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2013-06-30

Canção - Gilberto Mendonça Teles

As horas dançam no tempo
e o tempo, na madrugada.

Do cimo da vida, apenas
vejo a poeira na estrada.

Meus rastros viraram pedras
na terra do antigamente.

E as horas morrem no tempo
como o tempo, no poente.

Gilberto Mendonça Teles
Planície “in” Hora Aberta

Gilberto Mendonça Teles nasceu em Bela Vista de Goiás, a 30 de junho de 1931.

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2013-06-29

Citação do Dia / Quote of the day

Levantámo-nos de manhã e damos o nosso melhor. Nada mais importa...

We get up in the morning and we do our best, and nothing else matters

No fim vai ficar tudo bem. E se nem tudo está bem é porque, acreditem, ainda não chegou o fim...

Everything will be all right in the end and if it's not all right, then it's not yet the end.

From The Best Exotic Marigold Hotel

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NO SUSPIRO - Vasko Popa

Pelas estradas da profundeza da alma
Pelas estradas azul-celeste
A erva-daninha viaja
As estradas se perdem
Sob os pés

Enxames de pregos violentam
As plantações cansadas
As lavouras desaparecem
Do campo

Lábios invisíveis
Apagaram o campo

A dimensão triunfa
Encantada pelas palmas de suas mãos lisas
Cinzalisas


Trad.: Aleksandar Jovanovic

Vasko Popa (n. Grebenac, Vojvodina, Serbia a 29 junho 1922 - m. Belgrado, 5 janeiro 1991)

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2013-06-28

Qual a diferença entre um inglês, um alemão e um italiano?

Para o inglês tudo é permitido, excepto o que é proibido. Para o alemão tudo é proibido, excepto o que é permitido. E, para o italiano, tudo o que é proibido é permitido.

John Von Neumann (1903-1957)

in O livro das Citações, Eduardo Gianetti. Livros d'Hoje, Publicações Dom Quixote

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2013-06-27

Emma Goldman

Emma Goldman (Kaunas, 27 de junho de 1869 — Toronto, 14 de maio de 1940)

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A QUEDA - Bruno Tolentino

Quando tudo era brisa no arvoredo,
fuga no mato, jogo de menino,
pousei a mão no fogo feminino
e acabou-se de vez todo brinquedo,

tudo virou fogueira. Tive medo.
Tive a visão que ofusca o peregrino,
tive a rosa no alvor do seu segredo
e um terror indiscreto e repentino

como o dobre do Ângelus no ar.
Mas um anjo caído é um moribundo,
mal se convence que caiu, vai dar

no ponto mais estranho deste mundo,
no avesso do jardim perdido: ao fundo
o roseiral que arde sem queimar.


Bruno Lúcio de Carvalho Tolentino (nasceu no Rio de Janeiro, 12 de novembro de 1940 — m. em São Paulo, 27 de junho de 2007)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Via Crucis
Mecanismos
O Espírito da Letra

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2013-06-26

Passa o comboio

Passa o comboio:
ilusões,
sonhos
e frustrações
às toneladas

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João Pestana (canção de embalar) - José Barata-Moura

Já lá vem
O João Pestana
Pé ante pé
Voz que não engana

Vem de longe
Já muito cansado
Pobre João, coitado

Faz ó, ó,
Menino também
Faz ó, ó,
Que o soninho já vem

Cai a noite
E o vento lá fora
Assobia forte
Não se vai embora

Conta histórias
Um nunca acabar
Coisas de encantar

E o vento
Não sopra só
Também traz
Ao menino ó, ó

Devagar
Muito de mansinho
Levando o bébé
Ao pegar o soninho

Já lá vem
O João Pestana
Voz que não engana

E o João
Sabendo o que faz
Vê o menino
Adormecer em Paz

José Adriano Rodrigues Barata-Moura (Lisboa, 26 de Junho de 1948)



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2013-06-25

Sobre a tua cabeça - Bueno de Rivera

Sobre a tua cabeça a espada.
Não te movas, nenhum gesto,
nenhum grito, pois a espada
pode cair.

Pende sobre os teus cabelos
a espada nua. Cuidado!
Nenhuma blasfêmia, ou mesmo
orações, senão a lâmina
cairá.

Não movas o braço ou a face
para o lado do mar tranqüilo.
Olha à frente, não te assustes
com a sombra trêmula. É o vento
tocando a espada.

À tua direita, os amigos
te insultam. Fica em silêncio.
Não te mexas, pode a espada
desprender-se, e os teus amigos
gozarão tua agonia.

Mulheres, macias pétalas,
acariciam teu corpo.
Não te encantes, pois quem sabe
se, partindo o fio, a espada
destruirá teu amor?

