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2016-11-18

Completas - Manuel António Pina

A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em obscuros sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que eu adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.


in Poesia, Saudade da Prosa - Uma Antologia Pessoal, Assírio Alvim

Manuel António Pina (nasceu em 18 de novembro de 1943 no Sabugal, m. Porto, 19 de outubro de 2012)

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2016-10-19

Uma Sombra - Manuel António Pina

Ouves os meus passos nas escadas?
Quando eu bater à porta
não me reconheceremos.
Voltarei de um dia de trabalho,
subirei as escadas
e perder-me-ei para sempre
em qualquer sítio fora de qualquer sítio.
Não foi o caminho de casa que perdi?
Não ficou alguém em qualquer sítio,
uma sombra passando diante de nós,
e principalmente fora de nós?
Agora quem sente
isto fora de mim,
quem é esse ausente?

Manuel António Pina (nasceu em 18 de novembro de 1943 no Sabugal, faleceu ño Porto, em 19 de outubro de 2012)

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2015-11-18

A Poesia Vai - Manuel António Pina

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —

in Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde, 1974

Manuel António Pina - Prémio Camões 2011 - nasceu em 18 de novembro de 1943 no Sabugal, faleceu em 19 de outubro de 2012 no Porto.

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2014-11-18

Neste preciso tempo, neste preciso lugar - Manuel António Pina

No princípio era o Verbo
(e os açúcares
e os aminoácidos).
Depois foi o que se sabe.
Agora estou debruçado
da varanda de um 3° andar
e todo o Passado
vem exactamente desaguar
neste preciso tempo, neste preciso lugar,
no meu preciso modo e no meu preciso estado!

Todavia em vez de metafísica
ou de biologia
dá-me para a mais inespecífica
forma de melancolia:
poesia nem por isso lírica
nem por isso provavelmente poesia.
Pois que faria eu com tanto Passado
senão passar-lhe ao lado,
deitando-lhe o enviesado
olhar da ironia?

Por onde vens, Passado,
pelo vivido ou pelo sonhado?
Que parte de ti me pertence,
a que se lembra ou a que esquece?
Lá em baixo, na rua, passa para sempre
gente indefinidamente presente,
entrando na minha vida
por uma porta de saída
que dá já para a memória.
Também eu (isto) não tenho história
senão a de uma ausência
entre indiferença e indiferença.


Manuel António Pina (nasceu em 18 de Nov. 1943 no Sabugal, faleceu em 19 de outubro de 2012)

in Poesia Reunida, Assirio & Alvim, Lisboa, 2001.

Ler do mesmo autor, neste blog:
Completas
Uma Sombra
Lugares da Infância
Amor como em casa
Café do Molhe
Saudade da Prosa

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2013-11-18

NUMA ESTAÇÃO DE METRO - Manuel António Pina (no dia em que completaria 70 anos)

A minha juventude passou e eu não estava lá.
Pensava em outra coisa, olhava noutra direcção.
Os melhores anos da minha vida perdidos por distracção!

Rosalinda, a das róseas coxas, onde está?
Belinda, Brunilda, Cremilda, quem serão?
Provavelmente professoras de Alemão
em colégios fora do tempo e do espa-

ço! Hoje, antigamente, ele tê-las-ia
amado de um amor imprudente e impudente,
como num sujo sonho adolescente
de que alguém, no outro dia, acordaria.

Pois tudo era memória, acontecia
há muitos anos, e quem se lembrava
era também memória que passava,
um rosto que entre outros rostos se perdia.

