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2016-06-05

Soneto [Sou Pastor; não te nego; os meus montados] - Cláudio Manuel da Costa

Sou Pastor; não te nego; os meus montados
São esses, que aí vês; vivo contente
Ao trazer entre a relva florescente
A doce companhia dos meus gados;

Ali me ouvem os troncos namorados,
Em que se transformou a antiga gente;
Qualquer deles o seu estrago sente;
Como eu sinto também os meus cuidados.

Vós, ó troncos (lhes digo), que algum dia
Firmes vos contemplastes, e seguros
Nos braços de uma bela companhia;

Consolai-vos comigo, ó troncos duros;
Que eu alegre algum tempo assim me via;
E hoje os tratos de Amor choro perjuros.

Claúdio Manuel da Costa (n. Vargem do Itacolomi,atual Mariana, MG a 5 junho 1729; m. em Vila Rica, actual Ouro Preto, MG, a 4 julho 1789)

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2011-06-05

Soneto XXVI : Não vês Nise, este vento desabrido - Cláudio Manuel da Costa

Não vês, Nise, este vento desabrido,
Que arranca os duros troncos? Não vês esta,
Que vem cobrindo o céu, sombra funesta,
Entre o horror de um relâmpago incendido?

Não vês a cada instante o ar partido
Dessas linhas de fogo? Tudo cresta,
Tudo consome, tudo arrasa, e infesta,
O raio a cada instante despedido.

Ah! não temas o estrago, que ameaça
A tormenta fatal; que o Céu destina
Vejas mais feia, mais cruel desgraça:

Rasga o meu peito, já que és tão ferina;
Verás a tempestade, que em mim passa;
Conhecerás então, o que é ruína.


Claúdio Manuel da Costa (n. Vargem do Itacolomi,atual Mariana, MG a 5 Jun 1729; m. em Vila Rica, actual Ouro Preto, MG, a 4 Jul 1789)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Soneto XCVIII;
Pastores...;
Soneto V;
Soneto XLVI

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2010-06-05

Nise? Nise? Onde estás? ... Cláudio Manuel da Costa

Nise? Nise? onde estás? Aonde espera
Achar te uma alma, que por ti suspira,
Se quanto a vista se dilata, e gira,
Tanto mais de encontrar te desespera!

Ah se ao menos teu nome ouvir pudera
Entre esta aura suave, que respira!
Nise, cuido, que diz; mas é mentira.
Nise, cuidei que ouvia; e tal não era.

Grutas, troncos, penhascos da espessura,
Se o meu bem, se a minha alma em vós se esconde,
Mostrai, mostrai me a sua formosura.

Nem ao menos o eco me responde!
Ah como é certa a minha desventura!
Nise? Nise? onde estás? aonde? aonde?


Poema extraído daqui
Claúdio Manuel da Costa (n. Vargem do Itacolomi,atual Mariana, MG a 5 Jun 1729; m. em Vila Rica, actual Ouro Preto, MG, a 4 Jul 1789)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Soneto XCVIII;
Pastores...;
Soneto V;
Soneto XLVI

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2009-07-04

Soneto XCVIII - Cláudio Manuel da Costa (na passagem dos 220 anos sobre a sua morte)

Destes penhascos fez a natureza
O berço, em que nasci! oh quem cuidara,
Que entre penhas tão duras se criara
Uma alma terna, um peito sem dureza!

Amor, que vence os tigre por empresa
Tomou logo render-me; ele declara
Contra o meu coração guerra tão rara,
Que não me foi bastante a fortaleza.

Por mais que eu mesmo conhecesse o dano,
A que dava ocasião minha brandura,
Nunca pude fugir ao cego engano:

Vós, que ostentais a condição mais dura,
Temei, penhas, temei; que Amor tirano,
Onde há mais resistência, mais se apura.


in Cinco Séculos de Poesia, Antologia da Poesia Clássica Brasileira, Selecção e Introdução de Frederico Barbosa, Landy Editora

Cláudio Manuel da Costa (n. na Vargem do Itacolomi, atual Mariana, MG a 5 Jun 1729; m. em Vila Rica, actual Ouro Preto, MG, a 4 Jul 1789).

