Blog Widget by LinkWithin
Mostrar mensagens com a etiqueta Castro Alves. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Castro Alves. Mostrar todas as mensagens

2016-07-06

Penso em ti - Castro Alves

Eu penso em ti nas horas de tristeza
Quando rola a esperança emurchecida
Nas horas de saudade e morbidez
Ai! Só tu és minha ilusão querida
Eu penso em ti nas horas de tristeza.


Vê quanta sombra me escurece o seio!
Que palidez sombria no meu rosto!
Tu és a única luz da treva em meio
Tu és a minha estrela do sol posto...
Contigo a sombra não me tolda o seio.


Quando a teus pés o meu viver s'escoa,
Esqueço a minha sorte, o meu martírio,
Minh'alma como a pomba em sangue voa
Para ir se abrigar à tua, ó lírio,
Quando a teus pés o meu viver s'escoa ...


Bendito o riso desses lábios túmidos!
Bendito o meigo olhar tão peregrino!
Como o sol abre a flor nos campos úmidos
Crenças desperta o teu divino olhar...
E o riso, o riso desses lábios túmidos


Ai! volve! volve peregrina estrela...
Minh'alma é o templo de um amor suave
À tua espera o lampadário vela...
À tua espera perfumou-se a nave...
Ai! volve! volve peregrina estrela!


António Frederico de Castro Alves (nasceu em 14 de março de 1847, na fazenda de Cabaceiras, então freguesia de Muritiba, a poucas léguas da vila de Curralinho, hoje a cidade de Castro Alves, na Bahia, Brasil; m. Salvador, Bahia, Brasil a 6 de julho de 1871)

Read More...

2016-03-14

Horas de Saudade - Castro Alves

Foto: Origami - a propósito de Akira Yoshizawa 
(吉澤 章  14 March 1911 Kaminokawa, Japan – 14 March 2005)
 considerado o grande mestre do origami


Tudo vem me lembrar que tu fugiste,
Tudo que me rodeia de ti fala.
Inda a almofada, em que pousaste a fronte,
O teu perfume predileto exala.

No piano saudoso, à tua espera,
Dormem sono de morte as harmonias;
E a valsa entreaberta mostra a frase,
A doce frase que inda há pouco lias.

As horas passam longas, sonolentas...
Desce a tarde no carro vaporoso...
D'Ave-Maria o sino, que soluça,
É por ti que soluça mais queixoso.

E não vens te sentar perto, bem perto,
Nem derramas ao vento da tardinha,
A caçoula de notas rutilantes
Que tua alma entornava sobre a minha.

E, quando uma tristeza irresistível
Mais fundo cava-me um abismo n'alma,
Como a harpa de Davi, teu riso santo
Meu acerbo sofrer já não acalma.

É que tudo me lembra que tu fugiste,
Tudo que me rodeia, de ti fala,
Como o cristal da essência do Oriente
Mesmo vazio a sândalo trescala...

No ramo curto o ninho abandonado
Relembra o pipilar do passarinho.
Foi-se a festa de amores e de afagos...
Eras - ave do céu..-.minh'alma - o ninho!

Por onde trilhas - um perfume expande-se,
Há ritmo e cadência no teu passo!
És como a estrela, que transpondo as sombras,
Deixa um rastro de luz no azul do espaço...

E teu rastro de amor guarda minh'alma,
Estrela, que fugiste aos meus anelos!
Que levaste-me a vida entrelaçada
Na sombra sideral de teus cabelos!...

Extraído de Os dias do Amor, um poema para cada dia do ano; recolha, selecção e organização de Inês Ramos; prefácio de Henrique Manuel Bento Fialho

Antônio Frederico de Castro Alves (n. em Muritiba, Bahia, 14 de março de 1847 — m. Salvador, Bahia, 6 de julho de 1871).

Read More...

