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2012-12-31

Feliz Ano Novo / Happy New Year


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TRISTEZA - Junqueira Freire

Brilha o sol, brilham as nuvens,
Os montes de ouro se coram:
Porém minha alma se aperta,
Meus olhos dormentes choram:

Depois o céu se transforma,
De negros bulcões se touca;
Porém minha alma se expande,
E solta risada louca.

Depois o baile, – onde tudo
Um tope de gostos é;
E eu fico imóvel olhando,
Como um cadáver de pé.

Talvez no ar, que bebemos,
Às vezes um anjo voa,
Como a pancada de um sino
Que pelos ares ressoa.

Talvez nos assiste um anjo,
Que nos inspira a tristeza,
Como um anjo nos assiste
No relance da defesa.

De cólera num lampejo
Talvez a mão do Senhor
Arrojou minha alma ao barro
Só para o gozo da dor.

Porém um anjo propício
Co’ a sua vista louçã
Hoje prepara meu peito
Para as dores de amanhã.

Salve, ó anjo da tristeza,
Salve, ó imagem fatal!
Tu que me dizes que espere,
Que espere somente o mal. 

Luís José Junqueira Freire (n. em Salvador, Bahia em 31 Dez 1832; m. na mesma cidade em 24 de Junho de 1855).

Ler do mesmo autor:
Sei Rir-me
Louco (Hora de Delírio)

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2012-12-30

SER - Fernando Semana


ERAS
RIAS

SE
ÉS


IRÁS
SAIR?
SERÁS
QUEM?

Fernando Semana

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2012-12-29

Versos d'uma noite (extrato)- Sousa Viterbo

Pensativa deixa a fronte
sobre o teu seio inclinar:
todo o matiz do horizonte
embebe a curva do mar.

Não te envolvas no manto da tristeza
que a noite desenrola sobre a praia...
teu seio é mais feliz que a natureza
o sol do teu amor nunca desmaia!

Olha, a papoila rubra
perdeu todo o carmim;
antes que a noite encubra
da tua gelosia a bambinela
já tu, pomba singela,
já tu pensas em mim!

Deus pague os teus extremos
Deus pague o teu afã;
pois nós os desgraçados bem sabemos
que és a estrela da tarde e da manhã.

Eu não mereço tanto!
Quem é que a tanto aspira?!
Quem troca um doce beijo por unm canto?
Quem vende o coração por uma lira?

Só tu... do Eterno o dedo
gravou no coração o que traduzo
de dia, ébrio de medo,
de noite, inda confuso.

Do pó que se levanta numa estrela
forma o sol nuvens d'oiro:
tu formas da pobreza da minha alma,
tu formas um tesoiro.

Suspira, ao perto, a aragem
e tu mais ansiosa
cuidas que vem surgindo a minha imagem
detrás da velha árvore frondosa.

O som que a medo exala
o rouxinol, cismando no seu ninho,
te faz imaginar a minha fala,
perdida no caminho.

Perdi-me, sim, perdi-me
nas trevas do meu quarto, vacilante
a cismar se pudera o frágil vime
ser do cedro rival por um instante.

Oh nunca, nunca! A minha consciencia,
tranquila já não cisma.
Eu só posso encarar a tua essencia
através dalgum prisma.

Sim... a minha razão não é tão fátua!
Que sou eu senão párea
que mal pode beijar o pó da área,
em que te firmas, luminosa estátua?

Condene-me ao desterro
quem é do paraíso...
tu tens a culpa, o erro,
em dar-me tanto orgulho
num trémulo sorriso.

Mas na balseira súbito
uma pomba soltou o doce arrulho
e tu, que jamais cansas
quando por mim anseias
hás sentido o calor das esperanças
uma a uma, correr todas as veias!

E de novo inclinaste o ouvido atento
dizendo uma outra vez:
- virá? virá?... quem sabe» ao longe o vento,
ao despertar um eco de traidor,
te murmurou «talvez!»
O mais subtil rumor
te faz estremecer dentro do seio
uma ideia do bem, outra d'amor!

Eu também tremo e cismo e luto e anseio
e deixo ao abandono
da interna tempestade
- como escravo que treme ante seu dono -
a luz da inteligência,
o fogo da vontade!
...

in Rosas e Nuvens, Porto, Imprensa Portuguesa 1870

Francisco Marques de Sousa Viterbo (Porto, 29 de dezembro de 1845 ou 1846 — Lisboa, 19 de dezembro de 1910)

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2012-12-27

Confissão do Malandro - Serguei Essénin


Nem todos têm o dom
de cantar, ou de cair
aos vossos pés como a maçã.

É esta a maior confissão
que um malandro jamais fez.

É de propósito que ando despenteado,
a cabeça nos ombros como candeeiro
a petróleo. Gosto de aluniar no escuro
o outono desfolhado das vossas almas.
Gosto quando zunem sobre mim pedras de pragas
como granizo de tempestade a arrotar.

Aí, só aperto com mais força as mãos
na bolha a oscilar do meu cabelo.

Como é bom então eu recordar
o lago coberto de limo e o rouco restolhar do amieiro,
os meus velhotes que vivem por ali algures
nas tintas para todos os meus versos
e para quem sou querido como campo e corpo,
como chuva que amacia na primavera os rebentos
da seara, e que viriam espetar-vos a forquilha
por cada berro que me arremessais.

