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2014-03-31

OBJECT TROUVÉ - Salette Tavares

Em casa de meus Pais havia
Grandes chávenas de loiça    para fazer chichi.
No Museu de Arte Moderna em Nova Iorque há
uma chávena de pêlo                      mas não vi
nenhum penico.                   Para Duchamp fico
na secção de Design                  a esperar vê-lo.

(LEX ICON, 1971)

Salette Tavares nasceu a 31 de março de 1922, em Lourenço Marques, atual Maputo e faleceu a 30 de maio de 1994, em Lisboa.

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Inverno - Foed Castro Chamma

Juntos viajamos ao confim dos tempos
desfrutando o sabor de teu hálito e o toque
delicado das mãos que me fogem
quais aves transparentes neste inverno
que pede o teu calor análogo ao mosteiro
cercado pelo gelo de uma Sibéria polonesa
e sobre o banco a monja deitada e o exorcista
a imprecar ao demônio que a abandone reeditando
a mística da Dor. O aconchego no inverno
atrai o fogo da carne ao amoroso que a vida
celebra na matéria onde germina o bálsamo
que vivifica as forças combalidas pelo gelo
da mortificação, o gelo de uma amora acesa
em ímpetos de labaredas invisíveis
que se ocultam e são as rosas de um jardim
florescente que Deus aguarda e rega as folhas
tépidas de Joana a negar o fragor crepitante
do gelo entre os galhos encobertos
pela fria, dolorosa estação.

Rompe os parâmetros que se impõem ao Fogo
o ímpeto avassalador da Aliança concebida
entre os pares que no aconchego dos corpos
suprem a imposição polar da álgida calota
de uma Antártida a reeditar o fogo branco
da Patagônia da nossa solidão
sombria em que afundamos exauridos
da ausência da alma e a liturgia necessária
ao conforto dos lábios afogueados sob o pêlo
de uma áfrica que o Continente de cocada
e sumo interminável a metáfora agasalha
qual imagem afogueada de assombro
e rapto ao confim dos tempos
no leito que convém aos corpos insubmissos
voltados para a dança e seus quadrantes
amorosos que as estações renovam
a cada inverno, a cada canto
consagrado ao rito da Natureza
que os anos celebram, os momos, as legiões
com suas listas de duas cores como as zebras.

Visões da fé não aquecem o corpo místico
da Dor que os braços enlaçados
buscam suprir na viagem sem retorno
afogueada do desejo e a impressão canina
da fome que avassala os nossos corpos
na contradição terrível que acompanha o Amor
e o inverno não aplaca em seus desígnios
paralelos. O brilho do diamante é de uma estrela
em miniatura que o pensamento induz
à relação do espírito a transfigurar-se
na compleição do homem tal um deus
cuja remota salvaguarda é a virtude
do herói que transforma o Arquétipo
em mito.


Foed Castro Chamma, nasceu a 31.03.1927, em Irati, Paraná, Brasil.

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2014-03-30

Madrugada Camponesa - Thiago de Mello

Madrugada camponesa,
faz escuro ainda no chão,
mas é preciso plantar.
A noite já foi mais noite
a manhã já vai chegar.

Não vale mais a canção
feita de medo e arremedo
para enganar solidão
Agora vale a verdade
cantada simples e sempre
agora vale a alegria
que se constrói dia a dia
feita de canto e de pão.

Breve há de ser
sinto no ar
tempo de trigo maduro
vai ser tempo de ceifar
Já se levantam prodígios
chuva azul no milharal,
estala em flor o feijão
um leite novo minando
no meu longe seringal.

Madrugada da esperança
já é quase tempo de amor
colho um sol que arde no chão,
lavro a luz dentro da cana
minha alma no seu pendão.

madrugada Camponesa
faz escuro (já nem tanto)
vale a pena trabalhar
faz escuro, mas eu canto
porque a manhã vai chegar

Amadeu Thiago de Mello, nascido a 30 de março de 1926, na pequenina cidade de Barreirinha, Amazónia.

