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2018-12-17

Soneto [Sonhei-te tantos anos! Tantos anos!] - Gilka Machado

Sonhei-te tantos anos! Tantos anos!
Eras o meu ideal de amor e de arte,
buscava-te a toda hora e em toda parte
nessa ânsia inexplicável dos insanos.

Enfim, vencida pelos desenganos,
como quem nada espera que lhe farte
a alma faminta, exausta de sonhar-te,
abandonei-me do destino aos danos.

Surges-me agora, em meio da jornada
da Vida: vens do Inferno ou vens da Altura?
- Não sei: mas de ti fujo, apavorada!

E, em lágrimas, minha alma conjetura:
uma felicidade retardada
quase sempre se torna desventura.


in "Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou", J.G . de Araujo Jorge - 1a ed. 1963

Gilka da Costa de Mello Machado - Poeta brasileira nascida no Rio de Janeiro (RJ) no dia 12 de março de 1893, e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), a 17 de dezembro de 1980.

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2018-12-14

ESPERANÇA E TRISTEZA - Teixeira de Pascoaes

Minha tristeza é pior que a tua dor.
Um dia, no teu ventre sentirás
Reencarnar para o mundo o teu amor:
A mesma alma, o mesmo olhar… verás!…

Eu sei que há de voltar; e assim terás
A alegria primeira, ainda maior…
E então, de novo, alegre ficarás;
Será primeiro o teu segundo amor!

Mas eu que, antes do tempo, já declino,
Quem sabe se verei o teu Menino,
Numa idade em que possa compreender?

E partirei talvez sem lhe deixar,
Na memória, esse interno e fundo olhar,
A comovida imagem do meu ser…

in Elegias, 1912

Na Dedicatória do livro, de onde se extraiu o poema acima, o autor escreve:

Este pequeno livro é para ti,
Minha irmã. Hés de lê-lo com amor,
Pois nele encontrarás o que sofri
E uma sombra talvez da tua dor.
E nele, embora em névoa, encontrarás
A Imagem de teu Filho…
Ó minha irmã,
Sei que és a campa viva onde ele jaz;
Sei que este livro é cinza, poeira vã
Que eu espalho em redor da tua cruz…
Mas ante a negra dor que me tortura,
Quiz vingar-me da Morte, e ergui á luz,
Cantando, este meu calix de amargura.

Teixeira de Pascoaes (Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos) nasceu em 8 de novembro de 1877 (*) em Amarante; m. em 14 de dezembro de 1952.

(*) Conforme assento oficial de nascimento; de algumas fontes biográficas consta a data de 2 de novembro

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2018-12-06

Floriam rosas bravas no jardim - Fernando Semana


Floriam rosas bravas no jardim!
Amarelas e outras de cor carmim.
«Que belas rosas!» - dizias p'ra mim.

Não floram já; não falas mais assim...

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2018-12-05

Tuas cartas rasguei - Humberto de Campos

Tuas cartas rasguei uma por uma:
cento e catorze páginas e tiras
de juramentos, de promessas, em suma
de perfídias, de sonhos, de mentiras.

Mas... chorei ao rasgá-las! Tinha alguma
cousa a implorar nelas por ti; e as iras
foram-se e, agora, cólera nenhuma
neste peito haverá, por mais que o firas.

Eram mentiras, eu bem sei... No entanto,
cada rompida página era um cardo
que enterrava no peito em cada canto.

E eis porque, ajoelhado, após instantes,
os pedaços juntei... e agora os guardo
com mais amor do que os guardava dantes!

Humberto de Campos (n. Miritiba, 25 de outubro de 1886; m. Rio de Janeiro, 5 de dezembro de 1934)

in A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa - Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, CRL, 2004

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2018-11-23

Há cidades cor de pérola onde as mulheres - Herberto Hélder

Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente. Onde
às vezes param, e são morosas
por dentro. Há cidades absolutas,
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos
estremecem. Mulheres que imaginam
num supremo silêncio, elevando-se
sobre as pancadas da minha arte interior.

Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas
nem dedos. Onde consumo
uma amizade bárbara. Um amor
levitante. Zona
que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos
pensadores. Para que algumas mulheres
sejam cândidas. Para que alguém
bata em mim no alto da noite e me diga
o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiram
o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
Olho minha loucura, escada
sobre escada.

Mulheres que eu amo com um des-
espero fulminante, a quem beijo os pés
supostos entre pensamento e movimento.
Cujo nome belo e sufocante digo com terror,
com alegria. Em que toco levemente
levemente a boca brutal.
Há mulheres que colocam cidades doces
e formidáveis no espaço, dentro
de ténues pérolas.
Que racham a luz de alto a baixo
e criam uma insondável ilusão.

Dentro de minha idade, desde
a treva, de crime em crime - espero
a felicidade de loucas delicadas
mulheres.
Uma cidade voltada para dentro
do génio, aberta como uma boca
em cima do som.
Com estrelas secas.
Parada.

Subo as mulheres aos degraus.
Seus pedregulhos perante Deus.
É a vida futura tocando o sangue
de um amargo delírio.
Olho de cima a beleza genial
das suas cabeças
ardentes: - E as altas cidades desenvolvem-se
no meu pensamento quente.

Ofício Cantante - poesia completa.

Herberto Hélder, pseudónimo de Luís Bernardes de Oliveira (n. Funchal, Madeira em 23 de novembro de 1929, m. Cascais, 23 de março de 2015).


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