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2016-05-23

Vida - Augusto Branco

Já perdoei erros quase imperdoáveis,
tentei substituir pessoas insubstituíveis
e esquecer pessoas inesquecíveis.

Já fiz coisas por impulso,
já me decepcionei com pessoas
que eu nunca pensei que iriam me decepcionar,
mas também já decepcionei alguém.

Já abracei pra proteger,
já dei risada quando não podia,
fiz amigos eternos,
e amigos que eu nunca mais vi.

Amei e fui amado,
mas também já fui rejeitado,
fui amado e não amei.

Já gritei e pulei de tanta felicidade,
já vivi de amor e fiz juras eternas,
e quebrei a cara muitas vezes!

Já chorei ouvindo música e vendo fotos,
já liguei só para escutar uma voz,
me apaixonei por um sorriso,
já pensei que fosse morrer de tanta saudade
e tive medo de perder alguém especial (e acabei perdendo).

Mas vivi!
E ainda vivo!
Não passo pela vida.
E você também não deveria passar!

Nazareno Vieira de Souza, que usa o pseudónimo de Augusto Branco, nasceu em Porto Velho, Rondônia, Brasil a 23 de maio de 1980

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2016-05-21

EXORTAÇÃO AO HOMEM PRÁTICO - Filgueiras Lima



Homem prático,
que passas correndo pela rua,
contém o passo - que o teu esforço é inútil.
Olha que eu sigo ao teu lado,
calmo, sereno, devagar,
com os olhos cheios de paisagens,
os ouvidos bêbedos de música,
e a mente enflorada de sonhos...

Vê bem: por mais que te apresses,
por mais que avances,
nunca me vencerás nesta corrida.
Bem sei que és forte - mas eu também sou forte!
Depois, só há um ponto de partida: a Vida.
Só existe um ponto de chegada: a Morte.

E enfim, sobre o caminho percorrido,
tu, homem prático, deixarás apenas
o pó que levantaste do solo
com as tuas passadas estrepitantes.

É eu? Ah! eu deixarei pouco de mim mesmo
sobre os cardos,
sobre as pedras,
para tornar mais suave a caminhada
dos que vierem depois de mim...

Antônio Filgueiras Lima (Lavras da Mangabeira, Ceará, Brasil, 21 de maio de 1909 - Fortaleza, Ceará, Brasil, 28 de setembro de 1965)

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2016-05-20

Segredo - Maria Teresa Horta

Naked woman

Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar

in Cem Poemas Portugueses no Feminino, selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria, Terramar

Maria Teresa Horta (nasceu em Lisboa a 20 de Maio de 1937)

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2016-05-19

Divagações III - Fernando Semana


O peixe sulca a água mexendo alegremente as barbatanas
A criança, com a testa encostada ao vidro, imerge...
Quando soa - e todo o equilíbrio do mundo se transforma - :
"Oh peixinho vermelho, como vieste aqui parar?"
O peixe inquieta-se, pelo seu infortúnio ou por não ter memória
A criança não se apercebe do efeito das perguntas simples
E corre em direcção da mãe… para outra pergunta incómoda.

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...Quand on ne s'aime plus - Julio Dantas (na passagem dos 140 anos do nascimento)

Ponto final. Adeus. Tinha previsto o fim.
Quiz muito, quiz demais... O culpado fui eu.
Se é que póde morrer o que nunca viveu,
Sinto que morreu hoje o teu amor por mim.

Fiz mal em vir? Talvez. Quizeste vêr-me: vim.
Que placidez a tua e que sorriso o teu!
Amor que raciocina é amor que morreu.
Pode lá nunca amar quem se domina assim!

Tinha de ser. Adeus. Deixas-me triste e doente.
Depois, qual é o amor que vive eternamente?
Tudo envelhece, e passa, e morre como tu.

Nunca mais me verás. É a vida, afinal.
Dá-me o ultimo beijo e não me queiras mal...
Il faut rompre en pleurant quand on ne s'aime plus.


manteve-se a grafia constante da publicação
in Revista ATLANTIDA, Nº. 1, 15 de Novembro de 1915, Lisboa

Júlio Dantas (Lagos, 19 de maio de 1876 — Lisboa, 25 de maio de 1962)

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