Blog Widget by LinkWithin
Mostrar mensagens com a etiqueta Jaime Cortesão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Jaime Cortesão. Mostrar todas as mensagens

2013-08-14

A Mulher Grávida - Jaime Cortesão

Eu sou a mulher pejada.
Minha boca apetecida,
Com outra boca colada,
Deu beijos para dar Vida.

Em mim é santo o Desejo,
É santo por ser fecundo:
Puz toda a alma num beijo,
E fui a origem do mundo.

Olhai: caminho por entre
Todo o povo sem receio,
Pois trago um filho no ventre
E uma fonte em cada seio.

Quem sentir vida tam alta
Não se furte, não a esconda;
Vêde-a… em meu ventre se exalta,
Sobe toda numa onda.

Um filho todas as vezes,
Que é de mãe enternecida,
Trá-lo o ventre nove meses
E o coração toda a vida.

Que imenso poder eu tenho
- Dar vida por ser o amor;
Não há poeta tamanho,
Nem génio mais criador!

E por meu ventre sagrado
Vou falar: escutai bem.
Fala o verbo revelado
No meu instinto de mãe.

Eu vejo para além da vista,
Ouço pra além dos ouvidos:
Oh! Que terra nunca vista,
Que heróis jamais concebidos!

Ouço em mim vozes estranhas,
A minha Alma deita luz…
Trago nas minhas entranhas
Outro menino Jesus.

Meu Filho amostra-me a face,
Faze-te Aurora nascida,
Embora a luz me queimasse,
Inda que eu perdesse a Vida.

Sou o Céu da Madrugada,
A minha carne anda em brilho;
Sinto-me ébria de Alvorada
Rompe o Sol: nasce o meu filho!


Jaime Zuzarte Cortesão (n. Ançã, Cantanhede, 29 de Abril de 1884 — m. Lisboa, 14 de Agosto de 1960)

Do mesmo autor neste blog:
Oração do Deus-Menino
Canção Vermelha
Canção Violeta
Renascimento
Sonho Árabe

Read More...

2010-12-25

Oração do Deus-Menino - Jaime Cortesão



Era noite; e por encanto
Eu nasci, raiou o Dia.
Sentiu meu pai que era Santo,
Minha mãe, Virgem-Maria

As palhinhas de Belém
Me serviram de mantéu;
Mas minha mãe, por ser Mãe,
É a Rainha do Céu.

Nem há graça embaladora,
Como a de mãe, quando cria;
É como Nossa Senhora,
Mãe de Deus, Ave-Maria!

Está no Céu o menino,
Quando sua mãe o embala.
Ouve-se o coro divino
Dos anjos, a acompanhá-la.

Como num altar de ermida,
Ando no teu coração;
Para ti sou mais que a vida
E trago o mundo na mão.

Não sei de pais, em verdade,
Mais pobrezinhos que os meus;
Mas o amor dá divindade,
E eu sou o filho de Deus!


Jaime Zuzarte Cortesão (Ançã, Cantanhede, 29 de Abril de 1884 — Lisboa, 14 de Agosto de 1960)

Read More...

2010-08-14

RENASCIMENTO - Jaime Cortesão

Nasci de novo. Eis-me liberto, enfim!
Foi por um Céu, de estrelas todo cheio,
Numa visão de Amor, que um Anjo veio
Descendo até poisar ao pé de mim.

O beijo que me deu não teve fim...,
Apertou-me nos braços contra o seio,
Abriu os lábios segredando..., e a meio
Bateu as asas e levou-me assim.

Ai! Como é doce o seio que me embala!
E como tudo é novo e mais profundo!...
Mas já nenhum de vós me entende a fala;

Noutro Mundo melhor eu vivo absorto,
E logo conheci que a esse Mundo
Quem vai não volta, ou, quando volta, é morto.


A Águia, série I, Porto, 1911

Jaime Zuzarte Cortesão (Ançã, Cantanhede, 29 de Abril de 1884 — Lisboa, 14 de Agosto de 1960)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Canção Violeta
Canção Vermelha
Oração do Deus-Menino
Sonho Árabe

Read More...

2009-08-14

Canção Vermelha - Jaime Cortesão

"Jaime Cortesão é uma das mais insignes figuras da cultura portuguesa de meados do século XX, a par de Raul Proença e de António Sérgio. Revelou-se um proeminente intelectual, político e homem de intervenção cívica, e um grande historiador, um personagem ímpar que deixou uma extensa obra, repartida entre a literatura, a poesia, o conto e o drama, e a história, portuguesa e brasileira". (daqui)

Médico, político, historiador, escritor e poeta, Jaime Cortesão "foi um intelectual que, privilegiando concomitantemente a investigação, a reflexão e a acção, ocupou um lugar proeminente na cultura política e na cultura histórica do seu tempo, sobretudo pela afirmação de um duplo combate – político e de reavivar a consciência histórica e cívica – presente na produção escrita e na acção cultural e cívica. O impulso dinamizador e o sentido da convergência foram os traços mais característicos da sua personalidade. Foi sobretudo um «polarizador de doutrina», um «catalisador» de ideias, como o definiu Aquilino Ribeiro, mais «congraçador» do que «hostilizador dos homens», como o considerou José Rodrigues Miguéis. (daqui)

Neste blog, em que a associação entre as efemérides e a poesia está diariamente presente, relembramos este vulto da cultura portuguesa na passagem do 49º. ano sobre a sua morte, com o poema de amor, "Canção Vermelha":

Mulher vestida de vermelhoMulher de vermelho, imagem daqui


-"Amo-te!" E cerras os dentes
-"Amo-te!" E fico enleado
Como se fora assaltado
Numa selva por serpentes.

