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2012-08-31

OS ARGONAUTAS - Francisca Júlia



The Argonauts, 1949-50, Max Beckmann
Oil on canvas triptych, center panel 80 1/4 X 48";
side panels each 74 3/8 X 33"
Private collection, New York
daqui


Mar fora, ei-los que vão, cheios de ardor insano;
Os astros e o luar — amigas sentinelas —
Lançam bênçãos de cima às largas caravelas
Que rasgam fortemente a vastidão do oceano.

Ei-los que vão buscar noutras paragens belas
Infindos cabedais de algum tesouro arcano...
E o vento austral que passa, em cóleras, ufano,
Faz palpitar o bojo às retesadas velas.

Novos céus querem ver, miríficas belezas,
Querem também possuir tesouros e riquezas
Como essas naus, que têm galhardetes e mastros...

Ateiam-lhes a febre essas minas supostas...
E, olhos fitos no vácuo, imploram, de mãos postas,
A áurea bênção dos céus e a proteção dos astros...

Francisca Júlia da Silva Munster (n. antiga Vila de Xiririca, hoje Eldourado, no vale do Ribeira, São Paulo a 31 de Agosto de 1871 e faleceu em São Paulo a 1 de Novembro de 1920).

Ler da mesma autoria neste blog:
Musa Impassível
À Noite
Inverno
Paisagem
A Um Artista

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A Ausência / L'Absence - Teophile Gautier

Regressa, regressa, minha bem amada!
Como uma flor longe do sol,
A flor da minha vida está fechada,
Longe do teu sorriso de rubi.

Entre os nossos corações tanta distância,
Tanto espaço entre os nossos beijos!
Ó sorte amarga! Ó dura ausência!
Ó grandes desejos não apaziguados!

Regressa, regressa, minha bem amada ...

Entre nós tantas campinas,
Tantas cidades e aldeias,
tantos vales e montanhas,
Para cansar os cascos dos cavalos.

Regressa, regressa, minha bem amada ...
Tradução - RDP - Maria de Nazaré Fonseca

(original)
L'Absence

Reviens, reviens, ma bien-aimée!
Comme une fleur loin du soleil,
La fleur de ma vie est fermée
Loin de ton sourire vermeil!

Entre nos coeurs, quelle (tant de) distance!
Tant d'espace entre nos baisers!
Ô sort amer, ô dure absence!
Ô grands désirs inapaisés!

Reviens, reviens, ma bien-aimée ...

D'ici là-bas que de campagnes,
Que de villes et de hameaux,
Que de vallons et de montagnes,
À lasser le pied des chevaux!

Reviens, reviens, ma bien-aimée ...

Pierre Jules Théophile Gautier (Tarbes, 31 de agosto de 1811 — Paris, 23 de outubro de 1872)

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2012-08-30

INCANSÁVEL - Carmen Cinira

Velho sonho de amor que me fascina,
causa das mágoas que me têm pungido
e que, entanto, conservo na retina
como a fonte de um bem inatingido...

Flana velada, cântico em surdina
de uma alma triste, um coração ferido,
nem pode haver liguagem que defina
o que eu tenho, em silêncio padecido!

Mas, ainda que mal recompensado
meu amor há de sempre desculpar-te
humilde, carinhoso, devotado...

Bendito seja o dia em que te vi,
pois não há maior glória do que amar-te
nem melhor gozo que sofrer por ti!

Cinira do Carmo Bordini Cardoso, de nome literário Carmen Cinira, nasceu no Rio de Janeiro, em 16 de julho de 1902, e faleceu em 30 de agosto de 1933

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2012-08-29

Morir, Dormir - Manuel Machado

«Hijo, para descansar,
es necesario dormir,
no pensar,
no sentir,
no soñar...»

«Madre, para descansar,
morir».

Manuel Machado y Ruizn (n. Sevilha, 29 Ago 1874; m. Madrid, 19 Jan 1947).

Ler do mesmo autor no Nothingandall:
Adelfos
O Jardim Negro, O Querer; Seguiriytas Ciganas; La Toná de la Frágua (Seguiriyas Gitanas).

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2012-08-28

Anoitecer, na Praia - Hermes Fontes

Junto ao mar, as crianças
são mais alegres; as mulheres são
mais harmoniosas,
mais naturais.
E, enquanto a ondulação
das águas marulhosas
arma, em seu ritmo, imprevistas danças
isócronas, mas sempre desiguais;
e a escumilha na praia arma frouxéis de rosas,
efêmeros, sutis, quase irreais;
e as crianças, à beira da água, armam castelos
na úmida areia,
sob os olhos da miss, ou da ama que as ladeia,
e o distraído encanto dos papais;
e os velhos, em seus trajos mais singelos,
sob os toldos velados,
repousados,
sorriem cachimbando,
recordando
coisas imemoriais, —
cada mulher que passa é atávica sereia;
é atávico tritão
cada atleta que emerge à ondulação
da correnteza rejuvenescente;
é atávico tritão
aquele nadador adolescente
ora a subordinar o mar fremente
que resfolega e ondeia,
ao ritmo do seu próprio coração...

(...)


Hermes Floro Bartolomeu Martins de Araújo Fontes (nasceu em Boquim, Sergipe a 28 de agosto de 1888 – m. Rio de Janeiro (suicidio) a 25 de dezembro de 1930).

Ler do mesmo autor:
Suave Amargor
A Cigarra
Pouco acima Daquela Alvíssima Coluna
Jogos de Sombras;
Mãe;
Solenemente;
Diário de Um Sonho (IV)

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2012-08-27

Dormir - Amado Nervo

¡Yo lo que tengo, amigo, es un profundo
deseo de dormir!... ¿Sabes?: el sueño
es un estado de divinidad.
El que duerme es un dios... Yo lo que tengo,
amigo, es gran deseo de dormir.

El sueño es en la vida el solo mundo
nuestro, pues la vigilia nos sumerge
en la ilusión común, en el océano
de la llamada «Realidad». Despiertos
vemos todos lo mismo:
vemos la tierra, el agua, el aire, el fuego,
las criaturas efímeras... Dormidos
cada uno está en su mundo,
en su exclusivo mundo:
hermético, cerrado a ajenos ojos,
a ajenas almas; cada mente hila
su propio ensueño (o su verdad: ¡quién sabe!)

Ni el ser más adorado
puede entrar con nosotros por la puerta
de nuestro sueño. Ni la esposa misma
que comparte tu lecho
y te oye dialogar con los fantasmas
que surcan por tu espíritu
mientras duermes, podría,
aun cuando lo ansiara,
traspasar los umbrales de ese mundo,
de tu mundo mirífico de sombras.