Os teus colegas, à esquerda,
contam anedotas. Não rias.
Pode a alegria matar.

A espada é o remorso ou a bênção?
Ninguém sabe... Só percebes
que sobre a cabeça pálida
pende o invisível.


Odorico Bueno de Rivera Filho (n. 3 de abril de 1911, Santo Antônio do Monte, Minas Gerais — m. 25 de junho de 1982, Belo Horizonte)

Ler do mesmo autor:
Os Destinos Urbanos
Sono

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2013-06-23

Incontentado - Martins Fontes


Abraço

Quando em teus braços, meu amor, te beijo,
se me torno, de súbito, tristonho,
é porque às vezes, com temor, prevejo
que esta alegria pode ser um sonho.

Olho os meus olhos nos teus olhos... Ponho,
trêmulo, as mãos nas tuas mãos... E vejo
que és tu mesma, que és tu! E ainda suponho
Ser enganado pelo meu desejo.

Quanto mais, desvairado de ansiedade,
do teu corpo, meu corpo se avizinha,
mais de ti, junto a ti, sinto saudade...

- E o meu suplício atroz não se adivinha,
quando, beijando-te, o pavor me invade
de que em meus braços tu não sejas minha!


José Martins Fontes nasceu em Santos (SP) a 23 de Junho de 1884 e morreu a 25 de Junho de 1937.

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2013-06-21

Última Folha - Machado de Assis

Musa, desce do alto da montanha
Onde aspiraste o aroma da poesia,
E deixa ao eco dos sagrados ermos
A última harmonia.

Dos teus cabelos de ouro, que beijavam
Na amena tarde as virações perdidas,
Deixa cair ao chão as alvas rosas
E as alvas margaridas.

Vês? Não é noite, não, este ar sombrio
Que nos esconde o céu. Inda no poente
Não quebra os raios pálidos e frios
O sol resplandecente.

Vês? Lá ao fundo o vale árido e seco
Abre-se, como um leito mortuário;
Espera-te o silêncio da planície,
Como um frio sudário.

Desce. Virá um dia em que mais bela,
Mais alegre, mais cheia de harmonias,
Voltes a procurar a voz cadente
Dos teus primeiros dias.

Então coroarás a ingênua fronte
Das flores da manhã, — e ao monte agreste,
Como a noiva fantástica dos ermos,
Irás, musa celeste!

Então, nas horas solenes
Em que o místico himeneu
Une em abraço divino
Verde a terra, azul o céu;

Quando, já finda a tormenta
Que a natureza enlutou,
Bafeja a brisa suave
Cedros que o vento abalou;

E o rio, a árvore e o campo,
A areia, a face do mar,
Parecem, como um concerto,
Palpitar, sorrir, orar;

Então sim, alma de poeta,
Nos teus sonhos cantarás
A glória da natureza,
A ventura, o amor e a paz!

Ah! mas então será mais alto ainda;
Lá onde a alma do vate
Possa escutar os anjos,
E onde não chegue o vão rumor dos homens;

Lá onde, abrindo as asas ambiciosas,
Possa adejar no espaço luminoso,
Viver de luz mais viva e de ar mais puro,
Fartar-se do infinito!

Musa, desce do alto da montanha
Onde aspiraste o aroma da poesia,
E deixa ao eco dos sagrados ermos
A última harmonia!

 Joaquim Maria MACHADO DE ASSIS (nasceu no Rio de Janeiro a 21 de Junho de 1839 e aí faleceu a 29 de Setembro de 1908)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Erro
Minha Musa
Aspiração
Círculo Vicioso
Musa Consolatrix
Menina e Moça

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2013-06-20

Musical suggestion of the day: Vira da minha terra - Artur Gonçalves




Ai vamos à Coina rapaziada,
vamos a todas não escapa nada
ai não escapa nada, vamos prá moina,
rapaziada vamos à Coina
Fica juntinho ao Barreiro a terra dos homens de Coina,
Seja do Minho ao Algarve todos lá passam pela Coina,
Rapazes venham à Coina porque hoje é dia de festa,
Foi na Coina que eu nasci, não há Coina como esta.
Ai vamos à Coina rapaziada,
vamos a todas não escapa nada
ai não escapa nada, vamos prá moina,
rapaziada vamos à Coina
Tem a mata a rodeá-la com sombra amiga para nós
é a mais linda das Coinas ó Coina dos meus avós
Foi da Coina que eu vim, terra de alegria e som
Se ainda não foste à Coina vai à Coina que é bem bom



Para saber mais sobre Artur Gonçalves leia esta entrevista ao JN em 2006






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Sonho Desfeito - António Feijó

A Alfredo Guimarães


Quando o Sonho, batendo as asas doidamente,
Voa como falena errante, no infinito,
Cuido que ao pé de mim, voluptuosamente,
Cravas no meu olhar o teu olhar bendito.

