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2016-12-30

KAKEMONO - Luís da Câmara Cascudo



imagem daqui

Deixa, meu fino lírio japonês
Que o vento ulule fora da vidraça.
Tens o corpo sonoro de uma taça
E o teu quimono
Que envolve tua cinta esguia e fina
Dá-te um ar de princesa de neblina
Num castelo de outono...
Bem vês
Que o vento ulula fora da vidraça
E a chuva passa
Para ver-te, meu lírio japonês...


Luís da Câmara Cascudo nasceu em Natal, Rio Grande do Norte, em 30 de dezembro 1898 e faleceu na mesma cidade, em 30 de julho de 1986

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2016-12-29

Poema Eterno - Maria Azenha

A descoberta da terra, 1941. Pintura mural no edifício da
Biblioteca do Congresso, Washington, DC.
Cândido Torquato Portinari (n. Brodowski, São Paulo
29 dez 1903 — m. Rio de Janeiro, 6 fev 1962



ouço a tua voz nas folhas do jardim
que ainda existe por detrás da casa,
as tuas frágeis sílabas gravadas nas flores,
que hoje dá na luz inclinada do terraço
onde os pássaros vêm pela manhã poisar
e cantar no estendal para comer...

e eu fico calada na memória das tuas gargalhadas
entre o baloiço onde brincavas e o som das ruas
onde te foste para sempre esconder.

ouço a sinfonia das gotas de água ao cair da tarde
as nuvens no seu manto negro de anoitecer...
subo então silenciosamente por uma escada feita de cinza e aves
até ao coração da água
que vem em mim morrer ...

fico ao longe solitária
seguindo as tuas lágrimas,
as minhas mãos cresceram tanto que saíram para fora da estrada...

agora posso tocar-te e falar-te sem tu veres…
recolher as estrelas que o vento me traga,
e as palavras que procuro
até adormecer,

enquanto os pássaros vêm aninhar-se no meu colo...

Maria Azenha, nasceu em Coimbra em 29 de dezembro de 1945.

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2016-12-28

OS FAZEDORES DE PROMESSAS - Armando Artur


Como destilar verdades
nestas palavras com odor de mofo?
Até eu poderia emprestar-lhes um ar de sândalo
não fosse a febre noturna dos búzios.
Há muito que os fazedores de promessas
emigraram sem que ninguém os lembrasse
dos gestos obscenos deixados para trás.
Quantos sonhos cabem numa palavra?
Quantos sonhos cabem numa cabaça?
Diziam-me que o mundo era uma pertença de todos.
E enganaram-me quando não acreditei.
Pois as palavras já não enchem a panela de barro.
Só o inverno sabe o quão é difícil
suportar as folhas caídas nas estepes.
Mas nenhuma ausência os entristece?
Nem mesmo a dor que os alucina.

Armando Artur nasceu em Alto Molócuèna, Zambézia, Moçambique a 28 de dezembro de 1962

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2016-12-27

No Pó Dos Livros - Domingos de Oliveira



Um olhar pela estante, lá do pó
traz-me ao olhar as cartas dela, fico
de pé folheando aqui, ali, respigo
palavras do prazer entre as de dor
vazia a boca e ainda o amor
falando do desejo num gemido,
rasgando a carne,ou um grito
a vida inteira vivo em morto corpo.
Por um instante no claustro sou
a alma desolada de mariana, sinto
uma lágrima, só, queimar-me o livro
por onde inadvertido vou.
E porque me comove uma tal paixão
sorrio-me admitindo ser ficção.

in Devastações e Outros Fastos, poemas escolhidos de Domingos Oliveira, Unicepe

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2016-12-26

Cruel - Vespasiano Ramos (na efeméride do centenário da morte do poeta)

Ah, se as dores que eu sinto ela sentisse,
se as lágrimas que eu choro ela chorasse;
talvez nunca um momento me negasse
tudo que eu desejasse e lhe pedisse!

Talvez a todo instante consentisse
minha boca beijar a sua face,
se o caminho que eu tomo ela tomasse,
se o calvário que eu subo ela subisse!