¡Oh, bienaventurados los que duermen!
Para ellos se extingue cada noche,
con todo su dolor el universo
que diariamente crea nuestro espíritu.
Al apagar su luz se apaga el cosmos.

El castigo mayor es la vigilia:
el insomnio es destierro
del mejor paraíso...

Nadie, ni el más feliz, restar querría
horas al sueño para ser dichoso.
Ni la mujer amada
vale lo que un dormir manso y sereno
en los brazos de Aquel que nos sugiere
santas inspiraciones. ..
«El día es de los hombres; mas la noche,
de los dioses», decían los antiguos.

No turbes, pues, mi paz con tus discursos,
amigo: mucho sabes;
pero mi sueño sabe más... ¡Aléjate!
No quiero gloria ni heredad ninguna:
yo lo que tengo, amigo, es un profundo
deseo de dormir...

José Amado Ruiz de Nervo (n. Tepic, Nayarit, 27 agosto 1870 - Montevideo, 24 Maio 1870)

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Musical suggestions of the day: Cesária Èvora + Sandra de Sá

Sangue de Beirona - Cesária Évora

Cesária Évora nasceu no Mindelo, Cabo Verde a 27 de Agosto de 1941 - faleceu no Mindelo, 17 de dezembro de 2011.

Eu Não Sei Quem Te Perdeu - Pedro Abrunhosa & Sandra de Sá

Sandra Cristina Frederico de Sá nasceu no Rio de Janeiro a 27 de agosto de 1955

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2012-08-26

A esperança é um barco - Alberto de Lacerda

imagem daqui


A esperança é um barco

A luz
é uma viagem

ALBERTO DE LACERDA
Oferenda II
INCM (1994)

Carlos Alberto Portugal Correia de Lacerda, nasceu em 20 de setembro de 1928 em Lourenço Marques (actual Maputo), Moçambique e faleceu em 26 de agosto de 2007 em Londres.

Do mesmo autor ler, neste blog:
Poema
A Língua Portuguesa
Vento
To Night
Copo de Água
Hino ao Tejo

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2012-08-25

A dormir - Ana Marques Gastão

As pálpebras fecham-se, cansadas, é quando somos,
sem dimensão ou volume, intocáveis. Perdemos, porém,
a justa medida, já não crianças irreais, mas formigas
exemplares. Formigas são estupefacientes, máscaras
iconoclastas com o arrogante desejo de perdoar aos mortos.
A infecção das coisas passadas atravessa, com argúcia,
o sono e eu durmo, porque, acordada, teu corpo me ofende
familiar estranho contínuo, quando te imagino sem o casaco
de abraçar bonecas. Podes, se quiseres, escrever beleza em
teu arquivo cruel enquanto eu ando à deriva por ter sonhado
mais um dia. Mas não aceitarei o menos para não estar só.

de Nós/Nudos
in Anos 90 e Agora, uma antologia da nova poesia portuguesa
selecção e organização Jorge Reis-Sá; edições quasi

ANA MARQUES GASTÃO nasceu em Lisboa a 25 de Agosto de 1962

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2012-08-24

Criação do Mar - Oliveira Guerra

Alma de artista, criador, o Mar
um dia, inspirado,
entrou de modelar com sábio jeito
o barro duro e quente e atrigueirado
talvez posto por Deus à sua frente
para ser modelado;
e ora com firmeza rude e brava,
ora com branda ternura,
o Mar foi modelando
a sua nova escultura...
A pouco e pouco então,
o barro duro e quente e atrigueirado,
foi-se doirando de beleza e graça
e foi tomando a forma fascinante
que uma só vez na vida se realiza:
E um dia, um dia, enfim,
tu surgiste, Galiza...

Mulher e feiticeira
de olhos compridos, carnes matinais,
tu és, terra de Além,
a tentação das almas siderais,
daquelas almas que andam pelo mundo
de olhar perdido, vago, procurando
a Pátria feminina do seu sonho
e com ela sonhando...
Mulher e feiticeira de alma céltica,
dada a mistérios e encantos
das mais longínquas eras e depois
rendida cristãmente à voz dos santos,
tu és a terra bendita
de que a minha alma, tua irmã, precisa,
tu és, terra de sonho,
Pátria da minha Pátria, a Galiza...

Manuel de Oliveira Guerra nasceu a 24 de Agosto de 1905 em Oliveira de Azeméis e morreu no Porto a 5 de Julho de 1964.

Da mesma autoria : Incitamento; Verbo

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Isso de querer - Paulo Leminski

Mosaico de Cida Carvalho, imagem extraída daqui

Paulo Leminski Filho (n. em Curitiba, Paraná, a 24 de Agosto de 1944; m. em Curitiba a 7 de Junho de 1989)

Ler do mesmo autor:
Sintonia para pressa e presságio
Amor bastante;
Amor, então;
Iceberg

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2012-08-23

Anjo de Fogo - Affonso Manta

E como um ser de forte claridade,
Anjo de fogo do celeste empíreo,
Eu sentia nas asas do delírio
A dimensão da grande liberdade.

Passava nos lugares rotineiros
Colhendo todo mundo em meu abraço,
Confundindo noções de tempo e espaço,
Embaralhando fatos verdadeiros.

Ia nos quatro pontos cardeais.
Andava sobre a linha do equador.
Via o céu de manhã mudar de cor.
Percorria os espaços siderais.

Ia mais longe do que qualquer nave.
Voava mais depressa do que a luz.
Entendia as palavras de Jesus
Como uma criancinha entende uma ave.

Achincalhava todas as mentiras.
Todos os fariseus desmascarava.
Os ídolos do hipócrita quebrava.
A roupa do impostor deixava em tiras.

E como um ser de etérea realeza,
Adornado de estrelas e de luas,
Saía a percorrer todas as ruas
À procura da forma da beleza.

E encerrava meu curso luminoso
Num lugar pelos homens habitado,
Onde era pelos guardas algemado
E preso como um louco furioso.

[O Retrato de um Poeta]

Affonso Manta Alves Dias (nasceu em Salvador, Bahia, a 23 de agosto de 1939. Faleceu em 3 de dezembro de 2003 em Poções, Bahia).


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Citação do Dia - A assinalar o centenário do nascimento de Nelson Rodrigues

Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico(desde menino).

Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia.

Não há nada mais relapso do que a memória. Atrevo-me mesmo a dizer que a memória é uma vigarista, uma emérita falsificadora de fatos e de figuras."

