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2014-11-28

Dorme, pião, dorme - Campos de Figueiredo

Dorme, pião, dorme
Dorme no sobrado...
Tu dormes em pé,
Eu durmo deitado.

Dorme e sonha alto,
Meu pião de buxo...
Sonha-te, encantado
À beira do lago...

- Ao meio o repuxo.-
Dorme sonha a brisa
Que te afaga as folhas,
Na manhã macia,
Que dormindo sonhas.
Dorme pião amigo
Que eu sonho contigo!


in O Poema da Inocência

José Campos de Figueiredo nasceu em Cernache (Coimbra) a 6 de maio de 1899 e faleceu em Coimbra a 29 de novembro de 1965.

Ler do mesmo autor:
Tela Íntima
Sonho
Momento Lírico
O Milagre das Rosas
Autocrítica
Fingimento





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2014-11-27

O Outono - Soares de Passos

Eis já o lívido Outono
Pesa o manto nas florestas;
Cessaram as brandas festas
De natureza louçã.
Tudo aguarda o frio Inverno;
Já não há cantos suaves
Do montanhês e das aves,
Saudando a luz da manhã.

Tudo ê triste! Os verdes montes
Vão perdendo os seus matizes,
As veigas e os dom felizes,
Tesouro dos seus casais;
Dos crestados arvoredos
A folha seca e mirrada,
Cai ao sopro da rajada,
Que anuncia os vendavais.

Tudo é triste! e o seio triste
Comprime-se a este aspecto;
Não sei que pesar secreto
Nos enluta o coração.
É que nos lembra o passado
Cheio de viço e frescura,
E o presente sem verdura
Como a folhagem do chão.

Lembra-nos cada esperança
Pelo tempo emurchecida,
Mil áureos sonhos da vida
Desfeitos, murchos também;
Lembram-nos crenças fagueiras
Da inocência doutra idade,
Mortas à luz da verdade,
Criadas por nossa mãe.

Lembram-nos doces tesouros
Que tivemos, e não temos;
Os amigos que perdemos,
A alegria que passou;
Lembram-nos dias da infância,
Lembram-nos ternos amores,
Lembram-nos todas as flores
Que o tempo à vida arrancou.

E depois assoma o inverno.
Que lembra o gelo da morte,
Das amarguras da sorte
Última gota fatal…
É por isso que estes dias
Da natureza cadente,
Brilham n’alma tristemente
Como um círio funeral.

Mas ânimo! após a quadra
De nuvens e de tristeza,
Despe o luto a natureza,
Revive cheia de luz:
Após o inverno sombrio
Vem a flórea primavera,
Que novos encantos gera,
Nova alegria produz.

Os arvoredos despidos
Se revestem de folhagem;
Ao sopro da branda aragem
Rebenta no campo a flor:
Tudo ao vê-la se engrinalda,
Tudo se cobre de relva,
E as avezinhas na selva
Lhe cantam hinos d’amor.

Ânimo pois! como à terra,
Também à nua existência
Vem, após a decadência,
Às vezes tempo feliz;
E a vida gelada, estéril,
Que o sopro da morte abala,
Desperta cheia de gala,
Cheia de novo matiz.

Ânimo pois! e se acaso
Nosso destino inclemente,
Em vez de jardim florente,
Nos aponta o mausoléu;
Se a primavera do mundo
Já morreu, já não se alcança,
Tenhamos inda esperança
Na primavera do Céu!


António Augusto Soares de Passos (Porto, 27 de novembro de 1826 – Porto, 8 de fevereiro de 1860)

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2014-11-26

you are welcome to elsinore - Mário Cesariny

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar


Mário Cesariny de Vasconcelos (n. em Lisboa a 9 de agosto de 1923; m. em Lisboa a 26 de novembro de 2006)

Ler do mesmo autor neste blog:
Outra coisa
Em todas as ruas te encontro
Pastelaria
história de cão

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2014-11-25

Carácter, Ideias e Moral - Eça de Queiroz

Aos políticos, menos liberalismo e mais caráter.
Aos homens de letras, menos eloquência e mais ideias.
Aos cidadãos em geral, menos progresso e mais moral.


José Maria de Eça de Queirós nasceu na Póvoa de Varzim, a 25 de novembro de 1845 e faleceu em Paris a 16 de agosto de 1900

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2014-11-24

Inefável - Cruz e Sousa

Nada há que me domine e que me vença
Quando a minha alma mudamente acorda...
Ela rebenta em flor, ela transborda
Nos alvoroços da emoção imensa.

Sou como um Réu de celestial sentença,
Condenado do Amor, que se recorda
Do Amor e sempre no Silêncio borda
De estrelas todo o céu em que erra e pensa.

Claros, meus olhos tornam-se mais claros
E tudo vejo dos encantos raros
E de outras mais serenas madrugadas!

Todas as vozes que procuro e chamo
Ouço-as dentro de mim porque eu as amo
Na minha alma volteando arrebatadas


João da Cruz e Sousa nasceu em Desterro, hoje Florianópolis (SC), a 24 de Novembro de 1861 e faleceu na Estação de Sítio (MG) a 19 de Março de 1898.

Ler do mesmo autor:
Antífona
Vida Obscura
Silêncios
Sorriso Interior
Violões que Choram
Ironia de Lágrimas
O Assinalado
Inefável
Sorriso Interior
Monja

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