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2012-03-31

Tocar - Octavio Paz

As minhas mãos
abrem as cortinas do teu ser
vestem-te com outra nudez
descobrem os corpos do teu corpo
As minhas mãos
inventam outro corpo
para o teu corpo


in Qual é a minha ou a tua língua, cem poemas de amor de outras línguas; organização de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim

Octavio Paz Lozano (n. Cidade do México, 31 de Março de 1914 — m. Cidade do México, 19 de Abril de 1998)

Do mesmo autor, no Nothingandall: Madrugada

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2012-03-30

Soneto - Natividade Saldanha

Se no seio da pátria carinhosa,
Onde sempre é fagueira a sorte dura,
Inda lembras, e lembras com ternura,
Os meigos dias da união ditosa ;

Se entre os doces encantos de que goza
Teu peito divinal, tua alma pura
Suspiras por um triste e sem ventura,
Que vive em solidão cruel, penosa;

Se lamentas com mágoa a minha sorte,
Recebe estes meus ais, oh minha amante,
Talvez núncios fiéis da minha morte.

E se mais nós não virmos, e eu distante
Sofrer da parca dura o férreo corte:
Amou-me, dize então, morreu constante.

José da NATIVIDADE SALDANHA nasceu em Santo Amaro do Jaboatão (PE) a 8 de Setembro de 1795 e morreu exilado em Bogotá, capital da Colômbia, em 30 de Março de 1830.

Ler do mesmo autor:
Nárcia! Márcia! ai de mim!
À Sombra Deste Cedro Venerando;
Os teus olhos gentis encantadores...

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2012-03-29

Poesia não dá camisa - Pedro Bial

Poesia não dá camisa.
Mas quando o poeta tem uma musa,
não precisa de blusa,
vive de brisa.

Pedro Bial - nascido Pedro Bialski - Rio de Janeiro, 29 de março de 1958)

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2012-03-28

Se te falasse se me ouvisses eu - Luís de Miranda Rocha

Se te falasse se me ouvisses eu
se te dissesse que diria
que me diria a ti se me
ouvisses mas não ouço eu não sei

não sei de ti perdeu-se-
-me o sentido aqui e não
posso pensar-te onde
há quanto tanto ausente

- há quanto tanto ausente habituei-me
a isto a este estar assim aqui
a que habituei-me entanto não
sei bem ainda como ou sequer se

- se posso como posso passarei
que tempo tanto assim aqui sem que


in Os dias do Amor, um poema para cada dia do ano; recolha, selecção e notas de Inês Ramos; Ministério dos Livros

Luís de Miranda Rocha, nasceu em Mira em 1947, faleceu em Coimbra a 28 de Março de 1997

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Musical suggestion of the day: Anda Comigo Ver os Aviões - Os Azeitonas



Anda comigo ver os aviões levantar voo
A rasgar as nuvens
Rasgar o céu

Anda comigo ao porto de Leixões ver os navios
A levantar ferro
A rasgar o mar

Um dia eu ganho a lotaria
Ou faço uma magia
(mas que eu morra aqui)
Mulher tu sabes o quanto eu te amo,
O quanto eu gosto de ti
E que eu morra aqui
Se um dia eu não te levo à América
Nem que eu leve a América até ti

Anda comigo ver os automóveis à avenida
A rasgar as curvas
A queimar pneus

Um dia vamos ver os foguetões levantar voo
A rasgar as núvens
A rasgar o céu...

Um dia eu ganho o totobola
Ou pego na pistola
Mas que eu morra aqui
Mulher tu sabes o quanto eu te amo
O quanto eu gosto de ti
E que eu morra aqui
Se um dia eu não te levo à lua
Nem que eu roube a lua,
Só para ti
Um dia eu vou jogar a bola
Ou vendo esta viola
Nem que eu morra que aqui
Mulher tu sabes o quanto eu te amo
O quanto eu gosto de ti
E que eu morra aqui
Se um dia eu não te levo à América
Nem que eu leve a América até ti

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2012-03-27

Arte-final - Affonso Romano de Sant'Anna

Não basta um grande amor
para fazer poemas.
E o amor dos artistas, não se enganem,
não é mais belo
que o amor da gente.
O grande amante é aquele que silente
se aplica a escrever com o corpo
o que seu corpo deseja e sente.
Uma coisa é a letra,
e outra o ato,
quem toma uma por outra
confunde e mente.

Affonso Romano de Sant'Anna (nasceu em Belo Horizonte a 27 de Março de 1937)

Ler do mesmo autor, neste blog:
O Homem e a Morte
Silêncio Amoroso
Arte-final


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2012-03-26

Essa praia... esse mar... esse céu que me enleia... - Mário Cabral

Praia da Atalaia, Aracaju (imagem daqui)

Essa praia... esse mar... esse céu que me enleia...
Essas dunas, sonhando, à carícia da aragem...
Essas ondas, rolando em franjas pela areia
Essas nuvens, passando, em rebanho selvagem...

Em seu quimão de prata a lua é uma sereia
Que me traz, pelo azul, a mais linda mensagem
Uma vela perdida, alvacenta vagueia,
Como um lenço do adeus decorando a paisagem...

Coqueiros a acenar... Canções em murmúrio
A beleza da vida em tudo exuberando
Mo suave esplendor dessa noite de estio...

A dúvida, porém, de súbito me invade
E mudo triste, quedo, eu fico palpitando
Entre o ser e o não ser, entre o amor e a saudade.


(poema extraído daqui)

Mário Cabral nasceu em Aracaju, Sergipe, em 26 de março de 1914 e faleceu em 2 de abril de 2009 em Salvador

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Happy Birthday Yesica Toscanini


Yesica Toscanini

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Happy Birthday Jessica Hart

Jessica Hart

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2012-03-25

Canção - Iñigo López de Mendoza, Marquês de Santillana

Já de todo desfalece
com pesar a minha vida
desde a sombria partida
meu mal não descai, mas cresce.

Não sei que diz a Ventura,
que mal me quis separar
de vós, gentil criatura
a quem sempre eu hei-de amar.

Todo o meu prazer perece,
minha razão não é ouvida;
cruel morte dolorida
contra mim se fortalece.

Trad. José Bento
in Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Porto Editora
Don Inigo Lopez de Mendoza, marquês de Santillana (19 de agosto 1398 - 25 de março de 1458




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2012-03-24

Boêmia Triste - Olegário Mariano

Eramos três em torno à mesa. Três que a vida,
Na sua trama de ilusões urdida,
Juntou ao mesmo afeto e na mesma viuvez...
Um músico, um pintor, e um poeta. Éramos três.
O primeiro falou: - Veio da melodia
De um noturno, a mulher que me fez triste assim.
Amei-a como se ama a fantasia
E ela sendo mulher fugiu de mim...
Hoje tenho a alma como um piano vivo
Que mão nenhuma acordará talvez...
É por esse motivo que eu sou mais desgraçado que vocês...
Disse o segundo: - Meu amigos, a sorte golpeou-nos, com a mais vil ingratidão
A mim levou-me à morte, o que eu tinha de melhor
A ilusão de que a vida era ilusão.
A força, a graça, o espírito, a beleza
A estátua humana olímpica e pagã
Espelho, natural da natureza
Nota da flauta mágica de Pan
Morreu com ela a vida, a luz, a cor
Manhã de sol e tarde de ametista
A paleta e a esperança de um pintor...
Todo o delírio de um impressionista.
Fez-se um grande silêncio em torno à mesa,
Silêncio de saudade e tristeza...
O terceiro baixou os olhos devagar
Disse um nome baixinho e não pode falar...