O ser humano é cego para os próprios defeitos. Jamais um vilão do cinema mudo proclamou-se vilão. Nem o idiota se diz idiota. Os defeitos existem dentro de nós, ativos e militantes, mas inconfessos. Nunca vi um sujeito vir à boca de cena e anunciar, de testa erguida: 'Senhoras e senhores, eu sou um canalha'.

Nelson Falcão Rodrigues (nasceu no Recife, Pernanbuco a 23 de agosto de 1912 - m. na cidade do Rio de de Janeiro em 21 de dezembro de 1980) foi dramaturgo, jornalista e escritor brasileiro, tido como o mais influente dramaturgo do Brasil.

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2012-08-22

O orvalho de tua voz - Kori Bolivia

Se for noite
e os ventos calados
permanecerem à borda do mundo,
tecerei castelos de sonhos
no pêndulo do tempo.

Se for noite
e as mãos na pálpebra fechada
buscarem castelos e rodopios de sol,
colherei a madrugada
bebendo o orvalho de tua voz.

Kori Bolivia de nome completo Kori Yaane Bolivia Carrasco Dorado nasceu em La Paz (Bolívia) em 22 de agosto de 1949

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2012-08-21

O Beijo - Alexandre O'Neill

Congresso de gaivotas neste céu
Como uma tampa azul cobrindo o Tejo.
Querela de aves, pios, escarcéu.
Ainda palpitante voa um beijo.

Donde teria vindo! (Não é meu...)
De algum quarto perdido no desejo?
De algum jovem amor que recebeu
Mandado de captura ou de despejo?

É uma ave estranha: colorida,
Vai batendo como a própria vida,
Um coração vermelho pelo ar.

E é a força sem fim de duas bocas,
De duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar...
Alexandre Manuel Vahía de Castro O'Neill (n. em Lisboa a 19 de Dez de 1924; m. em 21 de Agosto de 1986).

Ler do mesmo autor:
Dai-nos, meu Deus, um pequeno absurdo quotidiano que seja
Toma Lá Cinco
Um Adeus Português
Gaivota
A Meu Favor
Há Palavras Que nos Beijam
Auto-Retrato

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2012-08-20

Eu Voltarei - Cora Coralina

Meu companheiro de vida será um homem corajoso de trabalho,
servidor do próximo,
honesto e simples, de pensamentos limpos.

Seremos padeiros e teremos padarias.
Muitos filhos à nossa volta.
Cada nascer de um filho
será marcado com o plantio de uma árvore simbólica.
A árvore de Paulo, a árvore de Manoel,
a árvore de Ruth, a árvore de Roseta.

Seremos alegres e estaremos sempre a cantar.
Nossas panificadoras terão feixes de trigo enfeitando suas portas,
teremos uma fazenda e um Horto Florestal.
Plantaremos o mogno, o jacarandá,
o pau-ferro, o pau-brasil, a aroeira, o cedro.
Plantarei árvores para as gerações futuras.

Meus filhos plantarão o trigo e o milho, e serão padeiros.
Terão moinhos e serrarias e panificadoras.
Deixarei no mundo uma vasta descendência de homens
e mulheres, ligados profundamente
ao trabalho e à terra que os ensinarei a amar.

E eu morrerei tranqüilamente dentro de um campo de trigo ou
milharal, ouvindo ao longe o cântico alegre dos ceifeiros.
Eu voltarei…
A pedra do meu túmulo
será enfeitada de espigas de trigo
e cereais quebrados
minha oferta póstuma às formigas
que têm suas casinhas subterra
e aos pássaros cantores
que têm seus ninhos nas altas e floridas
frondes.

Eu voltarei…

Ana Lins do Guimarães Peixoto Bretas, conhecida como Cora Coralina,nasceu na cidade de Goiás, em 20 de agosto de 1889 e faleceu em Goiânia em 10 de abril de 1985

Da mesma autotia ler no Nothingandall Cântico da Terra

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2012-08-19

Os erros do Benfica a juntar aos erros dos árbitros...

O Benfica mais uma vez não ganhou no jogo de abertura do Campeonato. Mais do que isso revelou que os jogos de preparação não serviram para nada. Pelo contrário, a equipa e, principalmente, o treinador, persistiu nos erros – a teimosia às vezes, em vez de perseverança, é incompetência – com os dois golos do Braga a serem fruto da inexistência de um defesa esquerdo na equipa do Benfica. Melgarejo – um bom médio esquerdo ofensivo ou extremo esquerdo - quando defende não perde as rotinas e toca a marcar golos na própria baliza e a assistir os avançados… adversários!

Para além de persistir nos erros as coisas boas da pré-época não se viram. Existe unanimidade que Carlos Martins e Enzo Perez foram dois dos melhores jogadores do Befica nos jogos de preparação. Pois bem, o primeiro não jogou um só minuto (e na ausência de Aimar, no banco por falta de rotina de jogo, após longa ausência dos treinos devido a insuficiências físicas, seria o natural substituto) e o segundo entraria a substituir Salvio, adquirido há poucos dias diretamente para um lugar a titular para uma posição onde o Benfica tem uma profusão de jogadores.

Para além da falta do lateral esquerdo – ainda assim Luisinho, adquirido ao Paços de Ferreira, é a melhor opção, ou se Emerson ainda anda por cá (não foi colocado no mercado)… - o Benfica não tem substitutos medianos para defesa direito. Na baliza, o substituto de Artur o ano passado era Eduardo – jogador da seleção – e este ano é Paulo Lopes… Parece evidente o retrocesso…

Para as extremas o Benfica tem Gaitán, Bruno César, Nolito, Yanick Djaló, Enzo Perez, Ola John (comprado por uma pequena fortuna… duvido que vá dar jogador no Benfica – até porque as primeiras tricas com Jesus já aconteceram e este tanto é teimoso em apostar em jogadores cujas falhas condenam os campeonatos, como persistir em deixar de fora quem não lhe cai no goto: já foi assim com Capdevilla o ano passado e vai ser assim com Enzo Perez e Ola John este ano, ou muito me engano), e mais Salvio.

Junte-se ao desastroso início de época do Benfica o affaire Luisão – têm dúvidas que vai apanhar uim castigo severo? – e as expectativas dos mais de 53 mil da Luz e de todos os restantes adeptos espalhados pelo mundo estão iludidas… porque há ainda o fator arbitragem.

Enquanto o Benfica empatou com o Braga com uma fraca arbitragem de Soares Dias (aquele que no primeiro minuto da época passada em Alvalade não viu a ceifadela de Polga a Gaitán…); perdoou a expulsão a Alan ainda na primeira parte, admoestou jogador bracarense errado no penalty que deu 2-2, mostrando o segundo amarelo a Douglão, quando deveria ter sido Custódio a ver cartão vermelho direto, invalidou o 3-2 que daria o triunfo encarnado... e o árbitro foi ainda muito mal auxiliado.



