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2017-02-19

Poema do Amor - António Gedeão (na passagem do 20º aniversário do desaparecimento do poeta)

JanelaImagem daqui

Este é o poema do amor.

Do amor tal qual se fala, do amor sem mestre.
Do amor.
Do amor.
Do amor.

Este é o poema do amor.

Do amor das fachadas dos prédios e dos recipientes do lixo.
Do amor das galinhas, dos gatos e dos cães, e de toda a espécie de bicho.
Do amor.
Do amor.
Do amor.

Este é o poema do amor.

Do amor das soleiras das portas
e das varandas que estão por cima dos números das portas,
com begónias e avencas plantadas em tachos e em terrinas.
Do amor das janelas sem cortinas
ou de cortinas sujas e tortas.

Este é o poema do amor.

Do amor das pedras brancas do passeio
com pedrinhas pretas a enfeitá-lo para os olhos se entreterem,
e as ervas teimosas a descerem de permeio
e os homens de cócoras a raparem-nas e elas por outro lado a crescerem.
Do amor das cadeiras cá fora em redor das mesas
com as chávenas de café em cima e o toldo de riscas encarnadas.
Do amor das lojas abertas, com muitos fregueses e freguesas
a entrarem e a saírem e as pessoas todas muito malcriadas.

Este é o poema do amor.

Do amor do sol e do luar,
do frio e do calor,
das árvores e do mar,
da brisa e da tormenta,
da chuva violenta,
da luz e da cor.
Do amor do ar que circula
e varre os caminhos
e faz remoinhos
e bate no rosto e fere e estimula.
Do amor de ser distraído e pisar as pessoas graves,
do amor sem amar nem lei nem compromisso,
do amor de olhar de lado como fazem as aves,
do amor de ir, e voltar, e tornar a ir, e ninguém ter nada com isso.
Do amor de tudo quanto é livre, de tudo quanto mexe e esbraceja,
que salta, que voa, que vibra e lateja.
Das fitas ao vento,
dos barcos pintados,
das frutas, dos cromos, das caixas de tinta, dos supermercados.

Este é o poema do amor.

O poema que o poeta propositadamente escreveu
só para falar de amor,
de amor,
de amor,
de amor,
para repetir muitas vezes amor,
amor,
amor,
amor.
Para que um dia,quando o Cérebro Electrónico
contar as palavras que o poeta escreveu,
tantos que,
tantos se,
tantos lhe,
tantos tu,
tantos ela,
tantos eu,
conclua que a palavra que o poeta mais vezes escreveu
foi amor,
amor,
amor.

Este é o poema do amor.

in Obra Completa de António Gedeão, Relógio D´Água Editores

António Gedeão (pseudónimo de Rómulo Vasco da Gama de Carvalho n. 24 de novembro de 1906; m. 19 de fevereiro de 1997)

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2017-02-18

A Sílaba - Lêdo Ivo

O mundo inteiro cabe numa sílaba
e nela me refugio
para esperar a aurora.

Aprendo que Isto é Aquilo.
Não preciso aprender mais nada.
Já sei o essencial.

A noite guardou as chuvas de verão
e agora amanhece.
O dia é um voo de pássaro.


Lêdo Ivo nasceu em Maceió (AL) a 18 de fevereiro de 1924 e faleceu em Sevilha, a 23 de dezembro de 2012.

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2017-02-17

Redenção - Múcio Leão


Quando eu morrer, a minha íntima essência
Não se há de desfazer, como um clarão:
Há de ficar - beleza, amor, consciência -
Resistindo à final dissolução.

Nessa alta e metafísica existência,
Hei de sentir, na eterna solidão,
Os milagres da vasta efervescência
De um cosmos novo em nova floração.

Sei que a minha alma há de ficar no espaço,
Nos encantos do amor em que vibrei,
Nos estos longos de um divino abraço,

Na glória enganadora a que aspirei,
Na amargura dos verãos que hoje faço,
Nos sonhos vãos em que me dispersei.

Múcio Carneiro Leão (Recife, 17 de fevereiro de 1898 — Rio de Janeiro, 12 de agosto de 1969)

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2017-02-16

DO BANHO - Adelmar Tavares


Manhã. Verão. Um sol rútilo, e quente.
Gritos das andorinhas no telhado.
Há no dia uma festa de noivado.
No ar, - um perfume que entontece a gente...

Do gabinete, no silêncio amado,
leio, e medito preguiçosamente.
Ouço cantar... És tu, meu lírio doente,
que vens do banho morno e perfumado.

Rumor de chita nova se quebrando...
Aromas de jasmins sobem revoltos,
enchendo a sala onde tu vais passando

e deixando uma música de avenas,
gorjeios claros de canários soltos,
frou-frou de cisnes sacudindo as pernas...

Adelmar Tavares da Silva Cavalcanti (n. Recife, Pernambuco, Brasil, 16 de fevereiro de 1888 — m. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil, 20 de junho de 1963)

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2017-02-15

PRECE - Helena Kolody



Concede-me, Senhor, a graça de ser boa,
De ser o coração singelo que perdoa,
A solícita mão que espalha, sem medidas,
Estrelas pela noite escura de outras vidas
E tira d’alma alheia o espinho que magoa.

(in Paisagem Interior, 1941)

Helena Kolody (Cruz Machado, Paraná, Brasil, 12 de outubro de 1912 — Curitiba, Paraná, 15 de fevereiro de 2004)

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