Nem um fauno alucinado
Tem ímpetos mais ardentes;
Nem as sibilas dementes
Este delírio sagrado.

Meus lábios, que a febre inflama,
E as faces, estão em chama
Como bocas de fornalha.

E ardem-te os olhos surpresos;
São dois archotes acesos
Numa noite de batalha!

Extraído de "Cem Sonetos Portugueses", selecção organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria, Terramar

Jaime Zuzarte Cortesão (n. Ançã, Cantanhede, 29 de Abril de 1884 —m. Lisboa, 14 de Agosto de 1960)

Read More...

2008-12-25

Natal

A Virgem e o menino by Boticelli
Imagem daqui

ORAÇÃO DO DEUS-MENINO - Jaime Cortesão

Era noite; e por encanto
Eu nasci, raiou o Dia.
Sentiu meu pai que era Santo,
Minha mãe, Virgem-Maria

As palhinhas de Belém
Me serviram de mantéu;
Mas minha mãe, por ser Mãe,
É a Rainha do Céu.

Nem há graça embaladora,
Como a de mãe, quando cria;
É como Nossa Senhora,
Mãe de Deus, Ave-Maria!

Está no Céu o menino,
Quando sua mãe o embala.
Ouve-se o coro divino
Dos anjos, a acompanhá-la.

Como num altar de ermida,
Ando no teu coração;
Para ti sou mais que a vida
E trago o mundo na mão.

Não sei de pais, em verdade,
Mais pobrezinhos que os meus;
Mas o amor dá divindade,
E eu sou o filho de Deus!

Read More...

2008-04-29

Sonho Árabe - Jaime Cortesão

foto: Dança Árabe from here

No Dia Internacional da Dança e efeméride do nascimento de Jaime Cortesão há 124 anos, fica aqui o poema Sonho Árabe

I

Ser um árabe e ter perto
A morena companheira,
A vida um grande deserto,
Tu a única palmeira;

Manto ao vento, ir de carreira
A galope em campo aberto,
Na mão a lança guerreira...
—Assim eu sonho, desperto.

Cai a tarde. Volto a casa.
E já da planície rasa
Surge a cidade natal.

Voam cegonhas ao Sul;
Ofusca a alvura de cal;
E há minaretes no Azul.

II

E eu evoco a alcova já:
Mosaicos de lés a lés
E, para a nudez dos pés,
Alcatifas de Rabat.

Só a penumbra entra lá.
Perfumadores de aloés,
Colchas, coxins, narguilés,
E um tamborete com chá.

Das vivas cores o matiz,
O teu corpo, a tua fala,
Luz e olor, tudo condiz.

Bastam os tons: de garridos,
Entornam fogo na sala
E embebedam os sentidos.

III

Há rosas no azul do espaço;
A tarde lembra um jardim;
O deserto é d’oiro baço
E as mesquitas de marfim.

Caem flores quando passo,
Lá do alto sobre mim;
Allah abriu o regaço,
Cheira a cravos e a jasmim.

Entro na alcova, — alegrete
De cores festivas e aromas.
Tu bailas sobre um tapete.

Afago-te o seio duro,
E, ao beijar-te as duas pomas,
"Só Deus é grande!" — murmuro.

Jaime Zuzarte Cortesão (n. em Ançã, Cantanhede a 29 Abril 1884 — m. em Lisboa a 14 de Agosto de 1960)

Read More...

2007-08-14

Canção Violeta - Jaime Cortesão

foto: Dendrobium Phalaenopsis roxo from http://www.forp.usp.br/

Amo o roxo. E vai que fazes?
A luz tamisas de malva
E roxa desponta a alva
Sobre a colcha de lilases.

Roxos alastram os razes.
E tu das-te nua e alva
Lírio roxo numa salva
Sobre a colcha de lilases.

Com suas pestanas pretas
As tuas pálpebras roxas
São duas grandes violetas.

E, por mais gosto da vida,
Depois que a lâmpada afrouxa,
Fez-se a alcova de ametista.

Jaime Zuzarte Cortesão (n. em Ançã, Cantanhede a 29 de Abril de 1884; m. em Lisboa, a 14 de Agosto de 1960).
in 366 poemas que falam de amor, antologia organizada por Vasco da Graça Moura, Quetzal Editores

Read More...

2006-08-14

Canção Violeta - Jaime Cortesão


Amo o roxo. E vai que fazes?
A luz tamisas de malva
E roxa desponta a alva
Sobre a colcha de lilases.

Roxos alastram os razes.
E tu das-te nua e alva
Lírio roxo numa salva
Sobre a colcha de lilases.

Com suas pestanas pretas
As tuas pálpebras roxas
São duas grandes violetas.

E, por mais gosto da vida,
Depois que a lâmpada afrouxa,
Fez-se a alcova de ametista.

Jaime Zuzarte Cortesão (n. Ançã, Cantanhede a 29 Abr 1884, m. Lisboa, a 14 Ago 1960)

Read More...