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2016-06-06

Os Meus Amigos o Palhaço e o Coveiro - Gomes Leal

Aqueles que ali vão, em terno abraço
como modelos de união fraterna,
cantando, e aos empurrões, para a taberna,
- um deles é coveiro, o outro palhaço.

Com eles, horas mui patuscas passo,
estudando cada um. - Minha lanterna
interroga cada alma, qual, na interna
mina, o mineiro com soturno passo.

Quando eu escuto o lúgubre coveiro,
sinto o spleen do Hamleto e aspiro o cheiro
da erva calcada, os goivos, os chorões.

Mas se guincha o palhaço, sinto as solas
dos meus pés a pedirem cabriolas;
- à luz do gás e ao «hurrah» das multidões.

(Mefistófoles em Lisboa, 1907)

in Poemas Portugueses Antologia da Poesia portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI; selecção, organização, introdução e notas de Jorge Reis-Sá e Rui Lage, Porto Editora

António Gomes Leal (n. em Lisboa a 6 de junho de 1848; m. 29 de janeiro de 1921)

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2014-06-06

Pregões Matinais - Gomes Leal

Passo às vezes na cama um dia inteiro
De papo para o ar, como um madraço...
Fumando qual filósofo ou palhaço,
-Sem mulher...sem cuidadoss....sem dinheiro!

É de manhã então que me é fagueiro
Ouvir trinar no cristalino espaço
Um pregão mais macio que um regaço,
Que se esvai a carpir...como um boeiro...

De manhã é que passa a leiteirinha,
Com seu pregão chilrado de andorinha,
Passam varinas de gargantas sãs...

E ao escutar tais cantantes semifusas,
Eu creio que oiço ao longe as frescas musas,
- A vender uvas e a pregoar maçãs.


António Gomes Leal (n. em Lisboa a 6 de junho de 1848; m. em 29 de janeiro de 1921)

Ler do mesmo autor, neste blog:
À Janela do Ocidente
A Lady
Romantismo
Som e Cor
O Visionário ou Som e Cor III
Cantiga de Campo

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2014-01-29

A Um Corpo Perfeito - Gomes Leal



Nenhum corpo mais lácteo e sem defeito
Mais róseo, escultural e feminino,
Pode igualar-se ao seu, branco e divino
Imóvel, nú, sobre o comprido leito! -

Nada te iguala! O ferro do assassino
Podia, hoje, matá-la, que o meu peito
Seria o esquife embalsamado e fino
D'aquele corpo sem rival, perfeito.

Por isso é muito altiva e apetecida; -
E o gozo sensual de a ver vencida
Há-de ser forte, estranho e singular...

Como o das coisas dignas de castigo;
- Ou d'um amante sacerdote antigo,
Derrubando uma deusa d'um altar.


in 'Claridades do Sul'

António Gomes Leal (n. em Lisboa a 6 Jun 1848; m. 29 Jan 1921)

Ler do mesmo autor, neste blog:
O Amor do Vermelho (Nevrose de um Lord)
A Lady

Romantismo
Som e Cor
O Visionário ou Som e Cor III
Cantiga de Campo
À Janela do Ocidente

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2013-01-29

A Um Corpo Perfeito - Gomes Leal



Nenhum corpo mais lácteo e sem defeito
Mais róseo, escultural e feminino,
Pode igualar-se ao seu, branco e divino
Imóvel, nú, sobre o comprido leito! -

Nada te iguala! O ferro do assassino
Podia, hoje, matá-la, que o meu peito
Seria o esquife embalsamado e fino
D'aquele corpo sem rival, perfeito.

Por isso é muito altiva e apetecida; -
E o gozo sensual de a ver vencida
Há-de ser forte, estranho e singular...

