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2019-03-20

Cavalo de várias cores - Reinaldo Ferreira

Quero um cavalo de várias cores,
Quero-o depressa que vou partir.
Esperam-me prados com tantas flores,
Que só cavalos de várias cores
Podem servir.

Quero uma sela feita de restos
Dalguma nuvem que ande no céu.
Quero-a evasiva - nimbos e cerros -
Sobre os valados, sobre os aterros,
Que o mundo é meu.

Quero que as rédeas façam prodígios:
Voa, cavalo, galopa mais,
Trepa às camadas do céu sem fundo,
Rumo àquele ponto, exterior ao mundo,
Para onde tendem as catedrais.

Deixem que eu parta, agora, já,
Antes que murchem todas as flores.
Tenho a loucura, sei o caminho,
Mas como posso partir sozinho
Sem um cavalo de várias cores?

Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira (n. em Barcelona, a 20 de março de 1922; m. em Moçambique a 30 de junho de 1959)

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2019-03-18

Menino e Moço - António Nobre

Tombou da haste a flor da minha infância alada.
Murchou na jarra de oiro o pudico jasmim:
Voou aos altos céus Sta. Águia, linda fada
Que dantes estendia as asas sobre mim.

Julguei que fosse eterna a luz dessa alvorada,
E que era sempre dia, e nunca tinha fim
Essa visão de luar que vivia encantada,
Num castelo de prata embutido a marfim!

Mas, hoje, as águias de oiro, águias da minha infância,
Que me enchiam de lua o coração, outrora,
Partiram e no céu evolam-se à distancia!

Debalde clamo e choro, erguendo aos céus meus ais:
Voltam na asa do vento os ais que a alma chora,
Elas, porém, Senhor! elas não voltam mais...


Versão extraída da cópia digital Projeto Gutenberg do original ANTONIO NOBRE, SÓ, PARIS, LÉON VANIER, ÉDITEUR 19, QUAI SAINT-MICHEL, 19, 1892

Existe outra versão com alterações nos 3º e 9º versos que seriam
Voou aos altos céus a pomba enamorada
Mas, hoje, as pombas de oiro, aves da minha infância,
(versão vista por exemplo aqui)

Em obediência à publicação preferimos a Sta. Águia e as águias de oiro (até porque o Benfica mais uma vez voou alto!)

António Pereira Nobre (nasceu no Porto a 16 de Agosto de 1867 e foi vítima de tuberculose pulmonar, na Foz do Douro, Porto a 18 de Março de 1900).

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2019-01-28

Amor e Razão - Filinto de Almeida

A Alberto Pereira Leite
Sempre a razão vencida foi de amor.
CAMÕES.

Por que me hei de importar? Se a Razão pede
Sacrifícios, com lágrimas os paga.
Se tenho no meu peito aberta chaga,
Ela nenhum alívio me concede.

"Pára, infeliz! Alguém teus passos mede...
Se em gozos a tua alma se embriaga,
Todos os teus sentidos prende e esmaga,
Que sentir e gozar o mundo impede!"

"Se tens um coração e nele oculta
Uma paixão qualquer, ou triste ou grata,
Fere-o, e no peito toda a dor sepulta."

Isto a Razão nos diz contra a Paixão.
Mas se esta nos dá vida, e aquela mata
Que vença o Amor, e esmague a Razão.


25 de dezembro de 1884.
(Lírica, 1887.)

Francisco Filinto de Almeida (n. no Porto em 4 de dezembro de 1857; m. no Rio de Janeiro, RJ, em 28 de janeiro de 1945).

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2019-01-16

Musical suggestion of the day: O Teu Nome - Miguel Gameiro & Mariza

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2019-01-11

Dizem que a paixão o conheceu - Al Berto



dizem que a paixão o conheceu
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros
senta-se no estremecer da noite enumera
o que lhe sobejou do adolescente rosto
turvo pela ligeira náusea da velhice

conhece a solidão de quem permanece acordado
quase sempre estendido ao lado do sono
pressente o suave esvoaçar da idade
ergue-se para o espelho
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo

dizem que vive na transparência do sonho
à beira-mar envelheceu vagarosamente
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria
nenhum ofício cantante
o tenha convencido a permanecer entre os vivos

Al Berto, pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares, n. 11 de janeiro de 1948, Coimbra; f. 13 de junho de 1997, Lisboa

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