Olegário Mariano Carneiro da Cunha (nasceu na cidade de Recife, Pernambuco, a 24 de março de 1889. Faleceu no Rio de Janeiro a 28 de Novembro de 1958).

Ler do mesmo autor:
A Canção da Saudade
Arco-Íris
Teia de Aranha
O Enamorado das Rosas
O Meu Retrato
Almas Irmãs
O Conselho das Árvores
O Enterro da Cigarra

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2012-03-23

Plenitude - Hélio Pellegrino

Mergulhão de crista imagem daqui

A pedra, o vento, a luz alteada,
o salso mar eterno, o grito
do mergulhão, sob o infinito azul:

— Deus não me deve nada.

Hélio Pellegrino (n. em Belo Horizonte (MG) em 05 Jan. 1924; m. 23 Mar. 1988)

Ler do mesmo autor: Catacumbas

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2012-03-22

XLI - Crianças fomos, como tal, tu, louca - Guimarães Passos

Crianças fomos, como tal, tu, louca
de amores foste e eu, louco, te imitava,
então pelos teus olhos eu me olhava
e tu falavas pela minha boca.

E para nós tão cheia se mostrava
a vida que, por certo, havia de oca
ser para os outros; pena que foi, pouca
fosse para quem rindo a desfrutava.

Os anos foram breves como dias;
os dias como as horas foram breves;
esqueçamos passadas fantasias,

que, se eu fui louco, e se tu foste louca,
já por meus olhos hoje vejo e deves
ver que hoje falas pela tua boca.

Sebastião Cícero dos Guimarães Passos nasceu em Maceió, Alagoas, no dia 22 de março de 1867, e faleceu em Paris, no dia 9 de setembro de 1909.

Ler do mesmo autor, neste blog:
Mea Culpa
...Depois
Pubescência


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2012-03-21

No Limiar do Sonho - Fernando Azevedo

Sabe tão bem...
Quando o silêncio da noite vem a cair
Haver nos olhos o brilho da felicidade
Haver alguém a nosso lado para amar.
Sabe tão bem...
Fazer Amor e aninhado ficar a sonhar
Que voamos sobre as luzes da cidade
Tendo o céu para desvendar e colorir.
Sabe tão bem...
Puxar os lençóis para sentir outro calor
Mover o corpo no sentido de encontrar
O apelo do desejo que o sono engana.
Sabe tão bem...
Deixar correr o pensamento que emana
E nesse momento saber onde procurar
Tudo o que é preciso para viver o Amor.
Sabe tão bem...
Adormecer com uma esperança já definida
No sorriso que em nossa boca aflora o dia
Ciente que o amanhã virá com a verdade.
Sabe tão bem...
Por fim haver a força que faz da realidade
Uma passagem para ir feliz na companhia
De tudo o que sabe tão bem em nossa vida.


Fernando José Corte Real Azevedo nasceu em Lisboa a 21 de Março de 1958

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Ascensão - João Rui de Sousa

Hoje no Dia Mundial da Poesia e porque ontem foi galardoado pela Associação Portuguesa de Escritores com o Prémio Vida Literária, o poeta João Rui de Sousa preenche o espaço poético do Nothingandall (ainda por cima nascido em 12 de Outubro, a minha data de aniversário, ainda que 29 anos antes!).

Beijava-te como se sobe uma escadaria:
pedra a pedra, do luminoso para o obscuro,
do mais visível para o mais recôndito
– até que os lábios fossem
não o ardor da sede, nem sequer a magia
da subida,
mas o tremor que é pétala do êxtase,
o lento desprender do sol do corpo
com o feliz quebranto dos meus dedos.

JOÃO RUI DE SOUSA [Lisboa, 12 de Outubro de 1928]

Extraído de Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora

Ler do mesmo autor: Roteiro
Este azul que me convida
São peças bem unidas desunidas

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World Poetry Day / Dia Mundial da Poesia

image from here

World Poetry Day is commemorated on March 21. This day was declared by UNESCO (the United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization) in 1999. The purpose of the day is to promote the reading, writing, publishing and teaching of poetry throughout the world and, as the UNESCO session declaring the day says, to "give fresh recognition and impetus to national, regional and international poetry movements."

Here you can read Unesco Director-General's Message on 2012 World Poetry Day

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2012-03-20

No 90º aniversário do nascimento de Reinaldo Fereira

Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Tu pensas
Nas vantagens imensas
De um par
Que paga sem falar;
Eu, nauseado e grogue,
Eu penso, vê lá bem,
Em Arles e na orelha de Van Gogh...
E assim entre o que eu penso e o que tu sentes
A ponte que nos une - é estar ausentes.

Extraído de Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora

Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira (n. em Barcelona, a 20 de Março de 1922; m. em Moçambique a 30 de Junho de 1959).

Nota do webmaster: Espetacular! «A vida égale, idêntica, the same / É sempre um esforço inútil... Mas dancemos, dancemos»; ainda por cima eu nem sei dançar, nem nadar... sei lá o tanto que não sei... sei, há muito tempo que sei que «entre o que eu penso e o que tu sentes/ A ponte que nos une - é estar ausentes»

Ler do mesmo autor, neste blog:
Quem dorme à noite comigo
Meu Quase Sexto Sentido
Uma Casa Portuguesa
Passemos Tu e Eu Devagarinho

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2012-03-19

Silêncios - Cruz e Sousa

Largos Silêncios interpretativos,
Adoçados por funda nostalgia,
Balada de consolo e simpatia
Que os sentimentos meus torna cativos.

Harmonia de doces lenitivos,
Sombra, segredo, lágrima, harmonia
Da alma serena, da alma fugidia
Nos seus vagos espasmos sugestivos.

Ó Silêncios! ó cândidos desmaios,
Vácuos fecundos de celestes raios
De sonhos, no mais límpido cortejo...

Eu vos sinto os mistérios insondáveis,
Como de estranhos anjos inefáveis
O glorioso esplendor de um grande beijo!

João da Cruz e Sousa (n. em Nossa Senhora do Desterro, actual Florianópolis, Santa Catarina em 24 de novembro de 1861 — m. Estação do Sítio, Minas Gerais a 19 de março de 1898).

Ler do mesmo autor:
Ironia de Lágrimas
O Assinalado
Inefável
Vida Obscura
Sorriso Interior
Monja

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Happy Birthday Bianca Balti


Bianca Balti - Nothingandall

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2012-03-18

BRISA MARINHA - Stéphane Mallarmé

A carne é um tédio, e li todos os livros.
Fugir! Fugir além! Sinto bêbados pássaros
Por entre a desconhecida espuma e os céus!
Nada, nem os velhos jardins nos olhos seus
Retém o coração que nas vagas se deita
Oh noites! nem da minha lâmpada a luz deserta
Sobre o papel vazio que a brancura defende
Nem a jovem mulher que o peito ao filho estende.
Partirei! Vapor que baloiças o teu mastro
Ergue a âncora, segue um exótico rastro!