Caricata a situação em que o assistente deixa um jogador bracarense do lado esquerdo do ataque partir em flagrante fora de jogo a caminho da baliza, o lance prosseguiu até à conclusão que não deu golo por milagre… e quando finalmente a defesa encarnada consegue despachar a bola, assinala o fora de jogo… Pois bem, o treinador do Benfica diz que a arbitragem foi boa.

Ao invés em Barcelos onde o Porto também jogou a uma velocidade de uma carripatana velha lá da empresa de transportes da minha terra e por isso não fez o suficiente para merecer ganhar, o treinador do Porto acha que é bom tema começar logo na primeira jornada a dar mensagem aos árbitros que é preciso cobrar os juros dos apitos dourados, dos quinhentinhos, das viagens ao Brasil e do café com leite, ao falar em dois penalties…
Enfim… é a silly season…


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Soneto da tarde - Odylo Costa, Filho

Não digo que o sol pare, nem suplico
que teu cabelo não se faça branco.
Nos segredos serenos que fabrico
vive um pouco de mago e saltimbanco.

mas te desejo simples, natural,
e que o dia na tarde amadureça.
Venceste muita noite e temporal.
Confia em que outra vez ainda amanheça.

O teu reino da infância sempre aberto
guarda o campo e os brinquedos infinitos
nas cores puras, sob o céu coberto.

Nos cajueiros, os pássaros... Os gritos
infantis... Mas a ronda neles nasce
e embranquece o cabelo em tua face.

Odylo Costa, filho (São Luís, 14 de dezembro de 1914 — Rio de Janeiro, 19 de agosto de 1979)
Do mesmo autor, no Nothingandall:
As Aquarelas
Os Coelhinhos (poema infantil)

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2012-08-18

Poema X do livro As Paredes do Mundo - Osmar Pisanie

Na fácil geometria da beleza
o peso da haste engana o homem
que se alimenta só de adjetivos.
Entre os retiros do sonho
e os emblemas da crise
a inútil pergunta do imprevisto.
Conciso é ter o silêncio doendo nos olhos
ter e não dispor, nem estar perto, estando longe
como o desenho da raiz ainda no fundo
ou a sombra da veia na superfície da chama.
A angústia cobre meus ossos
como um projeto ambíguo e descontínuo

Osmar Pisani nasceu em Gaspar, Santa Catarina, em 18 de agosto de 1936; faleceu em 7 de março de 2007

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2012-08-17

Quanto, quanto me queres? - perguntaste - António Botto

Quanto, quanto me queres? - perguntaste
Numa voz de lamento diluída;
E quando nos meus olhos demoraste
A luz dos teus senti a luz da vida.

Nas tuas mãos as minhas apertaste;
Lá fora da luz do Sol já combalida
Era um sorriso aberto num contraste
Com a sombra da posse proibida...

Beijámo-nos, então, a latejar
No infinito e pálido vaivém
Dos corpos que se entregam sem pensar...

Não perguntes, não sei - não sei dizer:
Um grande amor só se avalia bem
Depois de se perder.

in Poemas de Amor, Antologia de posia portuguesa, Organização e prefácio de Inês Pedrosa, Publicações Dom Quixote
António Tomaz Botto nasceu a 17 de Agosto de 1897, em Casal da Concavada, Abrantes e faleceu no Rio de Janeiro a 17 de Março de 1959)

Ler do mesmo autor, neste blog:

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Sentimental - Carlos Drummond de Andrade faleceu há 25 anos


Ponho-me a escrever teu nome
com letras de macarrão.
No prato, a sopa esfria, cheia de escamas
e debruçados na mesa todos contemplam
esse romântico trabalho.

Desgraçadamente falta uma letra,
uma letra somente
para acabar teu nome!

- Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!

Eu estava sonhando...
E há em todas as consciências um cartaz amarelo:
"Neste país é proibido sonhar."

Carlos Drummond de Andrade (Itabira, 31 de outubro de 1902 — Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987)

Ler do mesmo autor neste blog:
Mãos Dadas
Além da Terra, além do Céu,
Quero
O amor antigo
Indagação
Amar
Qualquer Tempo
A Língua Lambe
Quarto em Desordem
A Falta de Érico
A Hora do Cansaço

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2012-08-16

Na praia lá da Boa Nova, um dia - António Nobre


Na praia lá da Boa Nova, um dia,
Edifiquei (foi esse o grande mal)
Alto Castelo, o que é a fantasia,
Todo de lápis-lazúli e coral!

Naquelas redondezas, não havia
Quem se gabasse dum domínio igual:
Oh Castelo tão alto! parecia
O território dum Senhor feudal!

Um dia (não sei quando, nem sei donde)
Um vento seco de Deserto e spleen
Deitou por terra, ao pó que tudo esconde,

O meu condado, o meu condado, sim!
Porque eu já fui um poderoso Conde,
Naquela idade em que se é conde assim...

(Só, 1892)

António Pereira Nobre (nasceu no Porto a 16 de Agosto de 1867 e foi vítima de tuberculose pulmonar, na Foz do Douro, Porto a 18 de Março de 1900).

Ler do mesmo autor, neste blog:
E a vida foi, e é assim, e não melhora
O Teu Retrato
À Luz de Lua
Ao Cair das Folhas
Virgens que passais
Carta ao Oceano
A Leão XIII
Ladainha
Purinha

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2012-08-15

A espiga de milho no meio do cafezal ou Há quem morra, literalmente, de amor - Euclides da Cunha

"Tragédia da Piedade"

Ao saber que sua esposa, mais conhecida como Ana de Assis, o abandonara pelo jovem tenente Dilermando de Assis, que aparentemente já tinha sido ou era seu amante há tempos - e a quem Euclides atribuía a paternidade de um dos filhos de Ana, "a espiga de milho no meio do cafezal" (querendo dizer que era o único louro numa família de tez morena)-, saiu armado na direção da casa do militar, disposto a matar ou morrer. Dilermando era campeão de tiro e matou-o. Tudo indica que o matou lealmente, tanto que foi absolvido na Justiça Militar. Ana casou-se com ele.
O corpo de Euclides foi examinado pelo médico e escritor Afrânio Peixoto, que também assinou o laudo e viria mais tarde a ocupar a sua cadeira na Academia Brasileira de Letras.

E foi assim que morreu Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha no dia 15 de Agosto de 1909, ele que nascera a 20 de Jan 1866 na Fazenda Saudade, em Santa Rita do Rio Negro (atual Euclidelândia). município de Cantagalo, Rio de Janeiro.

