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2012-01-31

Poema 8 - Vem, Cassilda, olhar a madrugada que rompe - Fernando Namora

Vem, Cassilda, olhar a madrugada que rompe.
Vem e sentirás mais vastas a dor e a esperança.
Vem de manso, cautelosa,
antes que os pastores acordem as suas frautas
e perturbem a manhã.
Talvez sintas no rumorejar das aves madrugadoras
aquelas asas sem limites,
para além do campanário, para além dos montes
que teu olhar nunca soube ultrapassar.
Vem, Cassilda! Serás mais um astro branco
que a manhã serena coroou.


(Terra 1941)

Extraído de Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora

Fernando Namora (n. em Condeixa a 15 de Abril de 1919; m. em Lisboa a 31 Jan. 1989)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Intimidade
Poema Cansado de Certos Momentos
Poema da Utopia
Coisas, Pequenas Coisas
Noite

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2012-01-30

Os Cisnes - Júlio Salusse



A vida, manso lago azul algumas
vezes, algumas vezes mar fremente,
tem sido para nós constantemente
um lago azul, sem ondas nem espumas.

Bem cedo quando, desfazendo as brumas
matinais, rompe um sol vermelho e quente,
nós dois vogamos indolentemente,
como dois cisnes de alvacentas plumas.

Um dia, um cisne morrerá, por certo...
Quando chegar esse momento incerto,
no lago onde talvez a água se tisne,

que o cisne vivo, cheio de saudade,
nunca mais cante nem sozinho nade,
nem nade nunca ao lado doutro cisne.


JÚLIO Mário SALUSSE nasceu em Bom Jardim (RJ) a 30 de Março de 1872 e morreu no Rio a 30 de Janeiro de 1948. Cursou Direito em São Paulo e no Rio e foi promotor público em Paraíba do Sul e Nova Friburgo. Epígono do parnasianismo, com afloramentos do simbolismo e decadentismo, a sua poesia lírico-erótica traduz «oscilação dos sentimentos entre o plano do ideal e do sensual, entre o plano da vontade e o dos sentidos».

(Soneto e nota biobliográfica extraída de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria É a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004).

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2012-01-29

Som e Cor - Gomes Leal

Alucina-me a cor! A rosa é como a lira,
a lira pelo tempo há muito engrinaldada,
e é já velha a união, a núpcia sagrada,
entre a cor que nos prende e a nota que suspira.

Se a terra, às vezes, cria a flor que não inspira,
a teatral camélia, a branca enfastiada,
muitas vezes, no ar, perpassa a nota alada
como a perdida cor dalguma flor, que expira...

Há plantas ideais dum cântico divino,
irmãs do oboé, gémeas do violino,
há gemidos no azul, gritos no carmesim...

A magnólia é uma harpa etérea e perfumada
e o cacto, a larga flor, vermelha, ensanguentada,
tem notas marciais: soa como um clarim!

António Gomes Leal (n. em Lisboa a 6 Jun 1848; m. 29 Jan 1921)

Ler do mesmo autor, neste blog:
O Amor do Vermelho (Nevrose de um Lord)
A Um Corpo Perfeito
Os Meus Amigos o Palhaço e o Coveiro
A Lady
Romantismo
O Visionário ou Som e Cor III
Cantiga de Campo
À Janela do Ocidente

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2012-01-28

Misteriosa - Filinto de Almeida

— Quem será, de onde veio, esta perturbadora,
Esta esquisita, ignota e sensual criatura
Com gestos graves de senhora
E trajes de mulher impura?

— De onde veio e quem seja, em vão isso indagara,
No teatro ou na rua a cidade curiosa...
Suponde-a uma figura rara,
Singular e maravilhosa.

De tão esbelta que é, vós a diríeis magra,
E é refeita, — e vivaz como uma esquiva lebre.
E arde esse corpo de Tanagra
Em estos de contínua febre.

Realçando o fulgor dos encantos estranhos,
À flor da tez morena, aveludada e fina,
Parecem seus olhos castanhos
Duas tâmaras da Palestina.

Boca talhada para o amavio e as carícias,
Melífica e aromal, é como uma abelheira
Formada das flores puníceas
Do hibíscus ou da romãzeira.

Massa de seda, em fios crespos, com grande arte
Disposta, o seu cabelo — à luz que incida de alto,
Breada em reflexos se biparte
De verde-oliva e azul-cobalto.

Seu corpo tem um olor antes nunca sentido,
Suave e capitoso e só dele, tal como
Se desde o berço fora ungido
De sândalo e de cardamomo.

De onde veio não sei... de procedência vária,
Nos diz... antes não diz; a gente é que imagina.
Veio do Egito ou da Bulgária,
Do Cáucaso, ou da Herzegovina...

Andou no Oriente, creio, e esteve em Singapura.
E a língua ? Quando diz de amor, bem está: distingo-a.
Enfim, é uma criatura
De meia-raça e meia-língua.

É o mistério. É a ilusão do amor, que se nos serve
Em ânforas de leite e em acúleos de cardos,
Amor que se agasalha e ferve
Envolto em peles de ursos pardos.

Nada mais sei. Será uma fada? algum gênio?
Meu espírito conclui, de cada vez que a sonda,
Que ela é um amálgama homogêneo
Da Salammbô e da Gioconda.

Contou-me isto, outro dia, um amigo, que fôra
íntimo, suponho eu, em dias não distantes,
Da esquisita e linda senhora
De trajes abracadabrantes.

Francisco Filinto de Almeida (n. no Porto em 4 Dez. 1857; m. no Rio de Janeiro, RJ, em 28 Jan. 1945).

Ler do mesmo autor, neste blog:
Chama da Vida
Funesta
Último Apelo
Amor e Razão

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2012-01-27

Elegia número 16 - Santo Souza

Criaram flores de existência efêmera,
criaram noites e auroras nos caminhos,
aquários musicais para a canção
e estátuas para a vida e para a morte.

Criaram o teto do céu que sustentamos
em colunas de estrelas e de mares
e os rios que afagamos, derramando
a poesia da vida em nossas mãos.

E criaram também rios insones
que as nossas mãos jamais hão de acolher:
criaram faces com sulcos para as lágrimas,
pois havia corações para sofrer.

Mas sob o teto do céu que sustentamos
nós somos flores de existência efêmera
e – estátuas para a vida e para a morte –
nos deram olhos humanos para o pranto!

José Santo Souza (n. em Riachuelo, Sergipe a 27 de janeiro de 1919)

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2012-01-26

A emoção estética na arte moderna - Graça Aranha



José Pereira da Graça Aranha nasceu em 21 de junho de 1868, em São Luís, no Maranhão, morreu no Rio de Janeiro, em 26 de janeiro de 1931

(conferência proferida em São Paulo no dia 13 de fevereiro de 1922, no âmbito da Semana da Arte Moderna, também chamada de Semana de 22)

Para muitos de vós a curiosa e sugestiva exposição que gloriosamente inauguramos hoje, é uma aglomeração de "horrores". Aquele Gênio supliciado, aquele homem amarelo, aquele carnaval alucinante, aquela paisagem invertida se não são jogos da fantasia de artistas zombeteiros, são seguramente desvairadas interpretações da natureza e da vida. Não está terminado o vosso espanto. Outros "horrores" vos esperam. Daqui a pouco, juntando-se a esta coleção de disparates, uma poesia liberta, uma música extravagante, mas transcendente, virão revoltar aqueles que reagem movidos pelas forças do Passado. Para estes retardatários a arte ainda é o Belo.

Nenhum preconceito é mais perturbador à concepção da arte que o da Beleza. Os que imaginam o belo abstrato são sugestionados por convenções forjadoras de entidades e conceitos estéticos sobre os quais não pode haver uma noção exata e definitiva. Cada um que se interrogue a si mesmo e responda que é a beleza? Onde repousa o critério infalível do belo? A arte é independente deste preconceito. É outra maravilha que não é a beleza. É a realização da nossa integração no Cosmos pelas emoções derivadas dos nossos sentidos, vagos e indefiníveis sentimentos que nos vêm das formas, dos sons, das cores, dos tatos, dos sabores e nos levam à unidade suprema com o Todo Universal. Por ela sentimos o Universo, que a ciência decompõe e nos faz somente conhecer pelos seus fenômenos. Por que uma forma, uma linha, um som, uma cor nos comovem, nos exaltam e transportam ao universal? Eis o mistério da arte, insolúvel em todos os tempos, porque a arte é eterna e o homem é por excelência o animal artista. O sentimento religioso pode ser transmudado, mas o senso estético permanece inextinguível, como o Amor, seu irmão imortal. O Universo e seus fragmentos são sempre designados por metáforas e analogias, que fazem imagens. Ora, esta função intrínseca do espírito humano mostra como a função estética, que é a de idear e imaginar, é essencial à nossa natureza.