2012-03-14

Horas de Saudade - Castro Alves

Foto: Origami - a propósito de Akira Yoshizawa 
(吉澤 章  14 March 1911 Kaminokawa, Japan – 14 March 2005)
 considerado o grande mestre do origami


Tudo vem me lembrar que tu fugiste,
Tudo que me rodeia de ti fala.
Inda a almofada, em que pousaste a fronte,
O teu perfume predileto exala.

No piano saudoso, à tua espera,
Dormem sono de morte as harmonias;
E a valsa entreaberta mostra a frase,
A doce frase que inda há pouco lias.

As horas passam longas, sonolentas...
Desce a tarde no carro vaporoso...
D'Ave-Maria o sino, que soluça,
É por ti que soluça mais queixoso.

E não vens te sentar perto, bem perto,
Nem derramas ao vento da tardinha,
A caçoula de notas rutilantes
Que tua alma entornava sobre a minha.

E, quando uma tristeza irresistível
Mais fundo cava-me um abismo n'alma,
Como a harpa de Davi, teu riso santo
Meu acerbo sofrer já não acalma.

É que tudo me lembra que tu fugiste,
Tudo que me rodeia, de ti fala,
Como o cristal da essência do Oriente
Mesmo vazio a sândalo trescala...

No ramo curto o ninho abandonado
Relembra o pipilar do passarinho.
Foi-se a festa de amores e de afagos...
Eras - ave do céu..-.minh'alma - o ninho!

Por onde trilhas - um perfume expande-se,
Há ritmo e cadência no teu passo!
És como a estrela, que transpondo as sombras,
Deixa um rastro de luz no azul do espaço...

E teu rastro de amor guarda minh'alma,
Estrela, que fugiste aos meus anelos!
Que levaste-me a vida entrelaçada
Na sombra sideral de teus cabelos!...

Extraído de Os dias do Amor, um poema para cada dia do ano; recolha, selecção e organização de Inês Ramos; prefácio de Henrique Manuel Bento Fialho

Antônio Frederico de Castro Alves (n. em Muritiba, Bahia, 14 de Março de 1847 — m. Salvador, Bahia, 6 de Julho de 1871).

Ler do mesmo autor:
Quando Eu Morrer
Boa-Noite
O Adeus de Teresa;
Adormecida
Beijo Eterno;
Mocidade e Morte;
Horas de Saudade
Ahasverus e o Gênio
Ao dia sete de setembro

Read More...

2011-07-06

Quando eu Morrer ... - Castro Alves

Eu morro, eu morro. A matutina brisa
Já não me arranca um riso. A rósea tarde
Já não me doura as descoradas faces
Que gélidas se encovam.
Junqueira Freire






Quando eu morrer... não lancem meu cadáver
No fosso de um sombrio cemitério...
Odeio o mausoléu que espera o morto
Como o viajante desse hotel funéreo.

Corre nas veias negras desse mármore
Não sei que sangue vil de messalina,
A cova, num bocejo indiferente,
Abre ao primeiro o boca libertina.

Ei-la a nau do sepulcro — o cemitério...
Que povo estranho no porão profundo!
Emigrantes sombrios que se embarcam
Para as plagas sem fim do outro mundo.

Tem os fogos — errantes — por santelmo.
Tem por velame — os panos do sudário...
Por mastro — o vulto esguio do cipreste,
Por gaivotas — o mocho funerário...

Ali ninguém se firma a um braço amigo
Do inverno pelas lúgubres noitadas...
No tombadilho indiferentes chocam-se
E nas trevas esbarram-se as ossadas...

Como deve custar ao pobre morto
Ver as plagas da vida além perdidas,
Sem ver o branco fumo de seus lares
Levantar-se por entre as avenidas!...

Oh! perguntai aos frios esqueletos
Por que não têm o coração no peito...
E um deles vos dirá "Deixei-o há pouco
De minha amante no lascivo leito."

