Amor, morte, poesia, política, actualidade, futebol, efemérides, solidão, paz, humor, musica...tudo e nada; Here we talk about life, love, death, On this day in History, poetry, politics, football (soccer), solitude, peace, humour, music ... nothing and all.
Não me lembro do dia em que nasci; não sei em que dia morrerei. Vem, minha doce amiga, vamos beber deste copo e esquecer a nossa incurável ignorância.
(Omar Kayyam)
... Verdadeiro valor não dão à gente: Melhor é merecê-los sem os ter Que possuí-los sem os merecer. (Os Lusíadas XCIII, Camões)
Um dia inventei-te, às vezes reinvento-te,
noutras não sei quem és, mas estás sempre comigo!
How extremely stupid not to have thought of that!
Que imensa estupidez não ter pensado nisso antes!
(Thomas Henry Husley)
Que de nós dois
O mais sensato sou eu,
- É uma forma delicada
De dizeres que sou mais velho.
Ora é verdade
Ser eu quem tem mais idade.
Mas daí a ter juízo
Vai um abismo tão grande
Que é preciso,
Com certeza,
Que o digas com ironia
E nenhuma simpatia
Pelo engano em que vivo.
O engano de ter rugas
E nunca fitar um espelho...
Vê lá tu que eu não sabia
Que sou dos dois o mais velho.
Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira (n. em Barcelona, a 20 de março de 1922; m. em Moçambique a 30 de junho de 1959).
Vivo na esperança de um gesto
Que hás-de fazer.
Gesto, claro, é maneira de dizer,
Pois o que importa é o resto
Que esse gesto tem de ter.
Tem que ter sinceridade
Sem parecer premeditado;
E tem que ser convincente,
Mas de maneira diferente
Do discurso preparado.
Sem me alargar, não resisto
À tentação de dizer
Que o gesto não é só isto...
Quando tu, em confusão,
Sabendo que estou à espera,
Me mostras que só hesitas
Por não saber começar,
Que tentações de falar!
Porque enfim, como adivinhas,
Esse gesto eu sei qual é,
Mas se o disser, já não é...
Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira (n. em Barcelona, a 20 de março de 1922; m. em Moçambique a 30 de junho de 1959).
Vivo na esperança de um gesto Que hás-de fazer. Gesto, claro, é maneira de dizer, Pois o que importa é o resto Que esse gesto tem de ter. Tem que ter sinceridade Sem parecer premeditado; E tem que ser convincente, Mas de maneira diferente Do discurso preparado. Sem me alargar, não resisto À tentação de dizer Que o gesto não é só isto... Quando tu, em confusão, Sabendo que estou à espera, Me mostras que só hesitas Por não saber começar, Que tentações de falar! Porque enfim, como adivinhas, Esse gesto eu sei qual é, Mas se o disser, já não é...
Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Tu pensas
Nas vantagens imensas
De um par
Que paga sem falar;
Eu, nauseado e grogue,
Eu penso, vê lá bem,
Em Arles e na orelha de Van Gogh...
E assim entre o que eu penso e o que tu sentes
A ponte que nos une - é estar ausentes.
Extraído de Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora
Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira (n. em Barcelona, a 20 de Março de 1922; m. em Moçambique a 30 de Junho de 1959).
Nota do webmaster: Espetacular! «A vida égale, idêntica, the same / É sempre um esforço inútil... Mas dancemos, dancemos»; ainda por cima eu nem sei dançar, nem nadar... sei lá o tanto que não sei... sei, há muito tempo que sei que «entre o que eu penso e o que tu sentes/ A ponte que nos une - é estar ausentes»
Duma outra infância, inventada, Guardo memórias que são Reais reversos do nada Que as verdadeiras me dão.
Estas, se acaso regressam, Em tropel e confusão Ao limiar-me, tropeçam No corpo das que lá estão.