A emoção geradora da arte ou a que esta nos transmite é tanto mais funda, mais universal quanto mais artista for o homem, seu criador, seu intérprete ou espectador. Cada arte nos deve comover pelos seus meios diretos de expressão e por eles nos arrebatar ao Infinito. A pintura nos exaltará, não pela anedota, que por acaso ela procure representar, mas principalmente pelos sentimentos vagos e inefáveis que nos vêm da forma e da cor.



Que importa que o homem amarelo ou a paisagem louca, ou o Gênio angustiado não sejam o que se chama convencionalmente reais? O que nos interessa é a emoção que nos vem daquelas cores intensas e surpreendentes, daquelas formas estranhas, inspiradoras de imagens e que nos traduzem o sentimento patético ou satírico do artista. Que nos importa que a música transcendente que vamos ouvir não seja realizada segunda as fórmulas consagradas? O que nos interessa é a transfiguração de nós mesmos pela magia do som, que exprimirá a arte do músico divino. É na essência da arte que está a Arte. É no sentimento vago do Infinito que está a soberana emoção artística derivada do som, da forma e da cor. Para o artista a natureza é uma "fuga" perene no Tempo imaginário. Enquanto para os outros a natureza é fixa e eterna, para ele tudo passa e a Arte é a representação dessa transformação incessante. Transmitir por ela as vagas emoções absolutas vindas dos sentidos e realizar nesta emoção estética a unidade com o Todo é a suprema alegria do espírito.

Se a arte é inseparável, se cada um de nós é um artista mesmo rudimentar, porque é um criador de imagens e formas subjetivas, a Arte nas suas manifestações recebe a influência da cultura do espírito humano. Toda a manifestação estética é sempre precedida de um movimento de idéias gerais, de um impulso filosófico, e a Filosofia se faz Arte para se tornar Vida. Na antigüidade clássica o surto da arquitetura e da escultura se deve não somente ao meio, ao tempo e à raça, mas principalmente à cultura matemática, que era exclusiva e determinou a ascendência dessas artes da linha e do volume. A própria pintura dessas épocas é um acentuado reflexo da escultura. No renascimento, em seguida à perquirição analítica da alma humana, que foi a atividade predominante da idade média, o humanismo inspirou a magnífica floração da pintura, que na figura humana procurou exprimir o mistério das almas. Foi depois da filosofia natural do século XVII que o movimento panteístico se estendeu à Arte e à Literatura e deu à Natureza a personificação que raia na poesia e na pintura da paisagem. Rodin não teria sido o inovador, que foi na escultura, se não tivesse havido a precedência da biologia de Lamarck e Darwin. O homem de Rodin é o antropóide aperfeiçoado.

E eis chegado o grande enigma que é o precisar as origens da sensibilidade na arte moderna. Este supremo movimento artístico se caracteriza pelo mais livre e fecundo subjetivismo. É uma resultante do extremado individualismo que vem vindo na vaga do tempo há quase dois séculos até se espraiar em nossa época, de que é feição avassaladora.

Desde Rousseau o indivíduo é a base da estrutura social. A sociedade é um ato da livre vontade humana. E por este conceito se marca a ascendência filosófica de Condillac e da sua escola. O individualismo freme na revolução francesa e mais tarde no romantismo e na revolução social de 1848, mas a sua libertação não é definitiva. Esta só veio quando o darwinismo triunfante desencadeou o espírito humano das suas pretendidas origens divinas e revelou o fundo da natureza e as suas tramas inexoráveis. O espírito do homem mergulhou neste insondável abismo e procurou a essência das coisas. O subjetivismo mais livre e desencantado germinou em tudo. Cada homem é um pensamento independente, cada artista exprimirá livremente, sem compromissos, a sua interpretação da vida, a emoção estética que lhe vem dos seus contatos com a natureza. É toda a magia interior do espírito se traduz na poesia, na música e nas artes plásticas. Cada um se julga livre de revelar a natureza segundo o próprio sentimento libertado. Cada um é livre de criar e manifestar o seu sonho, a sua fantasia íntima desencadeada de toda a regra, de toda a sanção. O cânon e a lei são substituídos pela liberdade absoluta que os revela, por entre mil extravagâncias, maravilhas que só a liberdade sabe gerar. Ninguém pode dizer com segurança onde o erro ou a loucura na arte, que é a expressão do estranho mundo subjetivo do homem. O nosso julgamento está subordinado aos nossos variáveis preconceitos. O gênio se manifestará livremente, e esta independência é uma magnífica fatalidade e contra ela não prevalecerão as academias, as escolas, as arbitrárias regras do nefando bom gosto, e do infecundo bom-senso. Temos que aceitar como uma força inexorável a arte libertada. A nossa atividade espiritual se limitará a sentir na arte moderna a essência da arte, aquelas emoções vagas transmitidas pelos sentidos e que levam o nosso espírito a se fundir no Todo infinito.

Este subjetivismo é tão livre que pela vontade independente do artista se torna no mais desinteressado objetivismo, em que desaparece a determinação psicológica. Seria a pintura de Cézanne, a música de Strawinsky reagindo contra o lirismo psicológico de Debussy procurando, como já se observou, manifestar a própria vida do objeto no mais rico dinamismo, que se passa nas coisas e na emoção do artista.

Esta talvez seja a acentuação da moda, porque nesta arte moderna também há a vaga da moda, que até certo ponto é uma privação da liberdade. A tirania da moda declara Debussy envelhecido e sorri do seu subjetivismo transcendente, a tirania da moda reclama a sensação forte e violenta da interpretação construtiva da natureza pondo-se em íntima correlação com a vida moderna na sua expressão mais real e desabusada. O intelectualismo é substituído pelo objetivismo direto, que, levado ao excesso, transbordará do cubismo no dadaísmo. Há uma espécie de jogo divertido e perigoso, e por isso sedutor, da arte que zomba da própria arte. Desta zombaria está impregnada a música moderna que na França se manifesta no sarcasmo de Eric Satie e que o grupo dos "seis" organiza em atitude. Nem sempre a fatura desse grupo é homogênea, porque cada um dos artistas obedece fatalmente aos impulsos misteriosos do seu próprio temperamento, e assim mais uma vez se confirma a característica da arte moderna que é a do mais livre subjetivismo.

É prodigioso como as qualidades fundamentais da raça persistem nos poetas e nos outros artistas. No Brasil, no fundo de toda a poesia, mesmo liberta, jaz aquela porção de tristeza, aquela nostalgia irremediável, que é o substrato do nosso lirismo. É verdade que há um esforço de libertação dessa melancolia racial, e a poesia se desforra na amargura do humorismo, que é uma expressão de desencantamento, um permanente sarcasmo contra o que é e não devia ser, quase uma arte de vencidos. Reclamemos contra essa arte imitativa e voluntária que dá ao nosso "modernismo" uma feição artificial. Louvemos aqueles poetas que se libertam pelos seus próprios meios e cuja força de ascensão lhes é intrínseca. Muitos deles se deixaram vencer pela morbidez nostálgica ou pela amargura da farsa, mas num certo instante o toque da revelação lhes chegou e ei-los livres, alegres, senhores da matéria universal que tornam em matéria poética.

Destes, libertados da tristeza, do lirismo e do formalismo, temos aqui uma plêiade. Basta que um deles cante, será uma poesia estranha, nova, alada e que se faz música para ser mais poesia. De dois deles, nesta promissora noite, ouvireis as derradeiras "imaginações". Um é Guilherme de Almeida, o poeta de "Messidor", cujo lirismo se destila sutil e fresco de uma longínqua e vaga nostalgia de amor, de sonho e de esperança, e que, sorrindo, se evola da longa e doce tristeza para nos dar nas Canções Gregas a magia de uma poesia mais livre do que a Arte. O outro é o meu Ronald de Carvalho, o poeta da epopéia da "Luz Gloriosa" em que todo o dinamismo brasileiro se manifesta em uma fantasia de cores, de sons e de formas vivas e ardentes, maravilhoso jogo de sol que se torna poesia! A sua arte mais aérea agora, nos novos epigramas, não definha no frívolo virtuosismo que é o folguedo do artista. Ela vem da nossa alma, perdida no assombro do mundo, e é a vitória da cultura sobre o terror, e nos leva pela emoção de um verso, de uma imagem, de uma palavra, de um som à fusão do nosso ser no Todo infinito.

