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2019-10-01

Morangos - Rui Pires Cabral


No começo do amor, quando as cidades
nos eram desconhecidas, de que nos serviria
a certeza da morte se podíamos correr
de ponta a ponta a veia eléctrica da noite
e acabar na praia a comer morangos
ao amanhecer? Diziam-nos que tínhamos

a vida inteira pela frente. Mas, amigos,
como pudemos pensar que seria assim
para sempre? Ou que a música e o desejo
nos conduziriam de estação em estação
até ao pleno futuro que julgávamos

merecer? Afinal, o futuro era isto.
Não estamos mais sábios, não temos
melhores razões. Na viagem necessária
para o escuro, o amor é um passageiro
ocasional e difícil. E a partir de certa altura
todas as cidades se parecem.

in 'Longe da Aldeia'

Rui Pires Cabral nasceu a 1 de Outubro de 1967 em Chacim, concelho de Macedo de Cavaleiros.

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2019-09-11

Despondency - Antero de Quental

Deixá-la ir, a ave, a quem roubaram
Ninho e filhos e tudo, sem piedade…
Que a leve o ar sem fim da soledade
Onde as asas partidas a levaram…

Deixá-la ir, a vela, que arrojaram
Os tufões pelo mar, na escuridade,
Quando a noite surgiu da imensidade,
Quando os ventos do Sul se levantaram…

Deixá-la ir, a alma lastimosa,
Que perdeu fé e paz e confiança,
À morte queda, à morte silenciosa…

Deixá-la ir, a nota desprendida
D’um canto extremo… e a última esperança…
E a vida… e o amor… Deixá-la ir, a vida!


in Cem Poemas Portugueses do Adeus e da Saudade
Selecção, organização e intriodução de José Fanha e José Jorge Letria
Terramar

Antero Tarquínio de Quental (n. Ponta Delgada, S.Miguel, Açores a 18 de abril de 1842; m. em Ponta Delgada a 11 de setembro de 1891)

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2019-09-03

Parabéns Nothingandall: Quinze anos é muito tempo


Na era das tecnologias e do mundo virtual quinze anos de idade num blog já corresponde à terceira idade...

Já não é regular... mas ainda está para as curvas. Uns problemas de colesterol e uma pastilhinha azul, de vez em quando, mas sobrevive a muitos com que partilhou a vivência da juventude!

Parabéns Nothingandall!

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Um pó de giz - Fernando Semana


Já fui? Serei?
Não sei. Feliz?
Quem sabe isso?
Um pó de giz
no ar sumiço...

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2019-08-06

E me disseste: vem... - Albano Martins



E me disseste: vem. E havia
alguns despojos sobre a areia, algumas
ressentidas grinaldas
no limiar das têmporas. Havia
alguns gestos suspensos, um cofre
de esmeraldas, um torpor
nos membros retardados. E havia
um colar para as mãos, uma colina
para os lábios e uma flor
intacta perfumando
o silêncio, à beira
de indizíveis planícies.

in Os dias do Amor, um poema para cada dia do ano, Recolha, selecção e organização de Inês Ramos, Prefácio de Henrique Manuel Bento Fialho, Ministério dos Livros Editores, Janeiro de 2009.

Albano Dias Martins (nasceu no Fundão em 6 de Agosto de 1930 – Vila Nova de Gaia, 6 de junho de 2018)

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