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2013-12-05

Semente do Deserto - Humberto de Campos

No alto sertão da minha terra
Cai, misteriosa, uma semente
Que a outras sementes move guerra.

onde ela nasce, de repente,
— Seara de mão cruel e ignota —
A relva murcha, suavemente.

E nas planícies onde brota,
E onde nem sempre é conhecida,
Toda a campina se desbota...

(Semente bárbara e remota,
Quem te semeou na minha vida?)


Humberto de Campos Veras (n. em Miritiba, Maranhão, 25 de outubro de 1886 — m. no Rio de Janeiro, 5 de dezembro de 1934)

Ler neste blog, do mesmo autor:



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2013-10-25

Envelhecer - Humberto de Campos


àrvore Vetusta, Outono

Na manhã da existência, ouvindo o peito,
que previa teu vulto no caminho,
dentro em minha alma levantei teu ninho,
e, nesse ninho, preparei teu leito.

Desceu a tarde, e ainda me viu sozinho.
Murcham as flores que, de leve, ajeito;
de novas rosas tua colcha enfeito,
e o travesseiro, novamente, alinho.

Cai, tristonho, o crepúsculo, na estrada.
Alongo os olhos, atirando um beijo
à forma vaga do teu corpo… E nada!

Recomponho as palavras que não disse.
E, apagando a candeia do Desejo,
adormeço na noite da Velhice.

Humberto de Campos Veras (n. em Miritiba, Maranhão, 25 de outubro de 1886 — m. no Rio de Janeiro, 5 de dezembro de 1934)

Ler neste blog, do mesmo autor:

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2011-10-25

Tuas cartas rasguei - Humberto de Campos

imagem daqui

Tuas cartas rasguei uma por uma:
cento e catorze páginas e tiras
de juramentos, de promessas, em suma
de perfídias, de sonhos, de mentiras.

Mas... chorei ao rasgá-las! Tinha alguma
cousa a implorar nelas por ti; e as iras
foram-se e, agora, cólera nenhuma
neste peito haverá, por mais que o firas.

Eram mentiras, eu bem sei... No entanto,
cada rompida página era um cardo
que enterrava no peito em cada canto.

E eis porque, ajoelhado, após instantes,
os pedaços juntei... e agora os guardo
com mais amor do que os guardava dantes!


Humberto de Campos (n. Miritiba, 25 Out 1886; m. Rio de Janeiro, 5 Dez 1934)

in A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa - Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, CRL, 2004

Ler neste blog, do mesmo autor:

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2010-10-25

Envelhecer - Humberto de Campos


àrvore Vetusta, Outono

Na manhã da existência, ouvindo o peito,
que previa teu vulto no caminho,
dentro em minha alma levantei teu ninho,
e, nesse ninho, preparei teu leito.

Desceu a tarde, e ainda me viu sozinho.
Murcham as flores, que, de leve, ajeito;
de novas rosas tua colcha enfeito,
e o travesseiro, novamente, alinho.

Cai, tristonho, o crepúsculo, na estrada.
Alongo os olhos, atirando um beijo
à forma vaga do teu corpo… E nada!

Recomponho as palavras que não disse.
E, apagando a candeia do Desejo,
adormeço na noite da Velhice.

Humberto de Campos Veras (n. em Miritiba, Maranhão, 25 de outubro de 1886 — m. no Rio de Janeiro, 5 de dezembro de 1934)

Ler neste blog, do mesmo autor:

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2009-10-25

Ciúme - Humberto de Campos

Certo, a lógica dos homens é o que há de mais penoso e inconseqüente. Quando João, que amava Mme. Paula, verificou que era correspondido, pediu-lhe a mão, e casou-se.

E foi-lhe logo, dizendo:

— Minha querida, os maridos que amam verdadeiramente são ciumentos. E eu te amo verdadeiramente.

— E eu te dei motivo para ciúmes?

— Não; mas todas as vezes que eu examino que és bela, fico a pensar que outros podem te achar bela, como eu te acho.

— Está bem, — disse ela.

E, para que o marido vivesse tranqüilo, deixou que a maternidade gastasse o seu corpo maravilhoso.

— E agora, ainda tens ciúmes?

— Oh, sim; os teus cabelos são longos, finos, sedosos e ondulados, e outros te podem amar só por causa deles.

— Está bem, — disse ela.

E para que o marido não vivesse em sobressalto, cortou, quase rente, os seus lindos cabelos sedosos.

— E agora, ainda tens ciúmes?

— Minha querida, os teus dentes são admiráveis, e, quando sorris, é tal o milagre da frescura, que eu temo que outro queira, também, comigo, partilhar a delícia do teu beijo.

— Está bem, disse a esposa.

E, para que ele não vivesse preocupado por sua causa, ela esqueceu os dentes, que se estragaram; e deixou de sorrir.

— E, agora, ainda tens ciúmes?

João tinha, porém, ciúmes dos seus lábios, dos seus olhos, das suas mãos delicadas; e quando, para que o esposo não vivesse em cuidados por sua causa, ela se despojou de toda beleza, ele ficou sossegado, e agradeceu:

— Afinal, não tenho mais ciúmes!

Dias depois, entretanto, comunicou-lhe:

— Sabes, minha querida, que estás, de certo tempo a esta parte, horrivelmente feia?

E tomou uma amante.