E no delírio em que eu nervosamente fito
A curva do teu seio elástico e tremente,
Atrevo-me a poisar, nostálgico proscrito,
Meus lábios sem pudor sobre o teu colo ardente.

Mas como o vento espalha as húmidas neblinas,
Diluídas no vapor das névoas matutinas
A quimera, a ilusão de estranho visionário,

Vejo que o teu sorriso, ó casta Margarida!
Apenas me envolveu, luar da minha vida,
No tépido clarão dum beijo imaginário! …

Extraído de Poesias Completas, António Feijó, Prefácio de J. Cândido Martins, Edições Caixotim

António Joaquim de Castro Feijó, nasceu em Ponte de Lima a 1 de Junho de 1859 e faleceu em Upsala na Suécia a 20 Junho 1917).

Ler do mesmo autor:

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2013-06-19

Trilhos - Celeste Pereira


imagem daqui


Por vezes caminho tão só
pela delicada fímbria da sanidade
que apenas o arrojo e a fome de viver
me impedem de tombar.


in Bordar A Vida - Edita-me, 2010

Maria Celeste dos Santos Torres Pereira nasceu a 19 de Junho de 1954 em Chaves

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2013-06-18

Desce o menino a montanha - José Saramago

Desce o menino a montanha,
Atravessa o mundo todo,
Chega ao grande rio Nilo,
No côncavo das mãos recolhe
Quanto de água lá cabia,
Volta o mundo a atravessar,
Pela vertente se arrasta,
Três gotas que lá chegaram,
Bebeu-as a flor sedenta.
Vinte vezes cá e lá,
Cem mil viagens à Lua,
O sangue nos pés descalços,
Mas a flor aprumada
Já dava cheiro no ar,
E como se fosse um carvalho
Deitava sombra no chão.

in A Maior Flor do Mundo



José de Sousa Saramago (n. em 16 Nov. 1922 na Azinhaga do Ribatejo; faleceu a 18 de Junho de 2010 em Tías, Lanzarote)

Ler do mesmo autor:
Aprendamos Amor
Não Me Peçam Razões
Retrato do Poeta Quando Jovem

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2013-06-17

As leis, estas malditas leis...

«O Governo tem, decidida e definitivamente, um problema com as leis, ou mesmo com a Lei, tomada aqui como elemento estruturador do Estado de Direito. O Governo sente-se aprisionado pelas leis, seja por não as entender, seja por não as querer entender, seja porque as olha como forças de bloqueio, como muros que não consegue derrubar no caminho que traçou rumo ao desenvolvimento que tarda e à felicidade que não chega. No fundo, o Governo entende que as leis inúteis só servem para enfraquecer as leis necessárias, coisa que, sendo acertada na teoria, tem um problema na prática: quer o Governo decidir o que é inútil e necessário de acordo com as necessidades do momento?... »
Extrato do JN do artigo de opinião de Paulo Ferreira publicado no JN de 14-06-2013
(artigo completo aqui)

O primeiro-ministro afirma publicamente, sobre determinado assunto, que aguarda tranquilamente as decisões dos tribunais superiores. Todavia, com toda a desfaçatez, arrogância e sem vergonha diz que se as decisões não forem favoráveis à opinião do Governo (que está cada vez mais longe, aliás, de corresponder aos interesses do país) que tratará de mudar a lei.

Aliás, trata-se apenas de um progresso no descaramento assumido... porque já há muitos exemplos disso. Procedimento cada vez mais prolixo deste Governo.

Como é que com esta (falta de) ética e exemplo o Governo pode exigir que os cidadãos cumpram as suas obrigações de cidadania?

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Quando Ouço Ao Telefone a Voz Que Brinca - António Franco Alexandre

Quando ouço ao telefone a voz que brinca
e canta, sem saber, os dias novos,
pouco me importam tempo, espaço, luas,
ou maneiras sequer de ser humano.
Vagueio pelo ar, e arranco estrelas
ao cenário sem fim do universo;
e faço pobres contas aos cabelos
depenados no chão, verso após verso.
Nada é real, senão o meu desejo,
nem sei de lei nenhuma que não dobre
a dura mansidão da tua boca;
inventou-nos um deus, para que seja
veloz o lume na manhã sem nome,
e chama viva a voz que nos consome.

in 366 Poemas que Falam de Amor, uma antologia organizada por Vasco da Graça Moura, Quetzal Editores

António Franco Alexandre nasceu em 17 de Junho de 1944, em Viseu.

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2013-06-16

Tentei fugir da mancha mais escura - David Mourão-Ferreira

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que me sai, sem voz, do coração.