Ler de Euclides da Cunha neste blog os poemas: Eu Quero; Comparação;


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2012-08-14

A Uma Estrela - Lúcio Cardoso

Meu domínio é o do sonho,
minha alegria é a do céu que a tormenta obscurece,
meu futuro é aquele que amanhece à luz do desespero.
Só tu saberás o segredo da minha predestinação.
Só tu saberás a extensão de tantas caminhadas,
só tu conhecerás a casa humilde em que morei.
Quem saberia romper o sortilégio que me cerca,
ó sol vermelho, aurora dos agonizantes.

Mas não reflitas nunca o gesto que condena.
Ai, este país é o da eterna aridez!
Se da altura a estrela não baixar o olhar ao pântano,
maior será a sua impiedade que o seu esplendor.

E só tu Vésper, só tu aplacarás o meu desejo,
só tu poderás depositar, nesta carne crispada,
o beijo que nas trevas dá ao sono a serenidade do repouso.


Considerado o "Dostoiévski brasileiro", o magnífico romancista, dramaturgo, poeta, pesquisador e artista plástico, Joaquim Lúcio Cardoso, nasceu em Curvelo, a 14 de agosto de 1912; morreu no Rio de Janeiro a 24 de setembro de 1968.

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2012-08-13

Cão Paleolítico - Manuel Vaz de Carvalho (um ano após o desaparecimento do poeta

Não desprezes o cão - teu leal amigo!
Chama-o de “irmão” e afaga-lhe o focinho,
Não lhe dês cárcere, leva-o contigo,
Alegre a dar ao rabo, a abrir caminho!

Ele vive a adivinhar os teus desejos,
Ele merece do teu pão e o teu tecto,
Faz tu por entender o seu dialecto
Só de grunhidos broncos e boquejos!

Ele defende o teu eido e o teu cardenho
Como se fossem dele, a duro cenho,
Só em troca de restos e abrigada…

Não o deixes noitar ao léu na lama,
Dá-lhe ninho aos pés da tua cama
E que ele te acorde a mimos de patada!

Manuel Vaz de Carvalho nasceu em Cerva, Ribeira de Pena, no dia 13 de março de 1921 e faleceu em 13 de agosto de 2011

in Poemas do Solstício, 2ª. Edição, Edições Colibri.

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A Beleza - Gonçalves de Magalhaes

Oh Beleza! Oh potência invencível,
Que na terra despótica imperas;
Se vibras teus olhos
Quais duas esferas,
Quem resiste a teu fogo terrível?

Oh Beleza! Oh celeste harmonia,
Doce aroma, que as almas fascina;
Se exalas suave
Tua voz divina,
Tudo, tudo a teus pés se extasia.

A velhice, do mundo cansada,
A teu mando resiste somente;
Porém que te importa
A voz impotente,
Que se perde, sem ser escutada?

Diga embora que o teu juramento
Não merece a menor confiança;
Que a tua firmeza
Está só na mudança;
Que os teus votos são folhas ao vento.

Tudo sei; mas se tu te mostrares
Ante mim como um astro radiante,
De tudo esquecido,
Nesse mesmo instante,
Farei tudo o que tu me ordenares.

Se até hoje remisso não arde
Em teu fogo amoroso meu peito,
De estóica dureza
Não é isto efeito;
Teu vassalo serei cedo ou tarde.

Infeliz tenho sido até agora,
Que a meus olhos te mostras severa;
Nem gozo a ventura,
Que goza uma fera;
Entretanto ninguém mais te adora.

Eu te adoro como o anjo celeste,
Que da vida os tormentos acalma;
Oh vida da vida,
Oh alma desta alma,
Um teu riso sequer me não deste!

Minha lira que triste ressoa,
Minha lira por ti desprezada,
Assim mesmo triste,
Assim malfadada,
Teu poder, teus encantos pregoa.

Oh Beleza, meus dias bafeja,
Em teu fogo minha alma devora;
Verás de que modo
Meu peito te adora,
E que incenso ofertar-te deseja.

Domingos José Gonçalves de Magalhães (nasceu no Rio de Janeiro em 13 de agosto de 1811. Faleceu em Roma (Itália) no dia 10 de julho de 1882).

Do mesmo autor:
Para que vim eu ao mundo
Apólogo: O Carro e o Burro

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2012-08-12

Procura - Miguel Torga

Perdi-me tanto, que ja não me encontro,
Agulha humana que se foi sumindo
No palheiro do tempo,
Hoje, amanhã, depois
-Aqui a meninince,
Ali a mocidade-,
Não houve sombra que me não cobrisse,
Nem sol que me trouxesse a claridade.

Mas não posso, nem quero conformar-me.
E como um cão fiel que escava a sepultura
Do dono,
Assim, desesperado,
Eu tento
Desenterrar
A imagem do que sou, de que não sei que momento
Ou que lugar...


Coimbra, 6 de Novembro de 1956

in Miguel Torga, Poesia Completa, Publicações Dom Quixote

Miguel Torga (Adolfo Correia da Rocha) (n. em São Martinho de Anta, Sabrosa, Trás-os-Montes, a 12 de Agosto de 1907; m. em Coimbra a 17 de Janeiro de 1995.

Ler do mesmo autor, neste blog: Mãe; Preservação; Súplica; Adeus; Depoimento; Poema Melancólico a Não Sei a Que Mulher; Boletim; Encontro; GlóriaFicam as Sombras; Sei um ninho; Queixa; Hora de amor; Mea culpa; Anátema; Livro de Horas; Quase um poema de amor; Perfil; Exorcismo; Bucólica; Arquivo; Rogo.

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2012-08-10

Nem a rosa nem o cravo... no centenário do nascimento de Jorge Amado

As frases perdem seu sentido, as palavras perdem sua significação costumeira, como dizer das árvores e das flores, dos teus olhos e do mar, das canoas e do cais, das borboletas nas árvores, quando as crianças são assassinadas friamente pelos nazistas? Como falar da gratuita beleza dos campos e das cidades, quando as bestas soltas no mundo ainda destroem os campos e as cidades?

