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2016-05-12

Imitação de Botticelli - Alberto da Costa e Silva

A Primavera (205 cm x 314 cm) - Sandro Boticelli.


Como a luz numa caixa de laranjas,
ou a chuva sobre a mesa de verduras no mercado,
desce a manhã neste jardim, descalça,

e as flores que traz, na involuntária beleza,
parecem, contra seu corpo de verão enfunado,
musgo, limo, ferrugem, as feridas que os pássaros

abrem na casca lisa e perfeita de um fruto.

Alberto Vasconcellos da Costa e Silva - Prémio Camões 2014 - nasceu em São Paulo, SP, Brasil em 12 de maio de 1931

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2014-06-10

No Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas trazemos Alberto Costa e Silva, prémio Camões 2014

Nada quis ser, senão menino. Por dentro e por fora, menino.
Por isso, venho de minha vida adulta como quem esfregasse na
pureza e na graça o pano sujo dos atos nem sequer vazios, apenas
mesquinhos e com frutos sem rumo.
Como se escovar os dentes fosse montar num cavalo e levá-lo a
beber água ao riacho! Como se importasse à causa humana ler os
jornais do dia!
Era melhor, talvez, ficar olhando, completo, perfeito, os calangos
a tomar sol no muro, sem trair o silêncio, sentindo o dia, para
conhecer o mundo, para saber que estou vivo.
Se não se têm esses olhos de infantil verdade, todas as cousas nos
enganam, tornam-se as palavras sem carne com que construímos a
árida abstração que é o curral dos adultos.
Depois dos quinze anos, quase nada aprendemos: a dar laço em
gravatas, por exemplo.


Publicado no livro Alberto da Costa e Silva carda, fia, doba e tece (1962).

Alberto Vasconcellos da Costa e Silva (São Paulo, 12 de maio de 1931)

Do mesmo autor já trouxemos aqui no Nothingandall: Poema de Aniversário

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2013-05-12

Poema de Aniversário - Alberto da Costa e Silva

De que céu, se o céu em que desfaço
as mãos em flores, que trazia, parte
hei de esperar que pare este mudar-se
de outras claras manhãs nesta tristeza?

Alto sonhamos com imóveis águas,
setembros permanentes, garças fixas,
mas os olhos e as mãos nada conquistam,
e enegrece na mesa a maçã limpa.

Carda o rude luar a lã noturna.
A vida é só, e o pranto, pequenino.
Que fazer deste rastro sem sentido
que vem ao homem e parte do menino?

Alberto Vasconcellos da Costa e Silva (São Paulo, 12 de maio de 1931)

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