Como o das coisas dignas de castigo;
- Ou d'um amante sacerdote antigo,
Derrubando uma deusa d'um altar.


in 'Claridades do Sul'

António Gomes Leal (n. em Lisboa a 6 Jun 1848; m. 29 Jan 1921)

Ler do mesmo autor, neste blog:
À Janela do Ocidente
Os Meus Amigos o Palhaço e o Coveiro
O Amor do Vermelho (Nevrose de um Lord)
A Lady

Romantismo
Som e Cor
O Visionário ou Som e Cor III
Cantiga de Campo
À Janela do Ocidente

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2011-06-06

Os Meus Amigos o Palhaço e o Coveiro

Aqueles que ali vão, em terno abraço
como modelos de união fraterna,
cantando, e aos empurrões, para a taberna,
- um deles é coveiro, o outro palhaço.

Com eles, horas mui patuscas passo,
estudando cada um. - Minha lanterna
interroga cada alma, qual, na interna
mina, o mineiro com soturno passo.

Quando eu escuto o lúgubre coveiro,
sinto o spleen do Hamleto e aspiro o cheiro
da erva calcada, os goivos, os chorões.

Mas se guincha o palhaço, sinto as solas
dos meus pés a pedirem cabriolas;
- à luz do gás e ao «hurrah» das multidões.

(Mefistófoles em Lisboa, 1907)
in Poemas Portugueses Antologia da Poesia portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI,
selecção, organização, introdução e notas de Jorge Reis-Sá e Rui Lage, Porto Editora

António Gomes Leal (n. em Lisboa a 6 Jun 1848; m. 29 Jan 1921)

Ler do mesmo autor, neste blog:
A Um Corpo Perfeito
O Amor do Vermelho (Nevrose de um Lord)
A Lady

Romantismo
Som e Cor
O Visionário ou Som e Cor III
Cantiga de Campo
À Janela do Ocidente

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2011-01-29

A Um Corpo Perfeito - Gomes Leal



Nenhum corpo mais lácteo e sem defeito
Mais róseo, escultural e feminino,
Pode igualar-se ao seu, branco e divino
Imóvel, nú, sobre o comprido leito! -

Nada te iguala! O ferro do assassino
Podia, hoje, matá-la, que o meu peito
Seria o esquife embalsamado e fino
D'aquele corpo sem rival, perfeito.

Por isso é muito altiva e apetecida; -
E o gozo sensual de a ver vencida
Há-de ser forte, estranho e singular...

Como o das coisas dignas de castigo;
- Ou d'um amante sacerdote antigo,
Derrubando uma deusa d'um altar.


in 'Claridades do Sul'

António Gomes Leal (n. em Lisboa a 6 Jun 1848; m. 29 Jan 1921)

Ler do mesmo autor, neste blog:
O Amor do Vermelho (Nevrose de um Lord)
A Lady

Romantismo
Som e Cor
O Visionário ou Som e Cor III
Cantiga de Campo
À Janela do Ocidente

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2010-06-06

À Janela do Ocidente - Gomes Leal

O mundo oscila
Lutero

Os deuses ou são mortos ou caídos,
Quais duros aldeões dormindo as sestas,
Ou andam, pelos astros perseguidos,
Chorando os velhos tempos das florestas.

Os reis ressonam nas devassas festas:
Já os frutos do Mal estão crescidos:
- Ó Sol, há muito que tu já nos crestas!
- E aos nossos ais o Céu não tem ouvidos!

Há muito já que o Olimpo está vazio,
E no seio de um astro imenso e frio
É morto o Deus do Testamento Velho.

Apenas, sobre o mundo eterno e aflito,
Fausto rebusca o x do infinito,
E Satã dorme em cima do Evangelho.


António Gomes Leal (n. em Lisboa a 6 Jun 1848; m. 29 Jan 1921)

Ler do mesmo autor, neste blog:
A Lady
Romantismo
Som e Cor
O Visionário ou Som e Cor III
Cantiga de Campo

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2010-01-29

A Lady - Gomes Leal


Lady Sherly / painting / by Anthony van Dyck Lady Sherly 1622. Oil on canvas.
Anthony van Dyck. National Trust,
Petworth House, Sussex, UK from here

Aquela que me tem, agora, presa
Minha alma, meus sentidos, meus cuidados...
E me faz sonhar sonhos desmanchados,
É uma altiva e olímpica inglesa.