A remodelação estética do Brasil iniciada na música de Villa-Lobos, na escultura de Brecheret, na pintura de Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Vicente do Rego Monteiro, Zina Aita, e na jovem e ousada poesia, será a libertação da arte dos perigos que a ameaçam do inoportuno arcadismo, do academismo e do provincialismo. O regionalismo pode ser um material literário, mas não o fim de uma literatura nacional aspirando ao universal. O estilo clássico obedece a uma disciplina que paira sobre as coisas e não as possui. Ora, tudo aquilo em que o Universo se fragmenta é nosso, são os mil aspectos do Todo, que a arte tem que recompor para lhes dar a unidade absoluta. Uma vibração íntima e intensa anima o artista neste mundo paradoxal que é o Universo brasileiro, e ela não se pode desenvolver nas formas rijas do arcadismo, que é o sarcófago do passado. Também o academismo é a morte pelo frio da arte e da literatura: ignoro como justificar a função social da Academia. O que se pode afirmar para condená-la é que ela suscita o estilo acadêmico, constrange a livre inspiração, refreia o jovem e árdego talento que deixa de ser independente para se vasar no molde da Academia. É um grande mal na renovação estética do Brasil e nenhum benefício trará à língua esse espírito acadêmico, que mata ao nascer a originalidade profunda e tumultuária da nossa floresta de vocábulos, frases e idéias. Ah! se os nossos escritores não pensassem na Academia, se eles por sua vez a matassem em suas almas, que descortino imenso para o magnífico surto do gênio, enfim liberto de mais esse terror. Esse "academismo" não é só dominante na literatura. Também se estende às artes plásticas e à música. Por ele tudo o que a noss avida oferece de enorme, de esplêndido, de imortal, se torna medíocre e triste. Onde a nossa grande pintura, a nossa escultura e a nossa música, que não devia esperar o advento da arte de Villa-Lobos para ser a mais sincera expressão do nosso espírito divagando no nosso fabuloso tropical? E, no entanto, eis a paisagem brasileira. É construída como uma arquitectura, são planos, colunas, massas, A própria cor da terra é uma profundidade, os vastos horizontes absorvem o céu e dão a perspectiva do Infinito. como ela provoca a transposição da arte, que lhe dê o máximo realismo a mais alta idealidade! Eis as nossas gentes. Saem das florestas ou do mar. São os filhos da terra, móveis ágeis como os animais cheios de pavor, sempre em desafio do perigo e, no impulso do sonho, alucinados pela imaginação, caminhando pela terra na ânsia de conhecer e possuir. Onde a arte que transfigurou genialmente essa perpétua mobilidade, essa progressão infinita da alma brasileira.

Da libertação do nosso espírito sairá a arte vitoriosa. E os primeiros anúncios da nossa esperança são os que oferecemos aqui à vossa curiosidade. São estas pinturas extravagantes, estas esculturas absurdas, esta música alucinada, esta poesia aérea e desarticulada. Maravilhosa aurora! Deve-se acentuar que, exceto na poesia, o que se fez antes disso na pintura, na escultura, na música é inexistente. São pequenas e tímidas manifestações de um temperamento artístico apavorado pela dominação da natureza, ou são transplantações para o nosso mundo dinâmico de melodias mofinas e lânguidas, marcadas pelo metro acadêmico de outras gentes.

O que hoje fixamos não é a renascença de uma arte que não existe. É o próprio comovente nascimento da arte no Brasil, e, como não temos felizmente a pérfida sombra do passado para matar a germinação, tudo promete uma admirável "florada" artística. E, libertos de todas as restrições, realizaremos na arte o Universo. A vida será, enfim, vivida na sua profunda realidade estética. O próprio Amor é uma função da arte, porque realiza a unidade integral do Todo infinito pela magia das formas do ser amado. No universalismo da arte estão a sua força e a sua eternidade. Para sermos universais façamos de todas as nossas sensações expressões estéticas, que nos levem a à ansiada unidade cósmica. Que a arte seja fiel a si mesma, renuncie ao particular e faça cessar por instantes a dolorosa tragédia do espírito humano desvairado do grande exílio da separação do Todo, e nos transporte pelos sentimentos vagos das formas, das cores, dos sons, dos tatos e dos sabores à nossa gloriosa fusão no Universo.

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2012-01-25

Abono suplementar: a nova designação dos subsídios de férias e de Natal ou como o Governo (não) serve de exemplo...


http://dre.pt/pdf2sdip/2012/01/014000000/0189001890.pdf

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A última cantiga - Afonso Lopes Vieira

Esta palavra saudade
Aquele que a inventou
A primeira vez que a disse
Com certeza que chorou.

E tão felizes correm os meus dias
E o meu sono é aqui tão descansado,
Que inda espero pagar em agonia
Cada dia de agora, sossegado!

Afonso Lopes Vieira (n. em Cortes (Leiria) a 26 de Janeiro de 1878 e faleceu em Lisboa a 25 de Janeiro de 1946).

Ler do mesmo autor, neste blog:

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Há coisas que não se traduzem em palavras - Fernando Semana

Há coisas que não se traduzem em palavras:
A harmonia do bébé a brincar com o guizo
A beleza do loiro trigo das searas
A alegria que sinto ao ver o teu sorriso.

Outras só podem ser definidas pelo poeta:
O ainda radioso Sol poente sobre o mar,
A incomodidade desta aflição inquieta
Da necessidade urgente de te abraçar!

Fernando Semana, economista, nasceu em Valbom, concelho de Gondomar a 12 de Outubro de 1957

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2012-01-24

SÚPLICA A EROS - António Manuel Couto Viana

Quando regressa? É tão tarde!
A minha vida está suspensa.
O tempo arde.
A noite é imensa.

Conto os minutos pelo espelho.
A minha imagem, como foge!
Amar a morte é amar um velho.
Amar teu rosto é nascer hoje.

Quando regressas? Inquieta,
A inspiração anda a buscar-te.
Acode ao poeta! Acode ao poeta
Que faz do amor motivos d'arte.


in 366 poemas que falam de amor, uma antologia organizada por Vasco Graça Moura, Quetzal Editores

António Manuel Couto Viana (n. Viana do Castelo, 24 de Janeiro de 1923 - m. Lisboa, 8 de Junho de 2010) .

Ler do mesmo autor, neste blog: No Bazar; 23

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2012-01-23

ANSIEDADE - Edson Guedes de Morais

É urgente
que uma alegria qualquer
me aconteça.

É urgente que alguma coisa pura,
palavra ou gesto,
limpe meus olhos
desta tristeza.

Ter pena de mim mesmo
já não consola...

É preciso que alguma coisa boa
me aconteça,
sobre para mim
que há tanto tempo espero.

É preciso que alguma coisa boa
me aconteça,
para que esta ternura pela vida
não se perca
à falta de uns cabelos
para as minhas mãos.

poema extraído daqui

Edson Guedes de Morais nasceu em Campina Grande, Paraíba, a 23 de janeiro de 1930.

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2012-01-22

Benfica sofre para manter comando na classificação: golo de Galo dava um ponto aos "galos" ao intervalo


Benfica

3-1

Gil Vicente


Só com Aimar em campo o Benfica ultrapassou o galo


Já conhecedor do triunfo do Porto em casa frente ao Guimarães por 3-1 o Benfica sem ausências (Cardozo e Rodrigo no onze inicial e Aimar no banco) entrou em campo com a disposição habitual de marcar cedo. Todavia, não foi noite de grande inspiração encarnada.

Ainda assim na marcação de um livre de Nolito, Cardozo de cabeça inaugurou o marcador aos 24'. Antes disso os visitantes ameaçaram a «baliza de Artur com Garay (com medo de fazer falta) a permitir  que Hugo Vieira manobrasse dentro da área permitindo o cruzamento que Richard desviou e não fosse Maxi Pereira a desviar para canto o Gil Vicente abriria o marcador aos 13'.

O jogo do Benfica foi pouco fluido com a equipa do Gil a não conceder espaços e a resguardar-se no seu meio-campo com pouca inspiração de Gaitán e Witsel e a falta de um "pensante" na organização de jogo ofensiva do Benfica.