Pobres campónios, coitados!
Já não estarão tão mimosos,
e sempre com temor a Deus e aos pântanos.
Oh, se compreendessem
que o filho era, na Rússia,
o melhor poeta!
Então não lhes gelava a alma
quando ele molhava os pés nos charcos outonais?
E agora anda de cartola
e sapatos de verniz.

Mas ainda tem vida nele a têmpera antiga
de aldeão azougado.
Cumprimenta de longe cada vaca
das tabuletas dos talhos.
Quando se achega aos coches da praça
e lhe vem o cheiro a estrume do campo materno,
dá-lhe vontade de segurar o rabo do cavalo
como a cauda de um vestido de noiva.

Amo a terra-mãe.
Adoro a minha terra!
Embora a envolva a tristeza ferrugenta dos salgueiros,
agradam-me os focinhos porcos dos cochinos
e o estridor dos sapos no silêncio da noite.
Adoeço meigamente com as recotdações de infância,
sonho com a névoa húmida do anoitecer de abril.
O nosso bordo como que se agachava
à fogueira do ocaso para se aquecer.
Os ovos de gralhas que ru não roubei dos ninhos
encarrapitado nos seus galhos!
O nosso velho bordo será ainda o mesmo,
terá a casca rija, uma copa verde?

E tu, meu querido
e fiel cão malhado?!
Ficaste cego e roufenho de velhice,
de rabo caído a vaguear pelo quintal,
já o faro te confunde as portas e o curral.
Ah, tão queridas me são agora as nossasd diabruras,
o pão que roubávamos à minha mãe
e trincávamos à vez
sem nojo um do outro.

Sou o mesmo.
Pelo coração, sou o mesmo.
Como centáureas entre o centeio florescem os olhos na cara.
Desdobro as esteiras douradas dos versos porque queria
dizer-vos alguma coisa terna.

Boa noite!
Boa noite a todos!
Calou-se, já não raspa pela erva sombria a gadanha do ocaso.
Hoje eu só queria
pôr-me à janela a mijar para a lua.

Luz azul, luz tão azul!
Neste azul até nem me importa morrer.
Que importa eu parecer um cínico
de lanterna pendurada no traseiro!

Oh, bom Pégaso velho e gasto,
de que me serve o teu suave trote?
Vim para cantar, como um mestre severo,
a glória das ratazanas.
Minha cabeçorra, feita um agosto,
jorra dos cabelos como vinho esfuziante.

Quero ser uma vela amarela
apontada ao país para onde navegamos.

Trad.: Nina Guerra e Filipe Guerra

in Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Porto Editora

Sergei Alexandrovich Yesenin Серге́й Алекса́ндрович Есе́нин (n. 4 out. 1895, em Konstantinov, Ryazan, m . 27 dez. 1925. Leninegrado, União Soviética)

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Musical Suggestion of the Day - Diego, El Cigala

Bebo & El Cigala - Lagrimas Negras


Diego Ramón Jiménez Salazar (born Madrid, 27 December 1968)

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2012-12-26

Inscrição Numa Fotografia da Caverna dos Imortais, em Lushan, Tirada pelo camarada Li Chin - Mao Zedong

Nas sombras do sol-pôr vejo enormes pinheiros
nuvens confusas correm, mas serenas.
A Caverna dos Imortais foi criada pela natureza;
beleza infinda se encontra em cumes perigosos.

Trad.: Manuel de Seabra

in Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Porto Editora

Mao Zedong ou Mao Tsé-Tung (n. 26 Dez. 1893 – m. 9 Set. 1976)

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2012-12-25

Natal - Ana Hatherly

O
que
a palavra
Natal
quis dizer é
o que continua
a querer dizer: a
celebração dum nascimento.
A celebração
porque um nascimento é
uma afirmação de vida, uma
afirmação de continuidade
de vida. O nascimento duma criança
deveria ser sempre ocasião para
alegria, júbilo, confiança. Mas a palavra
Natal-nascimento, que durante gerações
simbolizou o renascer da esperança
da salvação, hoje tem cada vez mais uma contrapartida
excessivamente dramática, pois hoje,
quantas são as crianças cujo nascimento é símbolo
de esperança e quantas são aquelas cujo nascimento
é símbolo de miséria, decadência, abandono? Para que
nascem as crianças hoje? Quem as faz nascer? Porque as
fazem nascer? Para quê as fazem nascer? Para que mundo?
Para que destino? Para que esperança? Para que lutas? Para que
sofrimentos? A misericórdia divina precisa do apoio dos homens.
Sejamos instrutivos para os que fazem nascer as crianças sem saberem
porquê e impiedosos para os que as fazem nascer para o desespero
e para o terror. Se o culto do Natal é o culto da criança salvadora da espécie,
da sociedade e do destino dos homens, então que se cuide da criança cuidando
do mundo para onde ela é trazida,
para o mundo onde ela terá de
viver, para que ela possa ser a continuada
afirmação da vida e da esperança.
Não se pode celebrar o símbolo
e descurar o seu fundamento

Ana Hatherly

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Lágrima - Manuel Augusto do Amaral

Fui onda, rolei nos mares;
Fui névoa, poisei nos montes;
Fui nuvem, bailei nos ares,
Fui chuva, cantei nas fontes:

Fui seiva, flori na planta;
Fui sangue, nutri a vida;
Fui alma, e hoje-água santa
Sou uma lágrima ardida!