Um Enfado, por anseios cruéis afligido
Ainda crê no supremo adeus do lenço erguido!
Talvez os mastros, que chamam os temporais,
Sejam desses que o vento dobra sobre finais
Naufrágios, sem mastros, nem ilhas pujantes
Mas ouve, oh coração meu, cantar os mareantes!

(Trad. de Filipe Jarro)
Extraído de Rosa do Mundo, 2001 Poemas Para o Futuro, Assírio & Alvim

Stéphane Mallarmé, nasceu a 18 de março de 1842 em Paris e morreu em Valvins a 9 de setembro de 1898.

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Musical suggestion of the day: A Pele Que Há Em Mim - Márcia em dueto com JP Simões

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2012-03-17

I - Busco a beleza na forma - António Botto


Busco a beleza na forma;
E jamais
Na beleza da intenção
A beleza que perdura.

Só porque o bronze é de boa qualidade
Não se deve
Consagrar uma escultura.


In Pequenas Esculturas
Extraído de Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI
Selecção, organização, introdução e notas de Jorge Reis-Sá e Rui Lage
Porto Editora

António Tomaz Botto nasceu a 17 de Agosto de 1897, em Casal da Concavada, Abrantes e faleceu no Rio de Janeiro a 17 de Março de 1959)

Ler do mesmo autor, neste blog:

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2012-03-16

Espírito - Natália Correia

Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;

E vou com as andorinhas. Até quando?
À vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.

Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí me espera:

Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.

Extraído de Cem Poemas no Feminino, selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria

Natália de Oliveira Correia (n. Fajã de Baixo, na Ilha de S. Miguel, Açores a 13 Set 1923; m. em Lisboa a 16 Mar 1993)
Ler da mesma autora neste blog:
Retrato Talvez Saudoso da Menina Insular
Boletim Meteorológico
Nictofagia
Na Câmara de Reflexão IV
A luz meridional que...
Poema destinado a haver domingo
O Sol nas noites e o luar nos dias
Queixa das almas jovens censuradas

Fiz um conto para me embalar
Poema dirigido ao deputado João Morgado

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Enigma - Fernando Semana

Dias há em que me levanto a questionar o norte,
o rumo, a rota, a sina desta aleatória sorte
que liga a vida inexoravelmente à morte.

Melhor não seria tomar banhos de sol e areia
e deixar-me enlear, navegar, cair na teia,
das ondas e olhar (im)puro de alguma sereia?

Fernando Semana nasceu em Valbom, concelho de Gondomar, a 12 de Outubro de 1957

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2012-03-15

Ó Meus Castelos De Vento - SÁ DE MIRANDA

Ó meus castelos de vento
que em tal cuita me pusestes,
como me vos desfizestes!

Armei castelos erguidos,
esteve a fortuna queda
e disse: Gostos perdidos,
como is a dar tam grã queda!
Mas, oh! fraco entendimento!
em que parte vos pusestes
que então me não socorrestes?

Caístes-me tam asinha,
caíram as esperanças;
isto não foram mudanças.
mas foram a morte minha.
Castelos sem fundamento,
quanto que me prometestes,
quanto que me falecestes!


Francisco de Sá de Miranda (n. Coimbra, a 28 de agosto de 1481 — n. Amares, 15 de março de 1558).

Ler do mesmo autor:
Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho
Cantiga Feita nos Grandes Campos de Roma
Cantiga: Comigo me desavim...

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Dezoito anos passados desde o 4-4 de Leverkusen


Na primeira-mão (1 de Março de 1994) o Benfica empatara a 1-1, salvando-se da derrota perto do final com um golo de Isaías aos 90'. Happe aos 65' dera vantagem aos alemães. Na Alemanha duas semanas depois um dos mais espectaculares jogos da história, com a oscilação no marcador a deixar os adeptos de ambos os clubes perto de ataque cardíaco... O Benfica marcou quatro golos na 2ª. parte e passou às meias-finais da Taça das Taças.

UEFA Cup Winners' Cup 1993/94, Quarter-final, 2nd leg
1994-03-25 21h00
Ulrich-Haberland-Stadion em Leverkusen; Espectadores 22500
MARCHA DO MARCADOR:
(24') 1-0 Kirsten (Leverkusen)
(57') 2-0 Schuster (Leverkusen)
(58') 2-1 Abel Xavier (Benfica)
(59') 2-2 João Pinto (Benfica)
(77') 2-3 Kulkov (Benfica)
(80') 3-3 Kirsten (Leverkusen)
(81') 4-3 Hapal (Leverkusen)
(85') 4-4 Kulkov (Benfica)

O Benfica viria a ser eliminado nas meias-finais com o Parma ao perder em Itália por 1-0 com Mozer expulso depois de um triunfo caseiro por 2-1 com tantas oportunidades desperdiçadas (um penalty inclusivé!). Fui a Angola pela primeira vez nessa altura e lembro-me de saber no Aeroporto de Luanda (à chegada de um voo vindo de Cabinda..) que o Benfica estava ainda 0-0 ... e depois a desilusão... com um golo de Sensini aos 77'! Enfim. O Arsenal venceria a final por 1-0 a 4 de Maio. Mas a efeméride é dos 4-4 de Leverkusen...

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2012-03-14

Horas de Saudade - Castro Alves

Foto: Origami - a propósito de Akira Yoshizawa 
(吉澤 章  14 March 1911 Kaminokawa, Japan – 14 March 2005)
 considerado o grande mestre do origami


Tudo vem me lembrar que tu fugiste,
Tudo que me rodeia de ti fala.
Inda a almofada, em que pousaste a fronte,
O teu perfume predileto exala.

No piano saudoso, à tua espera,
Dormem sono de morte as harmonias;
E a valsa entreaberta mostra a frase,
A doce frase que inda há pouco lias.

As horas passam longas, sonolentas...
Desce a tarde no carro vaporoso...
D'Ave-Maria o sino, que soluça,
É por ti que soluça mais queixoso.

E não vens te sentar perto, bem perto,
Nem derramas ao vento da tardinha,
A caçoula de notas rutilantes
Que tua alma entornava sobre a minha.

E, quando uma tristeza irresistível
Mais fundo cava-me um abismo n'alma,
Como a harpa de Davi, teu riso santo
Meu acerbo sofrer já não acalma.

É que tudo me lembra que tu fugiste,
Tudo que me rodeia, de ti fala,
Como o cristal da essência do Oriente
Mesmo vazio a sândalo trescala...

No ramo curto o ninho abandonado
Relembra o pipilar do passarinho.
Foi-se a festa de amores e de afagos...
Eras - ave do céu..-.minh'alma - o ninho!

Por onde trilhas - um perfume expande-se,
Há ritmo e cadência no teu passo!
És como a estrela, que transpondo as sombras,
Deixa um rastro de luz no azul do espaço...

E teu rastro de amor guarda minh'alma,
Estrela, que fugiste aos meus anelos!
Que levaste-me a vida entrelaçada
Na sombra sideral de teus cabelos!...

Extraído de Os dias do Amor, um poema para cada dia do ano; recolha, selecção e organização de Inês Ramos; prefácio de Henrique Manuel Bento Fialho

Antônio Frederico de Castro Alves (n. em Muritiba, Bahia, 14 de Março de 1847 — m. Salvador, Bahia, 6 de Julho de 1871).

