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2014-08-14

ARS POETICA - Czeslaw Milosz (na passagem do 10º aniversário do seu desaparecimento)


Sempre aspirei por uma forma mais ampla,
que não fosse poesia nem prosa em demasia
e permitisse a compreensão, sem expor ninguém,
nem autor nem leitor, a grandes tormentos.

Em sua essência, a poesia é algo horrível:
nasce de nós uma coisa que não sabíamos que está dentro de nós,
e piscamos os olhos como se atrás de nós tivesse saltado um tigre,
e tivesse parado na luz, batendo a cauda sobre os quadris.

É por isso que se afirma, com razão, que a poesia é ditada por um espírito,
embora haja exagero em afirmar que se trata de um anjo.
É difícil de entender a soberba dos poetas,
por que se envergonham, quando a fraqueza deles acaba descoberta.

Que homem inteligente gostaria de ser o país dos demónios,
que nele se multiplicam como em sua própria casa, falam inúmeras línguas,
e como se não lhes bastasse roubar-lhe a boca e as mãos,
ainda tentam alterar-lhe o destino a seu bel-prazer?

Porque hoje se respeita tudo o que é adoentado,
alguém poderá pensar que estou brincando apenas,
ou que encontrei uma outra maneira
de elogiar a Arte através da ironia.

Houve um tempo em que somente livros sábios eram lidos,
que ajudam a suportar a dor e a desgraça.
Mas isso não é o mesmo que examinar milhares
de obras oriundas directamente das clínicas psiquiátricas.

Mas o mundo é diferente daquilo que nos parece,
e nós próprios somos diferentes dos nossos delírios.
Por isso as pessoas conservam a sua silente cortesia,
para obter o respeito de parentes e vizinhos.

A vantagem da poesia consiste no facto de lembrar-nos
da dificuldade de manter a identidade,
pois a nossa casa está aberta, não há chave na porta,
e hóspedes invisíveis entram e saem.

Concordo, o que estou contando aqui não é poesia.
Poesias devem ser escritas poucas vezes e de má vontade,
sob uma pressão insuportável e apenas na esperança
de que os bons espíritos, e não os maus, tenham em nós o seu instrumento.

Tradução de Aleksandar Jovanovic.

extraído de a rosa do mundo 2001 poemas para o futuro
assírio & alvim, 2001

CZESŁAW MIŁOSZ (nasceu em 30 de Junho de 1911 em Szetejny, na Lituânia, embora seja de nacionalidade polaca; m. Cracóvia, 14 de agosto de 2004). Foi Prémio Nobel da Literatura em 1980

Ler do mesmo autor: Janela

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2010-06-30

JANELA - CZESŁAW MIŁOSZ




Olhei pela janela ao raiar do dia e vi uma jovem
macieira, diáfana em meio à luz.
Quando olhei de novo ao raiar do dia lá estava
uma grande macieira, carregada de fruto.
Passaram-se decerto muitos anos, mas não me
lembro de nada do que aconteceu neste sonho.


(Berkeley, 1965)

CZESŁAW MIŁOSZ (nasceu em 30 de Junho de 1911 em Szetejny, na Lituânia, embora seja de nacionalidade polaca; m. Cracóvia, 14 de agosto de 2004). Foi Prémio Nobel da Literatura em 1980

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