Outro: "Dei-o a meu pai". Outro: "Esqueci-o
Nas inocentes mãos de meu filhinho"...
...Meus amigos! Notai... bem como um pássaro
O coração do morto volta ao ninho!...


São Paulo, março de 1869.

Antônio Frederico de Castro Alves (n. em Muritiba, Bahia, 14 de Março de 1847 — m. Salvador, Bahia, 6 de Julho de 1871).

Ler do mesmo autor:
Boa-Noite
O Adeus de Teresa;
Adormecida
Beijo Eterno;
Mocidade e Morte;
Horas de Saudade
Ahasverus e o Gênio
Ao dia sete de setembro

Read More...

2011-03-14

Ahasverus e o gênio - Castro Alves (no Dia da Poesia)

   Sabes quem foi Ahasverus?...— o precito,
O mísero Judeu, que tinha escrito
Na fronte o selo atroz!

Eterno viajor de eterna senda...
Espantado a fugir de tenda em tenda,
Fugindo embalde à vingadora voz!

Misérrimo! Correu o mundo inteiro,
E no mundo tão grande... o forasteiro
Não teve onde... pousar.

Co'a mão vazia — viu a terra cheia.
O deserto negou-lhe — o grão de areia,
A gota d'água — rejeitou-lhe o mar.

D'Ásia as florestas — lhe negaram sombra
A savana sem fim — negou-lhe alfombra.
O chão negou-lhe o pó!...

Tabas, serralhos, tendas e solares...
Ninguém lhe abriu a porta de seus lares
E o triste seguiu só.

Viu povos de mil climas, viu mil raças,
E não pôde entre tantas populaças
Beijar uma só mão ...

Desde a virgem do Norte à de Sevilhas,
Desde a inglesa à crioula das Antilhas
Não teve um coração! ...

E caminhou!... E as tribos se afastavam
E as mulheres tremendo murmuravam
Com respeito e pavor.

Ai! Fazia tremer do vale à serra...
Ele que só pedia sobre a terra
— Silêncio, paz e amor! —

No entanto à noite, se o Hebreu passava,
Um murmúrio de inveja se elevava,
Desde a flor da campina ao colibri.

"Ele não morre", a multidão dizia...
E o precito consigo respondia:
— "Ai! mas nunca vivi!" —

................................
O Gênio é como Ahasverus... solitário
A marchar, a marchar no itinerário
Sem termo do existir.

Invejado! a invejar os invejosos.
Vendo a sombra dos álamos frondosos...
E sempre a caminhar... sempre a seguir...

Pede u'a mão de amigo — dão-lhe palmas:
Pede um beijo de amor — e as outras almas
Fogem pasmas de si.

E o mísero de glória em glória corre...
Mas quando a terra diz: — "Ele não morre"
Responde o desgraçado: — "Eu não vivi!..."
in Rosa do Mundo, 2001 Poemas Para o Futuro, Porto Editora

António Frederico de CASTRO ALVES nasceu em Muritiba (BA) a 14 de Março de 1847 e morreu, em São Salvador (BA) a 6 de Julho de 1871

De Castro Alves já divulgámos aqui neste blog Boa Noite, O Adeus de Teresa; Adormecida
Beijo Eterno; Mocidade e Morte; Horas de Saudade

Read More...

2010-09-07

A propósito da Independência do Brasil: Ao dia sete de setembro - Castro Alves

Mancebos, que sois a esperança
Do majestoso Brasil;
Mancebos, que inda tão tenros
Sabeis de louro gentil
Adornar o pátrio dia,
Nosso dia senhoril!

Eis que assomou sobre os montes
Além, sobre a antiga serra,
Entre mil nuvens de rosa,
O dia de nossa terra;
Aquele que para a Pátria
Milhões de glórias encerra.

Foi hoje que o Lusitano,
Que o filho de além do mar,
Despertou com forte brado
A Pátria que era a sonhar,
Que nem sequer escutava
A liberdade a expirar.