Ler do mesmo autor:
Quando Eu Morrer
Boa-Noite
O Adeus de Teresa;
Adormecida
Beijo Eterno;
Mocidade e Morte;
Horas de Saudade
Ahasverus e o Gênio
Ao dia sete de setembro

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2012-03-13

Management Lesson - Tax System / Cortes e equidade fiscal

Let's put tax cuts in terms everyone can understand.

Suppose that every day, ten men go out for dinner and the bill for all ten comes to $100.

If they paid their bill the way we pay our taxes, it would go something like this:
The first four men (the poorest) would pay nothing.
The fifth would pay $1.
The sixth would pay $3.
The seventh would pay $7.
The eighth would pay $12.
The ninth would pay $18.
The tenth man (the richest) would pay $59.
So, that's what they decided to do.

The ten men ate dinner in the restaurant every day and seemed quite happy with the arrangement, until one day, the owner threw them a curve.

"Since you are all such good customers," he said, "I'm going to reduce the cost of your daily meal by $20." Dinner for the ten now cost just $80.

The group still wanted to pay their bill the way we pay our taxes so the first four men were unaffected. They would still eat for free. But what about the other six men - the paying customers? How could they divide the $20 windfall so that everyone would get his 'fair share?'

They realized that $20 divided by six is $3.33. But if they subtracted that from everybody's share, then the fifth man and the sixth man would each end up being paid to eat their meal.

So, the restaurant owner suggested that it would be fair to reduce each man's bill by roughly the same amount, and! he proceeded to work out the amounts each should pay.

And so:
The fifth man, like the first four, now paid nothing (100% savings).
The sixth now paid $2 instead of $3 (33% savings).
The seventh now paid $5 instead of $7 (28% savings).
The eighth now paid $9 instead of $12 (25% savings).
The ninth now paid $14 instead of $18 (22% savings).
The tenth now paid $49 instead of $59 (16% savings).

Each of the six was better off than before. And the first four continued to eat for free. But once outside the restaurant, the men began to compare their savings.

"I only got a dollar out of the $20," declared the sixth man. He pointed to the tenth man," but he got $10!"

"Yeah, that's right," exclaimed the fifth man. "I only saved a dollar, too. It's unfair that he got ten times more than me!"


"That's true!!" shouted the seventh man. "Why should he get $10 back when I got only two? The wealthy get all the breaks!"

"Wait a minute," yelled the first four men in unison. "We didn't get anything at all. The system exploits the poor!"

The nine men surrounded the tenth and beat him up.

The next night the tenth man didn't show up for dinner, so the nine sat down and ate without him. But when it came time to pay the bill, they discovered something important. They didn't have enough money between all of them for even half of the bill!

And that, boys and girls, journalists and college professors, is how our tax system works. The people who pay the highest taxes get the most benefit from a tax reduction. Tax them too much, attack them for being wealthy, and they just may not show up anymore.

In fact, they might start eating overseas where the atmosphere is somewhat friendlier.

David R. Kamerschen, Ph.D. - Professor of Economics, University of Georgia


Em Português (e com adaptação livre - afinal com umas cervejolas a coisa sempre fica melhor)

Era uma vez dez amigos que se reuniam todos os dias numa cervejaria para beber e a factura era sempre de 100 euros. Solidários, e aplicando a teoria da equidade fiscal, resolveram o seguinte:
- os quatro amigos mais pobres não pagariam nada;
- o quinto pagaria 1 euro;
- o sexto pagaria 3;
- o sétimo pagaria 7;
- o oitavo pagaria 12;
- o nono pagaria 18;
- e o décimo, o mais rico, pagaria 59 euros.

Satisfeitos, continuaram a juntar-se e a beber, até ao dia em que o dono da cervejaria, atendendo à fidelidade dos clientes, resolveu fazer-lhes um desconto de 20 euros, reduzindo assim a factura para 80 euros. Como dividir os 20 euros por todos?

Decidiram então continuar com a teoria da equidade fiscal, dividindo os 20 euros igualmente pelos 6 que pagavam, cabendo 3,33 euros a cada um. Depressa verificaram que o quinto e sexto amigos ainda receberiam
para beber.

Gerada alguma discussão, o dono da cervejaria propôs a seguinte modalidade que começou por ser aceite:
- os cinco amigos mais pobres não pagariam nada;
- o sexto pagaria 2 euros, em vez de 3, poupança de 33%;
- o sétimo pagaria 5, em vez de 7, poupança de 28%;
- o oitavo pagaria 9, em vez de 12, poupança de 25%;
- o nono pagaria 15 euros, em vez de 18.
- o décimo, o mais rico, pagaria 49 euros, em vez de 59 euros, poupança de 16%.

Cada um dos seis ficava melhor do que antes e continuaram a beber. No entanto, à saída da cervejaria, começaram a comparar as poupanças:

-Eu apenas poupei 1 euro, disse o sexto amigo, enquanto tu, apontando para o décimo, poupaste 10!... Não é justo que tenhas poupado 10 vezes mais...

- E eu apenas poupei 2 euros, disse o sétimo amigo, enquanto tu, apontando para o décimo, poupaste 10!...Não é justo que tenhas poupado 5 vezes mais!...

E os 9 em uníssono gritaram que praticamente nada pouparam com o desconto do dono da cervejaria. "Deixámo-nos explorar pelo sistema e o sistema explora os pobres", disseram. E rodearam o amigo rico e maltrataram-no por os explorar.

No dia seguinte, o ex-amigo rico "emigrou" para outra cervejaria e não compareceu, deixando os nove amigos a beber a dose do costume. Mas quando chegou a altura do pagamento, verificaram que só tinham 31 euros, que não dava sequer para pagar metade da factura!... Aí está o sistema de impostos e a equidade fiscal.

Os que pagam taxas mais elevadas fartam-se e vão começar a beber noutra cervejaria, noutro país, onde a atmosfera seja mais amigável!...



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Morte Suave - Tristão da Cunha

Ei-los que vão-se ao mal de onde vieram,
Os males da minh'alma envelhecida:
E a lembrar tantos risos que os trouxeram,
Eu choro docemente esta partida...

Prantos lavam o sangue que verteram,
Na atroz delícia que já vai perdida,
E enche-me de saudades que ainda esperam
A saudade que um monge tem da vida...

No olhar que além dos olhos adormece
Erguem-se mortas, puras como lírios
E formosas e tristes como luas...

E tristemente um véu de nuvens desce
Sobre um casto clarão de exaustos círios,
Que estas virgens que voltam, voltam nuas... 


Tristão da Cunha, pseudónimo de José Maria Leitão da Cunha Fº., nascido no Rio de Janeiro em 13 de Março de 1878, m. a 29 de Junho de 1942).

Ler do mesmo autor no Nothingandall:
Virgem Primitiva
Aniversário
Itervm

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2012-03-12

Fado de Maria Serrana - Ribeiro Couto

Se a memória não me engana,
Pediste-me um fado triste:
Triste Maria Serrana,
Por que tal fado pediste?

Na serra, a fonte e as ovelhas
Eram só os teus cuidados;
Tinhas as faces vermelhas,
Hoje tens lábios pintados.

Hoje de rica tens fama
E toda a cidade é tua;
Tens um homem que te chama
Ao canto de cada rua.

