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2017-01-20

Epigramas - Ernesto Cardenal

Te dou Cláudia, estes versos,
porque tu és a dona.
Os escrevi simples
para que tu os entendas.
São para ti somente,
mas se a ti não te interessam,
um dia se divulgarão,
talvez por toda Hispanoamerica…
E se ao amor que os ditou,
tu também o desprezas,
outras sonharão com este amor
que não foi para elas.
E talvez verás,
Cláudia,
que estes poemas, (escritos para conquistar-te)
despertam em outros casais
enamorados que os leiam
os beijos que em ti
não despertou o poeta.

Ao perder-te eu a ti,
tu e eu perdemos:
Eu, porque tu eras
o que eu mais amava
e tu porque eu era
o que te amava mais
mas de nós dois
tu perdes mais que eu:
porque eu poderei amar a outras
como te amava a ti,
mas a ti não te amarão
como te amava eu.

Moças que algum dia
leiam emocionadas estes versos
e sonheis com um poeta:
Sabei que eu os fiz
para uma como vós
e que foi em vão.

(Tradução de Héctor Zanetti)

Ernesto Cardenal Martínez (nasceu em 20 de janeiro de 1925 em Granada na Nicarágua).



Original

Te doy Claudia, estos versos,
porque tú eres su dueña.
Los he escrito sencillos
para que tú los entiendas.
Son para ti solamente,
pero si a ti no te interesan,
un día se divulgarán,
tal vez por toda Hispanoamérica…
Y si al amor que los dictó,
tú también lo desprecias,
otras soñarán
con este amor
que no fue para ellas.
Y tal vez verás,
Claudia,
que estos poemas,
(escritos para conquistarte a ti)
despiertan
en otras parejas
enamoradas que los lean
los besos que en ti
no despertó el poeta.

Al perderte yo a ti,
tú y yo hemos perdido:
yo, porque tú eras
lo que yo más amaba,
y tú, porque yo era
el que te amaba más.
Pero de nosotros dos,
tú pierdes más que yo:
porque yo podré
amar a otras
como te amaba a ti,
pero a ti nadie te amará
como te amaba yo.

Muchachas que algún día
leaís emocionadas estos versos
Y soñéis con un poeta
Sabed que yo los hice
para una como vosotras
y que fue en vano.



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2017-01-19

Última Canção - Eugénio de Andrade



Se puderes ainda
ouve-me, rio de cristal, ave
matutina. ouve-me,
luminoso fio tecido pela neve,
esquivo e sempre adiado
aceno do paraíso.
Ouve-me, se puderes ainda,
Devastador desejo,
fulvo animal de alegria.
Se não és alucinação
ou miragem ou quimera, ouve-me
ainda: vem agora
e não na hora da nossa morte
- dá-me a beber a própria sede.

José Fontinhas, que usou o pseudónimo literário de Eugénio de Andrade, nasceu em 19 de janeiro de 1923 na Póvoa de Atalaia, Fundão; m. no Porto a 13 de junho de 2005

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2017-01-18

Testamento de D. Burro, Pai dos Asnos - Padre Camões


(...)
Na pobre estrebaria em que me vejo,
cheio de pulgas, piolhos, percevejos,
eu D. Burro, pai dos asnos calcitrantes,
que o mundo vai deixar dentro de instantes,
vendo-me já tanto de anos carregado,
no mais triste e lastimoso estado,
sem abrigo de pai nem de parentes,
da cabeça já calvo, e já sem dentes,
do meu dono desprezado, e abatido,
ingrata satisfação de o ter servido;
vendo que neste mundo me não resta
coisa com que fazer a minha festa,
remédio não hei já senão prestar-me
fazer minha viagem, preparar-me:
essa viagem de todos tão temida,
pois os dias termina, acaba a vida.
É certo que minha alma irracional
não goza os privilégios de imortal,
mas como de cá vou pra não tornar,
e várias coisas tenho d'arranjar
- além de amigos meus e de parentes
(não que bem descendentes ou ascendentes);
por isso tomarei sequer urna hora,
na qual sem dúvidas e sem demora,
para exemplo a futuros e vindouros,
dispor eu possa bem de meus tesouros.
Como é fácil anular um testamento
o meu quero fazer com fundamento.
Por que o não posso fazer por minha mão,
impedido de angústia e de aflição,
ao Senhor Vigário eu peço mo escreva,
não porque ele favor algum me deva,
mas por ser sua letra mui par'cida
com a que eu escrevia em minha vida
quando pra amanuense seu me preparava,
pois só tal amanuense lhe quadrava.

(...)
Quarenta anos, pouco mais, tenho de idade:
sempre foram pra mim d'austeridade;
nunca neles senti barriga cheia
em almoço, jantar, merenda ou ceia.
Só quando era pequeno, lá no Corvo,
minha avó me frigiu um dia um ovo.
Estando pra o comer, eis de repente
meu avô chega, velho e impaciente,
e não só o papou ele dum bocado
mas até minha avó pôs em tal estado
que a pobre prometeu com juramento
não se embaraçar mais co'o meu sustento.
(...)

Meu corpo quero seja sepultado
aí no canto dum qualquer cerrado,
onde de mim lembrança mais não possa haver;
mas porquanto bem pode suceder
o almotacé pra o açougue me mande ir,
e à sua ordem ninguém pode resistir,
cada um de por si vá preparado
pra me levar de carne o seu cruzado.
Mas saiba quem a leve, lá por teimas:
comendo-a, morre cheio de almorreimas;
porque não pode ser que, em tal idade,
minha carne não cause enfermidade.