Assim, mentindo as raízes Do meu confuso começo, Segrego imagens felizes Com que as funestas esqueço.
in Cem Poemas Portugueses sobre a Infância; selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria, Terramar Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira (n. em Barcelona, a 20 de Março de 1922; m. em Moçambique a 30 de Junho de 1959).
Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia Que partout, everywhere, em toda a parte, A vida égale, idêntica, the same, É sempre um esforço inútil, Um voo cego a nada. Mas dancemos; dancemos Já que temos A valsa começada E o Nada Deve acabar-se também, Como todas as coisas. Tu pensas Nas vantagens imensas De um par Que paga sem falar; Eu, nauseado e grogue, Eu penso, vê lá bem, Em Arles e na orelha de Van Gogh... E assim entre o que eu penso e o que tu sentes A ponte que nos une - é estar ausentes.
Extraído de Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora
Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira (n. em Barcelona, a 20 de Março de 1922; m. em Moçambique a 30 de Junho de 1959).
Reinaldo Ferreira nasceu faz hoje precisamente 88 anos. Pode pensar que não o conhece mas certamente sabe alguma coisa dele. Ora veja lá se não reconhece este poema...
Quem dorme à noite comigo? É meu segredo, é meu segredo! Mas se insistirem, desdigo. O medo mora comigo, Mas só o medo, mas só o medo!
E cedo, porque me embala Num vaivém de solidão, É com silêncio que fala, Com voz de móvel que estala E nos perturba a razão.
Que farei quando, deitado, Fitando o espaço vazio, Grita no espaço fitado Que está dormindo a meu lado, Lázaro e frio?
Gritar? Quem pode salvar-me Do que está dentro de mim? Gostava até de matar-me. Mas eu sei que ele há-de esperar-me Ao pé da ponte do fim.
Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira nasceu em Barcelona (Espanha) a 20 de Março de 1922 e morreu de cancro em Lourenço Marques (Moçambique) a 30 de Junho de 1959.
Este poema ficou celebrizado na voz de Amália Rodrigues num fado «Medo» com música de Alain Oulman. Pode ouvi-lo de seguida, quer na voz de Amália, quer noutra interpretação de Mariza. Um belo fim de semana com muitos sorrisos, flores, boa boa música e ...poesia !
Amália Rodrigues - Medo (Quem dorme à noite comigo)
Mariza - Medo (Quem dorme à noite comigo)
Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira (n. em Barcelona, a 20 de Março de 1922; m. em Moçambique a 30 de Junho de 1959).
Numa casa portuguesa fica bem pão e vinho sobre a mesa. Quando à porta humildemente bate alguém, senta-se à mesa co'a gente. Fica bem essa franqueza, fica bem, que o povo nunca a desmente. A alegria da pobreza está nesta grande riqueza de dar, e ficar contente.
Quatro paredes caiadas, um cheirinho á alecrim, um cacho de uvas doiradas, duas rosas num jardim, um São José de azulejo sob um sol de primavera, uma promessa de beijos dois braços à minha espera... É uma casa portuguesa, com certeza! É, com certeza, uma casa portuguesa!
No conforto pobrezinho do meu lar, há fartura de carinho. A cortina da janela e o luar, mais o sol que gosta dela... Basta pouco, poucochinho p'ra alegrar uma existéncia singela... É só amor, pão e vinho e um caldo verde, verdinho a fumegar na tijela.
Quatro paredes caiadas, um cheirinho á alecrim, um cacho de uvas doiradas, duas rosas num jardim, um São José de azulejo sob um sol de primavera, uma promessa de beijos dois braços à minha espera... É uma casa portuguesa, com certeza! É, com certeza, uma casa portuguesa!
Letra de Reinaldo Ferreira Música de V. M. Sequeira e Artur Fonseca
Ouçamos pois este fado na voz inconfundível da Amália Rodrigues
Reinaldo Ferreira morreu em Lourenço Marques, actual Maputo, faz hoje 49 anos. Pode pensar que não o conhece mas certamente sabe alguma coisa dele. Veja se não reconhece este poema!