Mas ai! pudesses de novo
Tornar à serra, Maria!
Se não te perdoasse o povo,
A serra te perdoaria.

Lá te espera o mesmo monte,
E a casa junto ao caminho,
E a água da mesma fonte
Que diz teu nome baixinho.

Secos teus olhos de mágoa,
Se não tivessem mais pranto,
Choraria aquela água
Que já por ti chorou tanto.

Publicado no livro Entre Mar e Rio: poesia (1952). Poema integrante da série Guitarra e Violão.
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.425

Extraído daqui

Ruy Lopes Esteves Ribeiro de Almeida Couto nasceu em Santos (SP) a 12 de Março de 1898 e faleceu em Paris a 30 de Maio de 1963. Foi jornalista em São Paulo (1915/18) e, após concluído o curso de Direito (1919), no Rio (1919/22). Promotor público dos estados de São Paulo (1924/ 25) e de Minas Gerais (1926/28), acabou por se dedicar à carreira consular, a partir desta última data: Marselha, Paris, Haia, Lisboa, Belgrado. Estreou-se em livro com os «Poemetos de Ternura e Melancolia» (1924), dando origem ao penumbrismo (confidência, surdina, suavidade e meios tons). O seu avô materno era português e ele próprio ainda era primo do escritor Adolfo Casais Monteiro, o que provocou o volume de «Correspondência de Família» (1933). Quando permaneceu em Portugal como secretário de embaixada, reuniu as suas produções poéticas de 1914 a 1943 no volume «Dia Longo» (1944) e publicou também «Uma Noite de Chuva e outros contos». Depois, editar-se-iam ainda «Entre Mar e Rio» (1952) e «Sentimento Lusitano» (1963).

Nota biobliográfica extraída de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria É a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004).

Ler do mesmo autor: Noite de Tormenta; Santos; No Jardim em Penumbra; O Longe e o Perto; Elegia

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2012-03-11

Romance do Terceiro Oficial de Finanças - Manuel da Fonseca

Ah! as coisas incríveis que eu te contava
assim misturadas com luas e estrelas
e a voz vagarosa como o andar da noite!

As coisas incríveis que eu te contava
e me deixavam hirto de surpresa
na solidão da vila quieta!...
Que eu vinha alta noite
como quem vem de longe
e sabe os segredos dos grandes silêncios
— os meus braços no jeito de pedir
e os meus olhos pedindo
o corpo que tu mal debruçavas da varanda!...

(As coisas incríveis eu só as contava
depois de as ouvir do teu corpo, da noite
e da estrela, por cima dos teus cabelos.
Aquela estrela que parecia de propósito para enfeitar os teus cabelos
quando eu ia namorar-te...).

Mas tudo isso, que era tudo para nós,
não era nada na vida!...
Da vida é isto que a vida faz.
Ah! sim, isto que a vida faz!
— isto de tu seres a esposa séria e triste
de um terceiro oficial de finanças da Câmara Municipal!...

Manuel Lopes da Fonseca (n. em Santiago do Cacém a 15 Out 1911 ; m. em Lisboa a 11 Mar 1993)

Do mesmo autor, no Nothingandall:
Depois Vinha o Luar
Poema da Menina Tonta
Estradas
Segundo dos Poemas de Infância
Ruas da Cidade
Os olhos do poeta
Tejo Que Levas as Águas

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2012-03-10

Abat-jour - Paul Géraldy

Você pergunta porque eu fico sem falar...
Porque este é o grande instante em que
existe o beijo e existe o olhar,
porque é noite... e esta noite eu gosto de você!
Chegue-se bem a mim. Eu preciso de beijos.
Ah! se você soubesse o que há, esta noite, em mim
de orgulhos, ambições, ternuras e desejos!...
Mas, não, você não sabe, e é bem melhor assim!
Abaixe um pouco mais o abat-jour! Está bem.
É na sombra que o coração fala e repousa:
tanto mais os olhos se vêem,
quanto menos se vêem as cousas...
Hoje eu amo demais para falar de amor.
Venha aqui, bem perto! Eu queria
ser hoje, seja como for,
aquele que se acaricia...
Abaixe ainda mais o abat-jour.
Vamos ficar sem dizer nada.
Eu quero sentir bem o gosto
das suas mãos sobre o meu rosto!...
Mas quem está aí? Ah! a criada
que traz o café... Não podia
deixar aí mesmo? Não importa!
Pode ir-se embora!... E feche a porta!...
Mas o que é mesmo que eu dizia?
Quer... agora o café? Se você preferir...
Já sei: você gosta bem quente.
Espere um pouco! Eu mesmo é que quero servir.
Está tão forte!... Assim? Mais açúcar? Somente?
Não quer que eu prove por
você?... Aqui está, minha adorada...
Mas que escuro! Não se enxerga nada...
Levante um pouco esse abat-jour.


(Tradução de Guilherme de Almeida)
in os poemas da minha vida - Diogo Freitas do Amaral - Público

Paul Géraldy (pseud. Paul Lefèvre, Paris, 12 de maio de 1885 — Neuilly-sur-Seine, 10 de março de 1983)

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2012-03-09

Corpo a corpo - Paulo Colina

a vida é uma horda bárbara
                  de sentimentos
as noites tentam desde o princípio
                                    de tudo
a derrubada de estigmas primários

o cotidiano tem sempre à mão
um repertório de sambas e blues

o papel branco vive me jogando
desafios na cara

ser marginal todavia
só interessa à paixão

bastaria ao poema apenas
a cor da minha pele?
 
(in A noite não pede licença)

Paulo Eduardo de Oliveira nasceu em Colina, interior do Estado de São Paulo, no dia 9 de março de 1950; faleceu em 9 de outubro de 1999

Ler do mesmo autor: Carnaval

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2012-03-08

Parabéns!

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Ego Dormio, Et Cor Meum Vigilat - João de Deus

I
Bebeste para esquecer
As mágoas do coração;
Mas ele é que não esquece,
Ele é que não adormece
Como adormecer a razão.

II
- Eu durmo, diz Salomão;
Mas durmo exalando ais!
Que o meu coração vigia
E sente como sentia...
Se ainda não sente mais!...


III
Não é com vinho que extrais
O veneno desse amor...
Apagas o pensamento,
E deixas o sentimento
Sem equilíbrio na dor!


IV
Tais nos fez o Criador,
Que sem a luz da razão
Bem se reclina a cabeça;
Mas embora ela adormeça,
Vela sempre o coração!

in Antologia de Poemas Portugueses Modernos por Fernmando Pessoa e António Botto, Ática Poesia

João de Deus de Nogueira Ramos, nasceu em 8 de Março de 1830 em São Bartolomeu de Messines, Silves e faleceu em Lisboa em 11 de Janeiro de 1896.

Ler do mesmo autor no Nothingandall:
Amor
Adeus
De Dia a Estrela de Alva Empalidece
A Cigarra e a Formiga
A Vida
Agora
Miséria...
Soneto De «O Seu Nome» - João de Deus
Na Campa de Antero de Quental - João de Deus

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2012-03-07

Talvez Amanhã - Fernando Tavares Rodrigues

Talvez amanhã eu saiba
Talvez amanhã eu siga.
Talvez amanhã não caiba
Nas palavras que te diga...

