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2016-08-28

Jogos de Sombras - Hermes Fontes

Sempre que me procuro e não me encontro em mim,
pois há pedaços do meu ser que andam dispersos
nas sombras do jardim,
nos silêncios da noite,
nas músicas do mar,
e sinto os olhos, sob as pálpebras, imersos
nesta serena unção crepuscular
que lhes prolonga o trágico tresnoite
da vigília sem fim,
abro meu coração, como um jardim,
e desfolho a corola dos meus versos,
faz-me lembrar a alma que esteve em mim,
e que, um dia, perdi e vivo a procurar
nos silêncios da noite,
nas sombras do jardim,
na música do mar...


Hermes Floro Bartolomeu Martins de Araújo Fontes (n. em Boquim, Sergipe, a 28 de agosto de 1888; m. no Rio de Janeiro (suicidio) a 25 de dezembro de 1930).

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2014-12-25

Mãe - Hermes Fontes

Carnaval do Arlequim - Joan Miró
m. em Palma de Maiorca, a 25 Dez. de 1983; (n. em Barcelona, a 20 de Abril de 1893)

Para dizer quem foi a minha mãe, não acho
Uma palavra própria, um pensamento bom
Diógenes — busco-o em vão; falta-me a luz de um facho
— Se acho som, falta a luz; se acho luz, falta o som!

Teu nome — ó minha mãe — tem o sabor de um cacho
De uvas diáfanas, cor de ouro e pérola, com
Polpa de beijos de anjo... ouvi-lo é ouvir um sacho
Merencóreo, a rezar, no seu eterno tom. ..

Minha mãe! Minha mãe! Eu não fui qual devera.
Morreste e eu não bebi nos teus lábios de cera
A doçura que as mães, ainda mortas, contêm...

Ao pé de nossas mães — todos nós somos crentes...
Um filho que tem mãe — tem todos os parentes...
— E eu não tenho por mim, ó minha mãe, ninguém!


Nota biobibliográfica:
HERMES Floro Bartolomeu Martins de Araújo FONTES nasceu em Buquim (SE) a 28 de Agosto de 1888 e suicidou-se no Rio de Janeiro a 25 de Dezembro de 1930. De origem humilde, revelou desde menino tal inteligência que o governador do estado o levou para o Rio, onde se bacharelou em Direito em 1911, embora nunca tenha exercido a advocacia, dedicando-se antes a uma intensa actividade jornalística e política. Como poeta, entre parnasianismo e simbolismo, foi um autor ecléctico. A revolução de 1830 demitiu-o de todos os cargos. Sentindo-se perseguido politicamente, abandonado sentimentalmente (divorciara-se há pouco) e cada vez mais isolado pela surdez, desfechou um tiro no peito no dia de Natal.

(nota biobliográfica extraída de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria É a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004».

Ler do mesmo autor:
Suave Amargor
Anoitecer na Praia
A Cigarra
Pouco acima Daquela Alvíssima Coluna
Jogos de Sombras;
Solenemente;
Diário de Um Sonho(IV)


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2013-12-25

Suave Amargor - Hermes Fontes

Sofrer é o menos, minha suave Amiga;
todos têm sua cruz ou seu cajado
— cruz de dor, ou cajado de dever...

Este é sereno; aquele se afadiga:
um, só pelo desejo contrariado,
outro, por esperar, sem nunca obter.

Tudo muda, dirás... Mas, certamente,
não muda a luz: — vem sempre do Nascente
para o mesmo calvário de Sol-Pôr!

Sofrer é o menos... A dificuldade
é sofrer sem protesto e sem rancor;
é morrer sem tristeza e sem saudade:

Morrer, de olhos em Deus, devagarzinho,
ciciando uma palavra de carinho
aos que vivem sem fé e sem amor...


Hermes Floro Bartolomeu Martins de Araújo Fontes (nasceu em Boquim, Sergipe a 28 de agosto de 1888 – m. Rio de Janeiro (suicidio) a 25 de dezembro de 1930).

Ler do mesmo autor:
Anoitecer na Praia
A Cigarra
Pouco acima Daquela Alvíssima Coluna
Jogos de Sombras;
Mãe;
Solenemente;
Diário de Um Sonho(IV)

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2012-08-28

Anoitecer, na Praia - Hermes Fontes

Junto ao mar, as crianças
são mais alegres; as mulheres são
mais harmoniosas,
mais naturais.
E, enquanto a ondulação
das águas marulhosas
arma, em seu ritmo, imprevistas danças
isócronas, mas sempre desiguais;
e a escumilha na praia arma frouxéis de rosas,
efêmeros, sutis, quase irreais;
e as crianças, à beira da água, armam castelos
na úmida areia,
sob os olhos da miss, ou da ama que as ladeia,
e o distraído encanto dos papais;
e os velhos, em seus trajos mais singelos,
sob os toldos velados,
repousados,
sorriem cachimbando,
recordando
coisas imemoriais, —
cada mulher que passa é atávica sereia;
é atávico tritão
cada atleta que emerge à ondulação
da correnteza rejuvenescente;
é atávico tritão
aquele nadador adolescente
ora a subordinar o mar fremente
que resfolega e ondeia,
ao ritmo do seu próprio coração...