Manuel Augusto do Amaral (nasceu em Água de Pau, Lagoa, ilha de São Miguel, Açores em 1863 e faleceu em 25 Dezembro de 1942 em Ponta Delgada)





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SATÃ - Maranhão Sobrinho


Nas margens de cristal do Danúbio do sonho,
cromadas de rubis, de pérolas purpúreas,
vê-se o imenso solar sonolento e medonho
do dragão infernal das Princesas espúrias...

Guarda o nobre portal de alabastro tristonho
desse antigo solar, de malditas luxúrias,
em que fulge o brasão heráldico do sonho
não sei quantas legiões de duendes e fúrias!

Sobre o mármore azul das colunas austeras,
que, em noivados de luz, o luar engrinalda
brilha o vivo cristal de alígeras quimeras...

Velam desse dragão o oriental tesoiro,
sobre um trono de rei, de maciça esmeralda,
dois soberbos leões, de grandes patas de oiro...


José Américo Augusto Olimpio Cavalcanti dos Albuquerques Maranhão Sobrinho* nasceu em Barra do Corda, interior do Estado, em 25 de dezembro de 1879, e morreu ainda jovem, em Manaus, no mesmo dia em que completava 36 anos.

Nota do webmaster: Há um dragão e dois leões; das águias é que no soneto não há rasto...

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2012-12-24

Feliz Natal / Merry Christmas / Joyeux Nöel / Fröhliche Weinachten


Feliz Natal
Sretan Bozic
с Рождеством
Merry Christmas
Happy Christmas
Gajan Kristnaskon
Buone Feste Natalizie
Fröhliche Weihnachten
Καλά Χριστούγεννα
Sarbatori Fericite
Crăciun fericit
Feliz Navidad
Joyeux Nöel
God Jul



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2012-12-23

Poema de Amor - Jorge de Sousa Braga

Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno
e quase ia morrendo com o receio de que não
    te coubesse no dedo.


Jorge de Sousa Braga nasceu em Cervães, Vila Verde a 23 de Dezembro de 1957


Ler do mesmo autor, neste blog: Escalada; Sono de Primavera


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2012-12-22

Poema do Silêncio - José Régio

Sim, foi por mim que gritei.
Declamei,
Atirei frases em volta.
Cego de angústia e de revolta.

Foi em meu nome que fiz,
A carvão, a sangue, a giz,
Sátiras e epigramas nas paredes
Que não vi serem necessárias e vós vedes.

Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
-Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!

Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
Eis a razão das épi trági-cómicas empresas
Que, sem rumo,
Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...

O que buscava
Era, como qualquer, ter o que desejava.
Febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo,
Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.

Que só por me ser vedado
Sair deste meu ser formal e condenado,
Erigi contra os céus o meu imenso Engano
De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!

Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
Procurei fugir de mim,
Mas sei que sou meu exclusivo fim.

Sofro, assim, pelo que sou,
Sofro por este chão que aos pés se me pegou,
Sofro por não poder fugir.
Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!

Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...)
Senhor dá-me o poder de estar calado,
Quieto, maniatado, iluminado.

Se os gestos e as palavras que sonhei,
Nunca os usei nem usarei,
Se nada do que levo a efeito vale,
Que eu me não mova! que eu não fale!

Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
Era por um de nós. E assim,
Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
Lutava um homem pela humanidade.

Mas o meu sonho megalómano é maior
Do que a própria imensa dor
De compreender como é egoísta
A minha máxima conquista...

Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,
E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á,
E sobre mim de novo descerá...

Sim, descerá da tua mão compadecida,
Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
Saciarão a minha fome.

José Régio [José Maria dos Reis Pereira] (n. em Vila do Conde a 17 de Setembro de 1901 — m. Vila do Conde, 22 de Dezembro de 1969)

Ler do mesmo autor neste blog:
Balada de Coimbra
Adeus
Soneto de Amor
Toada de Portalegre
Cântico Negro
Fado Português
Os Epitáfios: Epitáfio Para Um Poeta
Quando eu Nasci
Meu Menino Ino, Ino

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2012-12-21

Passos passou a general

«Vivemos uma guerra intensa... é uma guerra diferente. É uma guerra em que precisamos de encontrar em cada cidadão um soldado que esteja disposto a lutar pelo país» (Passos Coelho, hoje).

O primeiro-ministro passou a general. Só que é um general que ainda há pouco tempo convidou os soldados a desertar...

A propósito da TAP: «A insinuação de que existe qualquer falta de transparência de membros do governo no processo de privatização não passa de uma calúnia tosque»
Uma calúnia tosque? O que é isso de tosque? Será que Passos Coelho é mais um político criador de neologismos ou falará o dialecto albanês? Será que queria dizer torpe? Ou tosca?

Enfim é o primeiro-ministro (ou será general?) que temos. Como podemos chegar a algum lugar ou ganhar alguma batalha?