Entretanto, que sei eu?
Eu que não sei o que sou.
Depois do que aconteceu,
Apesar do que acabou.

Não vamos dormir agora
- que a manhã é uma promessa
que o teu sorriso devora.

Vamos despir-nos depressa
Ainda temos uma hora
Antes que o sonho adormeça.

Fernando Jácome de Castro Tavares Rodrigues nasceu em Lisboa, no dia 7 de Março de 1954 efaleceu em Lisboa, no dia 1 de Março de 2006.

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Em Prinkipo - António Patrício

O outono de cristal enredomava a ilha.
Era uma elísia luz que os ciprestes fiavam
em rocas verde-bronze; os pinhais plumulavam.
Ouvimos não sei quê; e era - maravilha!-
era uma migração de cegonhas que vinha
em triângulos, gris, sobre a calma marinha,
num ritmo musical, musicalmente absorto,
como seguindo no ar o fantasma dum morto.
Suspendeu-nos os dois o lindo acorde de asas
que vinha do Mar Negro, entre jardins e casas.
E como a migração, rósea e gris despedida,
também em ti dissesse o adágio da partida,
tu colaste-te a mim: deste-me o teu terror;
era a Morte a passar sobre o nosso amor.
Muito tempo passou. - Onde estás tu agora? -
Queria saber se em ti a magia dessa hora,
aquela migração de cegonhas que vinha,
rósea e gris, a vibrar, na atmosfera marinha,
voa e revoa ainda, - irreal maravilha!
No Outono de cristal que enredomava a ilha.

Poema extraído de "Antologia de Poemas Portugueses Modernos por Fernando Pessoa e António Botto, Ática Poesia

António Patrício (nasceu no Porto, a 7 de Março de 1878 e faleceu em Macau a 4 de Junho de 1930)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Uma Manhã, no Golfo do Corinto
É Uma Tarde de Estio
O QUE É VIVER
Relíquia

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2012-03-06

Benfica qualificado para os Quartos de Final da Champions...



Benfica

2-0

Zenit


Sofrer até ao fim mas como não houve P. P.!...

O Benfica e os seus adeptos viram a extrema confiança de há três semanas atrás bastante abalada pelos últimos resultados em que cinco pontos de vantagem se converteram em três (matematicamente o equivalente a quatro) de atraso.

Porém, apesar da crise própria e do país os adeptos compareceram em apreciável número ao Estádio da Luz para apoiar a equipa tendo visto o Zenit de Spaletti apostado em levar o jogo até ao nulo final. A equipa russa com todos os homens atrás da linha da bola deu a iniciativa do jogo à equipa encarnada. O Benfica sem Aimar a organizar o jogo mostrou  Gaitán na esquerda muito mais activo do que nos últimos jogos e com Bruno César na direita preferido ao ultimamente titular Nolito. A equipa do Benfica teve o domínio do jogo na primeira parte mas verdade se diga que também não criou muitas oportunidades. O jogo teve uma componente física muito apreciável mas Howard Webb deixava jogar mostrando amarelos apenas quando verdadeiramente se justificaram. Nesse aspecto Javi ficou cedo condicionado quando colocou o resultado disciplinar em 1-1 (já após o russo Anyukov o ter visto por falta sobre Gaitán logo aos 5'). 

Aos 15' Bruno César faz um remate em arco exigindo a intervenção de Malafeev. Aos 25' o Benfica beneficiou de um livre no lado direito do ataque e marcado rasteiro proporcionou o remate a Javi Garcia (ao jeito do denominado "livre à Camacho") mas a bola embateu na barreira de jogadores à frente da baliza.

Aos 28' Gaitán num lance disputado junto à lateral esquerda do ataque encarnado envolveu-se casualmente com Anyukov que ficou lesionado implicando uma interrupção de alguns minutos perante os protestos do público mas direcionados para o aquecimento de Bruno Alves. Anyukov voltaria, porém, ao jogo sendo substituído apenas na segunda parte aos 53'.

Houve ainda uma jogada pela zona central de Bruno César que pareceu desviado em falta mas o árbitro nada assinalou. Os russos não ofereceram perigo mas numa bola atrasada para Artur este quis mostrar primores de capacidade técnica perante a aproximação de um adversário e a jogada proporcionou um calafrio com Shirokov a rematar para a baliza mas fraco e com o guarda-redes português a recuperar. Já em tempos de desconto Witsel internou-se no interior da área pela direita e rematou para defesa apertada de Malafeev mas com a bola a sobrar de novo para o belga que de calcanhar pôs a bola mais na zona interior fora do alcance do guarda-redes russo aparecendo Maxi (marcar golos aos russos é com ele!) a  dar avanço na eliminatória ao Benfica e a abrir o jogo para a segunda parte.

Na segunda parte o jogo foi tenso e exigente do ponto de vista físico, os russos abriram avançando no terreno mas sempre demonstrando muita frieza na troca de bola. O Benfica percebeu que era preciso sofrer mas conseguia também várias situações de transição ofensiva em que poderia ter resolvido a eliminatória.

Com cerca de uma hora de jogo Nolito substituiu Rodrigo, aniversariante mas que neste jogo não teve grande sucesso, alterando Jesus a formação do meio-campo com Gaitán a passar para o meio e Bruno César para a direita, jogando o recém-entrado na esquerda. Aos 68' Denisov viu o cartão amarelo por falta sobre Witsel e o treinador italiano considerou que era o "timing" de arriscar. A entrada de Fayzulin (em vez de Zyryanov) deu mais problemas a Emerson mas Jorge de Jesus respondeu com a entrada de Matic que deu consistência ao meio campo defensivo.

Na sequência de pontapés de canto Jardel concluiu por duas vezes (56' e 82') ao lado perdendo excelentes oportunidades e Cardozo (70') aproveitou um pontapé de recurso dum centro campista russo para ganhando de cabeça se isolar  mas desperdiçando o golo ao rematar cruzado de mais.

Assim o jogo caminhou para o final com os benfiquistas com o coração nas mãos mas verdade se diga que Artur não teve praticamente trabalho (defendeu um remate de lonbge de Briuno Alves) sendo a jogada de mais perigo protagonizada por Fayzulin mas cruzou atrasado quando tinha dois colegas ao segundo poste.

Nelson Oliveira substituiu Cardozo e o jovem avançado português entrou muito bem partindo em duas ou três jogadas para cima da defesa adversária mas já foi em tempos desconto que conseguiu finalmenyte descansdar toda gente ao concluir com o segundo golo uma assitência de Bruno César.

O Benfica teve em Maxi Pereira um gigante mas Luisão e Jardel (a este faltou um golo) estiveram em grande nível. No meio campo Witsel demonstrou mais uma vez ser um grande jogador.

Luisão foi considerada pela Uefa o melhor jogador.

O Benfica sofreu mas (sem Pedros Proenças a arbitrar) conseguiu voltar, com todo o merecimento, aos Quartos de Final da Champions League e encaixar uns bons milhões de euros que tanta falta faz às finanças de Portugal.
 
