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2015-09-22

A Virgem - António Aragão (na passagem dos 90 anos do nascimento)


um avião em teus seios desocupados
um guindaste em tua boca alerta

um passo de arco-íris corre
teu pulso – dá-me teu bilhete
oh como voo te gosto de viajar!
um motor faz entre tuas coxas
hossana! é sangue o côncavo do teu lugar

in «Poesia Portuguesa Erótica e Satírica», Organização, prefácio e notas de Natália Correia
Lisboa: Antígona / Frenesi, 1999

António Manuel de Sousa Aragão Mendes Correia (n. São Vicente, Ilha da Madeira, 22 de setembro de 1925 — m. Funchal, 11 de agosto de 2008)

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2010-09-22

Tu já ouviste falar?… - António Aragão

Tu já ouviste falar
– Pxiu! Pxiu!… Mas anda cá, anda
Para ninguém escutar!
Nesse tal mimo encantado.
Em certo ar que é aroma?
- Desde tanto, embalsamado,
Em certo céu que é redoma?…
Anda cá, anda escutar:

Tu já ouviste falar
No branco riso das águas
E nuns tais sonhos do mar?
…Numas cascatas de flores
Brincando por entre montes,
Como brincam os amores;
E nos mimos dumas fontes
Como a querer embalar?

Tu nunca ouviste falar
Nuns sonhos lindos tecidos
Numas rocas de fiar,
Onde as brisas são as fadas
E as lãs são nuvens do céu
E os dedos encumeadas,
Enredando um ténue véu
Para nos embriagar?

Não ouves falar num ninho
Feito nas ondas do mar;
Onde as ondas, como arminho,
Num doce manto beijando,
Parecem baixo rezar?
– Outras vezes vão cantando,
Como visão de encantar
Envolvida em alvo linho!

Tu já ouviste falar?…
Tu sabes que existe o céu
Com anjos, lá, a brincar;
Sabes que existe o amor!…
Pois neste mimo encantado
Há reflexo condutor,
Como num sonho doirado,
De amor e céu a brilhar.

Se nunca ouviste falar
Eu vou dizer-to, baixinho,
Para ninguém escutar…
É tão belo este segredo!…
É tão leve e tão suave
Que, acredita, tenho medo
Que uma brisa, ou voo de ave
M'o possa desencantar!

Oh ouve! Anda, anda escutar
O mago nome dum mimo
Feito, por Deus, sobre o mar:
MA… Já Deus deitou um beijo!
DEI… rolou mais uma estrela!
RA!… oh! fez-se o seu desejo!
Sim, MADEIRA! Ouviste? Vê lá?
Nunca o deixes olvidar!


António Manuel de Sousa Aragão Mendes Correia (nasceu em São Vicente, Ilha da Madeira, a 22 de Setembro de 1925; † Funchal, 11 de Agosto de 2008)

Ler do mesmo autor, neste blog: Soneto: Tudo fora perfeito em tempos idos

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2009-09-22

Soneto - António Aragão (na passagem do 84º. aniversário do poeta madeirense)

Tudo fora perfeito em tempos idos:
Não havia cansaço nem saudade,
o homem olhava os astros nos sentidos
e os sentidos mentiam de verdade.

Não havia reis nem sonhos perdidos,
e o homem era o homem sem idade,
sem o Tempo, sem causa, sem gemidos
- produto duma chama de igualdade.

Mas depois tudo mudou certo dia.
E o homem fez-se Deus, fez-se profeta,
foi astro, foi saudade - já sofria...

E, para enfim tudo volver diverso,
houve outro barro - o barro do poeta -
para contar o drama feito em verso.


António Manuel de Sousa Aragão Mendes Correia (nasceu em São Vicente, Ilha da Madeira, a 22 de Setembro de 1925; † Funchal, 11 de Agosto de 2008)

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