te prendas somente ao chão tristonho,
Guarda a esperança carinhosa e linda!

Vence a longa jornada dos abrolhos,
Que o país luminoso do teu sonho
Fica ao alto... distante... além ainda...


Luís Morton Barreto Murat (n. em Resende, RJ, em 4 de Maio de 1861; m. no Rio de Janeiro, RJ, em 3 de Julho de 1920)

Ler do mesmo autor neste blog:
Penas Perdidas
O Poder das Lágrimas;
Travessia das Lágrimas
Ironia do Coração;
Em Meio do Caminho

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2014-07-03

Travessia das Lágrimas - Luís Murat

Tudo tentei! Mas tudo inutilmente!
O fogo continuou a devorar!
É que nas cinzas frias do presente,
Havia muito ainda que queimar!

Lá vai a folha a revoltões na enchente...
Onde irá ter? Que irá por fim achar
Entre as urzes de um solo indiferente,
Ou nos recifes úmidos do mar?

Coração — pobre folha! — a travessia
Das lágrimas de estranhos tons matizas,
Com outras dores e outro pranto regas!

Segue viajor! Hás de chegar um dia...
Oh! como dilacera o chão que pisas,
Como é pesado o lenho que carregas!


Luís Murat (L. Morton Barreto M.) nasceu em Itaguaí, RJ, em 4 de maio de 1861, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 3 de julho de 1929.

 Ler do mesmo autor neste blog: Penas Perdidas; O Poder das Lágrimas; Além Ainda; Ironia do Coração; Em Meio do Caminho

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2014-05-04

Penas perdidas - Luís Murat

Perguntas porque meus versos
Choram, em vez de sorrir...
É que eles são universos
Que estão quase a se extinguir.

Tristes deles, minha filha,
Tristes deles, minha irmã,
Raro é aquele que brilha,
Quando desponta a manhã.

São pequeninos fragmentos,
Pedaços da minha cruz,
Errando ao sabor dos ventos,
Como planetas sem luz.

As lágrimas que vieram
Umedecer este chão,
Num coração estiveram
Que já foi meu coração.

Pobre estrela desgarrada
Foi essa estrela de amor,
Hoje de todo apagada
No seu fumeiro de dor.

Irrompa, embora, no Oriente,
Qualquer aurora, qualquer,
Quem tem o Ocaso, somente,
Não vê a aurora nascer.

Houve uma dama formosa
Que meu coração colheu,
Como se colhe uma rosa
Mal o dia amanheceu.

Que quadra feliz foi essa!
Que meninice ideal!
O sonho que assim começa,
Quase sempre acaba mal!...

Um dia, a dama querida
Para outro país partiu...
Não cicatriza a ferida
Que uma ingratidão abriu.

Ela sumiu-se entre os astros,
Sem que a pudesse alcançar...
Quem é que, andando de rastros,
Pode um pássaro apanhar?

...............................

O que hoje faço, portanto,
É fazer o que não fiz:
Enxugar, a furto, o pranto,
E fingir que sou feliz.


(Poesias escolhidas, 1917)

Luís Murat (L. Morton Barreto M.) nasceu em Itaguaí, RJ, em 4 de maio de 1861, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 3 de julho de 1929.

 Ler do mesmo autor neste blog: O Poder das Lágrimas; Além Ainda; Ironia do Coração; Em Meio do Caminho

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2013-07-03

O Poder das Lágrimas - Luís Murat



Com que saudade para o céu não olhas,
vendo de nuvens todo o céu coberto
e engastadas de pérolas as folhas
e o coração das árvores deserto!

Como uma grande rosa, a alma desfolhas
dentro do seio, inteiramente aberto,
e esses restos de flor passando molhas
n’água do arroio, que coleia perto.

Molha-as, sim, nessa linfa algente e casta!
Que uma só gota cristalina basta
para o calor em chuva ir transformando.

Hás de ficar com olhos rasos d’água,
a dor há de acalmar, que a própria mágoa
tem dó de ver uma mulher chorando.


Luís Norton Barreto Murat nasceu em Itaguaí (RJ) a 4 de Maio de 1861 e morreu hemiplégico no Rio de Janeiro a 3 de Julho de 1929. Formado pela Faculdade de Direito de São Paulo em 1885, foi republicano e abolicionista. Participante do movimento revolucionário de 1893, andou refugiado e exilou-se em Buenos Aires mas, depois de julgado, foi absolvido. Indiferente ao parnasianismo, então vigente, estabeleceu a ponte entre o Romantismo e o Simbolismo. Influenciado a princípio por Victor Hugo, acabou dominado pela ideologia do místico sueco Swedenborg. Ninguém diria, ao ler «O Poder das Lágrimas», que transcrevemos, que o seu autor detestava os sonetos.