Humberto de Campos Veras (n. em Miritiba, Maranhão, 25 de outubro de 1886 — m. no Rio de Janeiro, 5 de dezembro de 1934)

Ler neste blog, do mesmo autor: Dor, Tuas Cartas rasguei ; Semente do Deserto; No trem; Retrospecto

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2008-10-25

Retrospecto - Humberto de Campos

Vinte e seis anos, trinta amores: trinta
vezes a alma de sonhos fatigada.
e, ao fim de tudo, como ao fim de cada
amor, a alma de amor sempre faminta!

Ó mocidade que foges! brada
aos meus ouvidos teu futuro, e pinta
aos meus olhos mortais, com toda a tinta,
os remorsos da vida dissipada!

Derramo os olhos por mim mesmo... E, nesta
muda consulta ao coração cansado,
que é que vejo? que sinto? que me resta?

Nada: ao fim do caminho percorrido,
o ódio de trinta vezes ter jurado
e o horror de trinta vezes ter mentido!

Humberto de Campos Veras nasceu em Miritiba (MA) a 25 de Outubro de 1886 e morreu tuberculoso no Rio de Janeiro a 5 de Dezembro de 1934. Órfão aos 6 anos, passou uma infância e uma juventude atribuladas: marçano numa casa de miudezas da sua terra natal, caixeiro num armazém de secos e molhados em São Luís do Maranhão, empregado num seringal do Amazonas aos 17 anos, jornalista em Belém do Pará (sucessivamente redactor, secretário de redacção e director do jornal «A Província», fez largas digressões pelo interior do Brasil). De todas estas andanças, obteve uma rica experiência de vida. Acabou por se fixar no Rio, onde depressa se tornou no cronista brasileiro mais popular de sempre (chegava a escrever 4 ou 5 crónicas por dia, que, reunidas, deram dez volumes). Autodidacta, o seu talento congénito, aliado à perseverança, levaram-no a ser eleito «príncipe dos prosadores brasileiros». Mas estreara-se, em 1911, com um livro de versos, «Poeira» e, em 1933, reuniu as suas «Poesias Completas» (1904 a 1931). Mais conhecido, porém, como prosador, além de cronista, foi contista, crítico literário e memorialista. As suas obras completas contam mais de trinta volumes.

Soneto extraído daqui. Nota biobibliográfica extraída de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

Ler neste blog, do mesmo autor: Dor, Tuas Cartas rasguei ; Semente do Deserto; No trem

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2007-12-05

Dor - Humberto de Campos

"Há de ser uma estrada de amarguras
a tua vida. E andá-la-ás sozinho,
vendo sempre fugir o que procuras"
disse-me um dia um pálido advinho.

"No entanto, sempre hás de cantar venturas
que jamais encontraste... O teu caminho,
dirás que é cheio de alegrias puras,
de horas boas, de beijos, de carinho..."

E assim tem sido... Escondo os meus lamentos:
É meu destino suportar sorrindo
as desventuras e os padecimentos.

E no mundo hei de andar, neste desgosto,
a mentir ao meu íntimo, cobrindo
os sinais destas lágrimas no rosto!

Humberto de Campos (n. Miritiba,25 Out 1886; m. Rio de Janeiro, 5 Dez 1934)


Ler neste blog, do mesmo autor: Tuas Cartas rasguei ; Semente do Deserto; No trem

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2007-10-25

Semente do Deserto - Humberto de Campos

No alto sertão da minha terra
Cai, misteriosa, uma semente
Que a outras sementes move guerra.


onde ela nasce, de repente,
— Seara de mão cruel e ignota —
A relva murcha, suavemente.


E nas planícies onde brota,
E onde nem sempre é conhecida,
Toda a campina se desbota...

(Semente bárbara e remota,
Quem te semeou na minha vida?)

Humberto de Campos Veras (n. em Miritiba, hoje Humberto de Campos, MA, em 25 de Outubro de 1886; m. no Rio de Janeiro, RJ, em 5 de Dezembro de 1934).

Ler do mesmo autor neste blog Tuas cartas rasguei

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2005-12-05

No trem - Humberto de Campos

Comboio, trem
Foto "tirada" de Leste de Angola

O ano passado neste mês... É um dia
De grande sol. A máquina troveja,
Berra, fuma, atravessa em correria
A amarela paisagem

Vais a um canto do trem. A serrania
Foge aos poucos. A aragem te festeja
Voa, a brincar com o teu cabelo,e, fria,
leva-te, os olhos, trêfega te beija

Olho-te, mudo. Esquece-me a paisagem
Mas, anoitece e a líquida turquesa
Do mar nos diz que é terminada a viagem

Formam nuvens pelo ar, plumbeas refolhos
Cai de leve o crepúsculo... e a tristeza
Espalha outro crepúsculo em teus olhos.

Humberto de Campos (n. Miritiba, Maranhão, em 25.10.1886; m. Rio de Janeiro em 05 Dez 1934).

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2005-10-25

Tuas cartas rasguei ... Humberto de Campos

Tuas cartas rasguei uma por uma:
cento e catorze páginas e tiras
de juramentos, de promessas, em suma
de perfídias, de sonhos, de mentiras.

Mas... chorei ao rasgá-las! Tinha alguma
cousa a implorar nelas por ti; e as iras
foram-se e, agora, cólera nenhuma
neste peito haverá, por mais que o firas.

Eram mentiras, eu bem sei... No entanto,
cada rompida página era um cardo
que enterrava no peito em cada canto.

E eis porque, ajoelhado, após instantes,
os pedaços juntei... e agora os guardo
com mais amor do que os guardava dantes!

Humberto de Campos (n. Miritiba, 25 Out 1886; m. Rio de Janeiro, 5 Dez 1934)
in A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa - Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, CRL, 2004

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