E o brado: — "Livres ou mortos"
Lá nos bosques retumbou;
E mais contente o Ipiranga
As suas águas rolou;
E o eco d'alta montanha
Todo o Brasil ecoou.

E as montanhas lá do Sul,
E as montanhas lá do Norte,
Repetiram em seus cumes:
Sempre ser livres ou morte...
E lá na luta renhida
Cada qual luta mais forte.

Sim, nos combates que, ousados,
Travaram cem contra mil,
O mancebo que nascera
Sob este azul céu de anil,
Forte como um Bonaparte,
Batia o forte fuzil.

E cada qual no combate
Ao ribombar do canhão
Queria à custa da vida
Dar à Pátria salvação,
Vingar a terra natal
D'aviltante servidão.

Eia, pois, flores da Pátria,
Esp'rançosa mocidade!
Que os Andradas e os Machados
Do alto da Eternidade
Contentes vos abençoam
No dia da Liberdade.

Bahia, Ginásio Baiano, 7 de setembro de 1861.

Antônio Frederico de Castro Alves (1847 — 1871).

Ler do mesmo autor, neste blog:
Mocidade e Morte
Boa-Noite
O Adeus de Teresa
Adormecida

Read More...

2010-03-14

Horas de Saudade - Castro Alves

Tudo vem me lembrar que tu fugiste,
Tudo que me rodeia de ti fala.
Inda a almofada, em que pousaste a fronte,
O teu perfume predileto exala

No piano saudoso, à tua espera,
Dormem sono de morte as harmonias;
E a valsa entreaberta mostra a frase,
A doce frase que inda há pouco lias.

As horas passam longas, sonolentas...
Desce a tarde no carro vaporoso...
D'Ave Maria o sino, que soluça,
É por ti que soluça mais queixoso.

E não vens te sentar perto, bem perto
Nem derramas ao vento da tardinha,
A caçoula de notas rutilantes
Que tua alma entornava sobre a minha.

E, quando uma tristeza irresistível
Mais fundo cava-me um abismo n'alma,
Como a harpa de Davi, teu riso santo
Meu acerbo sofrer já não acalma.

É que tudo me lembra que tu fugiste,
Tudo que me rodeia de ti fala...
Como o cristal da essência do Oriente
Mesmo vazio a sândalo trescala...

No ramo curto o ninho abandonado
Relembra o pipilar do passarinho.
Foi-se a festa de amores e de afagos...
Eras - ave do céu...minh'alma - o ninho!

Por onde trilhas - um perfume expande-se,
Há ritmo e cadência no teu passo!
És como a estrela, que transpondo as sombras,
Deixa um rastro de luz no azul do espaço...

E teu rastro de amor guarda minh'alma,
Estrela, que fugiste aos meus anelos!
Que levaste-me a vida entrelaçada
Na sombra sideral de teus cabelos!...

in Os dias do Amor, um poema para cada dia do ano; recolha, seleccão e organização de Inês Ramos; prefácio de Henrique Manuel Bento Fialho

Antônio Frederico de Castro Alves (n. em Muritiba, Bahia, 14 de Março de 1847 — m. Salvador, Bahia, 6 de Julho de 1871).

Ler do mesmo autor:
Mocidade e Morte
Boa-Noite
O Adeus de Teresa
Adormecida

Read More...

2009-07-06

Mocidade e Morte - Castro Alves

Oh! Eu quero viver, beber perfumes
Na flor silvestre que embalsama os ares;
Ver minha alma adejar pelo infinito,
Qual branca vela na amplidão dos mares.
No seio da mulher há tanto aroma...
Nos seus beijos de fogo há tanta vida...
- Árabe errante, vou dormir à tarde
À sombra fresca da palmeira erguida.

Mas uma voz responde-me sombria :
Terás o sono sob a lájea fria.