A equipa do Gil Vicente a perder espraiou-se em certos períodos pelo campo e aproveitando o nervosismo da defesa do Benfica foi ganhando alguns lances de bola parada. De um deles concedido por Garay, Artur desfez o cruzamento a punhos para fora da área e apareceu Rodrigo Galo (nada mais consonante, não é verdade?) a marcar o golo do empate no único golo que fez nesta época.

Os adeptos encarnados em grande número no Estádio (mais de 40 mil) passaram o intervalo nervosos e desconfiados mas o início da segunda parte ainda poderia ser pior. A equipa do Gil Vicente surpreendeu nos primeiros minutos e esteve perto de ganhar vantagem. Artur fez grande defesa a remate de Hugo Vieira (48'). Os defesas encarnados muito nervosos com demasiados passes para o guarda-redes ao ponto de até o árbitro ter entendido existir mais um quando Witsel intercepta para trás uma bola de carrinho que Artur agarrou com as mãos. Marco Ferreira assinalou livre indirecto que os gilistas desperdiçaram com um remate muito torto.

Jesus aos 57' meteu Aimar e aos 69' Bruno César passando a jogar praticamente num 4x2x4. O espectro do empate de Barcelos ganhava expressão na mente dos adeptos mas o Benfica jogava agora um futebol mais incisivo com a imaginação de Aimar a empurrar a equipa de Barcelos cada vez mais para a defesa.

Num remate do meio da rua de Rodrigo que ainda desviou nas costas de um defesa a bola foi parar ao fundo das redes da baliza de Adriano e passados dois minutos numa jogada iniciada por Aimar e pelo meio com tabela com Nolito foi finalizada pelo influente jogador argentino dando tranquilidade aos adeptos e aniquilando as aspirações da equipa de Paulo Alves.

Foi a altura para o Gil Vicente arriscar mais com a saída de Daniel para entrar um avançado, Guilherme, e mostrar que a equipa sabe jogar mas nessa altura o Benfica já assumira a vantagem decisiva jogando útil. Foi um triunfo difícil e sem nota artística desta vez para a equipa da Luz. Na próxima semana vai fora a Santa Maria da Feira enquanto o adversário directo o FC Porto vai a Barcelos jogar com este Gil Vicente. Este campeonato segue uma onda em que o primeiro dos clubes a ceder pode ser decisivo, sendo que daqui por cinco jogos há o Benfica-Porto.

O árbitro Marco Ferreira da Madeira não agradou nem a gregos nem a troianos. O principal pecado, a meu ver, foi deixar o jogo muito interrompido com muitas paragens na marcação de livres e até de lançamentos da linha lateral.


Estádio da Luz
16ª Jornada da Liga Zon Sagres 2011/2012

Árbitro: Marco Ferreira da AF Madeira
BENFICA: Artur Moraes, Emerson, Garay, Maxi Pereira, Luisão, Witsel, Nolito, Gaitán (Aimar 57'), Javi García (Bruno César 69'), Rodrigo (Luís Martins 90'), Cardozo

GIL VICENTE: Adriano, Daniel (Guilherme 76'), Halisson, Cláudio, Júnior Caiçara, André Cunha, Luís Manuel, Pedro Moreira, Rodrigo Galo, Hugo Vieira (Roberto 86'), Richard

Golos: 1-0 Cardozo 27'; 1-1 Rodrigo Galo 41'; 2-1 Rodrigo 72'; 3-1 Aimar 74'
Disciplina:
53' Cartão Amarelo para Daniel (Gil Vicente).
71' Cartão Amarelo para André Cunha (Gil Vicente).
88' Cartão Amarelo para Rodrigo (Benfica).

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She Walks in Beauty - Lord Byron

She walks in beauty, like the night
Of cloudless climes and starry skies;
And all that's best of dark and bright
Meet in her aspect and her eyes:
Thus mellow'd to that tender light
Which heaven to gaudy day denies.

One shade the more, one ray the less,
Had half impaired the nameless grace
Which waves in every raven tress,
Or softly lightens o'er her face;
Where thoughts serenely sweet express
How pure, how dear their dwelling-place.

And on that cheek, and o'er that brow,
So soft, so calm, yet eloquent,
The smiles that win, the tints that glow,
But tell of days in goodness spent,
A mind at peace with all
A heart whose love is innocent!


George Gordon Byron (22 January 1788 – 19 April 1824)

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2012-01-21

Torna um pensar de amor - Sandro Penna

Torna um pensar de amor
ao seio exausto, como
no entardecer de inverno
regressa contra o sol
o jovem a casa

Trad. Jorge de Sena

in Rosa do Mundo 2001 Poemas para o Futuro, Assírio Alvim

ORIGINAL

Torna un pensier d'amore
nel cuore stanco, come
nel tramonto invernale
ritorna contro il sole
il fanciullo alla casa.

Sandro Penna (n. em Perugia a 12 Jun 1906; m. 21 Jan 1977)

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2012-01-20

Citação do dia - Vítor Ramalho

O nosso défice é de alma não é de dinheiro...

in Sic Notícias 21:30

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Naufrágios - Fernando Semana

Rútilas pétalas aromam sílabas
Tintas em telas afogam sépias
Políticos mutilam projectos com vírgulas
Barcos naufragam em ilhas desertas.

Jogos de luzes no fundo do mar!

Juros de amores adiados não pagam dívidas,
Notícias dão conta de vidas perdidas;
Aromas de amoras rogam-me súplicas
Sobrevivo em busco das rimas secretas.

Sorte de ter amigos sem par...

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Trazei uma concha do mar... - Maria José Lascas Fernandes


Trazei uma concha do mar às minhas mãos
deixai-me tocar-lhe, devagar tão devagar
sentir como podia ser feliz
se me soubesse dar

ao mar
ao mar

Maria José Lascas Fernandes, nasceu em 20 de Fevereiro de 1962 em Lavre, Alentejo.

Ler da mesma autora, no Nothingandall: Amo-te

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2012-01-19

Surdo, Subterrâneo Rio - Eugénio de Andrade

Surdo, subterrâneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.

Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
- surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?

Eugénio de Andrade (nasceu em Póvoa de Atalaia a 19 Jan. 1923; m. no Porto a 13 Jun. 2005)

Do mesmo autor ler neste blog:
Canção
Hoje deitei-me ao lado da minha solidão
To A Green God
Urgentemente - Eugénio de Andrade
Adeus
Poems in English
Pequena elegia de Setembro
Às vezes tu dizias ...
Poema XVIII
Os amantes sem dinheiro
As amoras
Post Scriptum

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A Vingança da Porta - Alberto de Oliveira


imagem daqui

Era um hábito antigo que ele tinha:
Entrar dando com a porta nos batentes.
— Que te fez essa porta? a mulher vinha
E interrogava. Ele cerrando os dentes:

— Nada! traze o jantar! — Mas à noitinha
Calmava-se; feliz, os inocentes
Olhos revê da filha, a cabecinha
Lhe afaga, a rir, com as rudes mãos trementes.

Urna vez, ao tornar à casa, quando
Erguia a aldraba, o coração lhe fala:
Entra mais devagar... — Pára, hesitando...

Nisto nos gonzos range a velha porta,
Ri-se, escancara-se. E ele vê na sala,
A mulher como doida e a filha morta.

Alberto de Oliveira, pseudónimo de Antônio Mariano de Oliveira nascido em 28 de abril de 1857, no distrito de Palmital, município de Saquarema, RJ, faleceu em Niterói, a 19 de janeiro de 1937.

Ler do mesmo autor, neste blog:
A Alma dos Vinte Anos
Vaso Chinês
Beijos do Céu
Aspiração
Horas Mortas

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2012-01-18

MEU AMOR MEU AMOR - Ary dos Santos

                   Meu amor    meu amor
                meu corpo em movimento
                   minha voz à procura
                  do seu próprio lamento.
Meu limão de amargura    meu punhal a escrever
   nós parámos o tempo    não sabemos morrer
                 e nascemos    nascemos
                    do nosso entristecer.

                   Meu amor    meu amor
                    meu pássaro cinzento,
                       a chorar a lonjura,
                    do nosso afastamento

                   Meu amor    meu amor
                    meu nó de sofrimento
                     minha mó de ternura
                   minha nau de tormento
este mar não tem cura    este céu não tem ar
   nós parámos o vento    não sabemos nadar
                e morremos    morremos   
                      devagar    devagar. 

