Blog Widget by LinkWithin

2019-07-16

Para Ser Lido Mais Tarde - Mário Dionísio


Um dia
quando já não vieres dizer-me Vem
jantar

quando já não tiveres dificuldade
em chegar ao puxador
da porta quando

já não vieres dizer-me Pai
vem ver os meus deveres

quando esta luz que trazes nos cabelos
já não escorrer nos papéis em que trabalho

para ti será o começo de tudo

Um outro dia haverá talvez para os teus sonhos
um outro mundo acolherá talvez enfim a tua oferenda

Hás-de ter alguma impaciência enquanto falo
Ouvirás com encanto alguém que não conheço
nem talvez ainda exista neste instante

Mas para mim será já tão frio e já tão tarde

E nem mesmo uma lembrança amarga
ou doce ficará
desta hora redonda
em que ninguém repara

1953

(in O Silêncio Voluntário - 1966)

Mário Dionísio (Lisboa, 16 de julho de 1916 - Lisboa, 17 de novembro de 1993)

Read More...

2019-06-27

Soneto I. 70 de A Imitação do Amanhecer [O amor é uma parábola, a instante tradução] - Bruno Tolentino

I. 70
O amor é uma parábola, a instante tradução
do real em metáfora; no entanto, não importa
se a aparição que se desvela quando a porta
se escancara entre os mundos, é uma alucinação
ou uma sombra tangível: o ser é uma porção
incerta do invisível e o olho não suporta,
muito menos retém-no, o impacto da visão;
o olhar humano dói mais fundo quando corta
a escuridão ao meio e penetra-a e não toca
sequer seus pirilampos, nem mesmo uma variante
da noite e seus relâmpagos: um corpo deslumbrante
pode se encher de luz primeva, mas a boca
é a entrada da treva, e o mais puro diamante
não cruza nunca o espelho nem tem valor de troca ...

in A imitação do amanhecer - Bruno Tolentino
São Paulo : Globo 2006 ISBN 85-250-4189-0

Bruno Lúcio de Carvalho Tolentino Sobrinho (Rio de Janeiro, 12 de novembro de 1940 — São Paulo, 27 de junho de 2007)

Read More...

2019-06-25

POEMA - Ruy Barata

Sobre o piano - rosas
entre as rosas o azul
e o azul não era azul
era vermelho.
Tocavam Bach
e era como luz que transitasse
no mistério.
Todos estavam silenciosos
e no fulgor das pupilas
envenenadas pelo medo
havia uma estranha dor de morte
prematura.

Minha mãe chegou a mim e disse: fica
meu avô me segurava do retrato,
meus netos me acenavam do futuro.
Porém eu estava sitiado
entre a fuga e a tocaia.
A nuvem carregou-me adormecido,
varei a criação,
transpus o limbo,
quando acordei,
meu pai,
já era o céu.

Do livro A linha Imaginária
Edição Norte - 1951

Ruy Guilherme Paranatinga Barata (Santarém, Pará, 25 de junho de 1920 — São Paulo, 23 de abril de 1990)

Read More...

2019-06-04

A DIFERENÇA QUE HÁ - Jorge de Sena

A diferença que há entre os estudiosos e os poetas
é que aqueles passam a vida inteira com o nariz num assunto
a ver se conseguem decifrá-lo, e estes
abrem um livro, lêem três páginas, farejam as restantes
(nem sequer todas) e sabem logo o assunto
e que os outros não conseguiram saber. Por isso é que
os estudiosos têm raiva dos poetas,
capazes de ler tudo sem ter lido nada
(e eles não leram nada tendo lido tudo).
O mal está em haver poetas que abusam do analfabetismo,
e desacreditam a gaya Scienza.

Fev. 1, 1972

VISÃO PERPETUA (1982)

Jorge Cândido de Sena (n. em Lisboa a 2 de novembro de 1919; m. em Santa Bárbara, Califórnia a 4 de junho de 1978)

Read More...

2019-05-07

Chão de Estrelas - Orestes Barbosa, na voz de Maysa



Minha vida era um palco iluminado
Eu vivia vestido de dourado
Palhaço das perdidas ilusões,
Cheio dos guizos falsos da alegria,
Andei cantando a minha fantasia
Entre as palmas febris dos corações.

Meu barracão no morro do Salgueiro,
Tinha o cantar alegre de um viveiro,
Foste a sonoridade que acabou,
E, hoje, quando do sol, a claridade
Forra o meu barracão sinto saudade,
Da mulher, pomba rola, que voou...

Nossas roupas comuns dependuradas,
Na corda qual bandeiras agitadas,
Parecia um estranho festival,
Festa dos nossos trapos, coloridos,
A mostrar, que nos morros, mal vestidos,
É sempre feriado nacional...

A porta do barraco era sem trinco,
Mas a lua furando o nosso zinco,
Salpicava de estrelas nosso chão,
E tu pisavas nos astros distraída,
Sem saber que a ventura desta vida,
É a cabrocha, o luar, e o violão.

Composição musical de Sílvio Caldas, letra de Orestes Barbosa

Orestes Dias Barbosa, n. Rio_de_Janeiro, 7 de maio de 1893; m. 15 de agosto de 1966

Read More...