Blog Widget by LinkWithin

2014-09-22

Tudo é Merda - Damasceno Bezerra


O mundo é simplesmente merda pura
E a própria vida é merda engarrafada;
Em tudo vive a merda derramada,
Quer seja misturada ou sem mistura.

É merda o mal e o bem merda em tintura,
A glória é merda apenas e mais nada.
A honra é merda e merda bem cagada;
É merda o amor, é merda a formosura.

É merda e merda rala a inteligência!
De merda viva é feita a consciência,
É merda o coração, merda o saber.

Feita de merda é toda a humanidade,
E tanta merda a pobre terra invade,
Que um soneto de merda eu quis fazer...

Antônio Damasceno Bezerra nasceu em Natal em 22 de setembro de 1902, falecendo em 14 de setembro de 1947

Read More...

2014-09-21

Musical suggestion of the day: Did I Ever Love You - Leonard Cohen on his 80th Birthday






Leonard Norman Cohen (born 21 September 1934)

Read More...

2014-09-20

Negra - Noémia de Sousa

Gentes estranhas com seus olhos cheios doutros mundos
quiseram cantar teus encantos
para elas só de mistérios profundos,
de delírios e feitiçarias...
Teus encantos profundos de África.

Mas não puderam.
Em seus formais e rendilhados cantos,
ausentes de emoção e sinceridade,
quedas-te longínqua, inatingível,
virgem de contactos mais fundos.
E te mascararam de esfinge de ébano, amante sensual,
jarra etrusca, exotismo tropical,
demência, atracção, crueldade,
animalidade, magia...
e não sabemos quantas outras palavras vistosas e vazias.

Em seus formais cantos rendilhados
foste tudo, negra...
menos tu.

E ainda bem.
Ainda bem que nos deixaram a nós,
do mesmo sangue, mesmos nervos, carne, alma,
sofrimento,
a glória única e sentida de te cantar
com emoção verdadeira e radical,
a glória comovida de te cantar, toda amassada,
moldada, vazada nesta sílaba imensa e luminosa: MÃE


Carolina Noémia Abranches de Sousa Soares nasceu a 20 de setembro de 1926, em Lourenço Marques (hoje Maputo), Moçambique, e faleceu a 4 de dezembro de 2002, em Cascais, Portugal.

Da mesma autora:
Se me quiseres conhecer
Se este poema fosse

Read More...

2014-09-19

MENINA VESTIDA DE NOITE - Maria Rosa Colaço

Menina de preto
Tão triste! Tão nua!
Corpinho de fome
Olhinhos da lua

De lua de luto
Da lua de dó
Menina de preto
Tão triste! Tão só!

Menina, menina
Tão rica de nada
Dá a tua mão
De flor desfolhada

Dá-me a tua mão
Anda ver a vida
Menina calada
De preto vestida.


Maria Rosa Colaço nasceu no Torrão, Alcácer do Sal, em 19 de setembro de 1935 e faleceu em Lisboa a 13 de outubro de 2004)

Da mesma autora, neste blog: Outra Margem

Read More...

2014-09-18

Poema X de Brasões [Fim de tarde serena e violentada] - Bernardino Lopes

Fim de tarde serena e violetada ...
No céu — duas estrelas, e arrepios
Na safira do mar, toda coalhada
De emaranhados mastros de navios.

Longe, entre névoas, traços fugidios
De uma cidade branca derramada
— Casas, torreões e coruchéus esguios,
Por toda a clara fita da enseada.

Aqui bem peno, aqui, na argêntea praia,
Contra um rochedo nu, calcáreo e rudo,
Do poente a frouxa claridade estampa,

Balançando-se n’água, uma catraia;
E, agasalhados no gibão felpudo,
Pescadores que vão subindo a rampa...


in Brasões (1895)

Bernardino da Costa Lopes (n. em Boa Esperança, Rio Bonito, Rio de Janeiro, a 19 de Jan. de 1859; m. em 18 de Set. 1916, no Rio de Janeiro).

Ler do mesmo autor, neste blog:
Namorados
Velho Muro
Berço
Cromo
Paraíso Perdido

Read More...