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Proposição das rimas do poeta - Bocage

Incultas produções da mocidade
Exponho a vossos olhos, ó leitores:
Vede-as com mágoa, vede-as com piedade,
Que elas buscam piedade, e não louvores:

Ponderai da Fortuna a variedade
Nos meus suspiros, lágrimas e amores;
Notai dos males seus a imensidade,
A curta duração de seus favores:

E se entre versos mil de sentimento
Encontrardes alguns cuja aparência
Indique festival contentamento,

Crede, ó mortais, que foram com violência
Escritos pela mão do Fingimento,
Cantados pela voz da Dependência.

Manuel Maria Ledoux de Barbosa du Bocage (n. 15 Set 1765 em Setúbal; m. Lisboa, 21 Dez 1805)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Manuel Maria Ledoux de Barbosa du Bocage (n. 15 Set 1765 em Setúbal; m. Lisboa, 21 Dez 1805)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Temo que a minha ausência e desventura
Ó retrato da Morte! Ó Noite amiga
Já Bocage não sou! ...À Cova escura
Nascemos para amar
Ó tranças de que Amor prisão me tece
Liberdade, onde estás quem te demora...

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2012-12-20

Autobiografia - Vítor Matos e Sá

Estive convosco em muitas palavras.
Algumas levaram-me ainda mais perto.
Com outras fiquei apenas mais só.

De muitas não vi que rosto as guardava.
Por outras me dei a quem não pedia.
Onde foram mentira alguém me faltava.
Mas todas cumpri por quem me cumpria.

E passaram ardendo em novos combates,
cobriram silêncios, provaram mistérios,
fizeram amigos que nunca terei.

Por serem verdade me trazem aqui.
E quando as sonhais na vossa esperança,
Um irmão me procura por entre as cidades
com todos os rostos que perdi.

in 'Esparsos'

Vítor Matos e Sá, pseudónimo literário de Vítor Raul da Costa nascido a 20 de dezembro de 1927, em Lourenço Marques (atual Maputo), Moçambique e falecido em Espanha, 1975.

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2012-12-19

PARREEDE! - Manoel de Barros

Quando eu estudava no colégio, interno,
Eu fazia pecado solitário.
Um padre me pegou fazendo.
- Corrumbá, no parrrede!
Meu castigo era ficar em pé defronte a uma parede e
decorar 50 linhas de um livro.
O padre me deu pra decorar o Sermão da Sexagésima de Vieira.
- Decorrrar 50 linhas, o padre repetiu.
O que eu lera por antes naquele colégio eram romances
de aventura, mal traduzidos e que me davam tédio.
Ao ler e decorar 50 linhas da Sexagésima fiquei
embevecido.
E li o Sermão inteiro.
Meu Deus, agora eu precisava fazer mais pecado solitário!
E fiz de montão.
- Corumbá, no parrrede!
Era a glória.
Eu ia fascinado pra parede.
Desta vez o padre me deu o Sermão do Mandato.
Decorei e li o livro alcandorado.
Aprendi a gostar do equilíbrio sonoro das frases.
Gostar quase até do cheiro das letras.
Fiquei fraco de tanto cometer pecado solitário.
Ficar no parrrede era uma glória.
Tomei um vidro de fortificante e fiquei bom.
A esse tempo também eu aprendi a escutar o silêncio
das paredes.


in Memórias Inventadas, As infâncias de Manoel de Barros

Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu em Cuiabá (MT) em 19 de dezembro de 1916.

Ler do mesmo autor no Nothingandall: Pêssego

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2012-12-18

O Ministro das Finanças e os tolos ou analfabetos dos portugueses

O Ministro das Finanças trata os portugueses (não propriamente como tolos como reagiu o deputado Honório Novo) como analfabetos e atrasados mentais!

Hoje, esteve a comparar as previsões com (as estimativas dos) resultados finais de 2012. Na regressão do PIB a previsão era de 2,8%; afinal, andará nos 3%. Já quanto ao saldo orçamental a previsão era de -4,5% do PIB e ficará expetavelmente nos -5,0%, isto segundo o Ministro. Por isso, os erros de previsão, na perspetiva dele, foram ligeiros e admissíveis...

Ora, eu e a grande maioria dos portugueses - mesmo aqueles em que o país não investiu para os dotar com a formação que o senhor ministro tem - sabemos que ao dizer o que disse o ministro comportou-se como um mentiroso doutorado.

Os 5% que projeta só serão conseguidos após o contributo da adoção de medidas extraordinárias inicialmente não contempladas na previsão (como as receitas da concessão da ANA - veremos ainda se o Eurostat aceita o seu contributo para a redução do deficit). Sem estas medidas o deficit rondará os 6%. Por outro lado, todos sabem que em Outubro saiu mais um pacote de medidas extraordinárias, essencialmente, de índole fiscal, que não estavam contempladas quando projetou os 4,5% do deficit. Por isso, vangloriar-se de que errou nas previsões por pouco é o mesmo que meter a cabeça na areia como faz a avestruz.

Na realidade, o erro nas previsões do deficit (das receitas fiscais, da taxa de desemprego e de muitas outras variáveis...) foi colossal.

Também no Ministro das Finanças, especialmente por meio do seu comportamento pouco ético, os portugueses já perderam a confiança (e a esperança).