Soneto e nota biobliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

Ler do mesmo autor neste blog:
Além Ainda
Penas Perdidas
Em Meio do Caminho
Ironia do Coração

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2011-07-03

Ironia do Coração - Luís Murat



Como estavas formosa entre o mar e a minh'alma!
Ias partir... no céu vinha rompendo a aurora.
Eu te pedia - luz, tu me pedias - calma;
Eu te dizia: - "Crê"; tu me dizias: - "Chora!"

Beijei-te as mãos, beijei-te os pequeninos pés,
Como os lábios de um padre um assoalho sagrado.
Longe, ouvia-se ainda, entre os caramanchéis,
A melodiosa voz do luar apaixonado.

"É a voz do nosso amor, nos esponsais das flores.
Não chores mais, acalma a tua ansiedade.
Assim, como hei de eu dar tréguas às minhas dores,
E recalcar no peito esta amarga saudade?"

Partiste... Sobre mim cerrou-se a escuridão.
E eu não ouso subir aos meus sonhos agora,
Porque, irônico e mau, me grita o coração,
Quando não creio: "crê!", quando não choro: "chora!"

Poema extraído do sítio da Academia Brasileira de Letras
Luís Morton Barreto Murat (nasceu em Resende, RJ, em 4 de Maio de 1861, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 3 de Julho de 1929).

Ler do mesmo autor neste blog: O Poder das Lágrimas; Além Ainda
Penas Perdidas

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2011-05-04

IRONIA DO CORAÇÃO - Luís Murat

Como estavas formosa entre o mar e a minh'alma!
Ias partir... no céu vinha rompendo a aurora.
Eu te pedia - luz, tu me pedias - calma;
Eu te dizia: - "Crê"; tu me dizias: - "Chora!"

Beijei-te as mãos, beijei-te os pequeninos pés,
Como os lábios de um padre um assoalho sagrado.
Longe, ouvia-se ainda, entre os caramanchéis,
A melodiosa voz do luar apaixonado.

"É a voz do nosso amor, nos esponsais das flores.
Não chores mais, acalma a tua ansiedade.
Assim, como hei de eu dar tréguas às minhas dores,
E recalcar no peito esta amarga saudade?"

Partiste... Sobre mim cerrou-se a escuridão.
E eu não ouso subir aos meus sonhos agora,
Porque, irônico e mau, me grita o coração,
Quando não creio: "crê!", quando não choro: "chora!"


(in Poesias escolhidas, 1917.)

Luís Morton Barreto Murat (nasceu em Resende, RJ, em 4 de Maio de 1861, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 3 de Julho de 1929).

Ler do mesmo autor, neste blog:
Penas Perdidas
O Poder das Lágrimas;
Além Ainda

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2010-07-03

Penas Perdidas - Luís Murat (na passagem dos 81 anos sobre o seu falecimento)

Perguntas porque meus versos
Choram, em vez de sorrir...
É que eles são universos
Que estão quase a se extinguir.

Tristes deles, minha filha,
Tristes deles, minha irmã,
Raro é aquele que brilha,
Quando desponta a manhã.

São pequeninos fragmentos,
Pedaços da minha cruz,
Errando ao sabor dos ventos,
Como planetas sem luz.

As lágrimas que vieram
Umedecer este chão,
Num coração estiveram
Que já foi meu coração.

Pobre estrela desgarrada
Foi essa estrela de amor,
Hoje de todo apagada
No seu fumeiro de dor.

Irrompa, embora, no Oriente,
Qualquer aurora, qualquer,
Quem tem o Ocaso, somente,
Não vê a aurora nascer.

Houve uma dama formosa
Que meu coração colheu,
Como se colhe uma rosa
Mal o dia amanheceu.

Que quadra feliz foi essa!
Que meninice ideal!
O sonho que assim começa,
Quase sempre acaba mal!...

Um dia, a dama querida
Para outro país partiu...
Não cicatriza a ferida
Que uma ingratidão abriu.

Ela sumiu-se entre os astros,
Sem que a pudesse alcançar...
Quem é que, andando de rastros,
Pode um pássaro apanhar?

...........................

O que hoje faço, portanto,
É fazer o que não fiz:
Enxugar, a furto, o pranto,
E fingir que sou feliz.


Luís Morton Barreto Murat (nasceu em Resende, RJ, em 4 de Maio de 1861, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 3 de Julho de 1929).

Ler do mesmo autor, neste blog:
Ironia do Coração
O Poder das Lágrimas;
Além Ainda

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2009-07-03

Ironia do Coração - Luís Murat (quando se completa 80 anos sobre o seu desaparecimento)


Como estavas formosa entre o mar e a minh'alma!
Ias partir... no céu vinha rompendo a aurora.
Eu te pedia - luz, tu me pedias - calma;
Eu te dizia: - "Crê"; tu me dizias: - "Chora!"

Beijei-te as mãos, beijei-te os pequeninos pés,
Como os lábios de um padre um assoalho sagrado.
Longe, ouvia-se ainda, entre os caramanchéis,
A melodiosa voz do luar apaixonado.