José Carlos Pereira Ary dos Santos (n. em São Sebastião da Pedreira, Lisboa, a 7 de Dezembro de 1936 — m. 18 de Janeiro de 1984)

Ler do mesmo autor:

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A partitura do tempo é composta - Alves Bento Belisário

A partitura do tempo é composta
De figuras de liberdade estreita.
Ser-se é ter-se da placenta ao último respirar que deita
A solidão como única verdade e resposta.

É trazer nas veias o mais solitário dos ingredientes
E percorrer os dias com pés descalços sobre um anoitecer
Que é a luz que nos deixa olhar e ver
A frágil disposição das coisas e das gentes.

Julho 2005
in Poentropia, Editorial 100

Alves Bento Belisário é pseudónimo de Manuel Joaquim Moreira Bento, nascido a 18 de Janeiro de 1969, na Freguesia de Medas, Concelho de Gondomar.

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2012-01-17

Súplica - Miguel Torga

imagem daqui

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz, seria
Matar a sede com água salgada.

Adolfo Correia da Rocha que usou o pseudónimo de Miguel Torga, nasceu em São Martinho de Anta, Sabrosa, Trás-os-Montes, a 12 de Agosto de 1907; morreu em Coimbra a 17 de Janeiro de 1995.

Ler do mesmo autor, neste blog:Poema Melancólico a não sei a que Mulher; Mãe; Preservação; Adeus; Depoimento; Procura; Ficam as Sombras; Sei um ninho; Queixa; Hora de amor; Mea culpa; Anátema; Livro de Horas; Encontro; Quase um poema de amor; Perfil; Exorcismo; Bucólica; Arquivo; Rogo; Glória.

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2012-01-16

Silêncio - Ulisses Duarte

Nesta memória onde o silêncio fala
a viajar no meu sofá sem rumo,
percorro o mundo, sem sair da sala,
com palavras de fumo.
É o silêncio do musgo preso ao muro
de retardar a infância...
Por isso, ainda hoje me procuro
e perco na distância!
Há silêncios que voam como eu
num espanto de luz e nevoeiro
com uma estrela a navegar no céu
na mão dum marinheiro...
Nesta memória onde o silêncio fala
de lagos azuis ou doutra cor
onde um menino cresce e não se cala
quando fala de amor!
Ainda hoje o lago tem pedaços
com bailados de sombras e penumbra
pra recordar os sonhos onde os lábios
o coração afunda...
A fantasia dorme em teu regaço
e Pã dedica a Ceres o seu regresso
quando o silêncio quebra em mil pedaços
pra renascer num verso!

in PALAVRAS COM DISTÂNCIA

Guilherme Ulisses Duarte nasceu em Matosinhos em 11 de março de 1923, tendo falecido em Lisboa em 16 de janeiro de 2008


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2012-01-15

Limites dos Sete Cantos da Cidade de S Filipe de Benguela - Neves e Sousa

imagemn daqui

Recreei-te em saudade e cor
Quando me afastei de ti
E os limites que te fiz
São dentro do meu sentir.

Por cima a cor neutra e desdobrada
Dum céu de cinzas de passado.

O Sombreiro como um marco
marco um lado.

As curvas nuas e douradas
de montes femininos
Nus até à cintura verde
Verde dos longos canaviais
Anunciam o limite de Benguela.

Na areia a longa e estreita ferida
Do Cavaco
Escorrendo o sangue de água
Que abre em bananais sombrios
Caminhos às fábulas de antanho
Marca outra fronteira da Cidade.

Para outro lado estende-se o sertão
Palmeiras espetadas pelo mato
Como flechas da aljava
do Soba Caparandanda
Sombreiam a curva dos caminhos
Perdidos na imensidão...

Por outro limite tem Benguela
Saudade no meu coração
E pela frente aberto e vasto
Tem este mar ardente de oiro e poentes
Este mar imenso que sorri ao longe.

Este mar imenso que também chora
E conta histórias de espumas e naufrágios,

Mar que também banha os seios jovens
Das moças que embalam sonhos
Nas sombras azuis dos quintalões

Altas paredes de adobe
Cheias de sonhos e histórias

Que viram as longas caravanas da borracha
E passos perdidos pelos caminhos sem glórias

Molhadas de lágrimas,
Salobras lágrimas
De anseios há muito mortos...
Mais amargos do que o mar
O mar salgado que chora
Cantos de não mais voltar...

Lábios de mar, feitos de espuma, beijando o céu...
Sons dos sinos da Senhora do Pópulo
(Que sabem tudo e que viram tudo,
e nunca contam nada...)
Aconchegam os amantes que se beijam
nos velhos bancos verdes do jardim...

Sob as árvores antigas
Que o vento sul esporeia
Como uma zebra azul
Feita de nuvens e céu.

Coração quente e generoso de Benguela
Bairros do Benfica, Cassôco,
Águas da Cacimba da Rua Nove
Repouso claro e lento
De luas nascidas longe
Na noite semeada de astros
Como olhos de Cazumbis,...

Na noite enorme e feiticeira da cidade

Bruxuleante do bruxedo de fogueiras
Feitas de amores velhos, carcomidos,
Adormecidos, nas velhas casas compridas.

E de fogueiras de verdade que acalentam
Ritmos de guardas da noite
tocados em quissanges melodiosos
Subtis como a própria alma da brisa
Que arranca da terra o sangue vivo
Duma pena antiga que se perde...

Noite semeada de batuques
Batuques que me parecem

O palpitar dum coração imenso
Que se esvai nas noites desdobradas
Num rosário de auroras sucessivas.

Minha Benguela nocturna e antiga
Das amplas ruas cheirando a mar
Colmeia de lembranças que me ferem
Perante a dura realidade do progresso...

Volta:
Volta para os sete limites deste sonho
Sob a grande tristeza vegetal das frondes
Cheias de mistérios ancestrais
Do meu passado que não volta mais...

Albano Silvino Gama de Carvalho das Neves e Sousa nasceu, a 15 de Janeiro de 1921, em Matosinhos; fgaleceu em Salvador, Bahia/Brasil, em 11 de Maio de 1995.

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Citadão do dia / Quotation of the day - Martin Luther King


- We will not be satisfied until justice rolls down like waters and righteousness like a mighty stream

Nós não estaremos satisfeitos até que a justiça corra como água e a retidão como um caudaloso rio.

Martin Luther King , Jr. (Atlanta, 15 de janeiro de 1929 — Memphis, 4 de abril de 1968)

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2012-01-14

Anoitecer - Cassiano Ricardo

Homem, cantava eu como um pássaro
ao amanhecer. Em plena unanimidade
de um mundo só.
Como, porém, viver num mundo onde todas as coisas
tivessem um só nome?

Então, inventei as palavras.
E as palavras pousaram gorjeando sobre o rosto
dos objetos.

A realidade, assim, ficou com tantos rostos
quantas são as palavras.

E quando eu queria exprimir a tristeza e a alegria
as palavras pousavam em mim, obedientes
ao meu menor aceno lírico.

Agora devo ficar mudo.
Só sou sincero quando estou em silêncio.

Pois, só quando estou em silêncio
elas pousam em mim - as palavras -
como um bando de pássaros numa árvore
ao anoitecer.

Cassiano Ricardo Leite (nasceu em São José dos Campos, São Paulo, em 26 de Julho de 1895; faleceu em 14 de Janeiro de 1974).


Do mesmo autor:
Tarde no Campo
Quadro Antigo
Desejo;
O Sangue das Horas
Rotação
A Desenterrada

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2012-01-13

MI VIDA ES COMO UN LAGO - Salvador Novo

Mi vida es como un lago taciturno.
Si una nube lejana me saluda,
si hay un ave que canta, si una muda
y recóndita brisa
inmola el desaliento de las rosas,
si hay un rubor de sangre en la imprecisa
hora crepuscular,
yo me conturbo y tiendo mi sonrisa.
¡Mi vida es como un lago taciturno!
Yo he sabido formar, gota por gota,
mi fondo azul de ver el Universo.
Cada nuevo rumor me dio su nota,
cada matiz diverso
me dio su ritmo y me enseñó su verso.
Mi vida es como un lago taciturno....


Salvador Novo López (n. Cidade de México, 30 Jul. 1904 – m. 13 Jan. 1974)

Ler do mesmo autor no Nothingandall: Este Perfume; Amor; XIV

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2012-01-12

Com Dedicatória

Numa tarde de calor
À primeira tentativa
Fruto de terno amor:
Eis a encomenda exclusiva

Rosada e rechonchudinha
Tamanha era a tua graça
Orgulho da avozinha
Quando às compras iam à praça

Poucas as noites sem dormir,
Muito fácil de aturar...
Bons presságios para o devir
Que o tempo há-de criar.