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2014-03-28

Há um rumor, na voz que ouve, o mundo canta - Luís de Miranda Rocha

Há um rumor, na voz que ouve, o mundo canta
Na voz que fala, o mundo ouve, o som do mundo
A luz da noite, incerta vaga, escuramente
A luz da noite, o som do mundo, azul escuro

Há um rumor, intenso grave, ouvido canta
O som do mundo, que no ar, o alterado
Esse rumor, imenso tão, suave grave

Ouvindo-o, esse rumor
Nocturno tão, grave ruído

in: A luz da noite, o som do Mundo, Novo Imbondeiro, 2001

Luís de Miranda Rocha, jornalista, crítico literário e poeta nasceu em Mira em 1947 e faleceu em Coimbra a 28 de Março de 2007

Ler do mesmo autor:
Estou aqui. Há quanto tempo
Se te falasse se me ouvisses eu

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2014-03-27

Hino da Canalha - Affonso Romano de Sant'Anna

A canalha se ajuntou de novo, a canalha!
Em torno da mesma mesa e toalha
e acanalhando-se outra vez
acanalhou-nos a todos, a canalha!

A canalha é ávida e inquieta, a canalha!
Tem a audácia do corvo e a avidez da gralha,
com bico de urubu fuça a mortalha,
a canalha não larga o osso, a canalha!

No jogo do faz-desfaz, a canalha
nos mantém no fio da navalha,
vive brincando com o fogo
e sai rindo da fornalha, a canalha!

Achincalha tudo o que toca, a canalha!
E ela nunca tarda e nunca falha,
sabe onde semeia e amealha,
mistura o trigo com a palha, a canalha!

Trabalha em silêncio, a canalha!
E pode ter cara de jovem ou grisalha.
De novo vão fazer o banquete
e nos jogar a migalha, a canalha!

A canalha não tem ética, a canalha!
Mostra seus brazões e medalhas,
guarda os cofres na muralha
e faz da história uma bandalha, a canalha!

Diante dessa canalha
não sei se é melhor falar direto
ou se a metáfora atrapalha.
Bato no meu poema ou cangalha
e denuncio à minha gente a gentalha.
Pudesse fugir, fugia
para Pasárgada, Maracangalha.
Diante dessa canalha
valha-me Deus!
e o próprio demônio valha!

Affonso Romano de Sant'Anna (Belo Horizonte, 27 de março de 1937)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Cilada Verbal
O Homem e a Morte
Silêncio Amoroso
Arte-final

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2014-03-26

Soneto de Despedida - Francisco Bingre

A meus netos, filhos de minha filha Raimunda

Filhos de minha filha, amados Netos,
Duas vezes meus filhos tão queridos:
Recebei os meus últimos gemidos,
Recolhei meus recônditos afectos!...

Vós sois os meus amados mais dilectos,
Em que sempre empreguei os meus sentidos;
Queira o Céu que sejais dos escolhidos
Que Deus escritos tem nos seus decretos.

Vai o foro pagar à Natureza
O vosso velho avô que assaz vos ama!...
Envolvido nas mantas da pobreza.

Abrasado de amor na viva chama,
Nada tem que deixar-vos, de riqueza,
Mais que o triste pregão da sua fama.


Soneto n.º 2082 – pag. 469 do 6.º volume das Obras Completas
Extraído daqui


Francisco Joaquim Bingre nasceu em S. Tomé de Canelas, Estarreja no dia 9 de julho de 1763 e morreu em Mira a 26 de março de 1856).

Ler do mesmo autor, neste blog:
Paciência, um Sofrimento Voluntário
Retrospectiva
Meus Versos
A Camões

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2014-03-25

Essa, que paira em meus sonhos - Pedro Kilkerry

Essa, que paira em meus sonhos,
Em meus sonhos a brilhar,
E tem nos lábios risonhos
O nácar do Iônio — Mar —
Numa fantasia estranha,
Estranhamente a sonhei
E de beleza tamanha,
Enlouqueci. É o que sei.
Ela era, em plaustro dourado
Levado de urcos azuis,
De Paros nevirrosado,
Ombros nus, os seios nus...
E que de esteiras de estrelas,
De prásio, opala e rubim!
Na praia perto, por vê-las
Vi que saltava um delfim
Que longamente as fitando
Alçou a cauda, a tremer
E outros delfins, senão quando
Aparecer.


Pedro Militão Kilkerry (n. em Salvador (BA), a 10 de Março de 1885: m. em 25 de Mar. 1917)

Ler do mesmo autor:
Ritmo Eterno
Folhas da Alma
É o Silêncio

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2014-03-24

Teia de Aranha - Olegário Mariano

imagem daqui

Dizem que traz felicidade a teia
De aranha. Surge um dia, malha a malha,
E a aranha infatigável que trabalha
Mata os insectos quanto mais se alteia.