"É a voz do nosso amor, nos esponsais das flores.
Não chores mais, acalma a tua ansiedade.
Assim, como hei de eu dar tréguas às minhas dores,
E recalcar no peito esta amarga saudade?"

Partiste... Sobre mim cerrou-se a escuridão.
E eu não ouso subir aos meus sonhos agora,
Porque, irônico e mau, me grita o coração,
Quando não creio: "crê!", quando não choro: "chora!"

Poema extraído do sítio da Academia Brasileira de Letras
Luís Morton Barreto Murat (nasceu em Resende, RJ, em 4 de Maio de 1861, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 3 de Julho de 1929).


Ler do mesmo autor neste blog: O Poder das Lágrimas; Além Ainda

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2008-07-03

Além Ainda... - Luís Murat

Caminheiro que vais ao fim do dia
Demandando o crespúsculo das dores,
Não te percas na lágrima sombria
Da tormenta de anseios e amargores!

Além da sepultura principia
O caminho dos sonhos redentores,
Na alvorada perene da harmonia,
Aureolada de eternos resplendores.

Desolado viajor, ergue teus olhos!
Não te prendas somente ao chão tristonho,
Guarda a esperança carinhosa e linda!

Vence a longa jornada dos abrolhos,
Que o país luminoso do teu sonho
Fica ao alto... distante... além ainda...

Luís Morton Barreto Murat (n. em Resende, RJ, em 4 de Maio de 1861; m. no Rio de Janeiro, RJ, em 3 de Julho de 1920)

Do mesmo autor ler: O Poder das Lágrimas; Ironia do Coração

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2008-05-04

O Poder das Lágrimas - Luís Murat


Com que saudade para o céu não olhas,
vendo de nuvens todo o céu coberto
e engastadas de pérolas as folhas
e o coração das árvores deserto!

Como uma grande rosa, a alma desfolhas
dentro do seio, inteiramente aberto,
e esses restos de flor passando molhas
n’água do arroio, que coleia perto.

Molha-as, sim, nessa linfa algente e casta!
Que uma só gota cristalina basta
para o calor em chuva ir transformando.

Hás de ficar com olhos rasos d’água,
a dor há de acalmar, que a própria mágoa
tem dó de ver uma mulher chorando.

LUÍS Norton Barreto MURAT nasceu em Itaguaí (RJ) a 4 de Maio de 1861 e morreu hemiplégico no Rio de Janeiro a 3 de Julho de 1929. Formado pela Faculdade de Direito de São Paulo em 1885, foi republicano e abolicionista. Participante do movimento revolucionário de 1893, andou refugiado e exilou-se em Buenos Aires mas, depois de julgado, foi absolvido. Indiferente ao parnasianismo, então vigente, estabeleceu a ponte entre o Romantismo e o Simbolismo. Influenciado a princípio por Victor Hugo, acabou dominado pela ideologia do místico sueco Swedenborg. Ninguém diria, ao ler «O Poder das Lágrimas», que transcrevemos, que o seu autor detestava os sonetos.

Soneto e nota biobliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.


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2007-07-11

Além ainda - Luís Murat

Caminheiro que vais ao fim do dia
Demandando o crespúsculo das dores,
Não te percas na lágrima sombria
Da tormenta de anseios e amargores!

Além da sepultura principia
O caminho dos sonhos redentores,
Na alvorada perene da harmonia,
Aureolada de eternos resplendores.

Desolado viajor, ergue teus olhos!
Não te prendas somente ao chão tristonho,
Guarda a esperança carinhosa e linda!

Vence a longa jornada dos abrolhos,
Que o país luminoso do teu sonho
Fica ao alto... distante... além ainda...

Luís Morton Barreto Murat (n. em Resende, RJ, em 4 de Mai de 1861; m. no Rio de Janeiro, RJ, em 11 de Jul de 1929.

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2006-07-11

Ironia do coração - Luis Murat

Como estavas formosa entre o mar e a minh'alma!
Ias partir... no céu vinha rompendo a aurora.
Eu te pedia - luz, tu me pedias - calma;
Eu te dizia: - "Crê"; tu me dizias: - "Chora!"

Beijei-te as mãos, beijei-te os pequeninos pés,
Como os lábios de um padre um assoalho sagrado.
Longe, ouvia-se ainda, entre os caramanchéis,
A melodiosa voz do luar apaixonado.

"É a voz do nosso amor, nos esponsais das flores.
Não chores mais, acalma a tua ansiedade.
Assim, como hei de eu dar tréguas às minhas dores,
E recalcar no peito esta amarga saudade?"

Partiste... Sobre mim cerrou-se a escuridão.
E eu não ouso subir aos meus sonhos agora,
Porque, irônico e mau, me grita o coração,
Quando não creio: "crê!", quando não choro: "chora!"


(Poesias escolhidas, 1917)

Luís Murat (n. Resende, Rio de Janeiro, 4 Mai 1861; m. Rio de Janeiro, a 3 Jul 1929)

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