«Tenho jeito de modelo» - disse
E resoluta, dito e feito
De Gondomar tornou-se Miss
Título qu'ainda não foi desfeito.

Tempo escasso para a piscina,
Estudiosa e direitinha…
Ia-se dedicar à medicina;
Influenciada pela madrinha

Tais projectos foram caducos.
E como de números era prática,
Em vez de aturar malucos
Fez-se Mestre em Matemática!

Menina: tem os pés na terra
Mas com sonhos no porvir!
Porque quem nunca erra
Não faz parte do sentir…

Não sigas o que diz o Coelho:
emigrar para ser professora.
Políticos que pensam com o joelho
Não! Quero-te ver DOUTORA!

Muitos felicidades te desejo
Neste dia doze de Janeiro
Mas porque a crise é ensejo
Prendas? Dou-te este poema… foleiro!


Fernando Semana

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SONETO - Rubem Braga

Foto daqui Autor: Padroense

E quando nós saímos era a Lua,
Era o vento caído e o amor sereno
Azul e cinza-azul anoitecendo
A tarde ruiva das amendoeiras.

E respiramos, livres das ardências
Do sol, que nos levara à sombra cauta
Tangidos pelo canto das cigarras
Dentro e fora de nós exasperadas.

Andamos em silêncio pela praia.
Nos corpos leves e lavados ia
O sentimento do prazer cumprido.

Se mágoa me ficou na despedida
Não fez mal que ficasse, nem doesse –
Era bem doce, perto das antigas.
(1947)
Rubem Braga (nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, ES, a 12 de janeiro de 1913; m. 19 Dez. 1990 no Rio de Janeiro)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Ao Espelho
Despedida
Ode aos Calhordas

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2012-01-11

Soneto De «O Seu Nome» - João de Deus



Ela não sabe a luz suave e pura
Que derrama numa alma acostumada
A não ver nunca a luz da madrugada
Vir raiando, senão com amargura!

Não sabe a avidez com que a procura
Ver esta vista, de chorar cansada,
A ela... única nuvem prateada,
Única estrela desta noite escura!

E mil anos que leve a Providência
A dar-me este degredo por cumprido,
Por acabada já tão longa ausência,

Ainda nesse instante apetecido
Será meu pensamento essa existência...
E o seu nome, o meu último gemido.
[Campo de Flores, 1893]
in Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora

João de Deus de Nogueira Ramos, nasceu em 8 de Março de 1830 em São Bartolomeu de Messines, Silves e faleceu em Lisboa em 11 de Janeiro de 1896.

Ler do mesmo autor no Nothingandall:
Na Campa de Antero de Quental
Amor
Adeus
De Dia a Estrela de Alva Empalidece
A Cigarra e a Formiga
A Vida
Agora!
Miséria...

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2012-01-10

Balada - Gabriela Mistral


Él pasó con otra;
yo le vi pasar.
Siempre dulce el viento
y el camino en paz.
¡Y estos ojos míseros
le vieron pasar!

Él va amando a otra
por la tierra en flor.
Ha abierto el espino;
pasa una canción.
¡Y él va amando a otra
por la tierra en flor!

El besó a la otra
a orillas del mar;
resbaló en las olas
la luna de azahar.
¡Y no untó mi sangre
la extensión del mar!

El irá con otra
por la eternidad.
Habrá cielos dulces.
(Dios quiera callar.)
¡Y él irá con otra
por la eternidad!
 
Gabriela Mistral, pseudónimo de Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga (n. em 07 de Abril de 1889 em Vicuña, Chile – m. em New York, 10 Jan. 1957). Foi Nobel da Literatura em 1945.

Ler da mesma autora: Apegado a mi; Besos; Dá-me a mão; La Manca; Los Sonetos de La Muerte II / Segundo Soneto da Morte; Riqueza



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2012-01-09

Tecendo a Manhã - João Cabral de Melo Neto

1

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

2

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

João Cabral de Melo Neto (n. no Recife, a 9 Jan 1920, m. no Rio de Janeiro a 09 Out 1999)

O Luto no Sertão
A Mulher e a Casa
Mulher Sentada
Num Monumento à Aspirina
A Educação pela Pedra

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2012-01-08

Benfica goleia a União de Leiria e isola-se no primeiro lugar

União de Leiria logoBenfica logoU. Leiria

0-4

Benfica



A réplica da União de Leiria só durou a primeira parte

Em jogo de extrema importância tanto mais que Sporting e Porto empataram ontem o Benfica apresentou-se sem Aimar e sem Gaitán (que, por impedimentos físicos, nem no banco se sentaram) o que não deixou de preocupar a mole benfiquista que encheu o Estádio da Marinha Grande. Em contrapartida a aposta de Jesus na dupla de avançados Cardozo e Rodrigo não podia deixar de preocupar Manuel Cajuda que jogou com um trio de centrais.

A equipa leiriense iniciou o jogo com grande velocidade, muita pressão e disponibilidade física dos seus jogadores pondo o jogo num ritmo alto e exigindo uma resposta dos encarnados de idêntico nível, e com concentração competitiva. A equipa da casa dispôs de uma grande oportunidade de golo aos 8' com o rápido Djaniny a ganhar posição na área a ser estorvado por Garay mas ainda assim a finalizar em termos de bater Artur mas apareceu Maxi Pereira a evitar que a bola transpusesse a linha de golo.

Foi feliz o Benfica que logo a seguir numa jogada pela esquerda em velocidade criou desequilíbrios na defesa leiriense  que ainda tirou a bola da área mas para Bruno César recolher levantando-a para disparar não deixando hipóteses para Gottardi, inaugurando o marcador.

Os minutos subsequentes demonstraram que a equipa leiriense não se amedrontou com o golo mantendo um ritmo vivo no jogo e grande disponibilidade física impondo à equipa do Benfica e especialmente ao seu meio-campo grande esforço e atenção. Certo que também logo se desconfiou da possibilidade de esta capacidade se manter durante a segunda parte.

Aos 24' Rodrigo, bem servido por Cardozo, poderia ter arrumado com o jogo bem mais cedo, mas Gottardi saiu quase ao limite da área e com o corpo evitou que o remate do espanhol nascido no Rio de Janeiro tivesse sucesso.

A segunda parte foi diferente e praticamente toda dominada pelo Benfica. A substituição ao intervalo de Patrick por Jô fragilizou mais a defesa leiriense. Logo no reatamento Gottardi opôs-se a Rodrigo e à recarga deficiente de Cardozo mas pouco depois Rodrigo vem ao meio campo defensivo recuperar uma bola para  fazer uma transição rápida com um passe linear para Cardozo disparar de pé esquerdo fazendo um grande golo. Com 0-2 o jogo ficou resolvido...

Com o Benfica praticamente a jogar em casa os locais perceberam que  não tinham capacidade para se opor ao poderio benfiquista que com o jogo de feição passou a evidenciar a grande capacidade de alguns dos seus jogadores. Bruno César em destaque, após jogada colectiva envolvente iniciada pela esquerda em Nolit,  libertopu Rodrigo para um desvio subtil frente a Gottardo e fazer o terceiro golo.

Aos 71' Jesus substituiu o paraguaio goleador por Saviola e dois minutos depois o Benfica goleava com a marcação do quarto golo, segundo da autoria de Rodrigo, iniciada num passe de calcanhar de Bruno César libertando Maxi Pereira na direita que fez um cruzamento assistência de morte para Rodrigo bisar.

Jô teve uma iniciativa rematando de fora da área mas fazendo passar a bola por cima da barra e tiraria ainda o cartão ammarelo a Javi Garcia (quinto que o  impede de defrontar o Votória de Setúbal).

As substituições que se seguiram, mais de rotação de jogadores no caso dos encarnados,  já nada podiam alterar significativamente num jogo que se iniciou com uma auréola de dificuldade e que se concluiu com expressivo resultado levando o ataque encarnado a ser o mais goleador da Liga superando o Porto.

Aos 88' na marcação de um livre por falta de Luisão (que também viu amarelo) Artur com boa defesa evitou que Schaffer tivesse marcado o golo de honra da equipa da casa.

A arbitragem comandada pelo bracarense Cosme Machado não teve problemas de maior num jogo em que os jogadores lhe facilitaram a vida.