Agora, vista daqui, da recordação,
a minha vida é uma multidão
onde, não sei quem, em vão procuro
o meu rosto, pétala dum ramo húmido, escuro


in Um sítio onde pousar a cabeça, 1981

Manuel António Pina (nasceu em 18 de Nov. 1943 no Sabugal, faleceu em 19 de outubro de 2012)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Completas
Uma Sombra
Lugares da Infância
Amor como em casa
Café do Molhe
Saudade da Prosa

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2012-11-18

Completas - Manuel António Pina

A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em obscuros sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que eu adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.

in Poesia, Saudade da Prosa - Uma Antologia Pessoal

Manuel António Pina (nasceu em 18 de Nov. 1943 no Sabugal, faleceu em 19 de outubro de 2012)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Uma Sombra
Lugares da Infância
Amor como em casa
Café do Molhe
Saudade da Prosa

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2012-10-19

Manuel António Pina faleceu hoje - Uma Sombra

Ouves os meus passos nas escadas?
Quando eu bater à porta
não me reconheceremos.
Voltarei de um dia de trabalho,
subirei as escadas
e perder-me-ei para sempre
em qualquer sítio fora de qualquer sítio.
Não foi o caminho de casa que perdi?
Não ficou alguém em qualquer sítio,
uma sombra passando diante de nós,
e principalmente fora de nós?
Agora quem sente
isto fora de mim,
quem é esse ausente?

Manuel António Pina (nasceu em 18 de Nov. 1943 no Sabugal, faleceu hoje 19 de outubro de 2012)

Ler do mesmo autor, neste blog: Café do Molhe; Saudade da Prosa; Lugares da Infância; Completas

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2011-11-18

Completas - Manuel António Pina

A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em obscuros sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que eu adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.


in Poesia, Saudade da Prosa - Uma Antologia Pessoal

Manuel António Pina (nasceu em 18 de Nov. 1943 no Sabugal)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Lugares da Infância
Amor como em casa
Café do Molhe
Saudade da Prosa

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2011-10-03

Coisas do outro mundo - Manuel António Pina

Manuel António Pina nascido no Sabugal em 18 de Novembro de 1943 é um jornalista, escritor e poeta português, galardoado em 2011 com o Prémio Camões. Do poeta já constam no Nothingandall a divulgação de vários poemas. No Jornal de Notícias mantém uma crónica diária "Por outras Palavras". Não.. não tem a ver com o título da canção de Mafalda Veiga mas concorde-se ou não é de leitura imprescindível.

Hoje a crónica tem a ver com "Coisas do Outro Mundo" e como actualmente a sociedade portuguesa está cheia delas é imperdível e de leitura altamente recomendável, face aos sacrifícios progressivos que a troika e o Governo exige da população portuguesa em geral enquanto uns tantos senhores se governam no reino do outro mundo.

Então aí vai daqui:
Depois dos seis mil milhões de dívidas vivas e a rabear descobertas nas contas de Alberto João Jardim, alguém se pôs, de novo a mando da "troika", a espiolhar a base de dados da Administração Central do Sistema de Saúde e deu com 500 médicos mortos, alguns dos quais, segundo noticiou o "Público", continuam a passar receitas.

A notícia é omissa quanto ao facto de os falecidos continuarem ou não a receber salário, embora seja admissível, tratando-se de mortos, que trabalhem só para aquecer.

Cadáveres adiados que procriam receitas é cousa de grande assombração, sobretudo num país onde tantos mortos se sentam quietamente há anos nas bancadas do Parlamento e em gabinetes ministeriais e institutos sem procriar nada que se veja a não ser despesa pública.

E atestados médicos, continuarão os saudosos extintos a atestar que Fulano e Sicrano "se encontram doentes e impossibilitados de exercer as suas funções"? E certidões de óbito, próprias e alheias?

O estranho caso dos médicos que exercem na tumba põe complexas questões metafísicas, para além da da vida profissional depois da vida. Uma delas é a existência de farmácias com comércio com o Além que aviam receitas passadas por fantasmas, certificadas com vinhetas que seria suposto vigorarem no Aquém, a almas penadas que, cheias de olheiras, se materializam às horas mortas das noites de serviço permanente para comprar comprimidos para o sono eterno.

