Blog Widget by LinkWithin

2017-07-22

Já Marília cruel... - Basílio da Gama

Já Marília cruel, me não maltrata
saber que usas comigo de cautelas,
qu'inda te espero ver por causa delas,
arrependida de ter sido ingrata.

Com o tempo, que tudo desbarata,
teus olhos deixarão de ser estrelas;
verás murchar no rosto as faces belas
e as tranças d´oiro converter-se em prata.

Pois se sabes que a tua formosura
por força há de sofrer da idade os danos,
por que me negas hoje esta ventura?

Guarda para seu tempo os desenganos;
gozemo-nos agora, enquanto dura,
já que dura tão pouco a flor dos anos.


José Basílio da Gama (nasceu em São José do Rio das Mortes [depois São José del Rei, hoje Tiradentes], Minas Gerais, em 22 de julho de 1740; m. em Lisboa, em 31 de julho de 1795).

Read More...

2017-07-20

SOM DA LINGUAGEM - Gastão Cruz



Por vezes reaprendo
o som inesquecível da linguagem
Há muito desligadas
formam frases instáveis as

palavras
Aos excessos do céu cede o silêncio
as constelações caem vitimadas
pelo eco da fala

in "Campânula"

Gastão Santana Franco da Cruz (Faro, 20 de julho de 1941)

Read More...

Happy Birthday - Mathilde Goehler


Read More...

2017-07-19

Manias - Cesário Verde

O mundo é velha cena ensanguentada,
Coberta de remendos, picaresca;
A vida é chula farsa assobiada,
Ou selvagem tragédia romanesca.

Eu sei um bom rapaz, -- hoje uma ossada, --
Que amava certa dama pedantesca,
Perversíssima, esquálida e chagada,
Mas cheia de jactância quixotesca.

Aos domingos a deia já rugosa,
Concedia-lhe o braço, com preguiça,
E o dengue, em atitude receosa,

Na sujeição canina mais submissa,
Levava na tremente mão nervosa,
O livro com que a amante ia ouvir missa!

José Joaquim Cesário Verde (Lisboa, Madalena, 25 de fevereiro de 1855 — Lisboa, Lumiar, 19 de julho de 1886)

Read More...

2017-07-18

Natal Diferente - Cândido da Velha

Natal Diferente
I

Catedrais de luz erguidas na cidade.
Neve artificial nas montras com brinquedos.
Soa um Cântico antigo no vento da tarde
que arrefece. Em cada rosto, em cada olhar,
um não-sei-quê de pasmo nesta hora de Natal.

Não é serenidade o que se bebe pelas ruas.
Cinzenta é a cor do céu. Decerto vai chover.
No ambiente superficial
representam-se alegrias.
As notícias nos jornais agravam
o cepticismo deste Natal a haver.

Sinto-me vazio. Lasso. Sem vontade.
Uma grande ternura a boiar dentro de mim:
Lástima, piedade, amor pelos humanos?
Mas de que serve comover-me assim?

Vou aceitar este Natal, tal como está.
Com álcool. Com prazer.
Embriagar-me de luz, de sons e de ilusões.
Ser como toda a gente. E possa o mundo arder!

II

Meu Menino Jesus que deves estar no Céu
vem tiritar nas cidades sem calor.
Vem dar realidade a este dia, vem!
— Trinta e três anos e a consciência em flor.
Mas não venhas de fraldas: a Estrela já brilhou.
Traz o corpo macerado, os pulsos perfurados,
uma injúria na boca a quem te adulterou.
Não merecemos mais, acredita. Urgentemente, vem.
Disfarçadamente, para poderes ver
que só no castigo o corpo se dá bem.

Anoitece. A chuva na cidade
quebra um pouco a sofreguidão de amar.
Já pouca gente passa. As luzes no asfalto
espalmam, pouco a pouco, a angústia para o mar.

Vou aceitar este Natal, tal como está.
Com álcool, com prazer.
Embriagar-me de luz, de sons e de ilusões.
Ser como toda a gente. E possa o mundo arder!

in 'Florilégio de Natal'

Cândido Manuel de Oliveira da Velhada nasceu em 18 de julho de 1933 em Ílhavo
Poeta

Read More...