David de Jesus Mourão-Ferreira (n. em Lisboa a 24 Fev. 1927; m. Lisboa a 16 Jun 1996)

Ler do mesmo autor:
Presídio
Casa
E Por Vezes
Ilha
Nocturno
Paraíso
Ternura
Labirinto
Penelope
Primavera
Equinócio
Soneto do Cativo

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2013-06-15

Encontro - José de Almada Negreiros

Que vens contar-me
se não sei ouvir senão o silêncio?
Estou parado no mundo.
Só sei escutar de longe
antigamente ou lá para o futuro.
É bem certo que existo:
chegou-me a vez de escutar.

Que queres que te diga
se não sei nada e desaprendo?
A minha paz é ignorar.
Aprendo a não saber:
que a ciência aprenda comigo
já que não soube ensinar.

O meu alimento é o silêncio do mundo
que fica no alto das montanhas
e não desce à cidade
e sobe às nuvens que andam à procura de forma
antes de desaparecer.

Para que queres que te apareça
se me agrada não ter horas a toda a hora?
A preguiça do céu entrou comigo
e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.

Para que me lastimas
se este é o meu auge?!
Eu tive a dita de me terem roubado tudo
menos a minha torre de marfim.
Jamais os invasores levaram consigo as nossas torres de marfim.

Levaram-me o orgulho todo
deixaram-me a memória envenenada
e intacta a torre de marfim.
Só não sei que faça da porta da torre
que dá para donde vim.


in Poemas Portugueses Antologia da Poesia portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI; selecção, organização, introdução e notas de Jorge Reis-Sá e Rui Lage, Porto Editora

José Sobral de Almada Negreiros (n. em S. Tomé e Príncipe a 7 Abr 1893; m. 15 de Junho de 1970 em Lisboa)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Aconteceu-me
Mãe! Vem ouvir...
Esperança
Homem transportando o cadáver de uma mulher
Taça de Chá

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2013-06-14

O beijo - Dalton Jérson Trevisan

A pessoinha visita a avó, que a recebe com
um beijo molhado no carão gorducho.
Disfarçando a careta, os cinco aninhos enxugam
a bochecha.
A avó, chocada:
– Que é isso, filhinha? Tá limpando o beijo
que a vovó deu?
Pega em flagrante, a tipinha de tênis rosa
não se perturba:
– Credo, vozinha. Só estou espalhando ele
pela cara toda.

in Os Duzentos Ladrões - Editora L&PM

Dalton Jérson Trevisan nascido em Curitiba, 14 de junho de 1925, é Prémio Camões (2012)

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2013-06-13

Não sei quantas almas tenho - Fernando Pessoa

NÃO SEI QUANTAS almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é.

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo,
É do que nasce, e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: «Fui eu?»
Deus sabe, porque o escreveu.

24-8-1930

in Obra Essencial de Fernando Pessoa, Poesia do Eu, edição Richard Zenith, Assírio & Alvim

FERNANDO António Nogueira PESSOA nasceu a 13 de Junho de 1888 e faleceu em Lisboa a 30 de Novembro de 1935).

Mais poemas de Fernando Pessoa, neste blog:
Passava eu na estrada pensando impreciso
Dá a Surpresa de Ser
António de Oliveira
Os Ratos
Nada Sou, Nada Posso, Nada Sigo
Se Alguém Bater
Aguardo - Ricardo Reis
Tanho Uma Grande Constipação (Álvaro de Campos)
Deus Sabe Melhor Do Que Eu
Suspense / Ansiedade
Tabacaria
Liberdade
Não Quero Recordar Nem Conhecer-me (Ricardo Reis)
Intervalo - Bernardo Soares
O guardador de rebanhos - X (Alberto Caeiro)
O guardador de rebanhos - XXI (Alberto Caeiro)
O guardador de rebanhos - XXVIII (Alberto Caeiro)
O Tejo é mais belo ...
Não sei se é sonho se é realidade
Odes - Ricardo Reis
Cruz na porta da tabacaria
Fragmentos do Livro do desassossego - Bernardo Soares
Afinal a melhor maneira de viajar é sentir...
Todas as cartas de amor são...
Se te queres matar ...
Dai-me rosas e lírios...
Sou vil, sou reles como toda a gente...
Não sei se é amor que tens
O que há em mim é sobretudo cansaço
Mar português
Ode marcial - h
Lycanthropy
Conselho
Para além da curva da estrada (Alberto Caeiro)
Sopra demais o vento
Poema da Canção sobre a Esperança
Soneto 1 de 35 sonetos (Poesia Inglesa) - em português
Sonnet 1 (from 35 Sonnets)
O amor é uma companhia
Quando vier a Primavera (Alberto Caeiro)

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PÔR-DO-SOL - José António Gonçalves

para Virgílio Higino Pereira

Este é o mar que se veste de vermelho,
convidado pelo ocaso do poema
para o baile do fim do dia.

