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2017-06-23

Soneto [Antes de conhecer-te, eu já te amava] - Martins Fontes


Antes de conhecer-te, eu já te amava.
Porque sempre te amei a vida inteira:
Eras a irmã, a noiva, a companheira,
A alma gêmea da minha que eu sonhava.

Com o coração, à noite, ardendo em lava
Em meus versos vivias, de maneira
Que te contemplo a imagem verdadeira
E acho a mesma que outrora contemplava.

Amo-te. Sabes que me tens cativo.
Retribuis a afeição que em mim fulgura,
Transfigurada nos anseios da Arte.

Mas, se te quero assim, por que motivo
Tardaste tanto em vir, que hoje é loucura,
Mais que loucura, um crime desejar-te?

José Martins Fontes nasceu em Santos (SP) a 23 de junho de 1884 e morreu a 25 de junho de 1937.

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2017-06-22

FLORES NO QUARTO - Paulino de Oliveira

Quarto sem luz, dum ar viúvo e frio...
Tenho a cabeça, enfebrecida, a arder.
O sono hoje não desce, a apaziguar-me.
Pelo silêncio, a espaços, dando alarme,
Anda um confuso som, de entontecer.

Procuro companhia com que esqueça
Esta vida de só, de abandonado.
Sonho um corpo florido, crepitante,
De carne moça e viva de bacante,
Sem túnica, num sonho depravado...

Penso que me abre a porta, lentamente,
Impondo-me, em silêncio, amplos assombros,
E que, nervosa, se dirige ao leito
- Como um ramo gentil todo desfeito
Os seus cabelos soltos pelos ombros.

E chega todo trémulo, radioso,
Numa graça aromática e ligeira.
Toda a alcôva estremeça e se perfuma
De olôr que embriaga... e me envenena em suma
Como um bouquet bizarro à travesseira.

Mas tarda... Oh sonhos vãos!... Porém, teimando,
O sonho não me larga, a enfebrecer;
O corpo que eu criei e me apetece
Grita no escuro, o aroma me enlouquece
Vermelho ramalhete, ao fundo a arder...

Francisco Paulino Gomes de Oliveira, nasceu em Setúbal a 22 de junho de 1864, faleceu em 13 de março de 1914*, em São Paulo, no Brasil).

Raramente se encontra divulgada a data de falecimento do poeta. A de 13 de março de 1914 é referida neste estudo feito mais a propósito da sua mulher Ana de Castro Osório

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2017-06-21

Relíquia Íntima - Machado de Assis

Ilustríssimo, caro e velho amigo,
Saberás que, por um motivo urgente,
Na quinta-feira, nove do corrente,
Preciso muito de falar contigo.

E aproveitando o portador te digo,
Que nessa ocasião terás presente,
A esperada gravura de patente
Em que o Dante regressa do Inimigo.

Manda-me pois dizer pelo bombeiro
Se às três e meia te acharás postado
Junto à porta do Garnier livreiro:

Senão, escolhe outro lugar azado;
Mas dá logo a resposta ao mensageiro,
E continua a crer no teu Machado.

Joaquim Maria MACHADO DE ASSIS (nasceu no Rio de Janeiro a 21 de junho de 1839 e aí faleceu a 29 de Setembro de 1908)

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2017-06-20

Sonho Desfeito - António Feijó (na passagem do centenário do seu desaparecimento


A Alfredo Guimarães


Quando o Sonho, batendo as asas doidamente,
Voa como falena errante, no infinito,
Cuido que ao pé de mim, voluptuosamente,
Cravas no meu olhar o teu olhar bendito.

E no delírio em que eu nervosamente fito
A curva do teu seio elástico e tremente,
Atrevo-me a poisar, nostálgico proscrito,
Meus lábios sem pudor sobre o teu colo ardente.

Mas como o vento espalha as húmidas neblinas,
Diluídas no vapor das névoas matutinas
A quimera, a ilusão de estranho visionário,

Vejo que o teu sorriso, ó casta Margarida!
Apenas me envolveu, luar da minha vida,
No tépido clarão dum beijo imaginário! …


In Poesias Completas – Caixotim Edições


António Feijó (n. 1 de junho de 1859 em Ponte de Lima, m. 20 de junho 1917, em Upsala, Suécia)

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2017-06-19

Idílio - IV - Roberto de Mesquita

Sentámo-nos num largo, ao luar divino.
Eu fitava no céu pupilas sonhadoras.
No profundo silêncio um clamoroso sino
Com solene vagar bateu então dez horas.

Depois de acompanhar-te ao ninho onde tu moras,
Erguido num jardim virente e pequenino,
Fiquei a relembrar o teu corpo airoso e fino
E esses olhos de moura, escuros como amoras.

Por longo tempo ainda eu divaguei absorto
Entre prédios sem luz, dum ar soturno e morto,
Ouvindo ao longe o mar num salmo sonolento.

E ao mórbido luar, que ao sono nos impulsa,
A minh’alma bebia essa saudade avulsa
Que dimana da noite assim como o relento…


Augusto de Mesquita Henriques (n. em Santa Cruz das Flores, Ilha das Flores, Açores a 19 de junho de 1871; m. em Santa Cruz das Flores em 31 de dezembro de 1923)

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