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Soy Luisito Hernández - Luiz Hernández

Into the glories of th' Almighty Sun
ANDREA MARWELL


Soy Luisito Hernández
CMP 8977
Ex campeón de peso welter
Interbarrios; soy Billy
The Kid, también,
Y la exuberancia
De mi amor
Hace que se me haga
Un nudo en el pulmón
Y el Amor lo vierto.
Algo de común hay
Con el Agua el Amor.
Algo existe en H2O
Que es más que espejos
Acequias, ríos,
Albercas, estanques y
¿Por qué no?: océanos.

Soy materialista:
J'appélle un chat, chat
O, mejor aún, creo escribir
Sin segundas intenciones
Más bien por llevar
Un ideal. Cierto Ideal
Que podría ser
El no tolerar
Ante mí el sufrimiento
Y de ahí la flor
No permitir ante mí...
Mejor cantemos una melodía
Que proviene de nosotros,
Y es muy nuestra,
Puesto que esta canción
Tiene en sí existencias
Como toda canción
"Qué es aquella flor
Que llevas
Pueda ser ya marchita
Una flor de lejanos días
Y te dirá de mí"
Los malos no tienen canciones
Y creo que La Poesía
Es entregar al Universo
El propio corazón
Sin desgarrarse
"O make me a mask"
Unicamente un ejemplo:
La poesía conduce
Hacia la propia destrucción
Poor Dylan Thomas!

Now say nay
Ahora sí no
Pero el sufrimiento
Es un camino
Plagado de peligros
E innecesario, no llores
Dylan, no llores Paul Verlaine
Soy materialista
"En el corazón tenía
La espina de una ilusión
Logré arrancármela un día
Ya no siento el corazón"
Quizá por ello diría
¡Ay, no sufrir, Poetas!
Mejor escribir algo
Que sea el mundo
A través de tus ojos
And Through your eyes
To your heart
Qué diré entonces
Qué es lírica
Creo que el ser humano
Está hecho a imagen
Y semejan etc.
Visto así, la Poesía
Sería creación.
Mas no. Poesía
Es evitar el dolor
A quienes en tu camino etc.
Juro por Apolo Musagetae
Citaredo, Dios de la Medicina
Y la Poesía
No tolerar ante mí
El dolor: Los cromáticos
Yates tiene un tenue
Tacto de belleza
Oder-Dichtung und wahrheit
Los polícromos barcos
Llevan un impalpable
Amor, Amor que basta
Para que la bóveda celeste
Y los parques
Y tantas cosas
Así es; que si Dios
No existe
Qué importa
Pues de todas formas
Existe
Esta es la soñada coherencia.

Extraído daqui

Luis Guillermo Hernández Camarero (Lima, Perú, 18 de dezembro 1941 - Buenos Aires, Argentina, 3 de outubro de 1977)

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2012-12-17

2012: A year of painful progress


That it has been painful, no doubt; about progress... well... wait (for 2013) and see:  even more painful, surely (may be more progress?!)

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Smile


A smile costs less than electricity, but gives more light.

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RESPOSTAS - Marguerite Yourcenar


- Que tens para consolar a cova,
coração insolente, coração incontido?
O fruto maduro pende e sossobra,
Que tens para consolar a cova?
-Tenho o tesouro de ter sido.

- Que tens para suportar a vida,
Coração doido, farto de pulsar?
Coração sem brilho e sem jaça,
Que tens para suportar a vida?
- Piedade de tudo o que passa.

- Que tens para desprezar o mundo,
Coração duro, fácil de quebrar,
Que tens para desprezar o mundo,
Que tens mais que nós, mais fundo?
- Capaz de me desprezar.

Trad. de Mário Cesariny

Marguerite Yourcenar, pseudônimo de Marguerite Cleenewerck de Crayencour (nasceu em Bruxelas a 8 de junho de 1903 — m. em Mount Desert Island, Maine, a 17 dezembro de 1987)

Ler da mesma autoria:
Cantilena para um tocador de flauta cego

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2012-12-16

Delírio - Olavo Bilac


Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
– Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!

Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.

Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
– Mais abaixo, meu bem! – num frenesi.

No seu ventre pousei a minha boca,
– Mais abaixo, meu bem! – disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci...


Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (nasceu no Rio de Janeiro a 16 de Dezembro de 1865 e morreu na mesma cidade a 28 de Dezembro de 1918).

Neste blog pode encontrar do mesmo autor, mais os seguintes poemas:
Vita Nuova
Por Estas Noites

Nel Mezzo del Camin
Por tanto tempo
Um beijo
Ao coração que sofre
Como Quisesse Livre Ser

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2012-12-15

A Quinteira da Panasqueira - António Maria Eusébio

Mote

Fui apalpar as gamboas
que a quinteira tem na quinta
já tem marmelos maduros
o seu bastardo já pinta.

Glosa

Sou mestre na agricultura
meu saber ninguém disputa
gosto de apalpar a fruta
quando está quase madura...
Gosto do que tem doçura
quero e gosto das mais pessoas
para apalpar coisas boas
da quinta da Panasqueira
com licença da quinteira
fui apalpar as gamboas.