(...)


Hermes Floro Bartolomeu Martins de Araújo Fontes (nasceu em Boquim, Sergipe a 28 de agosto de 1888 – m. Rio de Janeiro (suicidio) a 25 de dezembro de 1930).

Ler do mesmo autor:
Suave Amargor
A Cigarra
Pouco acima Daquela Alvíssima Coluna
Jogos de Sombras;
Mãe;
Solenemente;
Diário de Um Sonho (IV)

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2010-12-25

Suave Amargor - Hermes Fontes

Sofrer é o menos, minha suave Amiga;
todos têm sua cruz ou seu cajado
— cruz de dor, ou cajado de dever...

Este é sereno; aquele se afadiga:
um, só pelo desejo contrariado,
outro, por esperar, sem nunca obter.

Tudo muda, dirás... Mas, certamente,
não muda a luz: — vem sempre do Nascente
para o mesmo calvário de Sol-Pôr!

Sofrer é o menos... A dificuldade
é sofrer sem protesto e sem rancor;
é morrer sem tristeza e sem saudade:

Morrer, de olhos em Deus, devagarzinho,
ciciando uma palavra de carinho
aos que vivem sem fé e sem amor...


Hermes Floro Bartolomeu Martins de Araújo Fontes (nasceu em Boquim, Sergipe a 28 de agosto de 1888 – m. Rio de Janeiro (suicidio) a 25 de dezembro de 1930).

Ler do mesmo autor:
A Cigarra
Pouco acima Daquela Alvíssima Coluna
Jogos de Sombras;
Mãe;
Solenemente;
Diário de Um Sonho (IV)

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2010-08-28

POUCO ACIMA DAQUELA ALVÍSSIMA COLUNA - Hermes Fontes


Pouco acima daquela alvíssima coluna
que é o seu pescoço, a boca é-lhe uma taça tal
que, vendo-a, ou vendo-a, sem, na realidade, a ver,
de espaço a espaço, o céu da boca se me enfuna
de beijos — uns, sutis, em diáfano cristal
lapidados na oficina do meu Ser;
outros — hóstias ideais dos meus anseios,
e todos cheios, todos cheios
do meu infinito amor...
Taça
que encerra
por
suma graça
tudo que a terra
de bom
produz!
Boca!
o dom
possuis
de pores
louca
a minha boca!
Taça
de astros e flores,
na qual
esvoaça
meu ideal!
Taça cuja embriaguez
na via-láctea do Sonho ao céu conduz!
Que me enlouqueças mais... e, a mais e mais, me dês
o teu delírio... a tua chama... a tua luz...


Hermes Floro Bartolomeu Martins de Araújo Fontes (Boquim, 28 de agosto de 1888 – Rio de Janeiro (suicidio) a 25 de dezembro de 1930).

Ler do mesmo autor:
A Cigarra
Jogos de Sombras;
Mãe;
Solenemente;
Diário de Um Sonho (IV)

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2009-08-28

A Cigarra - Hermes Fontes

Não, orgulhosa! não, alma nobre e vadia,
nunca foste pedir migalha ao formigueiro!
Dessedenta-te o sol e te nutre a alegria
De viver e morrer cantando, o dia inteiro...

Que infâmia ires ao vizinho celeiro
tu, que tens o celeiro universal do Dia,
e preferes morrer queimada em teu braseiro
íntimo a renunciar a tua fantasia!

Não! tu és superior ao código e ao compêndio,
à Economia, ou à Moral. — Aristocrata,
crês que prever miséria é já um vilipêndio.

Primadona pagã do Jardim e da Mata,
trazes dentro em ti mesma, em teu constante incêndio,
a luz, que te alimenta e o fogo, que te mata...


Hermes Floro Bartolomeu Martins de Araújo Fontes (n. em Boquim, Sergipe, a 28 de Ago 1888; m. no Rio de Janeiro (suicidio) a 25 Dez 1930).

Ler do mesmo autor:
Jogos de Sombras;
Mãe;
Solenemente;
Diário de Um Sonho (IV)

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2008-12-25

Jogos de sombras - Hermes Fontes (na passagem do aniversário da morte do poeta)

Sempre que me procuro e não me encontro em mim,
pois há pedaços do meu ser que andam dispersos
nas sombras do jardim,
nos silêncios da noite,
nas músicas do mar,
e sinto os olhos, sob as pálpebras, imersos
nesta serena unção crepuscular
que lhes prolonga o trágico tresnoite
da vigília sem fim,
abro meu coração, como um jardim,
e desfolho a corola dos meus versos,
faz-me lembrar a alma que esteve em mim,
e que, um dia, perdi e vivo a procurar
nos silêncios da noite,
nas sombras do jardim,
na música do mar...