Herdeiros

Item. Precisando nomear testamenteiros,
o Capitão Silvestre é o primeiro;
Felipe António fique de segundo;
e suposto que me acho moribundo,
sempre nomeio terceiro aristocrácio,
meu compadre o Alferes Francisco Inácio.
P'lo trabalho de testamentaria,
peças lhes deixo da maior valia:
ao primeiro, meu óculo de alcançar,
um óculo tão distinto e singular
que com ele até mesmo observava
quantas cricas de burra encontrava.
(...)

Item. Ao segundo meu testamenteiro,
eu deixo quinze réis em bom dinheiro,
porém co'a obrigação, todos os anos,
de os pagar aos padres franciscanos
por mesada daquele pouco tempo
em que estive de estudante no convento.

Item. Ao terceiro, pouco tenho que deixar,
pois são muitos os que têm de me herdar,
e os meus bens, como sabem, poucos são.
Mas pra fugir a toda a ingratidão
as canelas lhe deixo duma perna
e meu terçado feito já pela moderna.
Em o tendo não mais use espadim,
pois é traste que nem servia a mim.

- Obrigações primeiras satisfeitas,
usemos com os outros às direitas.

(...)

Item. Ao Padre Tesoureiro mando dêem
meu couro pra chamarra que não tem;
pois se há de comprar baeta em loje,
faca uma cor de burro quando foge.
E depois, quando deste mundo eu for,
não quero mais ouvir que ante o Ouvidor
aparece com calças à maruja,
que é ação muito feia, muito suja.
Se o Ouvidor até 'qui dissimulou,
foi força de prudência de que usou;
pois eu se ouvidor fosse não sofria
uma tão temerária grosseria.

(...)

Item. Deixo ao Sr. Juiz por bem da lei
quantas lágrimas neste mundo eu chorei,
as quais ordeno sejam misturadas
co'aquelas que têm sido derramadas
por tanto pobre a quem sua mercê
cadeias, ferros manda que se dê.

(...)

Item. Meu contraparente João Bernardo,
pra ostentação maior de seu estado,
mando se dê depois da minha morte
meu rabo, que lhe sirva de chicote.
E se não se contentar com esta deixa,
pra que de mim não forme alguma queixa
dar-lhe-ão mais uma dúzia de bolotas
e couro das minhas pernas pra umas botas.

Item. A António Furtado Nunes, meu parente,
a quem Deus não fez como a outra gente,
deixo por minha morte duas pipas
do miolo que me saía pelas tripas.

(...)

Item. A minha prima Maria Joaquina
deixo dois gamelões da minha urina:
o caldo só, pois os cascos não,
porque estes meus também não são.
Com ela poderá dar uma calda
e alvejar quando quiser a sua fralda.

(...)

Item. A José Paciente e a Francisco Dente,
deixo em legado pio o meu pendente,
uma jóia de tanta estimação
que render não pode menos de um tostão.

(...)

Item. A João Castelo e sua irmã Isabel,
o meu sangue para um sarapatel;
mas com a rigorosa obrigação
que pelo olho do eu mo chuparão,
pois não quero se me faça anatomia
nem do corpo mo tirem por sangria.

(...)

O meu olho do eu já o deixei
a meu primo José, porém errei
em deixar-lho para ele assobiar,
pois nisso os beiços podem bem bastar.
Mando pois que embrulhado em um papel
o remetam a Alexandre Pimentel;
que o ponha no lugar do que não tem,
e só assim lhe pago o mal com bem.

(...)

A meu primo Manuel Furtado Sousa
Desejava deixar-lhe alguma cousa
Mas, como os meus bens findos são,
Só lhe deixo um cagalhão.

José António Camões (Fajãzinha, Ilha das Flores, Açores 10/11 de dezembro de 1777 — Ponta Delgada, 18 de janeiro de 1827)

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2017-01-17

Adeus - Miguel Torga

É um adeus…
Não vale a pena sofismar a hora!
É tarde nos meus olhos e nos teus…
Agora,
O remédio é partir discretamente,
Sem palavras,
Sem lágrimas,
Sem gestos.
De que servem lamentos e protestos
Contra o destino?
Cego assassino
A que nenhum poder
Limita a crueldade,
Só o pode vencer a humanidade
Da nossa lucidez desencantada.
Antes da iniquidade
Consumada,
Um poema de líquido pudor,
Um sorriso de amor,
E mais nada.


Miguel Torga mais precisamente Adolfo Correia da Rocha, nasceu em São Martinho de Anta, Sabrosa, Trás-os-Montes, a 12 de agosto de 1907; morreu em Coimbra a 17 de janeiro de 1995.

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2017-01-16

Silêncio - Ulisses Duarte

Nesta memória onde o silêncio fala
a viajar no meu sofá sem rumo,
percorro o mundo, sem sair da sala,
com palavras de fumo.
É o silêncio do musgo preso ao muro
de retardar a infância...
Por isso, ainda hoje me procuro
e perco na distância!
Há silêncios que voam como eu
num espanto de luz e nevoeiro
com uma estrela a navegar no céu
na mão dum marinheiro...
Nesta memória onde o silêncio fala
de lagos azuis ou doutra cor
onde um menino cresce e não se cala
quando fala de amor!
Ainda hoje o lago tem pedaços
com bailados de sombras e penumbra
pra recordar os sonhos onde os lábios
o coração afunda...
A fantasia dorme em teu regaço
e Pã dedica a Ceres o seu regresso
quando o silêncio quebra em mil pedaços
pra renascer num verso!

in PALAVRAS COM DISTÂNCIA

Guilherme Ulisses Duarte nasceu em Matosinhos em 11 de março de 1923, tendo falecido em Lisboa em 16 de janeiro de 2008

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