Se o desejo que eu tenho ela tivesse,
se os meus sonhos de amor ela sonhasse,
aos meus rogos talvez não se opusesse!

Talvez nunca negasse o que eu pedisse,
se as lágrimas que eu choro ela chorasse
e se as dores que eu sinto ela sentisse!...


Joaquim Vespasiano Ramos (n. em Caxias, Maranhão a 13 de agosto de 1884; m. em Porto Velho, Rondônia a 26 de dezembro de 1916)

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2016-12-21

Ó Retrato da Morte! Ó Noite Amiga - Bocage


Noite Escuraimagem daqui


Ó retrato da Morte! Ó Noite amiga,
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
Calada testemunha de meu pranto,
De meus desgostos secretária antiga!

Pois manda Amor que a ti sòmente os diga
Dá-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel que a delirar me obriga.

E vós, ó cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!

Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade
Quero fartar o meu coração de horrores.

in Poemas Portugueses, Antologia da Poesia Portuguesa do Séc XIII ao Século XXI, Porto Editora

Manuel Maria Ledoux de Barbosa du Bocage (n. 15 de setembro de 1765 em Setúbal; m. Lisboa, 21 de dezembro de 1805)

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2016-12-20

Poesia - Vítor Matos e Sá

É a visita do tempo nos teus olhos,
é o beijo do mundo nas palavras
por onde passa o rio do teu nome;
é a secreta distância em que tocas
o princípio leve dos meus versos;
é o amor debruçado no silêncio
que te cerca e que te esconde:
como num bosque, lento, ouvimos
o coração de uma fonte não sei onde...


in 'Esparsos'

Vítor Matos e Sá pseudónimo de Vítor Raul da Costa Matos, nasceu em Lourenço Marques, atual Maputo, em 20 de dezembro de 1927, faleceu em Espanha em 1975.

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2016-12-19

26 - Vitorino Nemésio


O anoitecer situa as coisas na minha alma
Como as cadeiras arrumadas
Quando os amigos partiram.
Meus degraus ainda têm a passada do adeus,
Lá quando uma palavra cria tudo,
E o resto, fechada a porta,
É posto nas mãos de Deus.
Então, à minha janela,
Tudo repousa e larga o aro dos conjuntos,
Tudo vem, com um gesto secreto e confiado,
Pedir-me o molde e o amor do isolamento,
Como se um desconhecido
Passasse e pedisse lume
E eu, sem reparar, lho estendesse:
Quando quisesse conhecê-lo,
Só a minha brasa ao longe,
Na noite que se faz pelo peso dos rios
E vive de fogo dado.
Assim nocturno, sou
O suporte de quem não tem para a consciência,
Que é como não ter para pão:
As coisa cegas
Prendem-se a mim,
Ao meu olhar, que é único na noite
Pelo seu grande alcance de humildade,
E fico cheio delas,
Como estes sítios ermos, junto de uma cidade,
Cemitérios de tudo, lugares para cães e bidons velhos;
Fico cheio da pobreza e do sinal das coisas,
Como um retrato de gente pobre é pobre e gauche
(Vale a recordação),
Mas sinto-me, ao mesmo tempo seco cheio de tacto
Como se fosse o seu bordão


(Eu, Comovido a Oeste, 1940)

Poema extraído de Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI; Selecção, organização, introdução e notas de Jorge Reis-Sá e Rui Lage; Prefácio de Vasco da Graça Moura.

Vitorino Nemésio Mendes Pinheiro da Silva (n. Praia da Vitória, Ilha Terceira, Açores a 19 de Dezembro de 1901 — m. em Lisboa, 20 de Fevereiro de 1978)

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2016-12-16

Nel Mezzo del Camin... - Olavo Bilac


Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
e triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada
e alma de sonhos povoada eu tinha...

E parámos de súbito na estrada
da vida: longos anos, presa à minha
a tua mão, a vista deslumbrada
tive da luz que teu olhar continha

Hoje, segues de novo... Na partida.
nem o pranto os teus olhos umedece,
nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face e tremo
vendo o teu vulto que desaparece
na extrema curva do caminho extremo.