Ler do mesmo autor, neste blog: Pastores...; Soneto V; Nize, Nize, onde estás?...; Soneto XLVI

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2009-06-05

Pastores... - Cláudio Manuel da Costa no 180º. aniversário

Pastores, que levais ao monte o gado,
Vêde lá como andais por essa serra;
Que para dar contágio a toda a terra,
Basta ver se o meu rosto magoado:

Eu ando (vós me vêdes) tão pesado;
E a pastora infiel, que me faz guerra,
É a mesma, que em seu semblante encerra
A causa de um martírio tão cansado.

Se a quereis conhecer, vinde comigo,
Vereis a formosura, que eu adoro;
Mas não; tanto não sou vosso inimigo:

Deixai, não a vejais; eu vo-lo imploro;
Que se seguir quiserdes, o que eu sigo,
Chorareis, ó pastores, o que eu choro.


Cláudio Manoel da Costa (nasceu em Vargem do Itacolomi, hoje Mariana, MG a 5 de Junho de 1729 — morreu em Vila Rica, 4 de Julho de 1789)

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2008-07-04

Soneto V - Cláudio Manuel da Costa

Pastando as ovelhas foto daqui

Na passagem do 220º. aniversário da morte do poeta

Se sou pobre pastor, se não governo
Reinos, nações, províncias, mundo, e gentes;
Se em frio, calma, e chuvas inclementes
Passo o verão, outono, estio, inverno;

Nem por isso trocara o abrigo terno
Desta choça, em que vivo, coas enchentes
Dessa grande fortuna: assaz presentes
Tenho as paixões desse tormento eterno.

Adorar as traições, amar o engano,
Ouvir dos lastimosos o gemido,
Passar aflito o dia, o mês, e o ano;

Seja embora prazer; que a meu ouvido
Soa melhor a voz do desengano,
Que da torpe lisonja o infame ruído.


Cláudio Manuel da Costa (n. na Vargem do Itacolomi, atual Mariana, MG a 5 Jun 1729; m. em Vila Rica, actual Ouro Preto, MG, a 4 Jul 1789).

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2008-06-05

Nize, Nize, onde estás? - Cláudio Manuel da Costa

Nize, Nize, onde estás ? Aonde espera
achar-te uma alma, que por ti suspira,
se quanto a vista se dilata e gira
tanto mais de encontrar-te desespera!

Ah!, se ao menos teu nome ouvir pudera
entre esta aura suave, que respira!
Nize, cuido, que diz, mas é mentira;
Nise, cuidei que ouvia, e tal não era.

Grutas, troncos, penhascos da espessura,
se o meu bem, se a minh'alma em vós se esconde,
mostrai, mostrai-me a sua formosura.

Nem ao menos o eco me responde!
Ah, como é certa a minha desventura!
Nize, Nize, onde estás? Aonde? Aonde?

Cláudio Manuel da Costa (Glauceste Satúrnio) nasceu em Mariana (MG) a 5 de Junho de 1729 e enforcou-se na cela da prisão, em Ouro Preto (MG), a 4 de Julho de 1789. Em 1749, partira para Coimbra, onde se formara em Cânones pela respectiva universidade. Depois de terminado o curso, fez uma estadia em Roma (1753). Em 1765, regressou ao Brasil, advogou em Vila Rica (primitivo nome da capital de Minas Gerais) e chegou a ser secretário de Estado durante três anos. Implicado na conspiração conhecida como Inconfidência Mineira, suicidou-se. Na sua poesia, este poeta brasileiro exprime saudades de Portugal (Lima, Mondego, Tejo).

Nota biobliográfica extraída de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

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2007-07-04

Soneto XLVI - Cláudio Manuel da Costa

foto: pássaro


Não vês, Lise, brincar esse menino
Com aquela avezinha? Estende o braço;
Deixa-a fugir; mas apertando o laço,
A condena outra vez ao seu destino?

Nessa mesma figura, eu imagino,
Tens minha liberdade; pois ao passo,
Que cuido, que estou livre do embaraço,
Então me prende mais meu desatino.

Em um contínuo giro o pensamento
Tanto a precipitar-me se encaminha,
Que não vejo onde pare o meu tormento.

Mas fora menos mal esta ânsia minha,
Se me faltasse a mim o entendimento,
Como falta a razão a esta avezinha.

Cláudio Manuel da Costa (n. na Vargem do Itacolomi, atual Mariana, MG a 5 Jun 1729; m. em Vila Rica, actual Ouro Preto, MG, a 4 Jul 1789).

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