Round of 16 Second leg - 06/03/2012 - 20:45CET (19:45 local time) - Estádio do Sport Lisboa e Benfica  

BENFICA: Artur Moraes; Maxi Pereira, Luisão, Jardel e Emerson; Javi García; Gaitán (Matic 72'), Witsel e Bruno César; Rodrigo (Nolito 62') e Cardozo (Nelson Oliveira 80').
FC ZENIT: Malafeev; Anyukov (Bruno Alves 53'), Lombaerts, Hubocan e Criscito; Shirokov, Denisov e Semak; Bystrov (Lazovic 46'), Kerzhakov e Zyryanov (Fayzulin 71')
Golos: Maxi Pereira 45+1'; Nélson Oliveira 90+1'
Disciplina:
5' Cartão amarelo para Anyukov (FC Zenit), por falta sobre Gaitán. 
18' Cartão amarelo  para Javi Garcia por falta sobre Bystrov
68' Cartão amarelo para Denisov (FC Zenit), por falta sobre Witsel.
90'+3 Cartão Amarelo para Nélson Oliveira (Benfica), por ter tirado a camisola durante os festejos do segundo golo

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Canção da Minha Saudade - Wilmar Fonseca


Canção de Minha Saudade [ Ray Brito e Tinho Fonseca ] - Letra de Wilmar Fonseca; Música de Wilson Fonseca

Nunca vi praias tão belas
Prateadas como aquelas
Do torrão em que nasci!
Da CAIEIRA, do LAGUINHO
(MAPIRI é um carinho)
Onde canta a Juruti.
Nunca vi praia tão boa
Como aquela da COROA
Bem pertinho do SALÉ…
De SÃO MARCOS, tão branquinha
(A candura da PRAINHA)
VERA-PAZ… MARIA JOSÉ!
Bem juntinho àquela serra
Que domina a minha terra,
Tem um pé de sapoti
Onde entoa, sem mentira,
Alegrando CAMBUQUIRA
O seu canto o Bem-te-vi.
Quem me dera em suas águas
Sufocar as minhas mágoas
A beira do Igarapé!
E depois no IRURÁ
(Ó meu Deus, quando será?)
Reviver a minha fé.
Mergulhei já no AMAZONAS
(Não me digas: tu blasonas)
P’ra no TAPAJÓS boiar…
Há encanto em teus jardins
Vicejando benjamins
Que prateiam ao luar.
Tens Maria por padroeira
Essa Mãe tão brasileira,
SANTARÉM DA CONCEIÇÃO .
Se relembro teus recantos,
Ó Jesus lá vêm meus prantos,
Vou cantando esta canção!

Wilmar Dias da Fonseca, nasceu em Santarém, Pará a 6 de março de 1915; faleceu na cidade de Mogi das Cruzes, São Paulo a 12 de setembro de 1984

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20º aniversário sobre a morte de Vieira da Silva

Maria Helena Vieira da Silva nasceu em Lisboa a 13 de Junho de 1908, dia de Santo António e faleceu em Paris a 6 de Março de 1992, ou seja há precisamente vinte anos. Cedo orfã de pai a grande artista, a quem o Estado português recusou a nacionalidade, viveu em Paris desde 1928 onde regressou depois de sete anos no Brasil (1940-1947) onde viveu com o marido, o pintor húngaro Arpad Szenes.

Alvo de reconhecimento por parte do Estado francês de que beneficiou da nacionalidade obteve elevadas condecorações: Chevalier de L’Orde des Arts et des Lettres em 1960, o grau de Comendador e ainda em 1991 Officer de la Légion d’Honneur.

Vieira da Silva é provavelmente a pintora portuguesa mais famosa e cotada internacionalmente. Em 1961 foi-lhe atribuido o Grande Prémio de Pintura da VI Bienal de São Paulo.

A sua obra só a partir do 25 de Abril de 1974 passou a ser mais conhecida em Portugal. Aliás, o seu cartaz sobre o 25 de Abril: "A poesia está na rua" (abaixo reproduzido) é deveras conhecido. Em 1977 foi-lhe atribuída a Grã-Cruz da Ordem de Santiago de Espada.

Famosa pela sua pintura abstracta dedicou-se também à tapeçaria e a vitrais. Em 1983 aceitou o convite para realizar a decoração da (então) nova estação do Metro de Lisboa - Cidade Universitária, onde se pode ver azulejos da sua autoria, bem como na Estação do Rato onde a par dum painel de azulejos da sua autoria se pode também apreciar do outro lado um painel de Arpad Szenes, seu marido.

Aliás na cidade de Lisboa foi criada a Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva


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"Bibliothéque en Feu", 1974, óleo sobre tela 158 x 178 cm
Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian
Lisboa, Portugal
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A Poesia está na Rua

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Happy Birthday Esti Ginzburg


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2012-03-05

Fado - Pedro Homem de Mello

Porque é que Adeus me disseste
Ontem e não noutro dia,
Se os beijos que, ontem, me deste
Deixaram a noite fria?

Para quê voltar atrás
A uma esperança perdida?
As horas boas são más
Quando chega a despedida.

Meu coração já não sente.
Sei lá bem se já te vi!
Lembro-me de tanta gente
Que nem me lembro de ti.

Quem és tu que mal existes?
Entre nós, tudo acabou.
Mas pelos meus olhos tristes
Poderás saber quem sou!

in Cem Poemas Portugueses do Adeus e da Saudade, selecção organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria, Terramar

Pedro da Cunha Pimentel Homem de Mello (n. Porto em 6 de Setembro de 1904 - m. Porto, 5 de Março de 1984).

Ler do mesmo autor, neste blog:
Oásis
Véspera
Berço
Obrigado
Uma Ânsia de Nudez
Povo que lavas no rio
Não choreis os mortos
Revelação

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2012-03-04

CIRCE - Eugénio de Castro

Minh'alma, onde se miravam rosas,
É hoje, Lídia do meu coração,
Um altar de primeira comunhão
Enfeitado com plantas venenosas.

Meus desejos, noviças cor de lua,
Passeando andavam entre esbeltos lírios,
Quando apareceste serpentina e nua,
Derramadora de letais delírios.

Viram-te os puros como a aurora,
E, deslumbrados pelo sol do teu cabelo,
Foram atrás de ti, cisnes de prata e gelo,
Atrás da guardadora.

Tu lhes disseste coisas de endoidar
Ascetas e abadessas...
Como em taças de ouro, nas suas cabeças,
Simbólicos jasmins fanaram-se a chorar.

Nos braços das luxúrias condenadas
Foram deitar-se os meus amores,
Como róseas Princesas invioladas
Oferecendo-se aos salteadores.

Minha inocência chora sangue sob os teus beijos,
Como fria cabeça espetada num poste...
Lídia! qual Circe foste:
- Em porcos transformaste os meus puros desejos!

Extraído de 366 poemas que falam de amor, uma antologia organizada por Vasco da Graça Moura, Quetzal

Eugénio de Castro (n. em Coimbra a 4 Março de 1869; m. em Coimbra, a 17 de Agosto de 1944)

Ler do mesmo autor:
Um Sonho
Engrinalda-me com os teus braços
A Laís
Tua frieza aumenta o meu desejo
Presságios
Epígrafe
Amores

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2012-03-03

P.P. já justifica uma estátua erigida junto do Estádio do Dragão

O Benfica tem uma estátua de Eusébio junto ao Estádio da Luz. No Estádio do Dragão justifica-se uma estátua de P.P.. Quer pelo conjunto de relevantes serviços prestados ao FCP quer porque seria uma boa personalização de todos os outros árbitros que durante as últimas décadas vêm servindo este clube.

