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2014-03-19

Enquanto Descansas - Rui Diniz

Deves descansar por esta hora...
sozinha, aninhada, com a mente em teus projectos,
eu sei que o cansaço já não vai embora;
e que o sono nunca chega a tempos certos...!

Eu estou contigo...porém, meu corpo não canta aí;
nem meus braços afastam o frio da noite na cama vã,
nem meu olhar coloca de novo a chama em ti...
mas minh'alma aqui beija-te num tom menor de Chopin.

E apesar da pústula da tua ausência
com que me brindaste em teus braços longe,
ainda és tu a suave manta que me cobre
e o meu oásis no deserto frio!
Ainda és tu a espada que me fez nobre...
e és tu, mulher...
a razão porque sorrio. :)

in «Corte D'El-Rei», Amor-Ego, pág.36
Gráfica Europam, Julho de 2006

Rui Diniz nasceu a 19 de Março de 1979 em Almada.

Do mesmo autor neste blog ler: Poema Suspirado

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2014-03-18

Menino e Moço - António Nobre

Tombou da haste a flor da minha infância alada.
Murchou na jarra de oiro o pudico jasmim:
Voou aos altos céus Sta. Águia, linda fada
Que dantes estendia as asas sobre mim.

Julguei que fosse eterna a luz dessa alvorada,
E que era sempre dia, e nunca tinha fim
Essa visão de luar que vivia encantada,
Num castelo de prata embutido a marfim!

Mas, hoje, as águias de oiro, águias da minha infância,
Que me enchiam de lua o coração, outrora,
Partiram e no céu evolam-se à distancia!

Debalde clamo e choro, erguendo aos céus meus ais:
Voltam na asa do vento os ais que a alma chora,
Elas, porém, Senhor! elas não voltam mais...


Versão extraída da cópia digital Projeto Gutenberg do original
ANTONIO NOBRE, SÓ, PARIS, LÉON VANIER, ÉDITEUR 19, QUAI SAINT-MICHEL, 19, 1892

Existe outra versão com alterações nos 3º e 8º versos que seriam
Voou aos altos céus a pomba enamorada
Mas, hoje, as pombas de oiro, aves da minha infância,
(versão vista por exemplo aqui)

Em obediência à publicação preferimos a Sta. Águia e as águias de oiro (até porque o Benfica mais uma vez voou alto!)

António Pereira Nobre (nasceu no Porto a 16 de Agosto de 1867 e foi vítima de tuberculose pulmonar, na Foz do Douro, Porto a 18 de Março de 1900).

Ler do mesmo autor, neste blog:
O Teu Retrato
À Luz de Lua
Ao Cair das Folhas
Virgens que passais
Carta ao Oceano
A Leão XIII
Ladainha
Purinha
E a vida foi, e é assim, e não melhora

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2014-03-17

Canção - António Botto

Se fosses luz serias a mais bela
De quantas há no mundo: — a luz do dia!
— Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração
Da minha fantasia!
Se fosses flor serias o perfume
Concentrado e divino que perturba
O sentir de quem nasce para amar!
— Se desejo o teu corpo é porque tenho
Dentro de mim
A sede e a vibração de te beijar!
Se fosses água, música da terra,
Serias água pura e sempre calma!
— Mas de tudo que possas ser na vida
Só quero, meu amor, que sejas alma!


in Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Assírio Alvim

António Tomaz Botto (nasceu em Concavada, Abrantes a 17 de Agosto de 1897 e morreu no Rio de Janeiro a 17 de Março de 1959)

Do mesmo autor:
Meus Olhos Que Por Alguém
Homem, que vens de humanas desventuras
Nem Sequer Podia
Porque me negas um beijo?
Cinco Réis de Gente
Não me peças mais canções
Envolve-me Amorosamente
Quanto, quanto me queres?- perguntaste -

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2014-03-15

INSPIRAÇÃO - António Vianna

À memória de minha Mãe

Montes da minha aldeia, tão formosa,
Que as águas do Mondego ides guiando
Para onde triste fonte está chorando
A morte d'uma amante desditosa!

Aqui passou a infância descuidosa
Aquela que estou sempre recordando;
Aqui as tenras mãos uniu rezando,
À hora do sol posto silenciosa.

O mesmo sino ouviu que estou ouvindo;
Por estes mesmos vales discorrendo,
Memória aqui deixou que estou sentindo.

Quem sabe, doce mãe, se me estais vendo?
Quem sabe se do Céu me estais sorrindo,
E os versos me inspirais que vou escrevendo?


António Vianna - "Flores d'Outono", pág. 9, Imprensa Nacional de Lisboa, Lisboa, 1922.

António José Viana da Silva Carvalho nasceu a 15 de Março de 1858 e faleceu em Abril de 1931.

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2014-03-14

Outro - Frei Agostinho da Cruz

No silêncio da noite, em que vigio,
Desterrado da terra o pensamento,
No que dentro nesta alma represento,
Ora me aquento mais, ora me esfrio.

E pera temperar fogo com frio,
Em que me esfrio mais, ou mais me aquento,
Dos efeitos do puro sentimento
Na minha saudade choro e rio.

Depois destes contrários temperados
Na môr quietação, na môr brandura
Meus pensamentos ficam sepultados:

Temperada a frieza na quentura
Do meu divino amor tão apurados,
Que me deixam em paz na sepultura.

Poema extraído de «Cem Sonetos Portugueses», selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria, Terramar

Frei Agostinho da Cruz tera nascido em Ponte da Barca a 3 de Maio de 1540; faleceu em Setúbal a 14 de Março de 1619.

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