Blog Widget by LinkWithin
Mostrar mensagens com a etiqueta José Craveirinha. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta José Craveirinha. Mostrar todas as mensagens

2016-02-06

GRITO NEGRO - José Craveirinha



Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.

in Karingana Ua Karingana [Era uma vez] (1974)


José João Craveirinha (Lourenço Marques, atual Maputo, 28 de maio de 1922 — Maputo, 6 de fevereiro de 2003)

Ler do mesmo autor neste blog:
A Nossa Casa
Gumes de Névoa
Karingana ua Karingana
Um Homem Não Chora
Aforismo
Eu Quero Ser Tambor

Read More...

2015-05-28

De profundis - José Craveirinha

Extenso dia taciturno de nuvens.
Nas ramadas passarinhos de mágoa
Lacrimejando chilros. Um braçado
Policromo de flores
Perfumado
De profundis
De coroas.

Tão duro
Assim lacónico
Nosso adeus de rosas, Maria.


José João Craveirinha (Lourenço Marques, atual Maputo, 28 de Maio de 1922 — Maputo, 6 de Fevereiro de 2003)

Ler do mesmo autor neste blog:
A Nossa Casa
Gumes de Névoa
Karingana ua Karingana
Um Homem Não Chora
Aforismo
Eu Quero Ser Tambor

Read More...

2015-02-06

A nossa casa - José Craveirinha

Ambição
minha e da Maria
foi termos uma casa nossa
onde nos contarmos os cabelos brancos.

Sonho realizado.
Casa definitiva já temos.
Lote 42.
Talhão 71883.
Fachada pintada a cal.
Classica arquitectura rectangular.
Uma via asfaltada com um único sentido.
Tudo sito no derradeiro bairrismo
que é morar no bairro de Lhanguene.

Pelo menos envelhecer já não é problema.
O resto na altura mais propícia
surgirá por si.

Parece que está por pouco.
Na lista onde eu consto
É injusto que tarde
estarmos juntos. 

José João Craveirinha (Lourenço Marques, atual Maputo, 28 de maio de 1922 — Maputo, 6 de fevereiro de 2003)

Ler do mesmo autor neste blog:

Read More...

2014-05-28

De profundis - José Craveirinha

Extenso dia taciturno de nuvens.
Nas ramadas passarinhos de mágoa
Lacrimejando chilros. Um braçado
Policromo de flores
Perfumado
De profundis
De coroas.

Tão duro
Assim lacónico
Nosso adeus de rosas, Maria.


José João Craveirinha (Lourenço Marques, atual Maputo, 28 de Maio de 1922 — Maputo, 6 de Fevereiro de 2003)

Ler do mesmo autor neste blog:
Gumes de Névoa
Karingana ua Karingana
Um Homem Não Chora
Aforismo
Eu Quero Ser Tambor

Read More...

2013-02-06

GUMES DE NÉVOA - José Craveirinha


Lágrimas?
Ou apenas dois intoleráveis
ardentes gumes de névoa
acutilando-me cara abaixo?


José João Craveirinha (Lourenço Marques, atual Maputo, 28 de Maio de 1922 — Maputo, 6 de Fevereiro de 2003)

Ler do mesmo autor neste blog:
Karingana ua Karingana
Um Homem Não Chora
Aforismo
Eu Quero Ser Tambor





Read More...

2012-05-28

Karingana ua karingana - José Craveirinha

Este jeito
de contar as coisas
à maneira simples das profecias
– Karingana ua karingana
é que faz a arte sentir
o pássaro da poesia.
E nem
de outra forma se inventa
o que é dos poetas
nem se transforma
a visão do impossível
em sonho do que pode ser.
– Karingana!

(Karingana ua karingana. Lourenço Marques: Edição da Académica, 1974, p. 3)
José João Craveirinha (Lourenço Marques, 28 de Maio de 1922 — Maputo, 6 de Fevereiro de 2003

Read More...

2011-05-28

Aforismo - José Craveirinha

Havia uma formiga
compartilhando comigo o isolamento
e comendo juntos.
Estávamos iguais
com duas diferenças:
Não era interrogada
e por descuido podiam pisa-la.
Mas aos dois intencionalmente
podiam por-nos de rastos
mas não podiam
ajoelhar-nos.

José Craveirinha nasceu a 28 de maio de 1922, em Lourenço Marques (atual Maputo), e faleceu a 6 de fevereiro de 2003

Ler do mesmo autor neste blog:
Um Homem Não Chora
Eu Quero Ser Tambor

Read More...

2009-05-28

Um Homem Não Chora - José Craveirinha

Acreditava naquela historia
do homem que nunca chora.

Eu julgava-me um homem.

Na adolescência
meus filmes de aventuras
punham-me muito longe de ser cobarde
na arrogante criancice do herói de ferro.

Agora tremo.
E agora choro.

Como um homem treme.
Como chora um homem!


José João Craveirinha (n. em Lourenço Marques, actual Maputo a 28 de Maio de 1922; m. em Maputo a 6 de Fevereiro de 2003)

Ler do mesmo autor Eu Quero Ser Tambor

Read More...

2009-02-06

Eu Quero Ser Tambor de José Craveirinha (que faleceu faz hoje seis anos).

Tambor está velho de gritar
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
corpo e alma só tambor
só tambor gritando na noite quente dos trópicos.

Nem flor nascida no mato do desespero
Nem rio correndo para o mar do desespero
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.

Nem nada!

Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra
Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra.

Eu
Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala
Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.

Oh velho Deus dos homens
eu quero ser tambor
e nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia.
Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
Só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até à consumação da grande festa do batuque!
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor!

José João Craveirinha (n. em Lourenço Marques, agora Maputo em 28 Maio 1922; m. em Maputo a 6 de Fev. 2003)

Ler do mesmo autor Um Homem Não Chora

Read More...

2008-02-06

Um homem não chora - José Craveirinha (que desapareceu faz hoje cinco anos)

Acreditava naquela historia
do homem que nunca chora.

Eu julgava-me um homem.

Na adolescência
meus filmes de aventuras
punham-me muito longe de ser cobarde
na arrogante criancice do herói de ferro.

Agora tremo.
E agora choro.

Como um homem treme.
Como chora um homem!

José João Craveirinha (n. em Lourenço Marques a 28 de Maio de 1922; m. em Maputo a 6 de Fevereiro de 2003)

Read More...