Sobe ao beiral. É um berço e balanceia
Ao vento que os filetes de ouro espalha...
E, ao sol iluminado que a amortalha,
A trama iluminada se incendeia.

Surge a primeira borboleta ebriada...
Vem louca, primavera de ansiedade...
Mas de repente, a asa despedaçada

Rola... É o fim... a tortura da grilheta...
Não quero nunca essa felicidade
Que vem da morte de uma borboleta.


in Antologia Portuguesa e Brasileira, Evaristo Pontes dos Santos, Porto 1974

Olegário Mariano Carneiro da Cunha (nasceu na cidade de Recife, Pernambuco, a 24 de março de 1889. Faleceu no Rio de Janeiro a 28 de novembro de 1958).

Ler do mesmo autor:
Arco-íris
O Meu Retrato
A Canção da Saudade
O Enamorado das Rosas
Almas Irmãs
O Conselho das Árvores
O Enterro da Cigarra

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2014-03-22

DILEMA - Guimarães Passos

Se altivo - ouvirás contra ti mil rumores;
Humilde - qualquer um julgar-te-á seu vassalo;
Rico - servos terás como Sardanapalo;
Pobre - ai! de ti! ver-te-ás cercado de credores.

Se franco - eis a teu lado os vis caluniadores;
Ladino - ao teu encalço eis a lei, a cavalo;
Ama - serás tu só que sofrerás abalo;
Se amado - outro és e não terás amores.

Se só - tu maldirás a tua soledade;
Unido - chorarás a antiga liberdade...
Para seres, enfim, sem sofrer, que te ocorre?

Se alguém, sejas nada, inteligente ou rudo;
Se dos que nada têm; se dos que gozam tudo,
Para teres razão, só tens um meio: morre!



Sebastião Cícero dos Guimarães Passos nasceu em Maceió, Alagoas, no dia 22 de março de 1867, e faleceu em Paris, no dia 9 de setembro de 1909.

Ler do mesmo autor, neste blog:
Paradoxo
Mea Culpa
...Depois
Pubescência
XLI - Crianças fomos, como tal, tu, louca...

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2014-03-21

Quando encontrares um homem - Nizar Kabanni

Quando encontrares um homem
Que transforme
Cada partícula tua
Em poesia,
Que faça de cada um dos teus cabelos
Um poema,
Quando encontrares um homem
Capaz,
Como eu,
De te lavar e adornar
Com poesia,
Hei-de implorar-te
Que o sigas sem hesitação
Pois o que importa
Não é que sejas minha ou dele
Mas sim da poesia.

Extraído daqui


Nizar Tawfiq Qabbani (Arabic: نزار توفيق قباني‎, Nizār Tawfīq Qabbānī) (n. 21 Mar. 1923 em Damasco, Síria: m. em Londres, em 30 April 1998)

Domesmo autor: Ontem

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Dia Mundial da Poesia / World Poetry Day



 La poesía es algo que anda por las calles. Que se mueve, que pasa a nuestro lado. Todas las cosas tienen su misterio, y la poesía es el misterio que tienen todas la cosas
 (Federico Garcia Lorca)


"As a deep expression of the human mind and as a universal art, poetry is a tool for dialogue and rapprochement. The dissemination of poetry helps to promote dialogue among cultures and understanding between peoples because it gives access to the authentic expression of a language."

Irina Bokova, Director-General of UNESCO Message on the occasion of World Poetry Day 2014

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2014-03-20

... E porque hoje começa a Primavera eis «Quando vier a Primavera» de Alberto Caeiro

Primavera

imagem daqui

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

in Poemas Completos de Alberto Caeiro, Recolha, transcrição e notas Teresa Sobral Cunha - Editorial Presença, 1994

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Da margem esquerda da vida - Reinaldo Ferreira

Da margem esquerda da vida
Parte uma ponte que vai
Só até meio, perdida
Num balo vago, que atrai.

É pouco tudo o que eu vejo,
Mas basta, por ser metade,
P'ra que eu me afogue em desejo
Aquém do mar da vontade.

Da outra margem, direita,
A ponte parte também.
Quem sabe se alguém ma espreita?
Não a atravessa ninguém.


Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira (n. em Barcelona, a 20 de Março de 1922; m. em Moçambique a 30 de Junho de 1959).