Poesias, Sarças de fogo, 1888

Olavo Braz Martins dos Guimarães (n. no Rio de Janeiro em 16 de dezembro de 1865; m. 28 de dezembro de 1918 )

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2016-12-15

Ainda Não - António José Forte


Ainda não
não há dinheiro para partir de vez
não há espaço de mais para ficar
ainda não se pode abrir uma veia
e morrer antes de alguém chegar

ainda não há uma flor na boca
para os poetas que estão aqui de passagem
e outra escarlate na alma
para os postos à margem
.
ainda não há nada no pulmão direito
ainda não se respira como devia ser
ainda não é por isso que choramos às vezes
e que outras somos heróis a valer

ainda não é a pátria que é uma maçada
nem estar deste lado que custa a cabeça
ainda não há uma escada e outra escada depois
para descer à frente de quem quer que desça

ainda não há camas só para pesadelos
ainda não se ama só no chão
ainda não há uma granada
ainda não há um coração

in 'Uma Faca nos Dentes'

António José Forte (Vila Franca de Xira, Póvoa de Santa Iria, 6 de fevereiro de 1931 – Lisboa, 15 de dezembro de 1988),

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2016-12-14

Elegia do Amor - Teixeira de Pascoaes

Outono


I
Lembras-te, meu amor,
Das tardes outonais,
Em que íamos os dois,
Sozinhos, passear,
Para fora do povo
Alegre e dos casais,
Onde só Deus pudesse
Ouvir-nos conversar?
Tu levavas, na mão,
Um lírio enamorado,
E davas-me o teu braço;
E eu triste, meditava
Na vida, em Deus, em ti…
E, além, o sol doirado
Morria, conhecendo
A noite que deixava.
Harmonias astrais
Beijavam teus ouvidos;
Um crepúsculo terno
E doce diluía,
Na sombra, o teu perfil
E os montes doloridos…
Erravam, pelo Azul,
Canções do fim do dia.
Canções que, de tão longe,
O vento vagabundo
Trazia, na memória…
Assim o que partiu
Em frágil caravela,
E andou por todo o mundo,
Traz, no seu coração,
A imagem do que viu.
Olhavas para mim,
Às vezes, distraída,
Como quem olha o mar,
À tarde, dos rochedos…
E eu ficava a sonhar,
Qual névoa adormecida,
Quando o vento também
Dorme nos arvoredos.
Olhavas para mim…
Meu corpo rude e bruto
Vibrava, como a onda
A alar-se em nevoeiro.
Olhavas, descuidada
E triste… Ainda hoje te escuto
A música ideal
Do teu olhar primeiro!
Ouço bem a tua voz,
Vejo melhor teu rosto
No silêncio sem fim,
N a escuridão completa!
Ouço-te em minha dor,
Ouço-te em meu desgosto
E na minha esperança
Eterna de poeta!
O sol morria, ao longe;
E a sombra da tristeza
Velava, com amor,
Nossas doridas frontes.
Hora em que a flor medita
E a pedra chora e reza,
E desmaiam de mágoa
As cristalinas fontes.
Hora santa e perfeita,
Em que íamos, sozinhos,
Felizes, através
Da aldeia muda e calma,
Mãos dadas, a sonhar,
Ao longo dos caminhos…

Tudo, em volta de nós,
Tinha um aspecto de alma.
Tudo era sentimento,
Amor e piedade.
A folha que tombava
Era alma que subia…
E, sob os nossos pés,
A terra era saudade,
A pedra comoção
E o pó melancolia.
Falavas duma estrela
E deste bosque em flor;
Dos ceguinhos sem pão,
Dos pobres sem um manto.
Em cada tua palavra,
Havia etérea dor;
Por isso, a tua voz
Me impressionava tanto!
E punha-me a cismar
Que eras tão boa e pura,
Que, muito em breve – sim! -,
Te chamaria o céu!
E soluçava, ao ver-te
Alguma sombra escura,
Na fronte, que o luar
Cobria, como um véu.
A tua palidez
Que medo me causava!
Teu corpo fino
E leve (oh meu desgosto!)
Que eu tremia, ao sentir
O vento que passava!
Caía-me, na alma,
A neve do teu rosto.
Como eu ficava mudo
E triste, sobre a terra!
E uma vez, quando a noite
Amortalhava a aldeia,
Tu gritaste, de susto,
Olhando para a serra:
- Que incêndio! – E eu, a rir,
Disse-te: - É a lua cheia!...
E sorriste também
Do teu engano. A lua
Ergueu a branca fronte,
Acima dos pinhais,
Tão ébria de esplendor,
Tão casta e irmã da tua,
Que eu beijei, sem querer,
Seus raios virginais.
E a lua, para nós,
Os braços estendeu.
Uniu-nos num abraço,
Espiritual, profundo;
E levou-nos assim,
Com ela, até ao céu…
Mas, ai, tu não voltaste
E eu regressei ao mundo.