Nunca tipo ideal de mais pureza
Vi nos góticos quadros mais prezados.
Seus doces olhos castos e velados
Têm um ar, infinito, de tristeza.

Tem uns gestos de deusa que caminha
Fonte grega, e um ar grande de Rainha,
E umas mãos como as ladies de Van Dyck...

Segue-a sempre um lacaio, e tristemente,
É por ela que eu morro, lentamente...
E ponho no bigode cosmétique

in Cem Sonetos Portugueses, selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria, Terramar.

António Gomes Leal (n. em Lisboa a 6 Jun 1848; m. 29 Jan 1921)

Ler do mesmo autor, neste blog: Romantismo; Som e Cor; O Visionário ou Som e Cor III; Cantiga de Campo

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2009-01-29

O Amor do Vermelho (Nevrose de um lord) - Gomes Leal

A ideia de teu corpo branco e amado,
beleza escultural e triunfante,
persegue-me, mulher, a todo o instante,
- como o assassino o sangue derramado!

Quando teu corpo pálido, beijado,
abandonas ao leito - palpitante,
quem jamais contemplou, em noite amante,
tentação mais cruel, tom mais nevado?

No entanto - duro, excêntrico desejo!
- quisera, às vezes, que a dormir te vejo,
tranquila, branca, inerme, unida a mim...

que o teu sangue corresse de repente,
fascinação da Cor! - e estranhamente,
te colorisse, pálido marfim.

(Claridades do sul)
in Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, selecção prefácio e notas de Natália Correia; Antígona Frenes, Lisboa 2005

António Gomes Leal (n. em Lisboa a 6 Jun 1848; m. 29 Jan 1921)

Ler do mesmo autor, neste blog: Romantismo; Som e Cor; O Visionário ou Som e Cor III; Cantiga de Campo

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2008-06-06

Romantismo - Gomes Leal na passagem do 160º aniversário do nascimento


Quando ergue o transparente da janela,
Ou que o seu quarto se inundou de luz,
Eu amo vê-la, sedutora e bela,
-Longos cabelos sobre os ombros nus.

Oh como é bela! e como fico a olhar;
Dos seus cabelos desatando a fita!...
Lembram-me as virgens que do austero Ermita
Vinham as noites de orações tentar.

Oh como é bela! - Tem na luz do olhar
Quais violeta quando as fecha o sonp,
Não sei que doce e lânguido abandono,
Não sei que vago que nos faz cismar!...

Como eu a espreito, palpitante o seio,
Como eu a sigo nos seus gestos vários,
Naquele quarto, aquele ninho cheoo
Da doce voz dos joviais canários!...

Como eu quisera ser, nos sonhos dela,
Um rei das lendas, o fatal D. Juan,
Pirata mouro, em galeões à vela,
Como minaretes sob o céu do Iran!...

Como eu quisera - e que vontade intensa! -
Só pelo brilho dessa longa trança,
Ser cavaleiro de invencível lança,
Ou rei normando duma ilha imensa!...

Como eu quisera, no eu pensamento,
Ser o rei bardo no rovhedo duro,
E ambos, fugindo, recortar o vento,
Sobre a garoupa dum cavalo escuro!...

Se me morresse, que comprido choro!
Como vergara sob a cruz de Malta!
Como eu deitara a minha trança d'ouro,
Por causa dela, duma torre alta!...

... ... ... ...

E assim por ela fico preso, enquanto
O sol se esconde no ocidente triste...
Um cravo murcha, numa jarra, a um canto,
-E as aves voam, debicando o alpiste.

in 366 poemas que falam de amor, uma antologia organizada por Vasco da Graça Moura, Quetzal editores

António Duarte Gomes Leal (n. em Lisboa a 6 de Junho de 1848; m. em Lisboa a 29 de Janeiro de 1921).

