Blog Widget by LinkWithin

2015-04-17

Divagações II - Fernando Semana



Sentei-me, pedi um café. Distraidamente, olhava para o espelho e por via indirecta via quem entrava, com azáfama ou quem apenas parecia querer passar as horas e sorria. O que passou as horas à espera dum momento de atenção, sem qualquer sorriso ou reflexão de sentimento - a não ser, porventura, o pedido de lhe ser tomado o gosto - foi o café, entretanto, na mesa posto, ali mesmo ao pé…

Read More...

Boletim - Miguel Torga

Coimbra, 17 de Abril de 1969

Tarde limpa,
De pureza comungada.
No rio, corre, parada,
a paisagem reflectida;
Há não sei que voz traída
No silêncio do que é mudo;
A luz parece despida;
E uma alegria incontida
Sorri no rosto de tudo.

in Diário XI 1973
Extraído de Miguel Torga, Poesia Completa, Publicações Dom Quixote

Miguel Torga

Read More...

2015-04-16

Divagações

Lembro-me do dia em que comi pela primeira vez um figo. Em outro, uma romã. Que beleza! Que arquitectura! Que poesia... Bastou-me comer um figo, numa manhã de certo dia, uma romã. Fiquei com a certeza e ainda a sensação perdura - que perigo! - de que agradeceria à Natureza ter nascido só para saborear a romã e o figo... Porém, hoje suspiro por um dióspiro. Conheço um amigo que sei que escolheria antes uma laranja e aquela rapariga, ali, de franja!...

Read More...

A espantosa realidade das cousas - Alberto Caeiro

A espantosa realidade das cousas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada cousa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Basta existir para se ser completo.
Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais, naturalmente.
Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.
Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.
Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.
Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo,
Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.
Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

 Alberto Caeiro* (nasceu em 16 de Abril de 1889, em Lisboa. Órfão de pai e mãe, não exerceu qualquer profissão e estudou apenas até à 4ª classe. Viveu grande parte da sua vida pobre e frágil no Ribatejo, na quinta da sua tia-avó idosa, e aí escreveu O Guardador de Rebanhos e depois O Pastor Amoroso. Voltou no final da sua curta vida para Lisboa, onde escreveu Os Poemas Inconjuntos, antes de morrer de tuberculose, em 1915, quando contava apenas vinte e seis anos) biografia daqui

* um dos heterónimos de Fernando Pessoa

Ler de Alberto Caeiro, neste blog:
Passei toda a noite
Li hoje quase duas páginas
Quando Vier a Primavera
O Guardador de Rebanhos- Poema II - O Meu Olhar
O Quê? Valho Mais Que Uma Flor
Para Além da Curva da Estrada
O Guardador de Rebanhos - Poema X
O Tejo é Mais Belo ...

Read More...

2015-04-15

Balada de Sempre - Fernando Namora

Espero a tua vinda
a tua vinda,
em dia de lua cheia.

Debruço-me sobre a noite
a ver a lua a crescer, a crescer...

Espero o momento da chegada
com os cansaços e os ardores de todas as chegadas...

Rasgarás nuvens de ruas densas,
Alagarás vielas de bêbados transformadores.
Saltarás ribeiros, mares, relevos...
- A tua alma não morre
aos medos e às sombras!-

Mas...,
Enquanto deixo a janela aberta
para entrares,
o mar,
aí além,
sempre duvidoso,
desenha interrogações na areia molhada...


in Relevos

Fernando Namora (n. em Condeixa a 15 de Abril de 1919; m. em Lisboa a 31 Jan. 1989)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Poema 8: Vem Cassilda olhar a madrugada que rompe
Intimidade
Poema Cansado de Certos Momentos
Poema da Utopia
Coisas, Pequenas Coisas
Noite

Read More...