II
Um raio de luar,
Entrando, de improviso
No meu quarto sombrio,
Onde medito, a sós,
Deixa, a tremer, no ar,
Um pálido sorriso,
Um murmúrio de luz
Que lembra a tua voz.
O Outono, que derrama
Ideal melancolia
Nas almas sem amor,
Nos troncos sem folhagem,
Deixa vibrar, em mim,
Saudosa melodia,
Dolorida canção,
Que lembra a tua imagem.
A noite, que escurece
Os vales e os outeiros,
E que acende, num bosque,
A voz do rouxinol
E a estrela que protege
E guia os pegureiros;
A lágrima do céu
Ao ver morrer o sol,
Acorda, no meu peito,
Infinda e etérea dor,
Que à memória me traz
Aluz do teu olhar.
Tudo de ti me fala,
Ó meu longínquo amor:
As árvores, a névoa,
Os rouxinóis e o mar.
Se passo por um lírio,
Às vezes, distraído,
Chama por mim, dizendo:
„Oh! Não te esqueças dela!‰
Diz-mo também, chorando
O vento dolorido.
Diz-mo a fonte, a cantar,
Diz-mo, a brilhar, a estrela.
E vejo, em toda a luz,
Teus olhos a fulgir.
Como adivinho, em tudo,
A alma que perdi!
Não encontro uma flor,
Sem o teu nome ouvir.
Não posso olhar o céu,
Sem me lembrar de ti!
Por isso, eu amo o pobre,
O triste e a Natureza,
A mãe da humana dor,
Da dor de Deus a filha.
Meu coração, ao pé
Dum pobrezinho, reza;
Canta, ao lado dum ninho,
Ao pé da estrela, brilha.
O meu amor por ti,
Meu bem, minha saudade,
Ampliou-se até Deus,
Os astros alcançou.
Beijo o rochedo e a flor,
A noite e a claridade.
São estes, sobre o mundo,
Os beijos que te dou.
Hás-de senti-los, sim,
Doce mulher de outrora.
Ó roxo lírio de hoje,
Ó nuvem actual!
Como dantes teu rosto,
A rosa ainda hoje cora;
Beijo-te, sim, beijando
A rosa virginal.
Teu espectro divaga,
Ao longo dos espaços.
Teu amor, feito luz,
Desce do Firmamento.
Se abraço um verde tronco,
Eu sinto, entre os meus braços,
Teu corpo estremecer,
Como uma flor, ao vento.
Soluça a tua dor
Nas infinitas mágoas,
Que, no fumo da tarde,
Eu vejo, além, subir.
E paira a tua voz
No marulhar das águas,
No murmúrio que sai
Das pétalas a abrir.
Se os lábios vou molhar
Nas ondas duma fonte,
Queimam meu coração
Tuas lágrimas salgadas.
E, quando acaricia
O vento a minha fronte
Eu bem sinto, sobre ela,
As tuas mãos sagradas.
Quando a lua, no Outono,
Envolta em luz funérea,
Morta, vai a boiar
Nas águas do Infinito,
Doira meu frio rosto
A palidez etérea,
Que dantes emanava
O teu perfil bendito.
Quando, em manhãs d`Abril,
Acordo, de repente,
E vejo, no meu quarto,
O sol entrar, sorrindo,
Julgo ver, ante mim,
Teu corpo resplendente,
Tua trança de luz,
Teu gesto suave e lindo.
Descubro-te, mulher,
Na Natureza inteira,
Porque entendo a floresta,
A névoa, o céu doirado,
A estrela a arder, no Azul,
A lenha, na lareira
E o lírio que, na cruz
Do outono, está pregado.
Falas comigo, sim,
Da dor, do bem, de Deus.
Repartes o meu pão,
Amor, pelos ceguinhos.
E pelas solidões
Os pobres versos meus,
Como os pobres que vão,
A orar, pelos caminhos.
És a minha ternura,
A minha piedade,
Pois tudo me comove!
O zéfiro mais leve
Acende, no meu peito,
Infinda claridade;
E a brancura do lírio
Enche meu ser de neve.
Todo eu fico a cismar
Na louca voz do vento,
Na atitude serena
E estranha duma serra;
No delírio do mar,
Na paz do Firmamento
E na nuvem, que estende
As asas, sobre a terra.
Todo eu fico a cismar,
Assim como que esquecido,
Ante a flor virginal
E o sol enamorado.
Ante o luar que nasce,
Al longe, dolorido,
Dando às cousas um ar
Tão triste e macerado.
Todo eu medito e cismo.
Um vago e etéreo laço
Prende-me ao teu imendo
E livre coração,
Que abrange o mundo inteiro
E ocupa todo o espaço,
E que vai povoar
A minha solidão.
Por isso, eu vivo sempre,
Em doce companhia,
Com o pobre que pede
E a estrela que fulgura;
E, assim, a minha alma,
Igual à luz do dia
Derrama-se, no céu,
Em ondas de ternura.
Sou como a chuva e o vento
E a sombra duma cruz!
Lira, que a mais suave
Aragem faz vibrar.
Água que, ao luar brando,
Em nuvens se traduz;
Fruto que amadurece,
À luz dum claro olhar.
Pedra que um beijo funde
E místico vapor,
Que um hálito condensa
Em pura gota de água.
Sou aroma que um ai
Encarna em triste flor;
Riso que muda em choro
A mais pequena mágoa.
Vivo a vida infinita,
Eterna, esplendorosa.
Sou neblina, sou ave,
Estrela, Azul sem fim,
Só porque, um dia, tu,
Mulher misteriosa,
Por acaso, talvez,
Olhaste para mim.