Morrer... quando este mundo é um paraíso,
E a alma um cisne de douradas plumas:
Não! O seio da amante é um lago virgem...
Quero boiar à tona das espumas...
Vem! Formosa mulher ­ camélia pálida,
Que banharam de pranto as alvoradas,
Minha alma é a borboleta, que espaneja
O pó das asas lúcidas, douradas...

E a mesma voz repete-me terrível,
Com gargalhar sarcástico: - Impossível!

Do sepulcro escutando triste grito
Sempre, sempre bradando-me : Maldito! ­
E eu morro, ó Deus! na aurora da existência,
Quando a sede e o desejo em nós palpita...
Levei aos lábios o dourado pomo,
Mordi o fruto podre do Asfaltita.
No triclínio da vida ­ novo Tântalo ­
O vinho do viver ante mim passa...
Sou dos convivas da legenda hebraica,
O estilete de deus quebra-me a taça.

É que até minha sombra é inexorável,
Morrer! Morrer! Soluça-me implacável.

Adeus, pálida amante dos meus sonhos!
Adeus, vida! Adeus, glória! Amor! Anelos!
Escuta, minha irmã, cuidosa enxuga
Os prantos de meu pai nos teus cabelos.
Fora louco esperar, fria rajada
Sinto que do viver me extingue a lampa...
Resta-me agora por futuro ­ a terra,
Por glória ­ nada, por amor - a campa.

Adeus!... arrasta-me uma voz sombria.
Já me foge a razão da noite fria!...

Antônio Frederico de Castro Alves (n. em Muritiba, Bahia, 14 de Março de 1847 — m. Salvador, Bahia, 6 de Julho de 1871).

in Cinco Séculos de Poesia, Antologia da Poesia Clássica Brasileira, Selecção e Introdução de Frederico Barbosa, Landy Editora

Ler do mesmo autor: Boa-Noite e O Adeus de Teresa; Adormecida

Read More...

2009-03-14

Beijo eterno - Castro Alves

Photobucket


Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!
Ferve-me o sangue. Acalma-o com teu beijo,
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para a minha vida,
Só para o meu amor!

Fora, repouse em paz
Dormindo em calmo sono a calma natureza,
Ou se debata, das tormentas presa,
Beija inda mais!
E, enquanto o brando calor
Sinto em meu peito de teu seio,
Nossas bocas febris se unam com o mesmo anseio,
Com o mesmo ardente amor!
...

Diz tua boca: "Vem!"
Inda mais! diz a minha, a soluçar... Exclama
Todo o meu corpo que o teu corpo chama:
"Morde também!"
Ai! morde! que doce é a dor
Que me entra as carnes, e as tortura!
Beija mais! morde mais! que eu morra de ventura,
Morto por teu amor!

Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira e aplaque o meu desejo!
Ferve-me o sangue: acalma-o com teu beijo!
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para a minha vida,
Só para o meu amor!

Transcrito daqui

Antônio Frederico de Castro Alves (n. em Muritiba, Bahia, 14 de Março de 1847 — m. Salvador, Bahia, 6 de Julho de 1871).

Ler do mesmo autor: Boa-Noite e O Adeus de Teresa; Adormecida

Read More...

2008-07-06

Adormecida - Castro Alves

Sleeping beauty by Michael Garmash.

Ses longs cheveux épars la couvrent tout entière
La croix de son collier repose dans sa main,-
Comme pour témoigner qu'elle a fait sa prière.
Et qu'elle va la faire en s'éveillant demain.

A. DE MUSSET

UMA NOITE, eu me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.

'Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço do horizonte,
Via-se a noite plácida e divina.

De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras,
Iam na face trêmulos - beijá-la.

Era um quadro celeste!...A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...

Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!

E o ramo ora chegava ora afastava-se...
Mas quando a via despeitada a meio,
P'ra não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...

Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
'Ó flor! - tu és a virgem das campinas!
'Virgem! - tu és a flor da minha vida!...'