Quem dorme à noite comigo? É meu segredo, é meu segredo! Mas se insistirem, desdigo. O medo mora comigo, Mas só o medo, mas só o medo!
E cedo, porque me embala Num vaivém de solidão, É com silêncio que fala, Com voz de móvel que estala E nos perturba a razão.
Que farei quando, deitado, Fitando o espaço vazio, Grita no espaço fitado Que está dormindo a meu lado, Lázaro e frio?
Gritar? Quem pode salvar-me Do que está dentro de mim? Gostava até de matar-me. Mas eu sei que ele há-de esperar-me Ao pé da ponte do fim.
Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira nasceu em Barcelona (Espanha) a 20 de Março de 1922 e morreu de cancro em Lourenço Marques (Moçambique) a 30 de Junho de 1959.
Este poema ficou celebrizado na voz de Amália Rodrigues num fado «Medo» com música de Alain Oulman. Pode ouvi-lo de seguida, quer na voz de Amália, quer noutra interpretação de Mariza. Bom dia, boa poesia e boa música !
Amália Rodrigues - Medo (Quem dorme à noite comigo)
Reinaldo Ferreira nasceu faz hoje precisamente 86 anos. Pode pensar que não o conhece mas certamente sabe alguma coisa dele. Veja se não reconhece este poema!
Quem dorme à noite comigo? É meu segredo, é meu segredo! Mas se insistirem, desdigo. O medo mora comigo, Mas só o medo, mas só o medo!
E cedo, porque me embala Num vaivém de solidão, É com silêncio que fala, Com voz de móvel que estala E nos perturba a razão.
Que farei quando, deitado, Fitando o espaço vazio, Grita no espaço fitado Que está dormindo a meu lado, Lázaro e frio?
Gritar? Quem pode salvar-me Do que está dentro de mim? Gostava até de matar-me. Mas eu sei que ele há-de esperar-me Ao pé da ponte do fim.
Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira nasceu em Barcelona (Espanha) a 20 de Março de 1922 e morreu de cancro em Lourenço Marques (Moçambique) a 30 de Junho de 1959.
Este poema ficou celebrizado na voz de Amália Rodrigues num fado «Medo» com música de Alain Oulman. Pode ouvi-lo de seguida, quer na voz de Amália, quer noutra interpretação de Mariza. Bom dia, boa poesia e boa música !
Amália Rodrigues - Medo (Quem dorme à noite comigo)
Passemos, tu e eu, devagarinho, sem ruído, sem quase movimento, tão mansos que a poeira do caminho a pisemos sem dor e sem tormento.
Que os nossos corações, num torvelinho de folhas arrastadas pelo vento, saibam beber o precioso vinho, a rara embriaguez deste momento.
E se a tarde vier, deixá-la vir… E se a noite quiser, pode cobrir triunfalmente o céu de nuvens calmas…
De costas para o Sol, então veremos fundir-se as duas sombras que tivemos numa só sombra, como as nossas almas.
Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira nasceu em Barcelona (Espanha) a 20 de Março de 1922 e morreu de cancro em Lourenço Marques (Moçambique) a 30 de Junho de 1959. Filho do jornalista Reinaldo Ferreira (Repórter X), estudou no Porto até 1941 e radicou-se desde os 20 anos em Moçambique, onde foi funcionário dos Serviços de Administração Civil da colónia e colaborador do Rádio Clube de Lourenço Marques. Personalidade tímida e esquiva, só em 1960 os seus poemas foram reunidos em volume. Dele disse José Régio: «Este poeta é um pensador, este sensitivo um sarcasta ou irónico, este aceitante do absurdo um raciocinante. E tudo isto compõe o riquíssimo tecido dos seus poemas mais originais».
Soneto e Nota biobliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.