Teixeira de Pascoaes (Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos) nasceu em 2 de novembro de 1877 em Amarante; m. em 14 de dezembro de 1952

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2016-12-13

O LEQUE DE MARFIM - Pedro Luís Pereira de Sousa

leque com varetas de marfim daqui

Ela estava bonita a enlouquecer a gente!
Viva, fresca, feliz... gostei de vê-la assim!
Da música ao murmúrio estremecia ardente
E, rindo, machucava o leque de marfim.

Seus olhos eram negros, veludosos, puros...
Dois abismos! Dois céus! Fitei-os a tremer!
Costumado a trilhar caminhos sempre escuros,
Tenho medo da luz... Meu Deus, eu não quis ver.

Mas ela fascinava... Era um olhar, mais nada...
Rebelde, o coração nessa hora me traiu!
Aos dedos dessa virgem a ânfora sagrada
Entornando perfume à luz do sol se abriu.

Encostei-me ao piano. A chácara viçosa
Entoava das flores lânguida canção.
Eu cismava... - sei lá! - no céu, no mar, na rosa...
E minh'alma se foi nas asas da paixão.

Bem como o viajante em regiões polares
Que recorda chorando o seu torrão natal,
E avista de repente, incendiando os mares,
O divino esplendor da aurora boreal,

Assim eu triste, só, sem sombra d'esperança,
Dos gelos da descrença aonde vim parar
Sondei aquele riso! Amei essa criança,
Foi-me aurora de amor o negrejante olhar.

Brilhe embora uma vez... Banhou-me a luz divina
Vale uma eternidade um dia sempre assim...
Sempre hei de me lembrar da cândida menina
Que rindo machucava o leque de marfim.

Pedro Luís Pereira de Sousa (nasceu em Araruama, RJ a 13 de dezembro de 1839 — m. Bananal, SP, 16 de julho 1884).

