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2017-03-30

Arte de amar - Thiago de Mello

Não faço poemas como quem chora,
nem faço versos como quem morre.
Quem teve esse gosto foi o bardo Bandeira
quando muito moço; achava que tinha
os dias contados pela tísica
e até se acanhava de namorar.
Faço poemas como quem faz amor.
É a mesma luta suave e desvairada
enquanto a rosa orvalhada
se vai entreabrindo devagar.
A gente nem se dá conta, até acha bom,
o imenso trabalho que amor dá para fazer.

Perdão, amor não se faz.
Quando muito, se desfaz.
Fazer amor é um dizer
(a metáfora é falaz)
de quem pretende vestir
com roupa austera a beleza
do corpo da primavera.
O verbo exato é foder.
A palavra fica nua
para todo mundo ver
o corpo amante cantando
a glória do seu poder.


Amadeu Thiago de Mello, nascido a 30 de março de 1926, na pequenina cidade de Barreirinha, Amazonas, Brasil.

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2017-03-29

Três haicais eróticos de Luís Antônio Pimentel


Olhos de uva verde
anunciam que teu corpo
é taça de vinho.

Olhos de esmeralda
rubis nos lábios, nos seios.
E eu teu lapidário.

Em teus olhos - verde.
Em tua boca - vermelho.
Paro ou continuo?!

daqui

Luís Antônio Pimentel (Miracema, Rio de Janeiro, Brasil, 29 de março de 1912 — Niterói, Rio de Janeiro, 6 de maio de 2015)

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2017-03-28

Se te falasse se me ouvisses eu - Luís de Miranda Rocha

Se te falasse se me ouvisses eu
se te dissesse que diria
que me diria a ti se me
ouvisses mas não ouço eu não sei

não sei de ti perdeu-se-
-me o sentido aqui e não
posso pensar-te onde
há quanto tanto ausente

- há quanto tanto ausente habituei-me
a isto a este estar assim aqui
a que habituei-me entanto não
sei bem ainda como ou sequer se

- se posso como posso passarei
que tempo tanto assim aqui sem que


in Os dias do Amor, um poema para cada dia do ano; recolha, selecção e notas de Inês Ramos; Ministério dos Livros

Luís de Miranda Rocha, nasceu em Mira em 1947, faleceu em Coimbra a 28 de março de 1997

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2017-03-27

Arte-final - Affonso Romano de Sant'Anna (no 80º aniversário do poeta)

Não basta um grande amor
para fazer poemas.
E o amor dos artistas, não se enganem,
não é mais belo
que o amor da gente.
O grande amante é aquele que silente
se aplica a escrever com o corpo
o que seu corpo deseja e sente.
Uma coisa é a letra,
e outra o ato,
quem toma uma por outra
confunde e mente.

Affonso Romano de Sant'Anna (nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil, a 27 de março de 1937)

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2017-03-24

Arco-íris - Olegário Mariano

Choveu tanto esta tarde
Que as árvores estão pingando de contentes.
As crianças pobres, em grande alarde,
Molham os pés nas poças reluzentes.

A alegria da luz ainda não veio toda.
Mas há raios de sol brincando nos rosais.
As crianças cantam fazendo roda,
Fazendo roda como os tangarás:

"Chuva com sol!
Casa a raposa com o rouxinol."

De repente, no céu desfraldado em bandeira,
Quase ao alcance da nossa mão,
O Arco-da-Velha abre na tarde brasileira
A cauda em sete cores, de pavão.


Publicado no livro Canto da Minha Terra (1930).

Olegário Mariano Carneiro da Cunha (nasceu na cidade de Recife, Pernambuco, a 24 de março de 1889. Faleceu no Rio de Janeiro a 28 de novembro de 1958).

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