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2012-02-04

NÃO TE AMO - Almeida Garrett



Não te amo, quero-te: o amar vem d'alma.
E eu n'alma - tenho a calma,
A calma - do jazigo.
Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida - nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai! não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.

Extraído de Poemas Portugueses, Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (n. no Porto a 4 de Fev. 1799; m. em Lisboa 9 Dez. 1854)

Ler do mesmo autor:
A Rosa - Um Suspiro
Os Meus Desejos
Seus Olhos
Este Inferno de Amar
Rosa sem Espinhos
Seus Olhos
Destino
Não És Tu

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2012-02-03

CONSOLAÇÃO - João Penha

A um poeta lírico

Não sucumbas assim. À noite escura
Sucede a luz da aurora e o sol radioso:
Suspende as mágoas do violão choroso,
O lamento dos tristes sem ventura.

Limpa as fezes do cálix da amargura,
E, com vinho dum pâmpano gostoso,
Ergue um brinde ao amante venturoso
Da mulher que adoravas com loucura.

Nem outra vez me digas que na munda,
Ou na voragem das perdidas gentes,
Não há sofrer maior, nem mais profundo.

A terra é o grande val dos descontentes!
Oh! se tu visses num festim jucundo
A mágoa dum gastrónomo... sem dentes!


João de Oliveira Penha Fortuna, nascido a 29 de abril de 1838, em Braga e aí faleceu 3 de fevereiro de 1919

Do mesmo autor neste blog ler Última Vontade

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2012-02-02

Paz - Tomaz Kim

Aqui foi a casa:
Alva a toalha e o pão,
O berço além.

Breve a canção:
Bater de asa
O sorriso de mãe.

Veloz a hora:
Agora,
Só o coaxar nocturno e certo
Das rãs,
Enche o campo deserto.

(Flora e Fauna, 1958)


Tomaz Kim, mais propriamente Joaquim Fernandes Tomaz Monteiro-Grillo, nasceu a 2 de fevereiro de 1915, em Lobito, Angola e faleceu a 24 de janeiro de 1967, em Lisboa.

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Ordem do Dia - Bandeira Tribuzi

Há que remover a neve desta folha de papel!

Breve escutaremos o motor dos sentimentos
enchendo a manhã com sua algazarra. Eis a máquina se
movimentando! Da esquerda para a direita vão surgindo
os sulcos onde caem as sementes
da Emoção.

Na vasta planície
desvirginada
germina já o pólen da lírica.

Um vento de humana condição
(oh arte, coisa social!) faz voar até tuas mãos
esta lavoura mental.
Como bom descendente de um povo de camponeses
medes o rigor da semeadura,
sonhas as chuvas na raiz, o futuro pão...
Pão sonoro!

De repente,
as aves da poesia, que se alimentavam no campo semeado,
rompem vôo para o céu de tua inteligência
e desfecham seu canto maravilhoso
contra tua surpresa.

Teu coração é a corda do violino!
Eis a geração do poema:
sua mecânica, seu plantio,
sua colheita.
Estás diante de uma safra eterna!


(Safra / 1960)

Bandeira Tribuzi, nome literário de José Tribuzi Pinheiro Gomes, nasceu em São Luís, Maranhão a 2 de fevereiro de 1927, e faleceu na mesma cidade, a 8 de setembro de 1977.

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2012-02-01

Serias o amor português - Fernando Assis Pacheco

Variações sobre um fado
Muitas vezes te esperei, perdi a conta,
longas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos. Que me importa
que batam à porta, façam chegar
jornais, ou cartas, de amizade um pouco
- tanto pó sobre os móveis tua ausência.

Se não és tu, que me pode importar?
Alguém bate, insiste através da madeira,
que me importa que batam à porta,
a solidão é uma espinha
insidiosamente alojada na garganta.
Um pássaro morto no jardim com neve.

Nada me importa; mas tu enfim me importas.
Importa, por exemplo, no sedoso
cabelo poisar estes lábios aflitos.
Por exemplo: destruir o silêncio.
Abrir certas eclusas, chover em certos campos.
Importa saber da importância
que há na simplicidade final do amor.

Comunicar esse amor. Fertilizá-lo.
"Que me importa que batam à porta..."
Sair de trás da própria porta, buscar
no amor a reconciliação com o mundo.

Longas manhãs te esperei, perdi a conta.
Ainda bem que esperei longas manhãs
e lhes perdi a conta, pois é como se
no dia em que eu abrir a porta
do teu amor tudo seja novo,
um homem uma mulher juntos pelas formosas
inexplicáveis circunstâncias da vida.

Que me importa, agora que me importas,
que batam, se não és tu, à porta?

in Poemas de Amor, antologia da poesia portuguesa, organização de Inês Pedrosa, Publicações Dom Quixote

Fernando Santiago Mendes de Assis Pacheco (n. Coimbra, 1 de Fevereiro de 1937; m. em Lisboa a 30 de Novembro de 1995)

Do mesmo autor neste blog:
Esta Areia Fina
Sem que tu soubesses

Um Vento Leve Uma Espuma
O Dia em Que Nasci

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