Ei-lo à distância, abraçando a periferia
de um olhar que se perde nas falésias,
sorridente na brevidade da sua figura.

Poderia o ilhéu dar o salto inconsciente,
entregando-se ao sal rosado do seu vestuário,
curioso por provar a água do seu bordado.

Porém, resguarda-se no calor da terra,
pisando a ilha com a carne da sua loucura,
acorrentado às ervas que nascem no recolher das casas.

E suspira, como um anjo esquecido
na multidão solitária que percorre as ruas,
perguntando pelo lugar onde descansam as suas asas.

(in Aventura na casa do livros)

José António de Freitas Gonçalves, nasceu em São Martinho, Funchal, Madeira, em 13 de junho de 1954 e falecu a 30 de Março de 2005.

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2013-06-12

Io vivere vorrei addormentato / Viver eu queria adormecido - Sandro Penna

Io vivere vorrei addormentato
entro il dolce rumore della vita.

Viver eu queria adormecido
dentro do rumor doce da vida

Tradução: Vera Lúcia de Oliveira

Sandro Penna (n. Perugia, 12 Jun. 1906 – m. Roma, 21 jan. 1977)

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2013-06-11

Na Aldeia - Gonçalves Crespo


Duas horas da tarde. Um sol ardente
nos colmos dardejando e nos eirados.
Sobreleva aos sussurros abafados
o grito das bigornas estridente.

A taberna é vazia; mansamente
treme o loureiro nos umbrais pintados;
zumbem à porta insectos variegados,
envolvidos do sol na luz tremente.

Fia à soleira uma velhinha: o filho
no céu mal acordou da aurora o brilho
saiu para os cansaços da lavoura.

A nora lava na ribeira, e os netos
ao longe correm seminus, inquietos,
no mar ondeante da seara loura.

in Poemas Portugueses Antologia das Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora

António Cândido GONÇALVES CRESPO nasceu nos subúrbios do Rio de Janeiro a 11 de Março de 1846 e morreu, tuberculoso, em Lisboa, a 11 de Junho de 1883.

Ler do mesmo autor:
A Noiva
O Relógio
Nunca eu te lesse, balada!
Na Roça
Mater Dolorosa
O Coveiro

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2013-06-10

Tanto de meu estado me acho incerto - Luís de Camões

Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando;
Nu~a hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar u~a hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

Luís Vaz de Camões (nasceu c. 1524; m. em Lisboa, a 10 de Junho de 1580).

Ler do mesmo autor:
Doces águas e claras do Mondego
Que me quereis, perpétuas saudades
Busque Amor novas artes novos engenhos
Amor, que o gesto humano na alma escreve
Aquela triste e leda madrugada
Mudam-se os tempos mudam-se-as vontades
Amor é um fogo que arde sem se ver
Erros meus, má fortuna, amor ardente
Alma minha gentil que te partiste
Verdes são os campos

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2013-06-09

Viver sempre também cansa - José Gomes Ferreira

Viver sempre também cansa!

O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase-verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima, os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.

E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe, automóveis de corrida...

E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima de um divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas por mim, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com o teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...


José Gomes Ferreira (n. no Porto a 9 Jun 1900, m. em Lisboa a 8 Fev 1985)

Ler do mesmo autor, neste blog:


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2013-06-08

Estival - António Manuel Couto Viana



A imensa praia. O sol rubro, preciso.
E o mar de sempre, impetuoso e vário.
Meu corpo nu, aberto no solário,
Sorve o final do dia, lento e liso.

Estio é estar assim, sem pensamento;
Sentir apenas, sobre a pele doirada,
A saliva do mar, fria e salgada,
E o arrepio cálido do vento.

Nada mais. Quando muito, um vago olhar
Um vulto jovem, ágil, que se afasta,
Diluído na luz crepuscular.

E só porque o seu ritmo contrasta
Com a serena vibração do ar
E a paz da minha carne gorda e gasta.



António Manuel Couto Viana (n. Viana do Castelo, 24 de Janeiro de 1923 - m. Lisboa, 8 de Junho de 2010) .

Ler do mesmo autor, neste blog: No Bazar; 23; Súplica a Eros; A Tartaruga

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2013-06-07

Nos 90 anos da morte de Guerra Junqueiro: FIEL

Quando a luz se apaga é que a consciência se ilumina.
As almas são como os morcegos: vêm melhor às escuras.