Ler do mesmo autor, neste blog:
Rosie
Vivo na esperança de um gesto
Quem dorme à noite comigo
Meu Quase Sexto Sentido
Uma Casa Portuguesa
Passemos Tu e Eu Devagarinho
Duma outra infância, inventada

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2014-03-19

Enquanto Descansas - Rui Diniz

Deves descansar por esta hora...
sozinha, aninhada, com a mente em teus projectos,
eu sei que o cansaço já não vai embora;
e que o sono nunca chega a tempos certos...!

Eu estou contigo...porém, meu corpo não canta aí;
nem meus braços afastam o frio da noite na cama vã,
nem meu olhar coloca de novo a chama em ti...
mas minh'alma aqui beija-te num tom menor de Chopin.

E apesar da pústula da tua ausência
com que me brindaste em teus braços longe,
ainda és tu a suave manta que me cobre
e o meu oásis no deserto frio!
Ainda és tu a espada que me fez nobre...
e és tu, mulher...
a razão porque sorrio. :)

in «Corte D'El-Rei», Amor-Ego, pág.36
Gráfica Europam, Julho de 2006

Rui Diniz nasceu a 19 de Março de 1979 em Almada.

Do mesmo autor neste blog ler: Poema Suspirado

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2014-03-18

Menino e Moço - António Nobre

Tombou da haste a flor da minha infância alada.
Murchou na jarra de oiro o pudico jasmim:
Voou aos altos céus Sta. Águia, linda fada
Que dantes estendia as asas sobre mim.

Julguei que fosse eterna a luz dessa alvorada,
E que era sempre dia, e nunca tinha fim
Essa visão de luar que vivia encantada,
Num castelo de prata embutido a marfim!

Mas, hoje, as águias de oiro, águias da minha infância,
Que me enchiam de lua o coração, outrora,
Partiram e no céu evolam-se à distancia!

Debalde clamo e choro, erguendo aos céus meus ais:
Voltam na asa do vento os ais que a alma chora,
Elas, porém, Senhor! elas não voltam mais...


Versão extraída da cópia digital Projeto Gutenberg do original
ANTONIO NOBRE, SÓ, PARIS, LÉON VANIER, ÉDITEUR 19, QUAI SAINT-MICHEL, 19, 1892

Existe outra versão com alterações nos 3º e 8º versos que seriam
Voou aos altos céus a pomba enamorada
Mas, hoje, as pombas de oiro, aves da minha infância,
(versão vista por exemplo aqui)

Em obediência à publicação preferimos a Sta. Águia e as águias de oiro (até porque o Benfica mais uma vez voou alto!)

António Pereira Nobre (nasceu no Porto a 16 de Agosto de 1867 e foi vítima de tuberculose pulmonar, na Foz do Douro, Porto a 18 de Março de 1900).

Ler do mesmo autor, neste blog:
O Teu Retrato
À Luz de Lua
Ao Cair das Folhas
Virgens que passais
Carta ao Oceano
A Leão XIII
Ladainha
Purinha
E a vida foi, e é assim, e não melhora

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2014-03-17

Canção - António Botto

Se fosses luz serias a mais bela
De quantas há no mundo: — a luz do dia!
— Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração
Da minha fantasia!
Se fosses flor serias o perfume
Concentrado e divino que perturba
O sentir de quem nasce para amar!
— Se desejo o teu corpo é porque tenho
Dentro de mim
A sede e a vibração de te beijar!
Se fosses água, música da terra,
Serias água pura e sempre calma!
— Mas de tudo que possas ser na vida
Só quero, meu amor, que sejas alma!


in Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Assírio Alvim

António Tomaz Botto (nasceu em Concavada, Abrantes a 17 de Agosto de 1897 e morreu no Rio de Janeiro a 17 de Março de 1959)

Do mesmo autor:
Meus Olhos Que Por Alguém
Homem, que vens de humanas desventuras
Nem Sequer Podia
Porque me negas um beijo?
Cinco Réis de Gente
Não me peças mais canções
Envolve-me Amorosamente
Quanto, quanto me queres?- perguntaste -

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2014-03-15

INSPIRAÇÃO - António Vianna

À memória de minha Mãe

Montes da minha aldeia, tão formosa,
Que as águas do Mondego ides guiando
Para onde triste fonte está chorando
A morte d'uma amante desditosa!

Aqui passou a infância descuidosa
Aquela que estou sempre recordando;
Aqui as tenras mãos uniu rezando,
À hora do sol posto silenciosa.