Certamente P.P. não passa recibos verdes (nem recibos eletrónicos) pela prestação destes serviços. Não sei sequer se P.P. é um dos 300 contribuintes com contas escondidas em offshores que o Expresso anuncia hoje terem sido caçados pelo Fisco. Uma coisa sei eu. É que estas prestações de serviços são tão notórias e ostensivas (milhões de portugueses são testemunhas)que, mesmo não havendo contraprestação (ou seja, se forem gratuitas), não deixam de estar sujeitas a Imposto sobre o Valor Acrescentado pelo seu valor normal de mercado. E que valor de mercado não têm estes três pontos e o caminho mais do que desbravado para o título de campeão nacional? O valor normal de mercado são de vários milhões de euros...

E porque será que a Autoridade Tributária e Aduaneira não tributa estes serviços? Quando em Fevereiro deste ano, aumentou-me em três pontos percentuais a taxa de retenção na fonte de IRS?

P.P. tem um curriculum invejável de bons serviços ao FCP. Daí que não foi nenhuma surpresa o que se passou ontem no Estádio da Luz. Não pode cair no esquecimento o penalty inventado há alguns anos atrás por "mágica" e invisível falta de Yebda sobre Lisandro Lopez e que a 10 minutos do fim deu o empate aos portistas e também aí os encaminhou para o título - o Benfica vencendo passaria a liderar a classificação. Na altura, essa invenção merecia o Prémio Mundial da Magia tal foi a criatividade. Eu sei que, então, foi um empate porque mais nenhum jogador do FCP caiu dentro da área benfiquista nos dez minutos que faltavam. Ontem cedo percebi que tinha de deixar cair a esperança de um resultado positivo do Benfica mas ainda aguentei em ver o jogo até ao 2-2 e com ambas as equipas ainda a jogarem com onze. Já até então se percebera qual era o critério que norteava o apito do Sr. P.P. Como a falta de vergonha na cara é tão grande, desta vez nem se contentou com o empate. Tinha mesmo de dar o triunfo aos visitantes. E desta vez só faltavam 3 minutos para o fim...

Mais ainda do que os relevantes serviços (directos) prestados ao FCP são os prejuízos infligidos ao Benfica. Ano passado até a Taça da Liga foi inclinada para o Paços de Ferreira com um penalty marcado contra os encarnados é claro e com um bem maior por marcar a favor da equipa de Lisboa. O Benfica tremeu ... mas lá conseguiu vencer por 2-1. Sem precisar de ir consultar os registos jamais me esquecerei ainda de um Penafiel-Benfica também no caminho decisivo da discussão do título e que terminaria em 0-0 com quatro casos de penalty na área do Penafiel sem que este P.P assinalasse um que fosse...

É já institucional dizer-se que o Benfica tem seis milhões de benfiquistas. Os meus conhecimentos de matemática e da teoria dos conjuntos fazem-me concluir que da interseção dos conjuntos "benfiquistas" e "árbitros" resulta um conjunto vazio. Este senhor P.P. quer contrariar-me ao afirmar-se publicamente como benfiquista e há quem diga que até é sócio. Eu não quero acreditar! Como é que nós sendo 5.999.999 nos deixamos roubar em casa desta maneira flagrante com tantas testemunhas a ver e não expulsamos esse sujeito da nossa instituição? É que benfiquista não é quem quer. É quem merece. Esse P.P é, pelo contrário, um dos nossos maiores inimigos... E os inimigos são para se abater.

P.P o P.P.


Comentário: Afinal nem se trata nada de especial: simplesmente não mais de dois jogadores em fora de jogo num lance de bola parada. Se fossem quatro jogadores isso sim seria escandaloso!

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Anjo Caído - Bulhão Pato

Na flor da vida, formosa,
ingênua, casta, inocente,
eras tu no mundo, rosa!
Quem te arrojou de repente
para o abismo fatal?
Viste um dia o sol de abril;
o teu seio virginal
sorriu alegre e gentil.

Ergueu-se aos clarões suaves
d'aquela doce alvorada
a tua face encantada.
Amaste o doce gorjeio
que desprendiam as aves,
e no teu cândido seio
quanto amor, quanta ilusão
alegre pulava então.

Mal haja o fatal destino,
maldita a sinistra mão,
que em teu cálix purpurino
derramou fera e brutal
esse veneno fatal.

Hoje és bela; mas teu rosto
que outrora alegre sorria,
é todo melancolia!
Hoje nem sol, nem estrela,
para ti brilha no céu;
mal haja quem te perdeu!

Raimundo António de Bulhão Pato (Bilbau, 3 de Março de 1828 — Monte da Caparica, 24 de Agosto de 1912)

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2012-03-02

Infante - Luís de Montalvor

Baby! Sossega a tua voz. Não digas mais
Essas canções do Mundo. Deixa que eu esqueço
Que fui menino ao colo de seus pais.
Deixa! Que o coração em si mesmo o adormeço...

Com olhos de criança olho os desiguais
Dias e nuvens, sós, passando, e empalideço...
Canto de Prometeu todo desfeito em ais!
E a vida, a vida até, brinquedo que aborreço...

Mundo dos meus enganos como a desventura!
Experiência, - pobre fumo! Anela o meu cabelo
E põe-me o bibe azul e antigo da Ternura...

Que a vida, essa Babel desfeita que se embala,
ainda é para mim - criança de Deus, pesadelo
Da infância das fanfarras, fogo de Bengala!

in Antologia de Poemas Portugueses Modernos por Fernando Pessoa e António Botto, Ática Poesia

Luís da Silva Ramos, que usou o pseudónimo de Luís de Montalvor, nasceu em S. Vicente, Cabo Verde, a 31 de Janeiro de 1891 e faleceu em Lisboa a 2 de Março de 1947).

Ler do mesmo autor, neste blog:
Narciso
Tarde
Baker

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2012-03-01

Castelo de Óbidos - Camilo Pessanha

Autor: Mateus Moreno daqui

Quando se erguerão as seteiras,
Outra vez, do castelo em ruína,
E haverá gritos e bandeiras
Na fria aragem matutina?

Se ouvirá tocar a rebate
Sobre a planície abandonada?
E sairemos ao combate
De cota e elmo e a longa espada?

Quando iremos, tristes e sérios,
Nas prolixas e vãs contendas,
Soltando juras, impropérios,
Pelas divisas e legendas?

E voltaremos, os antigos
E puríssimos lidadores,
- Quantos trabalhos e perigos!
Quase mortos e vencedores?

E quando, ó Doce Infanta real,
Nos sorrirás do belveder -
Magra figura de vitral,
Por quem nós fomos combater?

Extraído de Antologia de Poemas Portugueses Modernos por Fernando Pessoa e António Botto. Ática Poesia

CAMILO de Almeida PESSANHA nasceu em Coimbra a 7 de Setembro de 1867 e morreu, tuberculoso, em Macau (China) a 1 de Março de 1926.

Ler neste blog, do mesmo autor:
Singra o navio. Sob a água clara
Água Morrente
Fonógrafo
Interrogação
Desce em Folhedos Tenros a Colina
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Foi um dia de inúteis agonias
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Floriram por engano as rosas bravas
Caminho I
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Queda

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