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2015-07-05

Destino - Mia Couto


à ternura pouca
me vou acostumando
enquanto me adio
servente de danos e enganos

vou perdendo morada
na súbita lentidão
de um destino
que me vai sendo escasso

conheço a minha morte
seu lugar esquivo
seu acontecer disperso

agora
que mais
me poderei vencer?

In Raiz de Orvalho e Outros Poemas.

Mia Couto é o pseudónimo de António Emílio Leite Couto nascido a 5 de julho de 1950 na cidade da Beira, em Moçambique

Do mesmo autor ler:
Pergunta-me
A demora
Números

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2015-07-04

Torre de Marfim - João Lúcio

Quando, em baixo, ruge, o temporal, sem fim,
Dessa miséria, oh pó, em que tu te esfacelas,
Eu subo à minha torre esguia, de marfim,
Onde me côa, o sonho, o filtro das estrelas.

Sai-me ao encontro a Musa. E o seu olhar pleno
De longínquo e mistério, enche-me o Pensamento;
A Musa, que eu guardo, entre o éter sereno,
Como um velho sultão, avaro e ciumento.

E ficamos, os dois, na torre em solidão,
Onde, a luz do luar, faz de tapeçaria,
Mineiros da Quimera, à busca do filão,
Que tem o diamante azul da Fantasia.

Da Fantasia, que é, em essência, somente
Um jacto de clarão, num nevoeiro escuro:
N’voeiro, que condensa a sombra do Presente,
E clarão, que nos traz já a luz do Futuro.

Foi sob esse clarão, nessa torre isolada,
Que fomos lapidando os versos fatigantes,
Mineiros, que tortura a raiva desolada,
De não ter encontrado o filão dos diamantes.


João Lúcio Pousão Pereira (n. Olhão, 4 de Julho de 1880 - m. 26 de Outubro de 1918)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Deixa-me Beber-te  a Formosura
Sensações Desconhecidas
Tarde de Leite e Rosas Ouvindo Floresta

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2015-07-03

Caminhada - Fernando Semana

Não esperes compreensão pelo defeito
Mesmo que bom trabalho antes tenhas feito.
As coisas são fátuas e os homens fúteis,
As vitórias voam e as derrotas são inúteis.

Cada novo dia é uma provocação:
Uma oportunidade, tantas ameaças.
Faz tanto, mas por mais que faças
Não te iludas, faltará a conclusão:

Estás sempre a meio do caminho!
Prossegue e bebe um copo de vinho.
Busca não estar contra os outros

Mas vive, em especial, de bem contigo.
Se a métrica nem a rima consigo
Sejam os versos livres mas não neutros.


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Além Ainda... - Luís Murat

Caminheiro que vais ao fim do dia
Demandando o crepúsculo das dores,
Não te percas na lágrima sombria
Da tormenta de anseios e amargores!

Além da sepultura principia
O caminho dos sonhos redentores,
Na alvorada perene da harmonia,
Aureolada de eternos resplendores.

Desolado viajor, ergue teus olhos!
Não te prendas somente ao chão tristonho,
Guarda a esperança carinhosa e linda!

Vence a longa jornada dos abrolhos,
Que o país luminoso do teu sonho
Fica ao alto... distante... além ainda...


Luís Morton Barreto Murat (n. em Resende, RJ, em 4 de Maio de 1861; m. no Rio de Janeiro, RJ, em 3 de Julho de 1920)

Ler do mesmo autor neste blog:
Penas Perdidas
O Poder das Lágrimas;
Travessia das Lágrimas
Ironia do Coração;
Em Meio do Caminho

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2015-07-02

POSSIBILIDADES - Wislawa Szymborska

Prefiro cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos nas margens do Warta.
Prefiro Dickens a Doistoievski.
Prefiro-me gostando dos homens
em vez de estar amando a humanidade.
Prefiro ter uma agulha preparada com a linha.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar
que a razão é culpada de tudo.
Prefiro as excepções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro conversar com os médicos sobre outra coisa.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não escrever.
No amor prefiro os aniversários não redondos
para serem comemorados cada dia.
Prefiro os moralistas,
que não prometem nada.
Prefiro a bondade esperta à bondade ingénua demais.
Prefiro a terra à paisana.
Prefiro os países conquistados aos países conquistadores.
Prefiro ter abjecções.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro contos de fada de Grimm às manchetes de jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães com o rabo não cortado.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro as gavetas.
Prefiro muitas coisas que aqui não disse,
e outras tantas não mencionadas aqui.
Prefiro os zeros à solta
a tê-los numa fila junto ao algarismo.
Prefiro o tempo do insecto ao tempo das estrelas.
Prefiro isolar.
Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.
Prefiro levar em consideração até a possibilidade
do ser ter a sua razão.


Trad. Alexander Jovanovic e Henry Siewierski

in "Rosa do Mundo 20021 Poemas para o Futuro" (assírio & alvim, 2001)

Wisława Szymborska (Kórnik, Polónia, 2 de julho de 1923 — Cracóvia, 1 de fevereiro de 2012), foi Nobel da Literatura em 1996.

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