Antônio Frederico de Castro Alves (n. em Muritiba, Bahia a 14 de Março de 1847; m. em Salvador, a 6 de Julho de 1871).

Ler do mesmo autor: Boa-Noite e O Adeus de Teresa

Read More...

2006-07-06

O adeus de Teresa - Castro Alves


A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus...
E amamos juntos... E depois na sala
"Adeus" eu disse-lhe a tremer co'a fala...

E ela, corando, murmurou-me: "adeus."

Uma noite... entreabriu-se um reposteiro...
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus...
Era eu... Era a pálida Teresa!
"Adeus" lhe disse conservando-a presa...

E ela entre beijos murmurou-me "adeus!"

Passaram tempos... sec'los de delírio
Prazeres divinais... gozos do Empíreo...
... Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse — "Voltarei!... descansa!..."
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: "adeus!"

Quando voltei... era o palácio em festa!...
E a voz d'Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei!... Ela me olhou branca... surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!...

E ela arquejando murmurou-me: "adeus!"

São Paulo, 28 de agosto de 1868.

Publicado no livro Espumas flutuantes: poesias de Castro Alves, estudante do quarto ano da Faculdade de Direito de S. Paulo (1870).

António Frederico de Castro Alves (n. Cachoeira, Bahia, 14 Mar 1847; m. Salvador, Bahia a 6 Jul 1871)

Ler do mesmo autor: Boa-Noite

Read More...

2006-03-14

Boa-Noite - Castro Alves

Veux-tu donc partir? Le jour est encore éloigné;
C'était le rossignol et non pas l'alouette,
Dont le chant a frappé ton oreille inquiète;
Il chante la nuit sur les branches de ce grenadier,
Crois-moi, cher ami, c'était le rossignol.
SHAKESPEARE


Boa-Noite, Maria! Eu vou-me embora.
A lua nas janelas bate em cheio.
Boa-noite, Maria! É tarde... é tarde...
Não me apertes assim contra teu seio.

Boa-noite!... E tu dizes — Boa-noite.
Mas não digas assim por entre beijos...
Mas não mo digas descobrindo o peito,
— Mar de amor onde vagam meus desejos.

Julieta do céu! Ouve... a calhandra
Já rumoreja o canto da matina.
Tu dizes que eu menti?... pois foi mentira...
...Quem cantou foi teu hálito, divina!

Se a estrela-d'alva os derradeiros raios
Derrama nos jardins do Capuleto,
Eu direi, me esquecendo d'alvorada:
"É noite ainda em teu cabelo preto..."

É noite ainda! Brilha na cambraia
— Desmanchado o roupão, a espádua nua —
O globo de teu peito entre os arminhos
Como entre as névoas se balouça a lua...

É noite, pois! Durmamos, Julieta!
Recende a alcova ao trescalar das flores,
Fechemos sobre nós estas cortinas...
— São as asas de arcanjo dos amores.

A frouxa luz da alabastrina lâmpada
Lambe voluptuosa os teus contornos...
Oh! Deixa-me aquecer teus pés divinos
Ao doudo afago de meus lábios mornos.

Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos
Treme tua alma, como a lira ao vento,
Das teclas de teu seio que harmonias,
Que escalas de suspiros, bebo atento!

Ai! Canta a cavatina do delírio,
Ri, suspira, soluça, anseia e chora...
Marion! Marion!... É noite ainda.
Que importa os raios de uma nova aurora?!...

Como um negro e sombrio firmamento,
Sobre mim desenrola teu cabelo...
E deixa-me dormir balbuciando:
— Boa-noite! —, formosa Consuelo!...


São Paulo, 27 de agosto de 1868.

Publicado no livro Espumas flutuantes (1870).

António Frederico de Castro Alves (n. Cachoeira, Bahia, 14 Mar 1847; m. Salvador, Bahia a 6 Jul 1871)

Read More...