(Fim de citação)

Na verdade em vez de aumentos sistemáticos de impostos, com a elasticidade das receitas fiscais a dar mostras evidentes de acentuada quebra, medidas legislativas de facilitismo de despedimentos e outras que afectam direitos sociais que o pós 25 de Abril consignou, não seria muito mais fácil e proveitoso acabar com estas (e outras) fantasmagorices? ... ou não convém?...

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2010-11-18

Lugares da infância - Manuel António Pina

Lugares da infância onde
sem palavras e sem memória
alguém, talvez eu, brincou
já lá não está nem lá estou.

Onde? Diante
de que mistério
em que, como num espelho hesitante,
o meu rosto, outro rosto, se reflecte?

Vewnderam a casa, as flores
do jardim, se lhes toco, põem-se hirtas
e geladas, e sob os meus passos
desfazem-se imateriais as rosas e as recordações.

O quarto eu não o via
porque era ele os meus olhos;
e eu não sabia,
e essa era a sabedoria.

Agora sei que estas coisas
de um modo que não me pertence,
como se as tivesse roubado.

A casa já não cresce
à volta da sala,
puseram a mesa para quatro
e o coração só para três.

Falta alguém,
não sei quem,
foi cortar o cabelo e só voltou
oito dias depois, já o
jantar tinha arrefecido.

E fico de novo sozinho,
na cama vazia, no quarto vazio.
Lá fora é noite, ladram os cães;
e cubro a cabeça com os lençóis.

in Cem Poemas Portugueses do Adeus e da Saudade
Selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria
Terramar


Manuel António Pina (nasceu em 18 de Nov. 1943 no Sabugal)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Amor como em casa
Café do Molhe
Saudade da Prosa

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2009-11-18

Amor como em casa - Manuel António Pina

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

Manuel António Pina (nasceu em 18 de Nov. 1943 no Sabugal)

Ler do mesmo autor, neste blog: Café do Molhe; Saudade da Prosa

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2008-11-18

Saudade da Prosa - Manuel António Pina

Rosa, flor

Poesia, saudade da prosa;
escrevia «tu», escrevia «rosa»;
mas nada me pertencia,
nem o mundo lá fora
nem a memória,
o que ignorava ou o que sabia.

E se regressava
pelo mesmo caminho
não encontrava

senão palavras
e lugares vazios:
símbolos, metáforas,

o rio não era o rio
nem corria e a própria morte
era um problema de estilo.

Onde é que eu já lera
o que sentia, até a
minha alheia melancolia?


in Rosa do Mundo, 366 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim

Manuel António Pina (nasceu em 18 de Nov. 1943 no Sabugal)

Ler do mesmo autor, neste blog: Café do Molhe

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2008-10-13

Os deputados eunucos: a diferença entre o que se proclama e o que se faz

«... a maior parte das leis é feita por cérebros de aluguer que parem votos gerados em cérebros alheios sem que isso pareça incomodar ninguém, designadamente os próprios. O caso dos deputados que, dizendo-se a favor do casamento homossexual (o problema, no entanto, não é o do casamento homossexual, é o da diferença entre o que se proclama e o que se faz), votaram exactamente ao contrário, fica na história da cobardia parlamentar e explica a desprestigiante conta em que os portugueses têm hoje a política e os políticos».

Já andava para por um «post» sobre este assunto. Não podia ter encontrado melhor forma de exprimir o que que queria dizer, do que através desta passagem da crónica «Os Eunucos» de Manuel António Pina na coluna «Por Outras Palavras» da edição de hoje do JN. É caso para dizer que há muitos deputados «eunucos» de cérebro.

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2007-11-18

Café do Molhe - Manuel António Pina


Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)

porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia

que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luis de Léon que Poe

(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse

de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo tão perfeito

sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sobre a tua blusa acesa

que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.

Manuel António Pina (n. em 18 de Nov. 1943 no Sabugal; ~)

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