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2016-06-27

Olhar para trás - João Guimarães Rosa

Olhar para trás após uma longa caminhada pode fazer perder a noção da distância que percorremos, mas se nos detivermos em nossa imagem, quando a iniciamos e ao término, certamente nos lembraremos o quanto nos custou chegar até o ponto final, e hoje temos a impressão de que tudo começou ontem. Não somos os mesmos, mas sabemos mais uns dos outros. E é por esse motivo que dizer adeus se torna complicado! Digamos então que nada se perderá. Pelo menos dentro da gente...

João Guimarães Rosa (Cordisburgo, Minas Gerais, 27 de junho de 1908 — Rio de Janeiro, 19 de novembro de 1967).

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2016-06-26

Estrela do Mar (relembrando Paulo Soledade) na voz de Dalva de Oliveira

Um pequenino grão de areia
Que era um pobre sonhador
Olhando o céu viu uma estrela
Imaginou coisas de amor

Passaram anos, muitos anos
Ela no céu, ele no mar
Dizem que nunca o pobrezinho
Pôde com ela se encontrar

Se houve ou se não houve
Alguma coisa entre eles dois
Ninguém soube até hoje explicar

O que há de verdade
É que depois, muito depois
Apareceu a estrela-do-mar

Marino Pinto e Paulo Soledade
in Literatura em Minha Casa, Volume 1 - POESIA
Gato na Tuba e Outros Poemas
Martins Fontes, São Paulo 2002

Paulo Soledade (Paulo Gurgel Valente do Amaral) nasceu em Paranaguá (PR), em 26 de junho de 1919 e faleceu em 27 de outubro de 1999

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2016-06-23

O que se escuta numa velha caixa de música - Martins Fontes


Nunca roubei um beijo. O beijo dá-se,
ou permuta-se, mas naturalmente.
E seu sabor seria diferente
se, em vez de ser trocado, se furtasse.

Todo beijo de amor, longo ou fugace,
deve ser um prazer que ambos contente.
Quando, encantado, o coração consente,
beija-se a boca, não se beija a face.

Não toquemos na flor maravilhosa,
seja qual for a sedução do ensejo,
vendo-a ofertar-se, fácil e formosa.

Como os árabes, loucos de desejo,
amemos a roseira, olhando a rosa,
roubemos a mulher e não o beijo.

(A Flauta Encantada)

José Martins Fontes nasceu em Santos, São Paulo, Brasil a 23 de junho de 1884 e morreu na mesma localidade a 25 de junho de 1937

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2016-06-22

Neste Desterro - Paulino Oliveira

Paulino de Oliveira retratado por Tomás Leal da Câmara

«Quare de vulva eduxisti me?»


Como Job, eu misérrimo, pergunto:
"Para que fui criado?" e o céu e o vento
Que escutam o meu grito
Não me respondem nada sobre o assunto

Se não vimos ao mundo por querer
Porque é que antes de sermos nos culpados
Arrastamos os ferros de forçados
E nos esmaga a mó do atroz Sofrer?

Quando a Dor me tritura, aguda e forte,
Eu penso na justiça desta Sorte
E na razão desse bom Deus amado...

E medito: se outrora, em outro Mundo
Eu habitei o corpo vagabundo
De algum enorme triste celerado.

in Poemas de Paulino de Oliveira, Edições «Descobrimento» 1932

Francisco Paulino Gomes de Oliveira, nasceu em Setúbal a 22 de junho de 1864, faleceu em 1914 em São Paulo, Brasil

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2016-06-21

A UMA OPERÁRIA JOVEM - Domingos Carvalho da Silva



Como a árvore que pode
dar apenas seu fruto,
floresces. E sobre a terra
amplias o horizonte de tua sombra.

Na fábrica as engrenagens
multiplicam o movimento
e as polias giram como vento
em remoinho.

Na fábrica os fatos
repetem-se como as estações,
as estrelas iguais de cada noite,
o pão fresco de todas as manhãs.

Teu sangue circula como a abelha
na órbita da rosa
e, como a água dos estanques, há de voltar
à fonte.

Na fábrica
os espelhos sonham com teu riso.

(De À MARGEM DO TEMPO - 1963)

Domingos Carvalho da Silva (nasceu em Leirós, Pedroso, Vila Nova de Gaia a 21 de junho de 1915, faleceu em São Paulo, Brasil a 26 de abril de 2003)

Ler do mesmo autor:
Na Despedida de Ignez
Teoria do Poema
A Fénix Refractária

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