Por toda a parte que andei
dei cambalhotas e saltos
depois de apalpar pêlos altos
pêlos baixos apalpei.
Por toda a parte encontrei
fruta branca e fruta tinta
para que a dona não se sinta
nunca direi mal da boda
apalpei a fruta toda
que a quinteira tem na quinta.

Neste tão lindo arvoredo
não há fruta como a sua
foi criada em boa lua
para amadurecer mais cedo.
Menina, não tenha medo
que os seus frutos estão seguros
ou sejam moles ou duros
todos a têm em estima
na sua quinta de cima
já tem marmelos maduros.

Tem uma árvore escondida
num regato ao pé dum poço
que dá fruta sem caroço
chamada gostos da vida.
Dessa fruta pretendida
que a menina tem na quinta
a menina dê-me um cacho
que na sua quinta de baixo
o seu bastardo já pinta.

António Maria Eusébio, o “Calafate” ou o “Cantador de Setúbal”, (Setúbal, 15 de Dezembro de 1819 — Setúbal, 22 de Novembro de 1911)

Ler ainda do mesmo autor: Nunca fui mal procedido

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2012-12-14

AO CREPÚSCULO - Teixeira de Pascoaes

Ó tristes lábios meus, rezai, rezai!
É a hora, sim, do Enigma. Eis o momento
Da extrema-unção da luz... E tudo vai
Com ela. E só nos fica o pensamento!

Pela flor que murchou no esquecimento;
Pela asa que se eleva e logo cai;
Pelo sol, pelas nuvens, pelo vento,
Ó tristes lábios meus, rezai, rezai!

Rezai por tudo quanto a morte leva,
Nas horas doloridas, em que a treva
Mostra seu negro vulto que arrepia...

E sinto, em mim, um vago horror profundo,
Uma tristeza já de fim do mundo,
Como se nunca mais houvesse dia...

Teixeira de Pascoais, pseudónimo literário de Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos (Amarante, 8 de novembro de 1877 (*) - Gatão, 14 de dezembro de 1952)

(*) Conforme assento oficial de nascimento; em algumas fontes biográficas consta a data de 2 de novembro

Ler também do mesmo autor, no Nothingandall:
O Poeta
A sombra do Tâmega;
Canção da Névoa
À Minha Musa
A Sombra da Vida (excerto)
Elegia do Amor;
Quem és tu? De onde vens?...

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2012-12-13

O LEQUE DE MARFIM - Pedro Luís Pereira de Sousa

leque com varetas de marfim daqui

Ela estava bonita a enlouquecer a gente!
Viva, fresca, feliz... gostei de vê-la assim!
Da música ao murmúrio estremecia ardente
E, rindo, machucava o leque de marfim.

Seus olhos eram negros, veludosos, puros...
Dois abismos! Dois céus! Fitei-os a tremer!
Costumado a trilhar caminhos sempre escuros,
Tenho medo da luz... Meu Deus, eu não quis ver.

Mas ela fascinava... Era um olhar, mais nada...
Rebelde, o coração nessa hora me traiu!
Aos dedos dessa virgem a ânfora sagrada
Entornando perfume à luz do sol se abriu.

Encostei-me ao piano. A chácara viçosa
Entoava das flores lânguida canção.
Eu cismava... - sei lá! - no céu, no mar, na rosa...
E minh'alma se foi nas asas da paixão.

Bem como o viajante em regiões polares
Que recorda chorando o seu torrão natal,
E avista de repente, incendiando os mares,
O divino esplendor da aurora boreal,

Assim eu triste, só, sem sombra d'esperança,
Dos gelos da descrença aonde vim parar
Sondei aquele riso! Amei essa criança,
Foi-me aurora de amor o negrejante olhar.

Brilhe embora uma vez... Banhou-me a luz divina
Vale uma eternidade um dia sempre assim...
Sempre hei de me lembrar da cândida menina
Que rindo machucava o leque de marfim.

Pedro Luís Pereira de Sousa (nasceu em Araruama, RJ a 13 Dez. 1839 — m. Bananal, SP, 16 de Julho 1884).

Ler do mesmo autor neste blog: O Que Eu Quero

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2012-12-12

NOTHING - Pigu (na passagem dos 50 anos sobre o seu desaparecimento)

Nada nada nada
Nada mais do que nada
Porque vocês querem que exista apenas o nada
Pois existe o só nada
Um pára-brisa partido uma perna quebrada
O nada
Fisionomias massacradas
Tipóias em meus amigos
Portas arrombadas
Abertas para o nada
Um choro de criança
Uma lágrima de mulher à-toa
Que quer dizer nada
Um quarto meio escuro
Com um abajur quebrado
Meninas que dançavam
Que conversavam
Nada
Um copo de conhaque
Um teatro
Um precipício
Talvez o precipício queira dizer nada
Uma carteirinha de travel’s check
Uma partida for two nada
Trouxeram-me camélias brancas e vermelhas
Uma linda criança sorriu-me quando eu a abraçava
Um cão rosnava na minha estrada
Um papagaio falava coisas tão engraçadas
Pastorinhas entraram em meu caminho
Num samba morenamente cadenciado
Abri o meu abraço aos amigos de sempre
Poetas compareceram
Alguns escritores
Gente de teatro
Birutas no aeroporto
E nada.