Já viste um loiro trigal balançando ao vento? É das coisas mais belas do mundo, mas os hitleristas e seus cães danados destruíram os trigais e os povos morrem de fome. Como falar, então, da beleza, dessa beleza simples e pura da farinha e do pão, da água da fonte, do céu azul, do teu rosto na tarde? Não posso falar dessas coisas de todos os dias, dessas alegrias de todos os instantes. Porque elas estão perigando, todas elas, os trigais e o pão, a farinha e a água, o céu, o mar e teu rosto. Contra tudo que é a beleza cotidiana do homem, o nazifascismo se levantou, monstro medieval de torpe visão, de ávido apetite assassino. Outros que falem, se quiserem, das árvores nas tardes agrestes, das rosas em coloridos variados, das flores simples e dos versos mais belos e mais tristes. Outros que falem as grandes palavras de amor para a bem-amada, outros que digam dos crepúsculos e das noites de estrelas. Não tenho palavras, não tenho frases, vejo as árvores, os pássaros e a tarde, vejo teus olhos, vejo o crepúsculo bordando a cidade. Mas sobre todos esses quadros bóiam cadáveres de crianças que os nazis mataram, ao canto dos pássaros se mesclam os gritos dos velhos torturados nos campos de concentração, nos crepúsculos se fundem madrugadas de reféns fuzilados. E, quando a paisagem lembra o campo, o que eu vejo são os trigais destruídos ao passo das bestas hitleristas, os trigais que alimentavam antes as populações livres. Sobre toda a beleza paira a sombra da escravidão. É como uma nuvem inesperada num céu azul e límpido. Como então encontrar palavras inocentes, doces palavras cariciosas, versos suaves e tristes? Perdi o sentido destas palavras, destas frases, elas me soam como uma traição neste momento.

Mas sei todas as palavras de ódio, do ódio mais profundo e mais mortal. Eles matam crianças e essa é a sua maneira de brincar o mais inocente dos brinquedos. Eles desonram a beleza das mulheres nos leitos imundos e essa é a sua maneira mais romântica de amar. Eles torturam os homens nos campos de concentração e essa é a sua maneira mais simples de construir o mundo. Eles invadiram as pátrias, escravizaram os povos, e esse é o ideal que levam no coração de lama. Como então ficar de olhos fechados para tudo isto e falar, com as palavras de sempre, com as frases de ontem, sobre a paisagem e os pássaros, a tarde e os teus olhos? É impossível porque os monstros estão sobre o mundo soltos e vorazes, a boca escorrendo sangue, os olhos amarelos, na ambição de escravizar. Os monstros pardos, os monstros negros e os monstros verdes.

Mas eu sei todas as palavras de ódio e essas, sim, têm um significado neste momento. Houve um dia em que eu falei do amor e encontrei para ele os mais doces vocábulos, as frases mais trabalhadas. Hoje só o ódio pode fazer com que o amor perdure sobre o mundo. Só o ódio ao fascismo, mas um ódio mortal, um ódio sem perdão, um ódio que venha do coração e que nos tome todo, que se faça dono de todas as nossas palavras, que nos impeça de ver qualquer espetáculo – desde o crepúsculo aos olhos da amada – sem que junto a ele vejamos o perigo que os cerca.

Jamais as tardes seriam doces e jamais as madrugadas seriam de esperança. Jamais os livros diriam coisas belas, nunca mais seria escrito um verso de amor. Sobre toda a beleza do mundo, sobre a farinha e o pão, sobre a pura água da fonte e sobre o mar, sobre teus olhos também, se debruçaria a desonra que é o nazifascismo, se eles tivessem conseguido dominar o mundo. Não restaria nenhuma parcela de beleza, a mais mínima. Amanhã saberei de novo palavras doces e frases cariciosas. Hoje só sei palavras de ódio, palavras de morte. Não encontrarás um cravo ou uma rosa, uma flor na minha literatura. Mas encontrarás um punhal ou um fuzil, encontrarás uma arma contra os inimigos da beleza, contra aqueles que amam as trevas e a desgraça, a lama e os esgotos, contra esses restos de podridão que sonharam esmagar a poesia, o amor e a liberdade!

O texto acima foi publicado no jornal "Folha da Manhã", edição de 22/04/1945, e consta do livro "Figuras do Brasil: 80 autores em 80 anos de Folha", PubliFolha - São Paulo, 2001, pág. 79, organização de Arthur Nestrovski. (extraido daqui

Jorge Amado nasceu na fazenda Auricídia, em Ferradas, município de Itabuna, Bahia em 10 de agosto de 1912; faleceu em 06 de agosto de 2001 na cidade de Salvador, Bahi-

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2012-08-09

IGNORANCE / IGNORÂNCIA - Philip Larkin

Strange to know nothing, never to be sure
Of what is true or right or real,
But forced to qualify or so I feel,
Or Well, it does seem so:
Someone must know.

Strange to be ignorant of the way things work:
Their skill at finding what they need,
Their sense of shape, and punctual spread of seed,
And willingness to change;
Yes, it is strange,

Even to wear such knowledge - for our flesh
Surrounds us with its own decisions -
And yet spend all our life on imprecisions,
That when we start to die
Have no idea why.


EM PORTUGUÊS

Estranho nada saber, nunca ter a certeza
Do que é verdadeiro, certo ou real,
Forçado então a dizer pelo menos é o que sinto
Ou Bom, é o que parece:
Alguém deve saber.

Estranho ignorar o modo como as coisas funcionam:
A sua capacidade de encontrar o que necessitam,
O seu sentido de forma, e o espalhar da semente preciso,
E a sua vontade de mudar;
Sim, é estranho,

Trazer vestido até tal conhecimento – pois a nossa carne
Cerca-nos com as suas próprias decisões –
E ainda assim gastar a vida em imprecisões,
Tanto que quando começamos a morrer
Nem fazemos a ideia do porquê.

Tradução de Pedro Silva Sena

Philip Arthur Larkin (Coventry, 9 de Agosto de 1922 – 2 de Dezembro de 1985)

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OUTRA COISA - Mário Cesariny

Apresentar-te aos deuses e deixar-te
entre sombra de pedra e golpe de asa.
Exaltar-te perder-te desconfiar-te
seguir-te de helicóptero até casa

dizer-te que te amo amo amo
que por ti passo raias e fronteiras
que não me chamo Mário que me chamo
uma coisa que tens nas algibeiras

lançar a bomba onde vens no retrato
de dez anos de anjinho nacional
e nove de colégio terceiro acto

pôr-te na posição sexual
tirar-te todo o bem e todo o mal
esquecer-me de ti como do gato

(Poemas de Londres 1971)

Extraído de Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI
Selecção, organização, introdução e notas de Jorge Reis-Sá e Rui Lage, Porto Editora

Mário Cesariny de Vasconcelos (n. em Lisboa a 9 Ago 1923; m. em Lisboa a 26 Nov 2006)

Ler do mesmo autor neste blog:
Em Todas as Ruas te Encontro
Pastelaria
história de cão

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2012-08-08

A VIDA É FEITA DE INSTANTES - Armindo Rodrigues

A vida é feita de instantes
em constante oposição.
Nenhum é como foi dantes.
Foram-se uns, outros virão.
Em que é o homem igual,
a não ser em nunca o ser?
Quem sabe o que o mundo vale
mais tem de que se valer.
Uma esperança se quebranta?
Outra toma a dianteira.
O que mais na vida espanta
é a própria vida inteira.