Na próxima jornada o Benfica joga em casa frente ao Vitória de Setúbal, o Porto recebe o Rio Ave enquanto o jogo maior da jornada é o Braga-Sporting.

Jogo no Estádio Municipal da Marinha Grande
Árbitro: Cosme Machado (Braga)
UD LEIRIA: Gottardi, Ivo Pinto, Marco Soares, Edson, Patrick (Jô ao interv.), Manuel Curto, John Ogu, Tiago Terroso (Ruben Brígido 81'), Marcos Paulo, Elvis (Shaffer 81'), Djaniny.

BENFICA (Titulares): Artur Moraes, Maxi Pereira, Luisão, Garay, Emerson, Javi García (Matic 81'), Witsel, Nolito, Rodrigo (Rodrigo Mora 79'), Bruno César, Cardozo (Saviola 71')

25' Cartão Amarelo para Djaniny (UD Leiria).
43' Cartão Amarelo para Edson (UD Leiria).
62' Cartão Amarelo para Javi García (Benfica).
87' Cartão Amarelo para Luisão (Benfica).

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Meu Sonho Familiar - Paul Verlaine

Às vezes sonho o sonho estranho e persistente
de u'a mulher que eu amo e me é desconhecida.
Sempre a mesma não é, essa mulher querida,
mas também, é certo, não é outra, totalmente.

Ela me compreende e me ama... Tão somente
a essa mulher desvendo o coração e a vida.
Mas também minha fronte, pela dor ferida,
ela só é quem sabe afagar, docemente...

Ela é morena, ou loira, ou ruiva? Eu o ignoro.
Seu nome? Apenas sei que é doce e que é sonoro
como os nomes de amantes que a Vida exilou.

Parece olhar de estátua o seu olhar vazio.
E tem na voz, longínqua e calma, o lento, o frio,
o triste acento de uma voz que se calou...

(trad. de Luís Martins)
Paul Marie Verlaine (n. Metz, 30 de Março de 1844, – m. Paris, 8 de Janeiro de 1896)

Ler do mesmo autor:

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2012-01-07

Por um rosto chego ao teu rosto - Hélder Moura Pereira

Por um rosto chego ao teu rosto,
noutro corpo sei o teu corpo.
Num autocarro, num café me pergunto
porque não falam o que vai
no seu silêncio aqueles cujo olhar
me fala da solidão.
Esqueço-me de mim. Tão quieto
pensando na sua pouca coragem, a minha
sempre adiada. Por um rosto
chegaria o teu rosto, mesmo de um convite
e desenha no ar o hábito
por que andou antes de saíres
do espaço à sua volta. Estás longe,
só assim podes pedir algumas horas
aos meus dias. Sem fixar a voz
a tua voz é uma corda, a minha
um fio a partir-se.

in Poemas de Amor, Antologia de poesia portuguesa, Organização e Prefácio Inês Pedrosa
Publicações Dom Quixote

Helder Moura Pereira nasceu em Setúbal a 7 de Janeiro de 1949

Ler do mesmo autor, no Nothingandall: Adio o Convite, Provoco

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Afinador de Poemas - Antonio Barahona

Agora já tem eco o som da chuva,
o assobiar dos Anjos rente ao vidro,
tudo, tudo tão nítido insinua
segredo ciciado ao meu ouvido.

Agora tem poder o som dos versos:
sílabas do Invisível pelas veias
que já desfraldam velas de navios
tão prestes a zarpar d’ignotas praias

antes que caia a tempestade com seus raios.
Escuto agora uma só voz e não me engano,
voz que nunca responde ao que pergunto:

devolve intacta a minha angústia e calafrios
de passarão de trilo dissonante:
ouvem-se quilhas de navios cortar o sangue.

António Manuel Baptista Barahona da Fonseca nasceu em Lisboa a 7 de Janeiro de 1939

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2012-01-06

Nada sou, nada posso, nada sigo - Fernando Pessoa

Nada sou, nada posso, nada sigo.
Trago, por ilusão, meu ser comigo.
Não compreendo compreender, nem sei
Se hei de ser, sendo nada, o que serei.

Fora disto, que é nada, sob o azul
Do lato céu um vento vão do sul
Acorda-me e estremece no verdor.
Ter razão, ter vitória, ter amor

Murcharam na haste morta da ilusão.
Sonhar é nada e não saber é vão.
Dorme na sombra, incerto coração.


6-1-1923

Extraído de Obra Essencial de Fernando Pessoa, POESIA DO EU, edição Richard Zenith, Assírio & Alvim

Fernando Pessoa

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2012-01-05

Ponderação do Rosto e Olhos de Anarda - Manuel Botelho de Oliveira

Quando vejo de Anarda o rosto amado,
Vejo ao céu e ao jardim ser parecido
Porque no assombro do primor luzido
Tem o sol em seus olhos duplicado.

Nas faces considero equivocado
De açucenas e rosas o vestido;
Porque se vê nas faces reduzido
Todo o império de flora venerado.

Nos olhos e nas faces mais galharda
Ao céu prefere quando inflama os raios,
E prefere ao jardim, se as flores guarda:

Enfim dando ao jardim e ao céu desmaios,
O céu ostenta um sol, dois sóis Anarda,
Um maio o jardim logra; ela dous maios.

Extraído de Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Porto Editora
Manuel Botelho de Oliveira (n. Salvador, 1636 — m. Salvador, 5 de janeiro de 1711)

Ler do mesmo autor: Rosa, e Anarda

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2012-01-04

Minh'alma é triste I - Casimiro de Abreu


Minh'alma é triste como a rola aflita
Que o bosque acorda desde o alvor da aurora,
E em doce arrulo que o soluço imita
O morto esposo gemedora chora.

E, como a rôla que perdeu o esposo,
Minh'alma chora as ilusões perdidas,
E no seu livro de fanado gozo
Relê as folhas que já foram lidas.

E como notas de chorosa endeixa
Seu pobre canto com a dor desmaia,
E seus gemidos são iguais à queixa
Que a vaga solta quando beija a praia.

Como a criança que banhada em prantos
Procura o brinco que levou-lhe o rio,
Minha'alma quer ressuscitar nos cantos
Um só dos lírios que murchou o estio.

Dizem que há, gozos nas mundanas galas,
Mas eu não sei em que o prazer consiste.
— Ou só no campo, ou no rumor das salas,
Não sei porque — mas a minh'alma é triste!

Casimiro José Marques de Abreu (nasceu no dia 4 de Janeiro de 1839, em Barra de São João, no Estado do Rio, e morreu no dia 18 de outubro de 1860, em Nova Friburgo).

Ler do mesmo autor, neste blog:
A Valsa
Canção do Exílio
O Que é Simpatia
Meus oito anos
Quando ?!...
Clara
Amor e Medo
Minha Alma é Triste III
Canto de Amor IV

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2012-01-03

Diferença abismal (só) após o Guimarães ficar reduzido a 10

Benfica logoV. Guimarães logo V. Guimarães

1 - 4

S.L. Benfica


Com Cardozo a música é outra...


No onze inicial Jesus surpreendeu ao apostar na dupla inédita da frente: Saviola e Nélson Oliveira. De resto a guarda-redes Eduardo - que esteve muito bem e foi fundamental no resultado favorável ao final da primeira parte - e, de resto, quase a principal equipa (ainda que sem Gaitán): Maxi Pereira, Luisão, Garay e Emerson; Javi, Witsel, Nolito e Aimar.  Capdevilla no banco (e voltou a não entrar) representa que se trata de um jogador que não conta para Jesus (eu bem gostaria de ganhar 10% do que ele ganha que certamente mesmo a jogar futebol daria o mesmo rendimento que ele, porque se não é para jogar nem precisa de saber jogar.

Entrada fulgurante do Benfica a comandar as operações e a não estranhar  a vantagem cedo adquirido. Cruzamento largo de Nolito da esquerda em diagonal para trás da defesa vimaranense a aproveitar a desmação de Witsel que recebeu bem e rematou pelo meio das pernas de Douglas inaugurando o marcador aos 11'.

A surpresa dá-se de seguida.  A equipa do Benfica deixa de jogar o Vitória reage à desvantagem, joga agressivamente, dispõe-se no meio-campo encarnado, ganha sucessivamente livres e cantos e a surpresa passa a ser o facto de o Benfica de manter à frente do marcador. Logo após o golo encarnado num desses livres  N´Diaye aparece solto e finaliza por cima da barra. O jogo (não)  flui mostra-se feio com muitas faltas, com a arbitragem de Paixão a evidenciar o pouco jeito para estas coisas do futebol - cantos em vez de pontapé de baliza e vice-versa -, muitas faltas (às dezenas mesmo) e muitos cartões amarelos e o comportamento dos jogadores a também não ajudar. Protestos com e sem razão e, claro, cartões amarelos para os jogadores. Um deles - para Javi - bem podia ter sido de outra cor face a um desaguisado num lance de bola parada.