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2016-12-12

Amores Infelizes - Alberto de Serpa (na efeméride dos 110 anos do nascimento do autor)

A Afonso Lopes Vieira


Amor de olhos nos olhos e silêncios,
de grandes palavras irremediáveis: sempre... nunca...,
de beijos nos olhos húmidos e nas frontes enrugadas,
de mãos nas mãos e nada mais...

Amor de longas confidências ao luar e às estrelas,
de ciúmes que fazem insónias e sonetos pessimistas,
de aventurosos planos que se sabe impossíveis,
de perigos pneumónicos nas noites chuvosas, sob uma janela...

Amor de olhar as águas rápidas e nocturnas do rio fundo,
com pensamentos românticos de suicídio fatal,
sentindo já no corpo o frio arrepiante da morte...

Amor de ir à igreja, depois, em manhã clara de Primavera,
e de acabar num hábito suportável e tranquilo...

in «366 Poemas que falam de Amor», uma antologia organizada por Vasco Graça Moura,
Quetzal Editores

Alberto de Serpa Esteves de Oliveira (nasceu no Porto a 12 de Dezembro de 1906 - m. na mesma cidade a 8 de Outubro de 1992)

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2016-12-09

NÃO ÉS TU - Almeida Garrett

Era assim, tinha esse olhar,
A mesma graça, o mesmo ar,
Corava da mesma cor,
Aquela visão que eu vi
Quando eu sonhava de amor,
Quando em sonhos me perdi.

Toda assim; o porte altivo,
O semblante pensativo,
E uma suave tristeza
Que por toda ela descia
Como um véu que lhe envolvia,
Que lhe adoçava a beleza.

Era assim; o seu falar,
Ingénuo e quase vulgar,
Tinha o poder da razão
Que penetra, não seduz;
Não era fogo, era luz
Que mandava ao coração.

Nos olhos tinha esse lume,
No seio o mesmo perfume,
Um cheiro a rosas celestes,
Rosas brancas, puras, finas,
Viçosas como boninas,
Singelas sem ser agrestes.

Mas não és tu...ai! não és:
Toda a ilusão se desfez.
Não és aquela que eu vi,
Não és a mesma visão,
Que essa tinha coração,
Tinha, que eu bem lho senti.


(Folhas Caídas 1853)

Extraído de Poemas Portugueses, Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (n. no Porto a 4 de fevereiro de 1799; m. em Lisboa, 9 dezembro 1854)

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2016-12-08

Horas Rubras - Florbela Espanca

Beijo imagem daqui

Horas profundas, lentas e caladas,
Feitas de beijos sensuais e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas...

Oiço as olaias rindo desgrenhadas...
Tombam astros em fogo, astros dementes,
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata pelas estradas...

Os meus lábios são brancos como lagos...
Os meus braços são leves como afagos.
Vestiu-os o luar de sedas puras...

Sou chama e neve branca e misteriosa...
E sou, talvez na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!


Florbela Espanca (n. Vila Viçosa, 8 dezembro de 1894; m. Matosinhos, 8 de dezembro de 1930)

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2016-12-07

Na efeméride do nascimento de Ary dos Santos

Quando Lisboa anoitece
Como um veleiro sem velas
Alfama toda parece
Uma casa sem janelas
Aonde o povo arrefece

É numa água-furtada
No espaço roubado à mágoa
Que Alfama fica fechada
Em quatro paredes de água
Quatro paredes de pranto

Quatro muros de ansiedade
Que à noite fazem o canto
Que se acende na cidade
Fechada em seu desencanto
Alfama cheira a saudade

Alfama não cheira a fado
Cheira a povo, a solidão,
Cheira a silêncio magoado
Sabe a tristeza com pão
Alfama não cheira a fado
Mas não tem outra canção.


Ary dos Santos/ Alain Oulman

ALFAMA - Pedro Moutinho & Mayra Andrade

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2016-12-06

A VIDA - Fernando Semana



Caminheiro que segues sem destino
Definido, não te canse o solo
Árido, o sol agreste ao pino,
- Infinito será o teu consolo.

