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2015-01-14

Ficaram-me as penas - Cassiano Ricardo


O pássaro fugiu, ficaram-me as penas
da sua asa, nas mãos encantadas.
Mas, que é a vida, afinal? Um vôo, apenas.
Uma lembrança e outros pequenos nadas.

Passou o vento mau, entre açucenas,
deixou-me só corolas arrancadas...
Despedem-se de mim glórias terrenas.
Fica-me aos pés a poeira das estradas.

A água correu veloz, fica-me a espuma.
Só o tempo não me deixa coisa alguma
até que da própria alma me despoje!

Desfolhados os últimos segredos,
quero agarrar a vida, que me foge,
vão-se-me as horas pelos vãos dos dedos.

Cassiano Ricardo (C. R. Leite), jornalista, poeta e ensaísta, nasceu
em São José dos Campos, SP, em 26 de julho de 1895, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 14 de janeiro de 1974.

Tarde no Campo
Quadro Antigo
A Desenterrada
Desejo;
O Sangue das Horas
Rotação

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2011-07-26

A Desenterrada - Cassiano Ricardo



Por entrenoites cúbicas e dados
brancos cuja sexta face ninguém vê,
meu pensamento entra no mistério
em que caminhas brancamente deitada.

Rodeado por muitas luas e impelido
pela minha saudade física, procuro,
no chão, o luar eterno do teu corpo,
no gesto de levar-te três magnólias.

Mas só encontro, de eterno, na matéria
que foi tua, em teu corpo hoje noturno,
o cabelo - cabelo sempre-vivo.

Que arranco ao solo e que me fica, ruivo,
nas mãos frias brilhando longamente,
qual ramo de árvores entre pirilampos!


in Poesia Brasileira do Século XX, Dos Modernistas à Actualidade, selecção, introdução e notas de Jorge Henrique Bastos, Edições Antígona

Cassiano Ricardo Leite (nasceu em São José dos Campos, São Paulo, em 26 de Julho de 1895; faleceu em 14 de Janeiro de 1974).

Do mesmo autor:
Tarde no Campo
Quadro Antigo
Desejo;
O Sangue das Horas
Rotação

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2011-01-14

Tarde no Campo - Cassiano Ricardo

Vem a tarde, afinal... E as quérulas avenas
de um rancho de zagais, em chorosa surdina,
põem trémulos de dor, de saudades terrenas,
no claro-escuro da tristeza vespertina. . .

Ao dorido langor de agrestes cantilenas,
a lâmpada do ocaso as coisas ilumina;
o crepúsculo entreabre as rosas e as verbenas,
como a interrogação da dúvida divina.

Longe, a tarde se estorce, em violácea agonia.
Essas horas de susto e de melancolia,
como é triste ao pastor transviado entendê-las!

Pelas moitas sem luz, pelos ermos escampos,
com cabelos de luar e olhos de pirilampos,
desce a noite, tangendo o rebanho de estrelas...


in A Circulatura do Quadrado, Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa; Edição Unicepe

Cassiano Ricardo Leite (São José dos Campos, 26 de julho de 1895 — Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 1974)

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2010-07-26

Quadro Antigo - Cassiano Ricardo

Por certo que amo as coisas, os objetos,
que me acompanham, neste fim de viagem.
São elas, coisas, minhas cúmplices, à hora
em que, ó lua, me contas teus segredos.

São eles, os objetos, os meus símbolos,
para uma última fotomontagem.
Mas, como são — coisas e objetos — tristes,
por já não serem mais os meus brinquedos.

Em vão o calor físico os dilata.
Em vão meu pensamento lhes dilui
o acre contorno, em proustiana sondagem.

Só, contra o sol, a sombra deles flui!
no chão, na mesa, ou — colorida imagem —
no cristal onde nunca sou quem fui.


Cassiano Ricardo Leite (nasceu em São José dos Campos, São Paulo, em 26 de Julho de 1895; faleceu em 14 de Janeiro de 1974).

Do mesmo autor:
Desejo;
O Sangue das Horas
Rotação

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2009-01-15

ROTAÇÃO - Cassiano Ricardo


a esfera em torno de si mesma me ensina a espera a espera me ensina a esperança a esperança me ensina uma nova espera a nova espera me ensina de novo a esperança na esfera a esfera em torno de si mesma me ensina a espera a espera me ensina a esperança a esperança me ensina uma nova espera a nova espera me ensina uma nova esperança na esfera a esfera em torno de si mesma me ensina a espera a espera me ensina a esperança a esperança me ensina uma nova espera a nova espera me ensina uma nova esperança na esfera

Cassiano Ricardo Leite (nasceu em São José dos Campos, São Paulo, em 26 de Julho de 1895; faleceu em 14 de Janeiro de 1974).

Do mesmo autor: Desejo; O Sangue das Horas

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2008-07-26

O Sangue das Horas - Cassiano Ricardo

Lua e Noite foto daqui

Queixei-me de não ter pão
e a noite me disse não.
Mostrei-lhe a varanda nua
e a noite me trouxe a lua...
Você tem sede, não é ?
E a Noite me deu café.

São verdes como a esperança
as horas em que sou triste:
bem que existe não se alcança,
só cansa;
procuro o que não existe.

Se a dúvida me procura,
pondo a cerração do tédio
em minha existência obscura,
bebo esperança, remédio
para as feridas sem cura...

Que dúbio alvor de camélia
anda lá fora a flutuar ?
É noite que, de tão velha,
tão velha,
criou cabelos de luar...

A insônia do meu relógio
durante a noite passada
crivou-me o corpo, já enfermo,
de punhaladas sonoras...
Meus olhos são duas feridas
por onde escorre o sangue das horas.

Entre o passado e o porvir
aqueles peixes prata
não me deixaram dormir.
Tomei café sem parar.
Bebi treva em goles mudos...
Criei cabelo de luar.

in Poesia Brasileira do Século XX, Dos Modernistas à Actualidade, Dircção, Introdução e Notas de Jorge Henrique Bastos, Edições Antígona

Cassiano Ricardo Leite (n. em São José dos Campos (SP) a 26 de Jul de 1895; m. em 14 de Jan 1974 no Rio de Janeiro)

Do mesmo autor ler Desejo

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2007-07-26

Desejo - Cassiano Ricardo

foto: Estrelas


As coisas que não conseguem morrer
Só por isso são chamadas eternas.
As estrelas, dolorosas lanternas
Que não sabem o que é deixar de ser.

Ó força incognoscível que governas
O meu querer, como o meu não-querer.
Quisera estar entre as simples luzernas
Que morrem no primeiro entardecer.

Ser deus — e não as coisas mais ditosas
Quanto mais breves, como são as rosas
É não sonhar, é nada mais obter.

Ó alegria dourada de o não ser
Entre as coisas que são, e as nebulosas,
Que não conseguiu dormir nem morrer.

Cassiano Ricardo Leite (n. em São José dos Campos (SP) a 26 de Jul de 1895; m. em 14 de Jan 1974 no Rio de Janeiro)

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