Enfim, em termos de futebol o Vitória levava perigo nos livres e num lançamento para Edgar este isolou-se mas não soube desfeitear Eduardo que foi aos pés do adversário tirar-lhe a bola. O resultado de 1-0 ao intervalo parecia lisonjeiro para o Benfica.

Ao intervalo, todavia, Jesus pensaria que com as entradas de Bruno César e Cardozo no lugar da dupla inoperante Saviola e Nélson Oliveira o Benfica daria xeque-mate. Pois bem, de livre - como podia ser de outro modo? - o Guimarães chegou ao empate ainda não estavam decorridos dois minutos por João Paulo (após lançamento para a área de Anderson) e a equipa da casa entusiasmada adicionou ainda mais irreverência à agressividade já antes exibida e o resultado só poderia ser o que deu. Bruno Paixão ainda perdoou o segundo cartão amarelo a João Paulo numa entrada extemporânea sobre Maxi Pereira, mas não demorou muito o segundo cartão amarelo (indiscutível) a Pedro Mendes (61').

O treinador vimaranense ainda procurou resguardar o meio-campo defensivo com a saída do avançado Toscano para entrar um médio Leonel Olímpio, mas as cartas estavam definitivamente lançadas em termos favoráveis aos visitantes.

Paixão, sem coragem não marca um penalty sobre Nolito, numa tabelinha Nolito-Aimar, mas com a expulsão o jogo foi só de um sentido e Cardozo apareceu em evidência. Pelos golos que marcou e pelos que desperdiçou. É assim a sina de um qualquer  (e de todos) avançado mas a deste paraguaio tem a chancela de fazer golos inesperados e de falhar golos fáceis. Na quina da área, praticamente desenquadrado com a baliza,  domina a bola vira-se e remata à meia-volta de pé esquerdo - obviamente!-, e a bola a anichar-se nas redes, a meia-altura junto ao poste, sem hipóteses para Douglas.


As oportunidades sucediam-se a ritmo alucinante e o Benfica podia ter terminado com seis ou sete golos: numa jogada extraordinária a bola é deixada para Witsel desperdiçar por cima da barra, Douglas tirou um outro golo fazendo grande defesa a remate de Cardozo, este sozinho em plena área atira ao lado, enfim...

Cardozo de cabeça marcaria o terceiro golo após cruzamento da direita de Maxi Pereira (78')  e de cabeça marcaria o quarto não fosse Douglas in-extremis a defender mas com a bola a sobrar para Rodrigo que também molhou a sopa (88').

Resultado desnivelado mas com uma performance algo ambígua por parte do Benfica. O que vale mais? A preocupante meia-hora final da primeira parte em que o Benfica não segurou a bola a meio-campo ou a meia-hora final da segunda parte (com o Guimarães reduzido a dez)?

Que importa a  resposta a estas questões? O que interessa é que o Benfica tem criadas todas as condições para estar nas meias-finais da Taça das Liga onde as probabilidades de jogar contra o FC Porto são quase de 100%...

Para além deste triunfo o dia benfiquista ficou marcado com o regresso ao clube do melhor jogador mundial de futsal. Ricardinho regressa ao clube que o projectou mundialmente.

Jogo para a 1ª. Jornada da 3ª. fase da Taça da Liga 2011/2012
Estádio Municipal de Guimarães
Árbitro: Bruno Paixão

V. GUIMARÃES: Douglas, Alex, N´Diaye, João Paulo, Anderson Santana, Pedro Mendes, Paulo Sérgio (Targino 73'), Nuno Assis (Faouzi 86'), El Adoua, Toscano (Leonel Olímpio 63'), Edgar Silva.


BENFICA: Eduardo, Maxi Pereira, Luisão, Garay, Emerson, Nolito, Witsel, Javi García, Aimar (Rodrigo 71'), Nélson Oliveira (Cardozo ao interv.), Saviola (Bruno César ao interv.).
Golos: 0-1 Witsel 11'; 1-1 João Paulo 47'; 1-2 Cardozo 65'; 1-3 Cardozo 78'; 1-4 Rodrigo 88'

Disciplina:
21' Cartão Amarelo para Paulo Sérgio (V. Guimarães), por protestos.
26' Cartão Amarelo para Pedro Mendes (V. Guimarães) por falta sobre Nélson Oliveira.
28' Cartão Amarelo para Javi García (Benfica) por empurrar N'Diaye.
32' Cartão Amarelo para João Paulo (V. Guimarães), por falta sobre Aimar que saia isolado para a baliza.
45'+1Cartão Amarelo para Alex (V. Guimarães), por falta sobre Emerson. Livre perigoso para o Benfica.
47' Cartão Amarelo para Nolito (Benfica), por protestos.
61' Segundo cartão Amarelo e respectivo Vermelho para Pedro Mendes (V. Guimarães), por falta sobre Bruno César.

84' Cartão Amarelo para Cardozo (Benfica), por jogar a bola após o apito do árbitro a assinalar forta de jogo.

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do tempo que passa - Vasco Graça Moura

nós que vivemos graves junto da madeira
velha de nossas casas mastigando
alguns talos de couve mal cozida
e pano de lençol nos dentes já usados

nós que transcrevemos as manchas e rasgamos
rascunhos muito antigos e alguns nossos projectos
recuperando móveis e faianças
e todas as maçãs onde habitámos

nós que temos cimento ferramentas greves
e um pouco de corelli e um sistema
respiratório e caracteres de imprensa
e um plano geral de arruamentos

e que temos livros e que estamos vivos
podemos construir alguma coisa

(Semana Inglesa, 1965)

Extraído de Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI
Porto Editora

Vasco Navarro da Graça Moura nasceu na Foz do Douro (Porto), a 3 de Janeiro de 1942.

Ler do mesmo autor, neste blog:
Blues da Morte de Amor
o soneto encontrado na garrafa
Soneto do amor e da morte
Lamento por Diotima

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2012-01-02

Citação do dia - Daisaku Ikeda


O futuro começa neste instante!
Precisamos definir o que deve ser feito neste momento;
E como estabelecer uma firme base
No exato local em que estamos.
É importante vencer aqui e agora!!!

Daisaku Ikeda (池田 大作 ) nasceu em Tóquio, Japão, a 2 de Janeiro de 1928

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2012-01-01

Eu queria Cantar-te Um Fado, de António de Sousa Freitas, na voz de Amália

Eu queria cantar-te um fado
Que toda a gente ao ouvi-lo
Visse que o fado era teu.
Fado estranho e magoado,
Mas que pudesses senti-lo
Tão na alma como eu.

E seria tão diferente
Que ao ouvi-lo toda a gente
Dissesse quem o cantava.
Quem o escreveu não importa
Que eu andei de porta em porta
Para ver se te encontrava.

Eu hei-de por nalguns versos
O fado que é dos teus olhos
O fado da tua voz.
Nossos fados são diversos
Tu tens um fado eu tenho outro
Triste fado temos nós.

Letra António de Sousa Freitas(nasceu em Buarcos, Figueira da Foz a 1 de Janeiro de 1921 - m. Lisboa, 30 de Junho de 2004)
Música Franklin Godinho (Fado Franklin de Sextilhas)

Vamos ouvi-lo na voz de Amália Rodrigues

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Eternamente - Espínola de Mendonça

Quando eu morrer hás-de sentir o vento
a gritar através da noite escura.
- Sou eu, sou eu, que vim da sepultura
protestar contra o nosso afastamento.

Quando eu morrer, se ouvires um lamento
rezado pela brisa que murmura,
sou eu, sou eu, chorando com ternura
a saudade do nosso casamento.

Quando eu morrer, escuta a voz da água
gemendo na vidraça a minha mágoa,
a soluçar, a soluçar por ti.

E se ouvires bater à nossa porta,
abre sem medo, meu amor - que importa? -
- Sou eu, sou eu, que nunca te esqueci.

Francisco Espínola de Mendonça Jr. nasceu a 8 de Fevereiro de 1891 em Ponta Delgada, Açores e aí faleceu em 1 de Janeiro de 1944

Ler do mesmo autor, neste blog: Tarde

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