O mesmo sino ouviu que estou ouvindo;
Por estes mesmos vales discorrendo,
Memória aqui deixou que estou sentindo.

Quem sabe, doce mãe, se me estais vendo?
Quem sabe se do Céu me estais sorrindo,
E os versos me inspirais que vou escrevendo?


António Vianna - "Flores d'Outono", pág. 9, Imprensa Nacional de Lisboa, Lisboa, 1922.

António José Viana da Silva Carvalho nasceu a 15 de Março de 1858 e faleceu em Abril de 1931.

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2014-03-14

Outro - Frei Agostinho da Cruz

No silêncio da noite, em que vigio,
Desterrado da terra o pensamento,
No que dentro nesta alma represento,
Ora me aquento mais, ora me esfrio.

E pera temperar fogo com frio,
Em que me esfrio mais, ou mais me aquento,
Dos efeitos do puro sentimento
Na minha saudade choro e rio.

Depois destes contrários temperados
Na môr quietação, na môr brandura
Meus pensamentos ficam sepultados:

Temperada a frieza na quentura
Do meu divino amor tão apurados,
Que me deixam em paz na sepultura.

Poema extraído de «Cem Sonetos Portugueses», selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria, Terramar

Frei Agostinho da Cruz tera nascido em Ponte da Barca a 3 de Maio de 1540; faleceu em Setúbal a 14 de Março de 1619.

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Pórtico - João José Cochofel

Outros serão
os poetas da força e da ousadia.
Para mim
— ficará a delicadeza dos instantes que fogem
a inutilidade das lágrimas que rolam
a alegria sem motivo duma manhã de sol
o encantamento das tardes mornas
a calma dos beijos longos.
(Um ócio grande. Morre tudo
dum morrer suave e brando...)

Que os outros fiquem com o seu fel
as suas imprecações
o seu sarcasmo.
Para mim
será esta melancolia mansa
que me é dada pela certeza de saber
que a culpa é sempre minha
se as lágrimas correm ...

João José de Melo Cochofel Aires de Campos (n. Coimbra, 17 Jul 1919, m. Lisboa a 14 Mar 1982)



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2014-03-13

De Braço Dado... - João Braz

Ao Dr. Joaquim Magalhães

De braço dado, pois, de braço dado...
Amigos que de há muito se conhecem,
A conversar assim até parecem
Irmãos, mais do que amigos lado a lado...

Vamos olhar as coisas que merecem
Prender o nosso olhar enamorado,
E ouvir de qualquer Poeta que, inspirado
Cante quano as estrelas aparecem...

Que fique de nós dois, neste passeio,
A imagem de quem segue sem receio
Companheiro e caminhos que escolheu!

No palco desta vida, segue a peça!
Vamos atuar nela e não se esqueça
Ninguém quanto valemos Tu e Eu!...


João Braz Machado (São Brás de Alportel, 13 de março de 1912 - Portimão, 22 de junho de 1993)

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2014-03-12

Lembranças - Gilka Machado

Teus retratos — figuras esmaecidas;
mostram pouco, muito pouco do que foste.
Tuas cartas — palavras em desgaste,
dizem menos, muito menos
do que outrora me diziam
teus silêncios afagantes...
Só o espelho da minha memória
conserva nítida, imutável
a projeção de tua formosura,
só nos folhos dos meus sentidos
pairam vívidas
em relevo
as frases que teu carinho
soube nelas imprimir.

Sou a urna funerária de tua beleza
que a saudade
embalsamou.

Quando chegar o meu instante derradeiro
só então, mais do que eu,
tu morrerás
em mim.


in Velha poesia (1965)

Gilka da Costa Mello Machado (nasceu no Rio de Janeiro a 12 de Março de 1893 e faleceu no Rio de Janeiro (RJ), no dia 11 de dezembro de 1980).

Ler ainda da mesma autoria, neste blog:
Esboço
Símbolos

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2014-03-11

Os apaixonados não pagam mais imposto por isso...


PS: E o meu nome a circular em pacotinhos de açucar da Nicola!...

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NUM LEQUE - Gonçalves Crespo

Amar e ser amado, que ventura
Não amar sendo amado, é um triste horror
Mas na vida há uma noite mais escura,
É amar alguém que não nos tenha amor!


in Obras Completas de Gonçalves Crespo, Tavares Cardoso & Irmão - Editores, Lisboa, 1897

António Cândido GONÇALVES CRESPO nasceu nos subúrbios do Rio de Janeiro a 11 de Março de 1846 e morreu, tuberculoso, em Lisboa, a 11 de Junho de 1883.