Por maiores que sejam os escolhos,
as mágoas, os abrolhos, os espinhos
Ergue ao céu os teus cansados olhos
E vê p’ra além dos óbvios caminhos.

Guarda a esperança, mantém o sonho.
Distante do alcance terreno
Há mais... uma cintilante estrela!…

Adiante do Bojador medonho,
Corpo exangue mas coração sereno,
Saberás chegar ao fim da procela.

Fernando Semana é natural de Valbom, do concelho de Gondomar, onde nasceu em 1957; contabilista e economista de profissão é aprendiz de poeta nas horas vagas; é o autor do blog Nothingandall (www.nothingandall.blogspot.com)

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DO SORTILÉGIO E DA INFÂNCIA - Joanyr de Oliveira


Entre frutas passadas ou imaturas,
a negra mão cerzia o véu da noite;
em sons enovelada e em vã procura
intimidava o céu um açoite.

O menino encharcado de magia,
a ungir o frágil com reverência,
brindava à luz, em pranto estremecia,
e a banhava no mar de sua inocência.

O celeiro de estórias severas,
maior que o templo azul das prateleiras,
concebia sacis, almas e feras.

Espantalhos pingavam das goteiras,
com multidões de filhos de outras eras,
a bailar e a fugir pelas lareiras.

in Soberanas mitologias e a cidade do medo.

Joanyr de Oliveira (Aimorés, 6 de dezembro de 1933 — Brasília, 5 de dezembro de 2009)

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2016-12-05

Remember - Christina Rossetti

Water Lilies - 1906 Oil on canvas 87.6 x 92.7 cm (34 1/2 x 36 1/2)
by Claude Monnet (b. Paris 14 Nov. 1830 - d. Giverni 5 Dec 1926)
in The Art Institute of Chicago

Remember me when I am gone away,
Gone far away into the silent land;
When you can no more hold me by the hand,
Nor I half turn to go yet turning stay.
Remember me when no more day by day
You tell me of our future that you planned:
Only remember me; you understand
It will be late to counsel then or pray.
Yet if you should forget me for a while
And afterwards remember, do not grieve:
For if the darkness and corruption leave
A vestige of the thoughts that once I had,
Better by far you should forget and smile
Than that you should remember and be sad.

(versão em português)

Recorda-te de mim quando eu embora
For para o chão silente e desolado;
Quando eu não te tiver mais ao meu lado
E sombra vã chorar por quem me chora.

Quando mais não puderes, hora a hora,
Falar-me no futuro que hás sonhado,
Ah de mim te recorda e do passado,
Delícia do presente por agora.

No entanto, se algum dia me olvidares
E depois te lembrares novamente,
Não chores: que se em meio aos meus pesares

Um resto houver do afecto que em mim viste,
- Melhor é me esqueceres, mas contente,
Que me lembrares e ficares triste.

Trad. de Manuel Bandeira, in Rosa do Mundo 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim

Christina Rossetti (b. 5-Dec-1830 in London, England; Died: 29-Dec-1894, London, England)

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2016-12-04

Aspiração - Maria de Arruda Müller


Bojando a vela sobre o mar sem alma,
Vai, asa branca, ao ritmo do vento.
Circunfletindo, oscila e corta a espalma
Imensidão que espelha o firmamento.

No ar rarefeito treme a leve palma...
Se a tempestade vier, o oceano é cruento...
E ela não sente quando a tarde é calma,
Insídias de borrasca em céu sedento.

Quisera ver minha alma - neste instante -
Como a vela boiar, e se sumindo
No horizonte, indo além, bem mais distante...

E indo a vogar meu pensamento com ela,
Livre da ronda das paixões (que lindo!)
Como a alvura que aclara a branca vela.


"Sons Longínquos" (1998).

Maria de Arruda Müller, (Cuiabá, 9 de dezembro de 1898 — Cuiabá, 4 de dezembro de 2003)

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2016-11-30

Se Alguém Bater - Fernando Pessoa



Se alguém bater um dia à tua porta,
Dizendo que é um emissário meu,
Não acredites, nem que seja eu;
Que o meu vaidoso orgulho não comporta
Bater sequer à porta irreal do céu.