     
Na luz do seu olhar tão lânguido, tão doce,
        Havia o que quer que fosse
        D’um íntimo desgosto:
Era um cão ordinário, um pobre cão vadio
Que não tinha coleira e não pagava imposto.
Acostumado ao vento e acostumado ao frio,
Percorria de noite os bairros da miséria
        Á busca dum jantar. 
E ao ver surgir da lua a palidez etérea,
O velho cão uivava uma canção funérea,
Triste como a tristeza ossiânica do mar.
Quando a chuva era grande e o frio inclemente,
Ele ia-se abrigar às vezes nos portais;
E mandando-o partir, partia humildemente,
Com a resignação nos olhos virginais.
Era tranquilo e bom como as pombinhas mansas; 
Nunca ladrou dum pobre à capa esfarrapada:
E, como não mordia as tímidas crianças,
As crianças então corriam-no a pedrada.

Uma vez casualmente, um mísero pintor
        Um boémio, um sonhador,
Encontrara na rua o solitário cão;
O artista era uma alma heróica e desgraçada,
Vivendo num escura e pobre água furtada,
Onde sobrava o génio e onde faltava o pão.
Era desses que tem o rubro amor da glória, 
        O grande amor fatal,
Que umas vezes conduz às pompas da vitória,
E que outras vezes leva ao quarto do hospital.
E ao ver por sobre o lodo o magro cão plebeu,
Disse-lhe: - “O teu destino é quase igual ao meu:
Eu sou como tu és, um proletário roto,
Sem família, sem mãe, sem casa, sem abrigo;
E quem sabe se em ti, ó velho cão de esgoto,
Eu não irei achar o meu primeiro amigo!...”
No céu azul brilhava a lua etérea e calma;
E do rafeiro vil no misterioso olhar
Via-se o desespero e ânsia d’uma alma,
Que está encarcerada, e sem poder falar.
O artista soube ler naquele olhar em brasa
A eloquente mudez dum grande coração;
E disse-lhe: - “Fiel, partamos para casa:
Tu és o meu amigo, e eu sou o teu irmão.–“

E viveram depois assim por longos anos,
Companheiros leais, heróicos puritanos,
Dividindo igualmente as privações e as dores.
Quando o artista infeliz, exausto e miserável,
Sentia esmorecer o génio inquebrantável
            Dos fortes lutadores;
Quando até lhe acudiu às vezes a lembrança
Partir com uma bala a derradeira esp’rança,
Por um ponto final no seu destino atroz;
Nesse instante do cão os olhos bons, serenos,
Murmura-lhe: - Eu sofro, e a gente sofre menos,
Quando se vê sofrer também alguém por nós. –

Mas um dia a Fortuna, a deusa milionária,
Entrou-lhe pelo quarto, e disse alegremente:
“Um génio como tu, vivendo como um pária,
Agrilhoado da fome à lúgubre corrente!
Eu devia fazer-te há muito esta surpresa,
Eu devia ter vindo aqui p’ra te buscar;
Mas moravas tão alto! E digo-o com franqueza
Custava-me subir até ao sexto andar.
Acompanha-me; a glória há de ajoelhar-te aos pés!...”
E foi; e ao outro dia as bocas das Frinés
Abriram para ele um riso encantador;
A glória deslumbrante iluminou-lhe a vida
Como bela alvorada esplêndida, nascida
A toques de clarim e a rufos de tambor!

            Era feliz. O cão
Dormia na alcatifa à borda do seu leito,
E logo de manhã vinha beijar-lhe a mão,
Ganindo com um ar alegre e satisfeito.
Mas aí! O dono ingrato, o ingrato companheiro,
Mergulhado em paixões, em gozos, em delícias,
Já pouco tolerava as festivas carícias
            Do seu leal rafeiro.

Passou-se mais um tempo; o cão, o desgraçado,
        Já velho e no abandono,
Muitas vezes se viu batido e castigado
Pela simples razão de acompanhar seu dono.
Como andava nojento e lhe caíra o pelo,
Por fim o dono até sentia nojo ao vê-lo,
E mandava fechar-lhe a porta do salão.
Meteram-no depois num frio quarto escuro,
E davam-lhe a jantar um osso branco e duro,
Cuja carne servira aos dentes d’outro cão.

E ele era como um roto, ignóbil assassino,
Condenado à enxovia, aos ferros, às galés:
Se se punha a ganir, chorando o seu destino,
Os exibia ao sol as podridões obscenas,
Poisava-lhe no dorso o causticante enxame
criados brutais davam-lhe pontapés.
Corroera-lhe o corpo a negra lepra infame.
Quando exibia ao sol as podridões obscenas,
Poisava-lhe no dorso o causticante enxame
            Das moscas das gangrenas.