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2008-01-29

Som e Cor - Gomes Leal

Cacto com flores vermelhas


Alucina-me a cor! A rosa é como a lira,
a lira pelo tempo há muito engrinaldada,
e é já velha a união, a núpcia sagrada,
entre a cor que nos prende e a nota que suspira.

Se a terra, às vezes, cria a flor que não inspira,
a teatral camélia, a branca enfastiada,
muitas vezes, no ar, perpassa a nota alada
como a perdida cor dalguma flor, que expira...

Há plantas ideais dum cântico divino,
irmãs do oboé, gémeas do violino,
há gemidos no azul, gritos no carmesim...

A magnólia é uma harpa etérea e perfumada
e o cacto, a larga flor, vermelha, ensanguentada,
tem notas marciais: soa como um clarim!

António Duarte GOMES LEAL nasceu em Lisboa a 6 de Junho de 1848 e aí faleceu, meio louco, a 29 de Janeiro de 1921. Passou meteoricamente pelo Curso Superior de Letras. Panfletário e anticlerical, sofreu a morte da irmã Maria Fausta (1875), do pai (1876) e da mãe (5 de Maio de 1910), após o que, solitário e desamparado, se converteu ao catolicismo. Para não morrer de fome, o Parlamento atribuiu-lhe uma pensão de 600 mil réis anuais. É autor de uma obra desigual, que vai desde o ultra-romantismo ao surrealismo, passando pelo realismo, parnasianismo e simbolismo. O seu principal título de glória é «Claridades do Sul» (1875; reed., revista e aumentada, em 1901), donde extraímos «Som e Cor»
Soneto e ficha bibliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado, Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa, Edições Unicepe, 2004»

Ler do mesmo autor : Gomes Leal: Cantiga do Campo

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2007-06-06

O Visionário Ou Som E Cor, III - Gomes Leal

foto: Cacto com flores vermelhas


O vermelho deve ser como
o som duma trombeta…
Um cego

Alucina-me a Cor! - A Rosa é como a Lira,
A Lira pelo tempo há muito engrinaldada,
E é já velha a união, a núpcia sagrada,
Entre a cor que nos prende e a nota que suspira.

Se a terra, às vezes, brota a flor que não inspira
A teatral camélia, a branca enfastiada,
Muitas vezes, no ar, perpassa a nota alada
Como a perdida cor de alguma flor que expira...

Há plantas ideais de um cântico divino,
Irmãs do oboé, gémeas do violino,
Há gemidos no azul, gritos no carmesim...

A magnólia é uma harpa etérea e perfumada.
E o cacto, a larga flor, vermelha, ensanguentada,
- Tem notas marciais, soa como um clarim.

António Gomes Leal (n. em Lisboa a 6 Jun 1848; m. 29 Jan 1921).

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2006-01-30

A Cantiga do Campo - Gomes Leal

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Ceifeira bonita - Severo Portela
óleo sobre tela 1982; retirado daqui


porque andas tu mal comigo
ò minha doce trigueira
quem me dera ser o trigo
que andando pisas na eira

quando entre as mais raparigas
vais cantando entre as searas
eu choro ao ouvir-te as cantigas
que cantas nas manhãs claras

por isso nada me medra
ando curvado e sombrio
quem me dera ser a pedra
em que tu lavas no rio

e falam com tristes vozes
do teu amor singular
aquela casa onde coses
com varanda para o mar

(e) por isso nada me medra
ando curvado e sombrio
quem me dera ser a pedra
em que tu lavas no rio


António Gomes Leal (n. em Lisboa a 6 Jun 1848; m. 29 Jan 1921)

Esta letra foi musicada pelos Madredeus
fazendo parte do álbum Os Dias da Madredeus que pode comprar aqui

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