Ler do mesmo autor:
A Noiva
Na Aldeia
O Relógio
Nunca eu te lesse, balada!
Na Roça
Mater Dolorosa
O Coveiro


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2014-03-10

Se eu de ti me esquecer - Bernardo Guimarães

Se eu de ti me esquecer, nem mais um riso
Possam meus tristes lábios desprender;
Para sempre abandone-me a esperança,
Se eu de ti me esquecer.

Neguem-me auras o ar, neguem-me os bosques
Sombra amiga, em que possa adormecer,
Não tenham para mim murmúrio as águas,
Se eu de ti me esquecer.

Em minhas mãos em áspide se mude
No mesmo instante a flor, que eu for colher;
Em fel a fonte, a que chegar meus lábios,
Se eu de ti me esquecer.

Em meu peregrinar jamais encontre
Pobre albergue, onde possa me acolher;
De plaga em plaga, foragido vague,
Se eu de ti me esquecer.

Qual sombra de precito entre os viventes
Passe os míseros dias a gemer,
E em meus martírios me escarneça o mundo,
Se eu de ti me esquecer.

Se eu de ti me esquecer, nem uma lágrima
Caia sobre o sepulcro, em que eu jazer;
Por todos esquecido viva e morra,
Se eu de ti me esquecer.


(in Cantos da Solidão)

Bernardo Joaquim da Silva Guimarães nasceu no dia 15 de agosto de 1825, em Ouro Preto, Minas Gerais - Morre em Ouro Preto em 10 de março de 1884

O Elixir do Pajé
Prelúdio

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2014-03-08

Grammatica Rudimentar - João de Deus

Aquelle Manuel do Rego
É rapaz de tanto tino
Que em lirio põe sempre y grego,
E em lyra põe i latino!

E como a gente diz ceia
Escreve sempre ceiar;
Assim como de passeia
Tira o verbo passeiar!

Nunca diz senão peior
Não só por ser mais bonito,
Mas porque achou n'um auctor
Que deriva de sanskrito.

Escreve razão com s,
E escreve Brasil com z:
Assim elle nos quizesse
Dizer a razão porquê!

Também como diz - eu soube
Julga que eu poude é correcto:
Temo que a morte nos roube
Rapazinho tão discreto!

É um grammatico o Rego!
É um purista o finorio...
Se Camões fallava grego,
E o Vieira latinorio!


(in "Campo de Flores", poesias lyricas completas, Lisboa 1896

Nota do webmaster: Manteve-se a ortografia original. Como se vê as questões da ortografia já têm discussão há séculos. Não é apenas tema de discussão (e desacordos) nos acordos ortográficos...
Não se conseguiram alcançar informações sobre tal personalidade Manuel do Rego contemporâneo de João de Deus que trocaria a ortografia da época...

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2014-03-07

O QUE É MORRER? - António Patrício

Morrer é só deixar cair os braços,
ser indiferente a tudo: à Vida e à Morte...
e olhar com olhos d'amargura, baços,
a Primavera, o Outono, o Sul, o Norte...

Ter sede e nem sequer ir procurar as fontes,
ter amor e fugir ao seu alento
e errar na paz suavíssima dos montes
como num pôr-de-sol vago e nevoento...

Morrer é olhar toda a miséria ardida
e não poder chorar sobre uma rocha tosca
como chora quem vive: o mar, a luz fosca...

É não ter olhos para a dor da Vida,
nem esperança na Morte, nem saudade,
ser indiferente ao sol, à lua, à tempestade...


António Patrício (n. no Porto a 7 de março de 1878 - m. em Macau, China a 4 junho 1930)

Ler do mesmo autor, neste blog:
O QUE É VIVER
Uma Manhã no Golfo do Corinto
Relíquia
Saudade do teu corpo
É Uma Tarde de Estio
Em Prinkipo

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2014-03-06

EL CONSEJO MATERNAL - Olegario Victor Andrade

Ven para acá, me dijo dulcemente
mi madre cierto día,
(aún me parece que escucho en el ambiente
de su voz la celeste melodía).

Ven y dime qué causas tan extrañas
te arrancan esa lágrima, hijo mío,
que cuelga de tus trémulas pestañas
corno gota cuajada de rocío.

