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2016-12-08

Horas Rubras - Florbela Espanca

Beijo imagem daqui

Horas profundas, lentas e caladas,
Feitas de beijos sensuais e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas...

Oiço as olaias rindo desgrenhadas...
Tombam astros em fogo, astros dementes,
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata pelas estradas...

Os meus lábios são brancos como lagos...
Os meus braços são leves como afagos.
Vestiu-os o luar de sedas puras...

Sou chama e neve branca e misteriosa...
E sou, talvez na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!


Florbela Espanca (n. Vila Viçosa, 8 dezembro de 1894; m. Matosinhos, 8 de dezembro de 1930)

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2016-12-07

Na efeméride do nascimento de Ary dos Santos

Quando Lisboa anoitece
Como um veleiro sem velas
Alfama toda parece
Uma casa sem janelas
Aonde o povo arrefece

É numa água-furtada
No espaço roubado à mágoa
Que Alfama fica fechada
Em quatro paredes de água
Quatro paredes de pranto

Quatro muros de ansiedade
Que à noite fazem o canto
Que se acende na cidade
Fechada em seu desencanto
Alfama cheira a saudade

Alfama não cheira a fado
Cheira a povo, a solidão,
Cheira a silêncio magoado
Sabe a tristeza com pão
Alfama não cheira a fado
Mas não tem outra canção.


Ary dos Santos/ Alain Oulman

ALFAMA - Pedro Moutinho & Mayra Andrade

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2016-12-06

A VIDA - Fernando Semana



Caminheiro que segues sem destino
Definido, não te canse o solo
Árido, o sol agreste ao pino,
- Infinito será o teu consolo.

Por maiores que sejam os escolhos
as mágoas, os abrolhos, os espinhos
Ergue ao céu os teus cansados olhos
E vê p’ra além dos óbvios caminhos.

Guarda a esperança, mantém o sonho.
Distante do alcance terreno
Há mais... uma cintilante estrela!…

Adiante do Bojador medonho,
Corpo exangue mas coração sereno,
Saberás chegar ao fim da procela.

Fernando Semana é natural de Valbom, do concelho de Gondomar, onde nasceu em 1957; contabilista e economista de profissão é aprendiz de poeta nas horas vagas; é o autor do blog Nothingandall (www.nothingandall.blogspot.com)

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DO SORTILÉGIO E DA INFÂNCIA - Joanyr de Oliveira


Entre frutas passadas ou imaturas,
a negra mão cerzia o véu da noite;
em sons enovelada e em vã procura
intimidava o céu um açoite.

O menino encharcado de magia,
a ungir o frágil com reverência,
brindava à luz, em pranto estremecia,
e a banhava no mar de sua inocência.

O celeiro de estórias severas,
maior que o templo azul das prateleiras,
concebia sacis, almas e feras.

Espantalhos pingavam das goteiras,
com multidões de filhos de outras eras,
a bailar e a fugir pelas lareiras.

in Soberanas mitologias e a cidade do medo.

Joanyr de Oliveira (Aimorés, 6 de dezembro de 1933 — Brasília, 5 de dezembro de 2009)

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2016-12-05

Remember - Christina Rossetti

Water Lilies - 1906 Oil on canvas 87.6 x 92.7 cm (34 1/2 x 36 1/2)
by Claude Monnet (b. Paris 14 Nov. 1830 - d. Giverni 5 Dec 1926)
in The Art Institute of Chicago

Remember me when I am gone away,
Gone far away into the silent land;
When you can no more hold me by the hand,
Nor I half turn to go yet turning stay.
Remember me when no more day by day
You tell me of our future that you planned:
Only remember me; you understand
It will be late to counsel then or pray.
Yet if you should forget me for a while
And afterwards remember, do not grieve:
For if the darkness and corruption leave
A vestige of the thoughts that once I had,
Better by far you should forget and smile
Than that you should remember and be sad.

(versão em português)

Recorda-te de mim quando eu embora
For para o chão silente e desolado;
Quando eu não te tiver mais ao meu lado
E sombra vã chorar por quem me chora.

Quando mais não puderes, hora a hora,
Falar-me no futuro que hás sonhado,
Ah de mim te recorda e do passado,
Delícia do presente por agora.

No entanto, se algum dia me olvidares
E depois te lembrares novamente,
Não chores: que se em meio aos meus pesares

Um resto houver do afecto que em mim viste,
- Melhor é me esqueceres, mas contente,
Que me lembrares e ficares triste.

Trad. de Manuel Bandeira, in Rosa do Mundo 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim

Christina Rossetti (b. 5-Dec-1830 in London, England; Died: 29-Dec-1894, London, England)

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