Hermes Floro Bartolomeu Martins de Araújo Fontes (n. em Boquim, Sergipe, a 28 de Ago 1888; m. no Rio de Janeiro (suicidio) a 25 Dez 1930).

Ler do mesmo autor: Mãe; Solenemente; Diário de Um Sonho (IV)

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2008-08-28

Dário de Um Sonho (IV) - Hermes Fontes

Teia (foto daqui)

É de outro artista — não me lembra o nome —
que o Poeta, no seu sonho de arte, é alguém
à parte... É como a aranha, que consome
todo o tempo, na rede a que se atém.

E, alheio ao próprio tempo, que carcome
o brilho às cousas, séculos além,
eu ia — aranha — superior à fome
e à sede, e, aranha, me sentia bem...

Na solidão, como num canto escuro,
tecia a teia rósea do Futuro,
quando me entraste, a rir, tonta de sol...

E, de então, sem te ver (e ver-te é raro!),
não sei tecer... só sei tecer no claro,
não sei tecer sem ti meu aranhol...

Hermes Floro Bartolomeu Martins de Araújo Fontes (n. em Boquim, Sergipe, a 28 de Ago 1888; m. no Rio de Janeiro (suicidio) a 25 Dez 1930).

Ler do mesmo autor: Mãe; Solenemente

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2007-12-25

Mãe - Hermes Fontes

Carnaval do Arlequim - Joan Miró
m. em Palma de Maiorca, a 25 Dez. de 1983; (n. em Barcelona, a 20 de Abril de 1893)

Para dizer quem foi a minha mãe, não acho
Uma palavra própria, um pensamento bom
Diógenes — busco-o em vão; falta-me a luz de um facho
— Se acho som, falta a luz; se acho luz, falta o som!

Teu nome — ó minha mãe — tem o sabor de um cacho
De uvas diáfanas, cor de ouro e pérola, com
Polpa de beijos de anjo... ouvi-lo é ouvir um sacho
Merencóreo, a rezar, no seu eterno tom. ..

Minha mãe! Minha mãe! Eu não fui qual devera.
Morreste e eu não bebi nos teus lábios de cera
A doçura que as mães, ainda mortas, contêm...

Ao pé de nossas mães — todos nós somos crentes...
Um filho que tem mãe — tem todos os parentes...
— E eu não tenho por mim, ó minha mãe, ninguém!


Hermes Floro Bartolomeu Martins de Araújo Fontes (n. em Boquim, Sergipe, a 28 de Ago 1888; m. no Rio de Janeiro (suicidio) a 25 Dez 1930).

Ler do mesmo autor neste blog: Solenemente

Nota biobibliográfica:
HERMES Floro Bartolomeu Martins de Araújo FONTES nasceu em Buquim (SE) a 28 de Agosto de 1888 e suicidou-se no Rio de Janeiro a 25 de Dezembro de 1930. De origem humilde, revelou desde menino tal inteligência que o governador do estado o levou para o Rio, onde se bacharelou em Direito em 1911, embora nunca tenha exercido a advocacia, dedicando-se antes a uma intensa actividade jornalística e política. Como poeta, entre parnasianismo e simbolismo, foi um autor ecléctico. A revolução de 1830 demitiu-o de todos os cargos. Sentindo-se perseguido politicamente, abandonado sentimentalmente (divorciara-se há pouco) e cada vez mais isolado pela surdez, desfechou um tiro no peito no dia de Natal.

(nota biobliográfica extraída de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria É a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004».

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2007-08-28

Solenemente - Hermes Fontes

O Juramento dos Horácios - Jacques-Louis David, 1784
Musée du Louvre, Paris


Juro por tudo quanto é jura... Juro
por mim... por ti... por nós... por Jesus Cristo,
que hei de esquecer-te! ... Vê-me: estou seguro
contra o teu sólio, a cuja queda assisto.

E, visto que duvidas tanto, visto
que ris do que, solene, te asseguro,
juro mais: pelo ser em que consisto
por meu passado! pelo meu futuro !

Juro pela Mãe Virgem concebida!
pelas venturas de que vou no encalço !
por minha vida! ... pela tua vida...

Juro por tudo que mais amo e exalço!
E, depois de uma jura tão comprida,
juro... juro que estou... jurando falso...


Hermes Floro Bartolomeu Martins de Araújo Fontes (n. em Boquim, Sergipe, a 28 de Ago 1888; m. no Rio de Janeiro (suicidio) a 25 Dez 1930).

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