Tú tienes una pena y me la ocultas:
¿no sabes que la madre más sencilla
sabe leer en el alma de sus hijos
como tú en la cartilla?

¿Quieres que te adivine lo que sientes?
Ven para acá pilluelo,
que con un par de besos en la frente
disiparé las nubes de tu cielo.

Yo prorrumpí a llorar, -Nada le dije,
las causa de mis lágrimas ignoro;
pero de vez en cuando se me oprime
el corazón, y ¡lloro!..

Ella inclinó la frente pensativa
se turbó su pupila.
y enjugando sus ojos y los míos,
me dijo más tranquila:

Llama siempre a tu madre cuando sufras
que vendrá muerta o viva:
si está en el mundo a compartir tus penas,
Y lo hago así cuando la suerte ruda
como hoy perturba de mi hogar la calma:
¡ invoco el nombre de mi madre amada,
y entonces siento que se ensancha mi alma


Olegario Victor Andrade (Alegrete, Rio Grande do Sul, Brasil, 6 de marzo de 1839 – Buenos Aires, Argentina, 30 de octubre de 1882)

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2014-03-05

Oásis - Pedro Homem de Mello (na efeméride dos 30 anos do desaparecimento do poeta)

Aquela praia-contraste
Entre a liberdade e a lei
(Aquela praia ignorada!)
Foste tu que ma mostraste
Ou fui eu que a inventei?
Lençol de seda ou de linho?
Lençol de linho bordado?
Deitei-me nele ao comprido...
Lençol de seda ou de linho?
Lençol de espuma comprido...
Lençol de areia queimado!
Ai! aquela praia! Aquela
Que, na minha embriaguez
Manchei sem dó! Fiquei triste
Logo da primeira vez
Em que a vi... Não o sentiste?
Agora, lembro-me dela
Como de um lençol de renda
Rasgado por minha mão...
E fico triste, tão triste!
Todas as praias são brancas
E só aquela é que não!
Moinhos que andais no vento,
Leite que escorres na Lua,
Quero pedir-vos perdão!
Mas é tão grande, tão grande
Ai! é tão grande o contraste
Entre a liberdade e a Lei
Que, às vezes até nem sei
Se aquela praia ignorada
Foste tu que me mostraste
Ou fui eu que a inventei...

in 366 poemas que falam de amor, uma antologia organizada por Vasco da Graça Moura, Quetzal Editores

Pedro da Cunha Pimentel Homem de Mello (n. Porto em 6 de Setembro de 1904 - m. Porto, 5 de Março de 1984).

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Musical suggestion of the day: Sei de um rio, de Pedro Homem de Mello, na voz de Camané



Sei de um rio, sei de um rio
Em que as únicas estrelas nele sempre debruçadas
São as luzes da cidade
Sei de um rio, sei de um rio
Onde a própria mentira tem o sabor da verdade
Sei de um rio…
Meu amor dá-me os teus lábios, dá-me os lábios desse rio
Que nasceu na minha sede, mas o sonho continua
E a minha boca até quando ao separar-se da tua
Vai repetindo e lembrando
Sei de um rio, sei de um rio
Meu amor dá-me os teus lábios, dá-me os lábios desse rio
Que nasceu na minha sede, mas o sonho continua
E a minha boca até quando ao separar-se da tua
Vai repetindo e lembrando
Sei de um rio, sei de um rio
Sei de um rio, até quando


Pedro da Cunha Pimentel Homem de Mello, nasceu no Porto, a 6 de Setembro de 1904 — f. Porto, 5 de Março de 1984

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2014-03-04

Epígrafe - Eugénio de Castro

Ampulheta foto daqui


Murmúrio de água na clepsidra gotejante,
Lentas gotas de som no relógio da torre,
Fio de areia na ampulheta vigilante,
Leve sombra azulando a pedra do quadrante,
Assim se escoa a hora, assim se vive e morre…

Homem que fazes tu? Para quê tanta lida,
Tão doidas ambições, tanto ódio e tanta ameaça?
Procuremos somente a Beleza, que a vida
É um punhado infantil de areia ressequida,
Um som de água ou de bronze e uma sombra que passa…


in Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim

Eugénio de Castro (n. em Coimbra a 4 Março de 1869; m. em Coimbra, a 17 de Agosto de 1944

Ler do mesmo autor:
Engrinalda-me com os teus braços
Circe
Um Sonho
A Laís
Tua frieza aumenta o meu desejo
Presságios
Amores

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2014-03-03

O Teu Lenço - Simões Dias

imagem daqui

O lenço que tu me deste
Trago–o sempre no meu seio,
Com medo que desconfiem
Donde este lenço me veio.