Armindo José Rodrigues (Lisboa, 1904 – Lisboa, 8 de Agosto de 1993)

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2012-08-07

Musical suggestion of the day: Inutile finestra - Caetano Veloso


Caetano Emanuel Viana Teles Veloso nasceu em Santo Amaro da Purificação, Bahia, Brasil a 7 de agosto de 1942

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Noite Vazia - Edmundo de Bettencourt

Crescimento do silêncio a devorar as nuvens.
Voo incansável e monótono das aves brancas do cérebro.
Florida e ondulada suspensão da mágoa.
As ferocidades são ternuras desmaiando na estepe adivinhada.
O amor abre goelas bocejantes nos côncavos da ausência do espaço.
E a morte espreitando a lentidão
irradia baçamente a sua despedida.

Noite vazia.

As aves brancas do cérebro
inutilmente abatem as suas asas!


(Poemas Surdos 1034-1940, 1963)
Extraído de Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora

Edmundo Alberto de Bettencourt nasceu no Funchal no dia 7 de Agosto de 1899 e faleceu em Lisboa no dia 1 de Fevereiro de 1973

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Radiografia - Políbio Gomes dos Santos

Não sei se era uma esplêndida loucura.
Porém a noite escura, àquela hora,
Veio pôr-me nos olhos
Uma super-visão de Raios X.
Tudo transparente e sombrio!:
Nas caves os criados trintanários,
Sonolentos, senis, alquebrados,
Como em pêgo profundo, no fundo dum rio,
Deitados.
E em sobrados nos altos das casas
As pessoas suspensas e presas
Nas invisíveis asas.

O clarão dos escuros e silêncios
Apunhalava as coisas indefesas
E era o meu guia.
E eu via, via tudo, entretinha-me a ver,
Aplaudindo em meus olhos
A tragédia funérea de ser.

A mulher que eu amava dormia.
E lá estava perdendo a magia
Das formas,
O mistério das coisas opacas.
Ai, eu via os seus orgãos medonhos, eu via,
Comprimidos boiando em fluidos
De estranha alquimia.

As donzelas! as puras donzelas!
- Como eram iguais seus esqueletos
E gesto de guardar a virgindade
Num halo,
Fechadas nas casas, sonhando!

E aqui, ali, além, de quando em quando
As cenas abismais,
Infiltrações letais – promiscuidade!:

Em ângulos mornos de alcovas solenes,
Dormiam, jaziam casados,
Ventrudos, coitados, casais de burgueses!:
Um respirava o ar que o outro expira,
Cantado, resfolgado,
Como o vapor em máquinas cansadas
Ou moléstias em papos de reses;
E na parede, sobre a mesa de pau-santo,
O cuco do relógio veniando
Quatro vezes.
E ó ruas, ó ruas viscosas,
Dormindo venenosas, como cobras
Digerindo!
Ó casas leprosas,
Envenenando o ar amigo meu e deles!
- O ar já gás emagrecido, manso mas cansado,
Azul e quente,
Pairando sobre as camas a gemer,
Piedosamente!
Ó gente, ...................

E lá vinha, e lá vinha a elevar-se do rio,
Um calmo doentio nevoeiro grosso!
Tão velho rio!
Cantado pelos bárbaros poetas...
Tão límpido!
Mostrando-me as enguias nas buracas
E os cadáveres inchados
De afogados,
Espetados nas estacas.

E o silêncio!
Eu e uma cidade!
Apenas o rumor de traças infernais,
A roerem humanos, ocultas, danadas,
Como caruncho em madeiras
De casas abandonadas.

Eu e uma cidade...
Que a lava da noite veio sepultar
Dentro de mim...
Esta Pompeia que me entrou plos olhos,
Com suas mil estátuas e cenas do fim...
Este burgo dos ídolos partidos e painéis
Cruéis, sumidos,
Que a minha alma ansiosa anda a escavar,
E que o loiro dinheiro dos Lords
Não pode comprar.

Políbio Gomes dos Santos (n. Ansião, 7 de Agosto de 1911 — m. Ansião, 3 de Agosto de 1939)

Do mesmo autor, neste blog:
Poema da Voz que Escuta
Testamento Aberto
Genesis

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2012-08-06

Godiva - Alfred Tennysson

I waited for the train at Coventry;
I hung with grooms and porters on the bridge,
To watch the three tall spires; and there I shaped
The city's ancient legend into this:

Not only we, the latest seed of Time,
New men, that in the flying of a wheel
Cry down the past, not only we, that prate
Of rights and wrongs, have loved the people well,
And loathed to see them overtax'd; but she
Did more, and underwent, and overcame,
The woman of a thousand summers back,
Godiva, wife to that grim Earl, who ruled
In Coventry: for when he laid a tax
Upon his town, and all the mothers brought
Their children, clamoring, "If we pay, we starve!"
She sought her lord, and found him, where he strode
About the hall, among his dogs, alone,
His beard a foot before him and his hair
A yard behind. She told him of their tears,
And pray'd him, "If they pay this tax, they starve."
Whereat he stared, replying, half-amazed,
"You would not let your little finger ache
For such as these?" -- "But I would die," said she.
He laugh'd, and swore by Peter and by Paul;
Then fillip'd at the diamond in her ear;
"Oh ay, ay, ay, you talk!" -- "Alas!" she said,
"But prove me what I would not do."
And from a heart as rough as Esau's hand,
He answer'd, "Ride you naked thro' the town,
And I repeal it;" and nodding, as in scorn,
He parted, with great strides among his dogs.

So left alone, the passions of her mind,
As winds from all the compass shift and blow,
Made war upon each other for an hour,
Till pity won. She sent a herald forth,
And bade him cry, with sound of trumpet, all
The hard condition; but that she would loose
The people: therefore, as they loved her well,
From then till noon no foot should pace the street,
No eye look down, she passing; but that all
Should keep within, door shut, and window barr'd.

Then fled she to her inmost bower, and there
Unclasp'd the wedded eagles of her belt,
The grim Earl's gift; but ever at a breath
She linger'd, looking like a summer moon
Half-dipt in cloud: anon she shook her head,
And shower'd the rippled ringlets to her knee;
Unclad herself in haste; adown the stair
Stole on; and, like a creeping sunbeam, slid
From pillar unto pillar, until she reach'd
The Gateway, there she found her palfrey trapt
In purple blazon'd with armorial gold.

