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2017-09-25

gordo e careca - valter hugo mãe



para rosa maria weber e alberto bresciani


onde vais, valter hugo mãe, tão sem ter
com quem, tão precipitado no vazio do
caminho à procura de quê

porque não ficas em casa, resignadamente só,
a ver como a vida se gasta sem culpa nem glória

é um rapaz estranho, valter hugo mãe, aí metido
num amor nenhum que te magoa e esperas ter
lugar no mundo, com tanto que o mundo tem de
distraído

devias morrer no dia dezoito de março de
mil novecentos e noventa e seis, como dizes que
vai acontecer, para que se acabe essa
imprecisa sentença que é a vida

volta a fechar a porta, não há nada para ti lá fora
e está frio, tens reumatismo, dói-te a cabeça, estás
gordo e careca, não faz sentido sequer que
tentes chegar às luzes esbatidas da marginal, ainda
que seja só ao lado menos percorrido pelos banhistas

volta a fechar a porta e talvez durmas, está um
agradável silêncio no prédio, tenho a certeza de que
reparaste nisso

In mil e setenta e um poemas; Brasília: Thesaurus, 2008

Valter Hugo Mãe nasceu em Saurimo, Angola, em 25 de Setembro de 1971.

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2017-09-23

Do Primeiro Regresso - Augusto Casimiro (na passagem do 50.º aniversário do seu desaparecimento)



Escuta meu Amor, quando eu voltar
De tão longe, e avistar de novo o Tejo,
O meu Restelo que em saudades vejo
Como outra Índia a conquistar

Quando a minha alma inquirida sossegar
Este voo indomável, num adejo,
E o amor e o céu e Deus, vivos num beijo,
Iluminarem todo o nosso lar:

Quando, meu Santo Amor, voltar o dia
Do primeiro regresso, e a aleluia
Madrugar tua alma anoitecida...

Hás-de embalar-me sobre o teu regaço
Arrolar, encantar o meu cansaço...
E então será o meu regresso à Vida!

in Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, selecção, organização introdução e notas de Jorge Reis-Sá, prefácio de Vasco da Graça Moura. Porto Editora.

Augusto Casimiro dos Santos (n. em Amarante a 11 Maio de 1889; m. em Lisboa a 23 de setembro de 1967)

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Manhã em Petrópolis - José Maria do Amaral



Que dourada manhã, que luz mimosa
Enverniza dos campos a verdura!
Que aura cheirosa e cheia de brandura!
Será, quem sabe, o respirar da rosa?

Doura-se em luz a serra majestosa,
Das flores leva a Deus a essência pura;
Dos pássaros nos sons com que doçura,
Canta a floresta antífona maviosa!

D’alma em ternura a ti sobem louvores,
Bendito Criador da natureza!
Quem vê sem te adorar tantos primores?

Que humano rosto em si tem tal beleza?
De qual beleza nascem mais amores?
E quais amores têm tanta grandeza?

José Maria do Amaral Filho (nasceu no Rio de Janeiro, RJ, Brasil a 14 de março de 1812 — faleceu em Niterói, RJ, Brasil a 23 de setembro de 1885)

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2017-09-22

CASA PATERNA - Gustavo Teixeira (na passagem dos 80 anos sobre a sua morte)



Da velha casa em que a manhã da vida
Passei – conservo uma lembrança exata:
Antes de eu vir ao mundo foi erguida
Perto da serra, quase ao pé da mata.

Dá para o sul a frente enegrecida;
Ao lado, para um poente de escarlata,
Janelas donde, na estação florida,
Se aspira o cheiro dos jasmins de prata.

Perto, o bambual em cujo seio amigo
Cantam graúnas, e o pomar antigo
Com melros, tiés e gurundis em bando.

O ribeirão, o cafezal, a horta...
Ah! que saudade o coração me corta
do lar querido que deixei chorando!

Gustavo de Paula Teixeira (São Pedro, Estado de S. Paulo, Brasil, 4 de março de 1881 — São Pedro, 22 de setembro de 1937)

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2017-09-21

Não Dizia Palavras - Luís Cernuda


Não dizia palavras,
Aproximava apenas um corpo interrogante,
Porque ignorava que o desejo é uma pergunta
Cuja resposta não existe,
Uma folha cujo ramo não existe,
Um mundo cujo céu não existe.

Entre os ossos a angústia abre caminho,
Ergue-se pelas veias
Até abrir na pele
Jorros de sonho
Feitos carne interrogando as nuvens.

Um contacto ao passar,
Um fugidio olhar no meio das sombras,
Bastam para que o corpo se abra em dois,
Ávido de receber em si mesmo
Outro corpo que sonhe;
Metade e metade, sonho e sonho, carne e carne,
Iguais em figura, iguais em amor, iguais em desejo.

Embora seja só uma esperança,
Porque o desejo é uma pergunta cuja resposta ninguém sabe.

in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea, Selecção e Tradução de José Bento, Assírio & Alvim

Luis Cernuda Bidón (n. Sevilha. Espanha, 21 de setembro 1902 em Sevilha; m. cidade do México, México 5 de novembro de 1963)

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