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2015-05-22

E porque hoje é o Dia do Abraço: Dá-me um abraço (de Miguel Gameiro)





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A Triste Flor - Victor Hugo


À linda borboleta ali brilhante
A flor dizia assim:
Que diferentes somos! Vês que eu fico
E tu foges de mim!

Nós vivemos contudo sem os homens
Sem eles nos amamos
E ambas formosas, ambas flores, dizem
Que nós nos semelhamos

Mas o ar te conduz! ... e eu fico presa!
Que triste o fado meu!
Com meu perfume antes soprar quisera
No céu o vôo teu.

Mas não, que longe vais! Por entre as flores
Me vais fugindo
E eu fico a ver-me a sombra que na terra
Se está bolindo...

Vais e voltas e foges para longe
Mais caprichosa!
Assim me encontras sempre a cada aurora
Toda chorosa.

Ah! Porque doravante não soframos
Mágoas tão cruas
Como eu, cria raiz, - ou presta-me asas
Como essas tuas.

Ou rosa ou borboleta, - a morte cedo
Nos vem buscar;
Não a esperemos não; vivamos juntas
Num só lugar

Num só lugar, ou sejam mansos ares
Se ali te exaltas;
Ou sejam campos, se é ali que a relva
De pranto esmaltas!

Não importa o lugar! - o que que sejas,
Alento ou côr
Ou corola orvalhada, ou borboleta.
ou asa ou flor,

Vivamos juntas, onde mais te agrade;
Pouco importa o lugar:
Que ou seja terra ou céu, estando juntas
Nos havemos de amar.

Trad. Gonçalves Dias

in Hugonianas: poesias de Victor Hugo traduzidas por poetas brasileiros. Teixeira, Múcio 1857-1926

La Fleur et le Papillon

La pauvre fleur disait au papillon céleste:
"Ne fuis pas !
Vois comme nos destins sont différents. Je reste,
Tu t'en vas!

Pourtant nous nous aimons, nous vivons sans les hommes,
Et loin d'eux,
Et nous nous ressemblons, et l'on dit que nous sommes
Fleurs tous deux!

Mais, hélas! L'air t'emporte, et la terre m'enchaîne.
Sort cruel!
Je voudrais embaumer ton vol de mon haleine,
Dans le ciel!

Mais non! tu vas trop loin! Parmi des fleurs sans nombre
vous fuyez,
Et moi je reste seule à voir tourner mon ombre.
A mes pieds !

Tu fuis, puis tu reviens, puis tu t'en va encore
Luire ailleurs.
Aussi me trouves tu toujours à chaque aurore,
toute en pleurs !

Oh! pour que notre amour coule des jours fidèle,
O mon roi,
Prends comme moi racine, ou donnes moi des ailes,
Comme à toi !

Victor-Marie Hugo (Besançon, 26 de fevereiro de 1802 — Paris, 22 de maio de 1885)










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2015-05-21

Consumo - Olga Savary

Onda há mar e toda a água havia
a insubmissa dona do meu dono
é mais que amor.

Trazes na língua o fulgor do dia
e anoiteço.

Desço até onde o amor te baste
e me farde
e amanheço.


Olga Savary (Belém, Pará, 21 de maio de 1933)

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2015-05-20

Conjugação - Carlos Felipe Moisés

Eu me arquipélago
tu te maravilhas
ele se istma
nós nos montanhamos
vós vos espraiais
eles se eclipsam


in Lição de casa & poemas anteriores, São Paulo: Nankin Editorial

Carlos Felipe Moisés nasceu a 20 de maio de 1942 em São Paulo (SP), Brasil

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2015-05-19

Estátua Falsa - Mário de Sá-Carneiro

Só de ouro falso os meus olhos se douram;
Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minha'alma desceu veladamente.

Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,
Gomos de luz em treva se misturam.
As sombras que eu dimano não perduram,
Como Ontem, para mim, Hoje é distância.

Já não estremeço em face do segredo;
Nada me aloira já, nada me aterra:
A vida corre sobre mim em guerra,
E nem sequer um arrepio de medo!

Sou estrela ébria que perdeu os céus,
Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus,
Estátua falsa ainda erguida ao ar...


Mário de Sá-Carneiro (n. Lisboa, 19 de maio de 1890; m. em Paris, 26 de abril de 1916 -suicídio).

Ler do mesmo autor neste blog:
A Inegualável
O Recreio
Caranguejola
Fim
Crise Lamentável
Escavação
Ápice
Além-Tédio
Quasi
Dispersão
I lost myself within myself... (tradução parcial do poema Dispersão)
Último Soneto
A Queda
IX - Como eu não possuo

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