As letras que lá bordaste
São feitas do teu cabelo;
Por mais que o veja e reveja,
Nunca me farto de vê-lo.

De noite dorme comigo,
De dia trago – o no seio,
Com medo que os outro saibam
Donde este lenço me veio.

Alvo, da cor da açucena,
Tem um ramo em cada canto;
Os ramos dizem saudade,
Por isso lhe quero tanto.

O lenço que tu me deste
Tem dois corações no meio;
Só tu no mundo é que sabes
Donde este lenço veio.

Todo ele é de cambraia,
O lenço que me ofereceste;
Parece que inda estou vendo
A agulha com que o bordaste.

Para o ver até me fecho
No meu quarto com receio,
Não venha alguém perguntar-me
Donde este lenço me veio.

A cismar neste bordado
Não sei até no que penso;
Os olhos trago – os já gastos
De tanto olhar para o lenço.

Com receio de perdê-lo
Guardo – o sempre no meu seio,
De modo que ninguém saiba
Donde este lenço me veio.

Nas letras entrelaçadas
Vem o meu nome e o teu;
Bendito seja o teu nome
Que se enlaçou com o meu!

Por isso o trago escondido,
Bem guardado no meu seio,
Com medo que me perguntem
Donde este lenço me veio.

Quanto mais me ponho a vê – lo,
Mais este amor se renova;
No dia do meu enterro
Quero levá-lo p'ra cova.

Vem pô-lo sobre o meu peito,
Que eu hei-de tê-lo no seio;
Mas nunca digas ao mundo
Donde este lenço me veio.


José Simões Dias (nasceu na Benfeita, Arganil,a 5 de Fevereiro de 1844 e morreu em Lisboa a 3 de Março de 1899).

Ler do mesmo autor: Sol entre nuvens

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2014-03-02

Musical Suggestion of the Day: Perfect Day - Lou Reed



Lewis Allan "Lou" Reed (March 2, 1942 – October 27, 2013)

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Happy Birthday Sharam Diniz


Sharam Diniz (Luanda, 2 de março de 1991)

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Amei-te com as palavras - Rosa de Lobato Faria

foto daqui


Amei-te com as palavras
com o verde ramo das palavras
e a pomba assustada do coração.

Amei-te com os olhos
o espelho doido dos olhos
e a sede inextinguível da boca.

Amei-te com a pele
as pernas e os pés
e todos os gritos que trago
por debaixo da roupa.

Amei-te com as mãos
As mesmas com que te digo adeus.


Rosa Maria de Bettencourt Rodrigues Lobato de Faria (nasceu em 20 de Abril de 1932 - m. 2 de Fevereiro de 2010)

Ler da mesma autoria, neste blog:
Afirmas que BrigámosQuem me Quiser
Primeiro a tua mão sobre o meu seio

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2014-03-01

Canção da partida - Camilo Pessanha

Ao meu coração um peso de ferro
Eu hei-de prender na volta do mar.
Ao meu coração um peso de ferro...
Lançá-lo ao mar.

Quem vai embarcar, que vai degredado,
As penas do amor não queira levar...
Marujos, erguei o cofre pesado,
Lançai-o ao mar.

E hei-de marcar um fecho de prata.
O meu coração é o cofre selado.
A sete chaves: tem dentro uma carta...
- A última, de antes do teu noivado.

A sete chaves - a carta encantada!
E um lenço bordado... Esse hei-de o levar,
Que é para o molhar na água salgada
No dia em que enfim deixar de chorar.


CAMILO de Almeida PESSANHA nasceu em Coimbra a 7 de Setembro de 1867 e morreu, tuberculoso, em Macau (China) a 1 de Março de 1926.

Ler neste blog, do mesmo autor:
Interrogação
Singra o navio. Sob a água clara
Castelo de Óbidos
Água Morrente
Fonógrafo
Desce em Folhedos Tenros a Colina
Estátua
Foi um dia de inúteis agonias
Quem poluiu quem rasgou os meus lençois de linho
Floriram por engano as rosas bravas
Caminho I
Ao longe os barcos de flores
Queda

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