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2016-09-23

Para Que Tu Me Ouças - Pablo Neruda

Para que tu me ouças
as minhas palavras
adelgaçam-se por vezes
como o rasto das gaivotas sobre a praia.

Colar, guizo ébrio
para as tuas mãos suaves como as uvas.

E vejo-as tão longe, as minhas palavras.
Mais que minhas são tuas.
Vão trepando pela minha velha dor como a hera.

Elas trepam assim pelas paredes húmidas.
Tu é que és a culpada deste jogo sangrento.
Elas vão a fugir do meu escuro refúgio.
Tu enches tudo, amada, enches tudo.

Antes de ti povoaram a solidão que ocupas,
e estão habituadas mais que tu à minha tristeza.

Agora quero que digam o que eu quero dizer-te
para que tu ouças como quero que me ouças.

O vento da angústia ainda costuma arrastá-las.
Furacões de sonhos ainda ainda por vezes as derrubam.
Tu escutas outras vozes na minha voz dorida.
Pranto de velhas bocas, sangue de velhas súplicas.
Ama-me, companheira. Não me abandones. Segue-me.
Segue-me, companheira, nessa onda de angústia.

Mas vão-se tingindo com o teu amor as minhas palavras.
Ocupas tudo, amada, ocupas tudo.

Vou fazendo de todas um colar infinito
para as tuas brancas mãos, suaves como as uvas.


Tradução de Fernando Assis Pacheco
Extraído de "miguel veiga, os poemas da minha vida, Público"

Pablo Neruda [Ricardo Eliecer Neftalí Reyes Basoalto] (n. 12 Jul 1904, Parral, Chile; m. 23 Set 1973 em Santiago, Chile).

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2016-09-22

Vaidade Funesta - Gustavo Teixeira


Porque eu, num madrigal, te comparei ás rosas,
Ficaste crendo que és das flores a rainha,
E já queres subir a alturas prodigiosas,
Ter surtos de condor com asas de andorinha

É tão bom ser violeta e á sombra de uma leira
Em flor guardar intacto o aroma azul! Pois olha
Que a rosa de mais graça e purpura é a primeira
Que a coroa real de pétalas desfolha...

in A Cidade de Ytu, Anno XXI, E. de S. Paulo, NUM.1704, de 9 de Fevereiro de 1916 (daqui)


Texto autobiográfico publicado no jornal "Correio Paulistano" de 11 de novembro de 1937:

"Nasci em São Pedro, no sítio São Francisco, perto da serra, em 4 de março de 1881, sendo meus pais Francisco de Paula e Silva e Miquelina Teixeira de Escobar e Silva. O meu nome todo é Gustavo de Paula Teixeira. Estudei as primeiras letras em casa, com minha mãe. E comecei a ler versos. Em 1901 (janeiro)fui para São Paulo onde continuei os estudos com o meu irmão Francisco de Paula Teixeira, espírito cultíssimo, que além de meu professor, foi o meu guia espiritual, iniciando-me na carreira das letras. Trabalhei, em 1905, na "Folha Nova", de Garcia Redondo. Colaborei, naquele tempo, nos principais jornais e revistas de São Paulo. Em fins de 1905, tendo desaparecido a "Folha Nova", voltei para São Pedro, onde fui nomeado secretário da Câmara, cargo que ocupo até esta data. Em 1908, publiquei o "Ementário", livro de versos, prefaciado por Vicente de Carvalho. Em 1925, publiquei os "Poemas Líricos". Tenho para publicar: "O Sonho de Marina", poemeto; "A Canção da Primavera", poemeto; "Último Evangelho", poema sobre a vida de Jesus (em preparo), e um grosso volume de poesias avulsas, ainda sem título.
São esses os traços principais de minha vida.
São Pedro, 6-10-31.
(a.)Gustavo Teixeira.

Sobre o autor e a sua obra (e de onde foi retirado o extrato autobiográfico acima transcrito) recomenda-se "GUSTAVO TEIXEIRA: O POETA QUE A CIDADE ENGOLIU" da autoria de Samanta Rosa Maia disponível aqui

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2016-09-21

Não dizia palavras - Luis Cernuda

Não dizia palavras,
Aproximava apenas um corpo interrogante,
Porque ignorava que o desejo é uma pergunta
Cuja resposta não existe,
Uma folha cujo ramo não existe,
Um mundo cujo céu não existe.

Entre os ossos a angústia abre caminho,
Ergue-se pelas veias
Até abrir na pele
Jorros de sonho
Feitos carne interrogando as nuvens.

Um contacto ao passar,
Um fugidio olhar no meio das sombras,
Bastam para que o corpo se abra em dois,
Ávido de receber em si mesmo
Outro corpo que sonhe;
Metade e metade, sonho e sonho, carne e carne,
Iguais em figura, iguais em amor, iguais em desejo.

Embora seja só uma esperança,
Porque o desejo é uma pergunta cuja resposta ninguém sabe.

in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea, Selecção e Tradução de José Bento,
Assírio & Alvim

Luis Cernuda Bidón (n. 21 de setemnro de 1902 em Sevilha, Espanha; m. novembro de 1963, Mexico City)

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2016-09-20

REGRESSO - Alberto de Lacerda



Por toda a parte espectros
Do mapa percorrido em cinco e quarenta
Prolongados anos

A cidade encontra
O espectro do que eu fui
Saído dos horrores da adolescência

Filtra obscuramente
O meu imo
Que não conheço

Vem
[irreconhecível
Ao meu encontro

Tacteamo-nos no escuro
Apaixonadamente

O amor é cego
Mas só ele permite
Realmente ver

Londres, 25 de Novembro de 1996

[in O Pajem Formidável dos Indícios, Assírio & Alvim, 2010]

Carlos Alberto Portugal Correia de Lacerda, nasceu em 20 de setembro de 1928 em Lourenço Marques (actual Maputo), Moçambique e faleceu em 26 de agosto de 2007 em Londres.

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2016-09-19

Segue o Teu Destino - Ricardo Reis

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

Ricardo Reis (um dos heterónimos de Fernando Pessoa) nasceu, em ficção, no Porto, em 19 de setembro de 1887. Educado num colégio jesuíta (latinista por educação alheia e semi-helenista por educação própria), formou-se em Medicina. Por ser monárquico, partiu para o Brasil em 1919 (daqui)

Aqui na voz de Maria Bethânia
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