Then she rode forth, clothed on with chastity:
The deep air listen'd round her as she rode,
And all the low wind hardly breathed for fear.
The little wide-mouth'd heads upon the spout
Had cunning eyes to see: the barking cur
Made her cheek flame; her palfrey's foot-fall shot
Light horrors thro' her pulses; the blind walls
Were full of chinks and holes; and overhead
Fantastic gables, crowding, stared: but she
Not less thro' all bore up, till, last, she saw
The white-flower'd elder-thicket from the field,
Gleam thro' the Gothic archway in the wall.

Then she rode back, clothed on with chastity;
And one low churl, compact of thankless earth,
The fatal byword of all years to come,
Boring a little auger-hole in fear,
Peep'd -- but his eyes, before they had their will,
Were shrivel'd into darkness in his head,
And dropt before him. So the Powers, who wait
On noble deeds, cancell'd a sense misused;
And she, that knew not, pass'd: and all at once,
With twelve great shocks of sound, the shameless noon
Was clash'd and hammer'd from a hundred towers,
One after one: but even then she gain'd
Her bower; whence reissuing, robed and crown'd,
To meet her lord, she took the tax away
And built herself an everlasting name.

Alfred Tennyson, 1st Baron Tennyson (6 August 1809 Somersby, Lincolnshire, England
United Kingdom – 6 October 1892 Haslemere, Surrey, England
United Kingdom)

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2012-08-05

Don't Quit - Edgar Guest

When things go wrong, as they sometimes will,
When the road you're trudging seems all up hill,
When the funds are low, and the debts are high,
And you want to smile, but you have to sigh,
When care is pressing you down a bit,
Rest if you must, but don't you quit.

Life is queer with it's twists and turns,
As everyone of us sometimes learns,
And many a failure turns about,
When he might have won had he stuck it out.
Don't give up though the pace seems slow,
You may succeed with another blow.

Success is failure turned inside out,
The silver tint of the clouds of doubt,
And you never can tell how close you are,
It may be near when it seems so far,
So stick to the fight when you're hardest hit,
It's when things seem worse,
That you must not quit.


Edgar Albert Guest (August 20, 1881, Birmingham, England – August 5, 1959, Detroit, Michigan)

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2012-08-04

O FUNCHAL, À NOITE - Delfim Guimarães (no 140º aniversário)

Como é belo o Funchal, à noite, iluminado!
Resplandecente, o cais! Brilhante, a casaria
Lembra um diadema real de fina pedraria,
Um manto senhoril ricamente bordado.

Que bonita é a cidade, à noite!... A serrania
Destaca-se no azul, num corte rendilhado...
O Atlântico semelha um céu todo estrelado,
Tanto lume a bailar nas águas da baía!

Na mancha de alcantis, de vinhedos e campos,
Numa grande extensão, legiões de pirilampos
Andam a manobrar, saltitando, fulgindo...

Faiscantes de luz, as ruas e lareiras
Parecem esconder fantásticas fogueiras...
Como à noite o Funchal, iluminado, é lindo!

Delfim de Brito Monteiro Guimarães (n. no Porto a 4 Ago 1872, m. na Amadora a 6 de Jul 1933)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Feiticeira
A Primeira Palavra
A Cor do Cabelo
A Hora da Partida

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2012-08-03

Alvorada no morro - Carlos Cachaça

Segundo se diz na publicação de onde se extraiu esta pequena maravilha da poesia popular, Cartola e Carlos Cachaça compuseram a primeira parte do poema que Hermínio Bello de Carvalho completou. Há tanta luz e beleza neste poema quanto a luz e a beleza ao alvorecer no morro cantado pelos poetas.

Lá no morro, que beleza
Ninguém chora, não há tristeza
Ninguém sente dissabor
O sol colorindo
E tão lindo, é tão lindo
E a natureza sorrindo
Tingindo, tingindo

Você também me lembra a alvorada
Quando chega iluminando
Meus caminhos tão sem vida
Mas o que me resta
E bem pouco, quase nada
Do que ir assim vagando
Numa estrada perdida


CARLOS CACHAÇA, mais propriamente CARLOS MOREIRA DE CASTRO, nasceu em 3 de agosto de 1902, no Rio de Janeiro — faleceu no Rio de Janeiro, a 16 de agosto de 1999


In Tem gato na tuba e outros poemas / introdução e apresentação dos autores e das obras Elias José : ilustrações Gilberto Miadaira. — São Paulo : Martins Pontes, 2002. — (Coleção literatura em minha casa : v. 1)


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2012-08-02

Símbolo dos Símbolos - Félix Pacheco

Caveira! Tu conténs a síntese do mundo!
Trazes dentro de ti o impalpável mistério.
És o louro mudado em tinhorão funéreo,
És o azul transformado em báratro profundo!

Destronados Satãs de olhar meditabundo,
Andam dentro de ti como num cemitério,
E os Faustos doutorais, de aspecto mudo e sério,
Descem do informe caos ao tenebroso fundo.

Cabalístico signo exótico do nada,
Sofres, e a tua dor, caveira, é sufocada,
Gemes, e o teu gemido esvai-se em ironia.

Resta-te agora só, depois de tantas glórias,
A lembrança cruel das passadas vitórias
E essa amarga expressão de funda nostalgia.

José Félix Alves Pacheco, nasceu em Teresina, PI, em 2 de agosto de 1879, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 6 de dezembro de 1935.

Ler do mesmo autor, neste blog:
Ofertório
O Poeta e o Tempo
Do Cimo da Montanha
Símbolo d'Arte
Em Louvor do Soneto
Estranhas Lágrimas
Visita Infalível

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2012-08-01

Reservo-me o domingo - António Rebordão Navarro

Reservo-me o domingo para a busca
receosa e teimosa da alegria.
Meu coração devia ser alegre
como um pássaro novo,
meu coração devia ser alegre
como o vinho ou o fogo
No entanto, onde está a alegria?
onde estão as sementes da alegria?
onde vive a alegria? No entanto,
pergunto às coisas e às gentes
de domingo onde está a alegria.
Mesmo que a não encontre
destino-lhe o domingo,
este e outros domingos,
este sol e outros ventos,
este mar e outras ruas,
estas mãos e estes olhos.
Assim acho razão para não estar triste.

in O Dia Dentro da Noite - Poemas (1952 - 1982)
Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda

António Rebordão Navarro nasceu no Porto em 1 de Agosto de 1933.

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