Patrícia Rehder Galvão, conhecida pelo pseudónimo de Pagu, (São João da Boa Vista, SP, 9 de junho de 1910 — Santos, SP, 12 de dezembro de 1962

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12.12.12


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2012-12-11

Já ali não estavas - Manuel Gusmão

Já ali não estavas.
Quando te pedi já nunca tinhas existido;
nem eu nem a rocha
na pequena praia onde estivéramos.
Depois foram todos os nomes do corpo:
eu tentava mas não conseguia reuni-los.
Ficariam como os pedaços daquele vaso que não se pode reconstruir todo
porque é menor que as suas partes.
E depois foram desaparecendo, levando-me o próprio nome e a fala do mundo.
Já não existiam nem eu existia já.
Já nunca tínhamos existido agora.

MANUEL GUSMÃO nasceu em Évora a 11 de dezembro de 1945

Ler do mesmo autor, no Nothingandall:
As Claras Imagens
A Terceira Mão
A Velocidade da Luz (excerto)

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2012-12-10

Do Tempo III - Lindolf Bell

Serei breve.
Mas não tão breve
que a eternidade
escape do coração.

Porque sobre a terra
cresce um sonho
de grão em grão
até a plenitude.
É meu sonho de terra justa
e perfeita
e dividida.

Cresce
enquanto espero e cresço
E me acresço
de vão em vão
até o tempo inteiro, o tempo interior,
em terra de romã e sonho justo
e perfeito
e dividido.

Serei breve.
Mas não tão breve
que a eternidade
escape do coração.

Lindolf Bell (n. em Timbó, Santa Catarina a 2 de novembro de 1938 - m. Blumenau, 10 de dezembro de 1998)

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2012-12-09

Clarice Lispector desapareceu há 35 anos

Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.
Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.

Extraído daqui

Clarice Lispector (nascida Haia Lispector em Chechelnyk, Ucrânia a 10 de dezembro de 1920 — m. Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1977)

Ler da mesma autoria, neste blog:
Mas Há a Vida
Amor à Terra
Meu Deus me dê coragem...

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2012-12-08

Eu não sou como muita gente - Florbela Espanca

Eu não sou como muita gente: entusiasmada até à loucura no princípio das afeições e depois, passado um mês, completamente desinteressada delas. Eu sou ao contrário: o tempo passa e a afeição vai crescendo, morrendo apenas quando a ingratidão e a maldade a fizerem morrer.

Florbela Espanca nasceu a 8 de Dezembro de 1894, em Vila Viçosa, e morreu a 8 de Dezembro de 1930, em Matosinhos.

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2012-12-07

As Férias - Ary dos Santos

Era uma rosa azul de água amarrada
Um palácio de cheiros  um terraço
E uma jarra de amigos derramada
Da casa até ao mar  como um abraço.

Era a intensa e clara madrugada
Com cigarras dormindo no regaço
E a ampulheta do sono defraudada
No tempo cada dia mais escasso.

Era um país de urzes e lilases
De tardes sonolentas espreguiçando
Um aroma de nardos pelo chão

E bandos de meninas e rapazes
Correndo amando rindo e adiando
A minha inexorável solidão.

in O sangue das Palavras

José Carlos Ary dos Santos nasceu em Lisboa a 7 de Dezembro de 1937 e faleceu a18 de Janeiro de 1984

Do mesmo autor, neste blog:

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2012-12-06

Antes de partir - José Carlos Schwartz

Antes de partir
Encherei os meus olhos, a minha memória
Do verde (verde, verde!) do meu País
Para que quando tomado pela saudade
Verde seja a esperança
Do regresso breve

Antes de partir
Encherei os meus ouvidos, a minha memória
Do palpitar que esmorece, enquanto a noite
Cresce sobre a cidade e no campo
Feito o silêncio dos homens e dos rádis...

 poema extraído daqui

José Carlos Schwartz (n. em Bissau a 6 de Dezembro de 1949 - m. Havana, 27 de Maio de 1977)

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2012-12-05

Remember - Christina Rossetti

Water Lilies - 1906 Oil on canvas 87.6 x 92.7 cm (34 1/2 x 36 1/2)
by Claude Monnet (b. Paris 14 Nov. 1830 - d. Giverni 5 Dec 1926)
in The Art Institute of Chicago

Remember me when I am gone away,
Gone far away into the silent land;
When you can no more hold me by the hand,
Nor I half turn to go yet turning stay.
Remember me when no more day by day
You tell me of our future that you planned:
Only remember me; you understand
It will be late to counsel then or pray.
Yet if you should forget me for a while
And afterwards remember, do not grieve:
For if the darkness and corruption leave
A vestige of the thoughts that once I had,
Better by far you should forget and smile
Than that you should remember and be sad.

(versão em português)

Recorda-te de mim quando eu embora
For para o chão silente e desolado;
Quando eu não te tiver mais ao meu lado
E sombra vã chorar por quem me chora.

Quando mais não puderes, hora a hora,
Falar-me no futuro que hás sonhado,
Ah de mim te recorda e do passado,
Delícia do presente por agora.

No entanto, se algum dia me olvidares
E depois te lembrares novamente,
Não chores: que se em meio aos meus pesares

Um resto houver do afecto que em mim viste,
- Melhor é me esqueceres, mas contente,
Que me lembrares e ficares triste.