Até que um dia, enfim, sentindo-se morrer,
Disse ”Não morrerei ainda sem o ver;
A seus pés quero dar meu último gemido...”
Meteu-se-lhe no quarto, assim como um bandido.
E o artista ao entrar viu o rafeiro imundo,
            E bradou com violência:
“Ainda por aqui o sórdido animal!
É preciso acabar com tanta impertinência,
Que esta besta está podre, e vai cheirando mal!”
E, pousando-lhe a mão cariciosamente,
Disse-lhe com um ar de muito bom amigo:
“Ó meu pobre Fiel, tão velho e tão doente,
Ainda que te custe anda daí comigo.”

E partiram os dois. Tudo estava deserto.
A noite era sombria; o cais ficava perto;
E o velho condenado, o pobre lazarento,
            Cheio de imensas mágoas
Sentiu junto de si um pressentimento
O fundo soluçar monótono das águas.

Compreendeu enfim! Tinha chegado à beira
            Da corrente. E o pintor,
Agarrando uma pedra atou-lh’a na coleira,
Friamente cantando uma canção d’amor.

E o rafeiro sublime, impassível, sereno,
Lançava o grande olhar às negras trevas mudas
Com aquela amargura ideal do Nazareno
Recebendo na face o ósculo de Judas.
Dizia para si: “È o mesmo, pouco importa.
Cumprir o seu desejo é esse o meu dever:
Foi ele que me abriu um dia a sua porta:
Morrerei, se lhe dou com isso algum prazer.”

            Depois, subitamente
O artista arremessou o cão na água fria.
E ao dar-lhe o pontapé caiu-lhe na corrente
            O gorro que trazia
Era uma saudosa, adorada lembrança
            Outrora concedida
Pela mais caprichosa e mais gentil criança,
Que amara, como se ama uma só vez na vida.

E ao recolher à casa ele exclamava irado:
“E por causa do cão perdi o meu tesouro!
Andava bem melhor se o tenho envenenado!
Maldito seja o cão! Dava montanhas d’oiro,
Dava a riqueza, a glória, a existência, o futuro,
Para tornar a ver o precioso objecto,
Doce recordação daquele amor tão puro.”
E deitou-se nervoso, alucinado, inquieto.
            Não podia dormir.
Até nascer da manhã o vivido clarão,
Sentiu bater à porta! Ergueu-se e foi abrir.
Recuou cheio de espanto: era o Fiel, o cão,
Que voltava arquejante, exânime, encharcado,
A tremer e a uivar no último estertor,

Caindo-lhe da boca, ao tombar fulminado,
            O gorro do pintor!

in A Musa em Férias (Idílios e Sátiras)

Abilio Manuel Guerra Junqueiro nasceu em Freixo de Espada à Cinta em  - faleceu em Lisboa a 7 de Julho de 1923

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Navio perdendo a rota - Paulo Leminski

Um poema
que não se entende
é digno de nota
a dignidade suprema
de um navio
perdendo a rota.

Paulo Leminski Filho (Curitiba, 24 de agosto 1944 – Curitiba, 7 de junho 1989)

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2013-06-06

Pensar alto - Malangatana

                                           daqui


Sim
às marrabentas
às danças rituais
que nas madrugadas
criam o frenesi
quando os tambores e as flautas entram a fanfarrar

fanfarrando até o vermelho da madrugada fazer o solo sangrar
em contraste com o verdurar das canções dos pássaros
sobre o já verduzido manto das mangueiras
dos cajueiros prenhes
para em Dezembro seus rebentos
dançarem como mulheres sensualíssimas
em cada ramo do cajual da minha terra
mas, sim ao orgasmo
das mafurreiras
repletas de chiricos
das rolas ciosas pela simbiose que só a natureza sabe oferecer

mas sim
ao som estridente do kulunguana
das donzelas no zig-zague dos ritos
quando as gazelas tão belas
não suportam mais quarenta graus à sombra dos canhueiros em flor

enquanto as oleiras da aldeia, desta grande aldeia Moçambique
amassam o barro dos rios
para o pote feito ser o depositário
de todo o íntimo desse Povo que se não cala disputando
ecoosamente com os tambores do meu ontem antigo.

Poema extraído daqui

Malangatana Valente Ngwenya nasceu a 6 de Junho de 1936, em Matalana, próximo do Maputo, Moçambique.

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2013-06-05

A demora - Mia Couto

O amor nos condena:
demoras
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.

Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.

Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.

Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.

Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.

O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.

in " idades cidades divindades"
António Emílio Leite Couto, que usa o pseudónimo literário de Mia Couto, nasceu na Beira, em Moçambique, em 5 de Julho de 1955.

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2013-06-04

Fidelidade - Jorge de Sena (na passagem do 35º aniversário do seu desaparecimento)

Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como só a presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?

Diz-me asim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.



