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2016-02-07

Poesia Depois da Chuva - Sebastião da Gama

A Maria Guiomar


Depois da chuva o Sol - a graça.
Oh! a terra molhada iluminada!
E os regos de água atravessando a praça
- luz a fluir, num fluir imperceptível quase.

Canta, contente, um pássaro qualquer.
Logo a seguir, nos ramos nus, esvoaça.
O fundo é branco - cal fresquinha no casario da praça.

Guizos, rodas rodando, vozes claras no ar.

Tão alegre este Sol! Há Deus. (Tivera-O eu negado
antes do Sol, não duvidava agora.)
Ó Tarde virgem, Senhora Aparecida! Ó Tarde igual
às manhãs do princípio!

E tu passaste, flor dos olhos pretos que eu admiro.
Grácil, tão grácil!... Pura imagem da Tarde...
Flor levada nas águas, mansamente...

(Fluía a luz, num fluir imperceptível quase...)

in 'Pelo Sonho é que Vamos'

Sebastião Artur Cardoso da Gama (n. em Vila Nogueira de Azeitão, Setúbal, a 10 de abril de 1924; m. em Lisboa a 7 de fevereiro de 1952).

Do mesmo autor ler, neste blog, os belíssimos poemas:
Louvor da Poesia
Crepuscular
Largo do Espírito Santo, 2 - 2º
Nasci Para Ser Ignorante
Pequeno Poema
O Sonho
Madrigal
Poema da Minha Esperança
Anunciação
Crepuscular
Meu País Desgraçado

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2016-02-06

GRITO NEGRO - José Craveirinha



Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.

in Karingana Ua Karingana [Era uma vez] (1974)


José João Craveirinha (Lourenço Marques, atual Maputo, 28 de maio de 1922 — Maputo, 6 de fevereiro de 2003)

Ler do mesmo autor neste blog:
A Nossa Casa
Gumes de Névoa
Karingana ua Karingana
Um Homem Não Chora
Aforismo
Eu Quero Ser Tambor

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2016-02-05

A Tua Roca - Simões Dias



Quando te vejo, à noitinha,
Nessa cadeira sentada,
O xaile posto nos ombros,
Na cinta a roca enfeitada,

Os olhos postos na estriga,
Volvendo o fuso nos dedos,
Os lábios contando ao fio
Da tua boca os segredos,

Eu digo sempre baixinho
Pondo os olhos na tua roca:
«Se eu pudesse ser estriga,
Beijaria aquela boca!»

Eu nunca te vi fiando
Sem invejar os desvelos
Com que desfias do linho
Os brancos, finos cabelos.

E aquela fita de seda
Que se enleia no fiado?
Eu nunca vejo essa fita
Que me não sinta enleado

Parece aquilo um abraço
Dum amor que é todo nosso,
A trança do teu cabelo
Em volta do meu pescoço.

Eu digo sempre baixinho
Vendo a fita que se enreda:
«Quem me dera ser a estriga,
E ela a fitinha de seda!»

Eu por mim não sei que
sinto,
De tristeza, se ventura,
Mal que suspendes a roca
Da tua breve. cintura.

Penso que fias nos dedos
Os dias da minha vida:
Ao pé de ti sempre curta,
Ao longe sempre comprida.

Pareces-me um ramilhete
Sentada nessa cadeira,
E a fita da tua roca
A silva duma roseira.

Meu amor, quando acabares
De espiar a tua estriga,
E ouvires por alta noite
Em voz baixa uma cantiga,

Sou eu que estou a lembrar-me
Dos beijos da tua boca,
E penso que em mim são dados
Os beijos que dás na roca.

José Simões Dias nasceu na Benfeita, Arganil,a 5 de fevereiro de 1844 e morreu em Lisboa a 3 de março de 1899.

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2016-02-04

Aflição de ser eu e não ser outra - Hilda Hilst


Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha

Objeto de amor, atenta e bela.

Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.

Hilda Hilst, nasceu na cidade de Jaú, interior do Estado de São Paulo, em 21 de abril de 1930 e faleceu no dia 04 de fevereiro de 2004, na cidade de Campinas (SP).

Ler da mesma autora, neste blog:
Poemas aos homens do nosso tempo
O Poeta Inventa Viagem, Retorno e Morre de Saudade
Do Desejo III

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2016-02-03

Élis (3.ª versão) - Georg Trakl

Carvalho em dia dourado imagem daqui

1.
Perfeito é o silêncio deste dia dourado.
Sob velhos carvalhos
Apareces. Élis, imagem de paz com olhos redondos.

O seu azul espelha o sono dos amantes.
Na tua boca
Emudeceram os seus suspiros rosados.

À noitinha, o pescador puxou as pesadas redes .Um bom pastor
Leva o rebanho pela orla da floresta.
Oh, que justos são, Élis todos os teus dias!

Leve, desce
Por muros desolados o silêncio azul da oliveira,
Morre o sombrio canto de um ancião.
Uma barca de ouro
Baloiça, Élis o teu coração na solidão do céu.

2.
Um suave toque de sinos ecoa no peito de Élis
À noitinha,
Quando a sua cabeça se afunda na almofada negra.

Um veado azul
Sangra baixinho no mato de espinhos.

Uma árvore castanha ergue-se solitária;
Caíram dela os seus frutos azuis.

Sinais e estrelas
Afundam-se de mansinho no lago da tarde.

Para lá da colina chegou o inverno.

Pombas azuis
Bebem de noite o suor gelado
Que corre na fonte cristalina de Élis.

Eternamente, ressoa
Nos muros negros o vento solitário de Deus.

Trad. João Barrento
in Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim

Georg Trakl (nasceu em Salzburgo, Áustria, 3 de Fevereiro de 1887 - morreu na Cracóvia, Áustria, 3 de Novembro de 1914

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