Trad. de Manuel Bandeira, in Rosa do Mundo 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim

Christina Rossetti (b. 5-Dec-1830 in London, England; Died: 29-Dec-1894, London, England)

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2012-12-04

Amor e Razão - Filinto de Almeida

A Alberto Pereira Leite
Sempre a razão vencida foi de amor.
CAMÕES.

Por que me hei de importar? Se a Razão pede
Sacrifícios, com lágrimas os paga.
Se tenho no meu peito aberta chaga,
Ela nenhum alívio me concede.

"Pára, infeliz! Alguém teus passos mede...
Se em gozos a tua alma se embriaga,
Todos os teus sentidos prende e esmaga,
Que sentir e gozar o mundo impede!"

"Se tens um coração e nele oculta
Uma paixão qualquer, ou triste ou grata,
Fere-o, e no peito toda a dor sepulta."

Isto a Razão nos diz contra a Paixão.
Mas se esta nos dá vida, e aquela mata
Que vença o Amor, e esmague a Razão.


25 de dezembro de 1884.
(Lírica, 1887.)

Francisco Filinto de Almeida (n. no Porto em 4 Dez. 1857; m. no Rio de Janeiro, RJ, em 28 Jan. 1945).

Ler do mesmo autor:
Chama da Vida
Misteriosa
Funesta
Último Apelo

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2012-12-03

Elvira - Adolfo Werneck

Ao Hypolito Pereira

Olhos de estrela que a treva espanca,
                         Que a treva esgarça...
Passa, perpassa de branco, branca.
                         Como uma garça.

Ao sol ardente que lírios cresta
                         Resplende a coma,
De onde se evola o suave aroma
                         De malva e giesta.

Lábios vermelhos, macia rosa
                         De rubra cor;
Divina boca, boca olorosa.
                         Como uma flor.

Pisa de manso, com tanta graça,
                         Mal se presente...
Parece uma ave quando esvoaça
                         Serenamente.

Em coro dizem todos ao vê-la
                          Passar tão leve:
"Visão sublime de um sonho breve!
                          Rútila estrela!

Astro que d'alma desfaz a treva
                          Mito, fantasma,
Quimera, duende, sonho que enleva
                          Seduz e pasma"!

                         ***
Lírio dos lírios! Ó branco lírio!
                         Ó flor! Ó luz!
Esgarça a treva do meu martírio,
                         Tira-me a cruz...

Ando arrastado pelo caminho
                         Da desventura!
Nem um consolo, nem um carinho
                         De uma alma pura!...

Ermo de afectos me vejo agora
                         Ó luz! Ó flor!
Faze-me n'alma surgir a aurora
                         Fulva do amor.

Lírio dos lírios! Ó branco lírio!
                         Ó flor sem par!
Espanca a treva do meu martírio
                         Com teu olhar.

Poema daqui com atualização da grafia

Adolpho Jansen Werneck de Capistrano (Morretes, 3 de dezembro de 1879 — Curitiba, 18 de agosto de 1932)

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2012-12-01

Regando lentamente as flores do riso - Pedro Tamen

Regando lentamente as flores do riso,
vou já de neve em neve e lume em lume,
contornando a nordeste o paraíso
em terrenos de pedras ou de estrume,
com pequenas palavras na algibeira
das calças que mantenho ainda frias
da presença dos lares à minha beira.

E meto mãos e dentes nas vazias
flanelas limpas para o flanar antigo,
marcho directo e escasso, colocando
os pés azadamente.
Não persigo
ventos ou cores: sou pedro, zé, femando,
nomes comuns, impróprios, que desdigo
baixinho e surdo, curto, enquanto ando.

(Daniel na Cova dos Leões, 1970)

Pedro Mário Alles Tamen (nasceu em 1 Dez. 1934 em Lisboa)

Ler do mesmo autor neste blog:
Escrito de Memória
Os Dias
Não sei, amor, se te consinto
O mar é longe mas nós somos o vento

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Pseudo-Omnipotente - Henrique Rosa

As leis naturais são a expressão
mais rigorosa da necessidade.
Moleschott

Às tenras hastes chegam as seivas,
Vêm de distantes raízes fundas,
E os ramos vivem porque das leivas
A terra manda forças fecundas.

Vestem-se os troncos de clorofilas
Nas verdejantes folhas cortadas,
E de entre as folhas, como pupilas,
Nascem as flores aveludadas.

E os seus ovários desenvolvidos
Depois que os pólens os fecundaram,
Dão-nos os frutos apetecidos
Fim pra que as seivas ali chegaram.

Mas à medida que frutifica,
Caminha a planta pra se extinguir;
Se deu sementes, a espécie fica;
Não é precisa, pode ruir.

E em pouco tempo, murcha, pendida,
Vai tombar seca ferida de morte;
E as novas hastes a que deu vida
Esperam todas a mesma sorte.

Que a Natureza vive em miséria:
É mãe somente de coisas novas
Usando sempre velha matéria,
E só faz montes abrindo covas.

in Antologia de Poemas Portugueses Modernos por Fernando Pessoa e António Botto, Ática Poesia

Henrique dos Santos Rosa (nasceu em 1 de Dezembro de 1850, morre em 8 de fevereiro de 1925)

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