Extraído de Poemas de Amor, Antologia de poesia portuguesa, Organização e prefácio de Inês Pedrosa, Publicações Dom Quixote

Jorge Cândido de Sena (n. em Lisboa a 2 Nov 1919; m. em Santa Bárbara, Califórnia a 4 Jun 1978)

Ler neste blog do mesmo autor:
Suma Teológica
Glosa À Chegada do Outono
O Corpo Não Espera
Amo-te muito meu amor
Como queiras amor
A diferença que há...
Rígidos seios de redondas, brancas...
Carta a meus filhos sobre os fusilamentos de Goya
Génesis VI
Entre-Distância
Uma Pequenina Luz

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2013-06-03

apetece por vezes com os dias... - João Luís Barreto Guimarães

apetece por vezes com os dias morrer por um pequeno
instante e deixar os fogos soltos na areia: acrescentar
água à face e perturbar os sentidos em busca da única
luz ou então sentir os movimentos e escrever a uma

amiga. dizer assim como quem fala: que espécie rara
de deus é o teu? a vida é ficar abraçado às dunas
apenas se há dois braços de areia por quem sonhar.

vir então aos poucos contando os mastros do verão
cumprindo o desejo das cartas de mar e assim mesmo
confundir todos os relógios da rota apenas para ter

mais tempo para ficar. o resto é saber o alfabeto de
cor até ao fim para que as palavras vão nascendo
devagar até ser sonho no sono dos dias ou ser sono
dentro de mim

Extraído de João Luís Barreto Guimarães, poesia reunida, Quetzal
João Luís Barreto Guimarães nasceu no Porto, a 3 de Junho de 1967

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POEMA SONHADO - Alphonsus de Guimaraens Filho

Se não for pela poesia, como crer na eternidade?
Os ossos da noite doem nos mortos.
A chuva molha cidades que não existem.
O silêncio punge em cada ser acordado pelos cães invisíveis [do assombro.

Os ossos da noite doem nos vivos.
A escuridão lateja como um seio.
E uma voz (de onde vem?) repete incessante, incessantemente:
Se não for pela poesia, como crer na eternidade? 

 Alphonsus de Guimaraens Filho (Mariana, MG, 3.6.1918 — RJ, RJ, 28.8.2008)

Ler do mesmo autor, neste blog: Soneto da Ausência; O Poeta e o Poema

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2013-06-02

Benfica é campeão europeu... no Dragão (Hóquei em Patins)


Neste domingo o Benfica atirou duas pedradas no charco do fatalismo nos confrontos com o FCP. Os juvenis do futebol empataram no Olival a um golo (com o golo marcado no último minuto:  pois é afinal, também sabemos marcar golos no tempo de compensação!) e sagraram-se campeões nacionais da categoria título que adicionam ao de juniores (o de iniciados foi para o Sporting).

No hóquei em patins o Benfica que eliminou o Barcelona no sábado (4-4 no tempo regulamentar e vitória nos penalties por 2-1) acaba de ganhar a Taça dos Campeões Europeus ao vencer no Pavilhão Dragão Caixa no prolongamento através do golo de ouro (marcado com uma stickada de longe de Diogo Rafael) depois de 5-5!

É a primeira vez que o Benfica ganhou a Taça dos Campeões Europeus de hóquei. 

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Tenho uma folha branca - Ana Cristina Cesar


Tenho uma folha branca
                     e limpa à minha espera:

mudo convite

tenho uma cama branca
                     e limpa à minha espera:

mudo convite

tenho uma vida branca
                     e limpa à minha espera.


Ana Cristina Cruz Cesar (nasceu no Rio de Janeiro em 2 de junho de 1952, m. em 29 de outubro de 1983).

Ler da mesma autoria:
Tu queres sono: despe-te dos ruídos
Sexta Feira da Paixão
Encontro de Assombrar na Catedral 
Final de uma ode

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2013-06-01

Fábula Antiga - António Feijó

No princípio do mundo o Amor não era cego;
Via mesmo através da escuridão cerrada
Com pupilas de Lince em olhos de Morcego.

Mas um dia, brincando, a Demência, irritada,
Num ímpeto de fúria os seus olhos vazou;
Foi a Demência logo às feras condenada,

Mas Júpiter, sorrindo, a pena comutou.
A Demência ficou apenas obrigada
A acompanhar o Amor, visto que ela o cegou,

Como um pobre que leva um cego pela estrada.
Unidos desde então por invisíveis laços
Quando o Amor empreende a mais simples jornada,
Vai a Demência adiante a conduzir-lhe os passos


(extraído de Poesias Completas, António Feijó, Caixotim Edições)

António Feijó (n. 1 Jun 1859 em Ponte de Lima m. 20 Junho 1917 em Upsala - Suécia)

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