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2017-06-27

A Queda - Bruno Tolentino

Quando tudo era brisa no arvoredo,
fuga no mato, jogo de menino,
pousei a mão no fogo feminino
e acabou-se de vez todo brinquedo,

tudo virou fogueira. Tive medo.
Tive a visão que ofusca o peregrino,
tive a rosa no alvor do seu segredo
e um terror indiscreto e repentino

como o dobre do Ângelus no ar.
Mas um anjo caído é um moribundo,
mal se convence que caiu, vai dar

no ponto mais estranho deste mundo,
no avesso do jardim perdido: ao fundo
o roseiral que arde sem queimar.

Bruno Lúcio de Carvalho Tolentino (nasceu no Rio de Janeiro, 12 de novembro de 1940 — m. em São Paulo, 27 de junho de 2007)

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2015-11-12

Nihil obstat III - Bruno Tolentino

É preciso que a música aparente
no vaso harmonizado pelo oleiro
seja perfeitamente consistente
com o gesto interior, seu companheiro
e fazedor: o vaso encerra o cheiro
e os ritmos da terra e da semente,
porque antes de ser forma foi primeiro
humildade de barro paciente.
Deus, que concebe o cântaro e o separa
da argila lentamente, foi fazendo
do meu aprendizado o Seu compêndio
de opacidades cada vez mais claras,
e com silêncios sempre mais esplêndidos
foi limando, aguçando o que escutara.

in Os Deuses de Hoje (1995)

Bruno Lúcio de Carvalho Tolentino (Rio de Janeiro, 12 de novembro de 1940 — São Paulo, 27 de junho de 2007)

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2013-06-27

A QUEDA - Bruno Tolentino

Quando tudo era brisa no arvoredo,
fuga no mato, jogo de menino,
pousei a mão no fogo feminino
e acabou-se de vez todo brinquedo,

tudo virou fogueira. Tive medo.
Tive a visão que ofusca o peregrino,
tive a rosa no alvor do seu segredo
e um terror indiscreto e repentino

como o dobre do Ângelus no ar.
Mas um anjo caído é um moribundo,
mal se convence que caiu, vai dar

no ponto mais estranho deste mundo,
no avesso do jardim perdido: ao fundo
o roseiral que arde sem queimar.


Bruno Lúcio de Carvalho Tolentino (nasceu no Rio de Janeiro, 12 de novembro de 1940 — m. em São Paulo, 27 de junho de 2007)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Via Crucis
Mecanismos
O Espírito da Letra

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2011-06-27

Via Crucis - Bruno Tolentino (falecido há quatro anos)

A Via Crucis foi uma selvageria,
a Crucifixão uma brutalidade;
mas em três, quatro horas, acabou a agonia,
baixou a eternidade.

Eu vivo aqui, crucificada noite e dia,
carrego da manhã à tarde
o meu lenho de opróbrio e a noite me excrucia
lenta, fria, covarde.

Ah, como eu preferia
que me crucificassem de uma vez, sem o alarde
de algum terceiro dia!

Mas toca-me seguir nessa monotonia,
a agonia de alçar-me do catre
e abrir de novo os braços, vazia.

Bruno Lúcio de Carvalho Tolentino (Rio de Janeiro, 12 de novembro de 1940 — São Paulo, 27 de junho de 2007)

in As horas de Katharina (Companhia das Letras, 1994)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Mecanismos
O Espírito da Letra

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2010-11-12

O Espírito da Letra - Bruno Tolentino (recordando o poeta no 70º aniversário)


Ao pé da letra agora, em minha vida
há a morte e uma mulher... E a letra dela,
a primeira, me busca e me martela
ouvido adentro a mesma despedida

outra vez e outra vez, sempre espremida
entre as vogais do amor... Mas como vê-la
sem exumar uma vez mais a estrela
que há anos-luz se esbate sem saída,

sem prazo de morrer na luz que treme?!
O mostro que eu matei deixou-me a marca
suas pernas abertas ante a Parca

aparecem-me em tudo: é a letra M
a da Medusa que eu amei, a barca
sem amarras, sem remos e sem leme...

(Um poema de "A balada do cárcere")

Bruno Lúcio de Carvalho Tolentino (Rio de Janeiro, 12 de novembro de 1940 — São Paulo, 27 de junho de 2007)

Ler do mesmo autor, neste blog: Mecanismos

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2009-06-27

MECANISMOS - Bruno Tolentino

imagem daqui

Havia um azul sereno
naquele roxo florindo,
o jardim dava no tempo
e o tempo passava rindo.

É tudo de que me lembro.
Quase nada do que sinto.
Deu-se a flor ao pensamento
entre a memória e o instinto.

O mais é aquilo que invento,
as músicas que mal digo,
orvalhos que ficam sendo
daquele jardim antigo.


Bruno Lúcio de Carvalho Tolentino (nasceu no Rio de Janeiro, 12 de novembro de 1940 — m. em São Paulo, 27 de junho de 2007)

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2007-11-12

O Espírito da Letra... - Bruno Tolentino

Um poema de 'A balada do cárcere'

Ao pé da letra agora, em minha vida
há a morte e uma mulher... E a letra dela,
a primeira, me busca e me martela
ouvido adentro a mesma despedida

outra vez e outra vez, sempre espremida
entre as vogais do amor... Mas como vê-la
sem exumar uma vez mais a estrela
que há anos-luz se esbate sem saída,

sem prazo de morrer na luz que treme?!
O monstro que eu matei deixou-me a marca
suas pernas abertas ante a Parca

aparecem-me em tudo: é a letra M
a da Medusa que eu amei, a barca
sem amarras, sem remos e sem leme..."

Bruno Tolentino (n. no Rio de Janeiro em 12 de Nov. de 1940, m. em São Paulo em 27 Jun 2007).

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