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2017-11-17

Para Ser Lido Mais Tarde - Mário Dionísio

Auto-retrato de Mário Dionísio 1945



Um dia
quando já não vieres dizer-me Vem
jantar.

quando já não tiveres dificuldade
em chegar ao puxador
da porta quando

já não vieres dizer-me Pai
vem ver os meus deveres

quando esta luz que trazes nos cabelos
já não escorrer nos papéis em que trabalho

para ti será o começo de tudo

Uma outra vida haverá talvez para os teus sonhos
um outro mundo acolherá talvez enfim a tua oferenda

Hás-de ter alguma impaciência enquanto falo
Ouvirás com encanto alguém que não conheço
nem talvez ainda exista neste instante

Mas para mim será já tão frio e já tão tarde

E nem mesmo uma lembrança amarga
ou doce ficará
desta hora redonda
em que ninguém repara


1953
in O Silêncio Voluntário, 1966

Extraído de Poemas Portugueses - Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Selecção, organização, introdução e notas Jorge Reis-Sá e Rui Lage, Porto Editora

Mário Dionísio (Lisboa, 16 de julho de 1916 - Lisboa, 17 de novembro de 1993)

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2017-11-16

Cinco Sentidos - Alberto de Oliveira


Cinco sentidos são os cinco dedos
Com que o homem tacteia a escuridão,
Rodeado de sombras e segredos
De que busca, e não acha, a solução.

Mas decerto haverá mundos mais ledos
Onde outros seres, de maior visão,
Rompendo brumas, dissipando medos,
A treva finalmente vencerão.

E sendo sete as cores, e outros tantos
Os sons da escala, mas com mil matizes
Que prolongam seu eco e seus encantos,

Talvez nos seja um dia transmitido,
Por esses mundos fortes e felizes,
Um novo sexto e sétimo sentido!

Alberto de Oliveira (nasceu no Porto a 16 de novembro de 1873 e faleceu a 23 de abril de 1940, em S. Mamede de Infesta)

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2017-11-15

Distribuição da Poesia - Jorge de Lima


Mel silvestre tirei das plantas,
sal tirei das águas, luz tirei do céu.
Escutai, meus irmãos: poesia tirei de tudo
para oferecer ao Senhor.
Não tirei ouro da terra
nem sangue de meus irmãos.
Estalajadeiros e banqueiros
Sei fabricar distâncias
para vos recuar.
A vida está malograda,
creio nas mágicas de Deus.
Os galos não cantam,
a manhã não raiou.
Vi os navios irem e voltarem.
Vi os infelizes irem e voltarem.
Vi homens obesos dentro do fogo.
Vi ziguezagues na escuridão.
Capitão-mor, onde é o Congo?
Onde é a ilha de São Brandão?
Capitão-mor, que noite escura!
Uivam molossos na escuridão.
Ó indesejáveis, qual o país,
qual o país que desejais?
Mel silvestre tirei das plantas,
sal tirei das águas, luz tirei do céu.
Só tenho poesia para vos dar.
Abancai-vos, meus irmãos.

in Poesia Brasileira do Século XX Dos Modernistas à Actualidade, selecção, introdução e notas de Jorge Henrique Bastos, Edições Antigona

Jorge Matheus de Lima (n. em União de Palmares, Alagoas a 23 de abril de 1893, m. no Rio de Janeiro a 15 de novembro de 1953)

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2017-11-14

Incompreensível - Alberto Bramão



Não compreendo este martírio obscuro
Que nos liga a um tempo e nos separa;
Comigo então dá-se uma coisa rara:
Quero fugir-te e sempre te procuro.

Impulso misterioso, indecifrável,
Impele para ti meu pensamento...
E, apesar de saber que és um tormento,
Quero sentir-te e acho-te adorável!

Tenho momentos tais que, com certeza,
Se te visse a meus pés sofrendo, ria...
Mas outros há que até nem quereria
Ver-te no olhar as sombras da tristeza

Umas vezes converso a sós comigo
E abençoo-te pálido e tremente...
Outras vezes talvez mais consciente,
Odeio-te vê lá - não te bendigo!

Não sei se és boa ou má, e não conheço
Donde nasceu este profundo anseio...
Newm sei mesmo se te amo ou se te odeio...
Só sei que de te ver nunca me esqueço.

Se és má e só desditas me desejas,
Que eu mais não veja a tua luz maldita!
Mas se sofres e és boa... Deus permita
Que sejas bem feliz, que sempre o sejas!

in Phantasias, Lisboa, Antiga Casa Bertrand - José Bastos, 1895
(ortografia adaptada para o português atual)

Alberto Allen Pereira de Sequeira Bramão (n. Almada, novembro de 1865; m. Lisboa, em 14 de novembro de 1944).

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2017-11-13

Love - What Is Love? - Robert Louis Stevenson



LOVE - what is love? A great and aching heart;
Wrung hands; and silence; and a long despair.
Life - what is life? Upon a moorland bare
To see love coming and see love depart.

Robert Louis Stevenson was born in Edinburgh, Scotland, on Nov. 13, 1850; d. Dec. 3, 1894, Apia, Samoa)

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