Mas se, naturalmente, e sem ouvir
Alguém bater, fores a porta abrir
E encontrares alguém como que à espera
De ousar bater, medita um pouco. Esse era
Meu emissário e eu e o que comporta
O meu orgulho que já desespera.
Abre a quem não bater à tua porta!

5-9-1934
in Obra Essencial de Fernando Pessoa - Poesia do Eu - edição Richard Zenith - Assírio & Alvim

FERNANDO António Nogueira PESSOA, nasceu a 13 de Junho de 1888 e faleceu em Lisboa a 30 de Novembro de 1935.

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2016-11-29

A la nave - Andrés Bello

¿Qué nuevas esperanzas
al mar te llevan? Torna,
torna, atrevida nave,
a la nativa costa.

Aún ves de la pasada
tormenta mil memorias,
¿y ya a correr fortuna
segunda vez te arrojas?

Sembrada está de sirtes
aleves tu derrota,
do tarde los peligros
avisará la sonda.

¡Ah! Vuelve, que aún es tiempo,
mientras el mar las conchas
de la ribera halaga
con apacibles olas.

Presto erizando cerros
vendrá a batir las rocas,
y náufragas reliquias
hará a Neptuno alfombra.

De flámulas de seda
la presumida pompa
no arredra los insultos
de tempestad sonora.

¿Qué valen contra el Euro,
tirano de las ondas,
las barras y leones
de tu dorada popa?

¿Qué tu nombre, famoso
en reinos de la aurora,
y donde al sol recibe
su cristalina alcoba?

Ayer por estas aguas,
segura de sí propia,
desafiaba al viento
otra arrogante proa;

Y ya, padrón infausto
que al navegante asombra,
en un desnudo escollo
está cubierta de ovas.

¡Qué! ¿No me oyes? ¿El rumbo
no tuerces? ¿Orgullosa
descoges nuevas velas,
y sin pavor te engolfas?

¿No ves, ¡oh malhadada!
que ya el cielo se entolda,
y las nubes bramando
relámpagos abortan?

¿No ves la espuma cana,
que hinchada se alborota,
ni el vendaval te asusta,
que silba en las maromas?

¡Vuelve, objeto querido
de mi inquietud ansiosa;
vuelve a la amiga playa,
antes que el sol se esconda!

Andrés de Jesús María y José Bello López (Caracas, Venezuela, 29 de novembro de 1781 — Santiago do Chile, 15 de outubro de 1865)

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2016-11-28

Tela Íntima - Campos de Figueiredo

Artist in His Studio, Rembrandt Harmensz. van Rijn.
In the collection of Boston's Museum of Fine Art.!


Lá fora, a noite escura... o vento aos ais,
A soluçar e a rir - doido soturno,
É um violinista trágico e nocturno
Wagnerizando a voz dos temporais!

Lá fora, a chuva fria das procelas...
E cá dentro, ao calor da nossa casa,
O nosso coração a arder em brasa
E o silêncio divino das estrelas

Tu embalas ao colo a nossa Filha...
A luz, a arder, que em nossos rostos brilha,
Dá-lhes um tom rosado de manhã...

E com a estranha e misteriosa tinta,
Com que Deus ao Sol-Posto as coisas pinta;
Nós formamos um quadro de Rembrandt!

José Campos de Figueiredo nasceu em Cernache (Coimbra) a 6 de maio de 1899 e faleceu em Coimbra a 28 de novembro de 1965.

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2016-11-25

O Soneto - Alfredo da Cunha

Dos seus versos no pórfiro sagrado,
se o Amor o inspira, o Génio dos poetas
modela imagens firmemente rectas,
como em nicho precioso e rendilhado.

Mas, se é da Morte o lúgubre inspirado
(como, em tampas de túmulos quietas,
frias estátuas de feições correctas),
molda o vulto dum ídolo chorado.

E, qual se fora em mármores esculpida,
à imagem bela da mulher querida
dão forma e graça as quadras do soneto:

nelas assenta como em leves penas,
o corpo, de que os pés apenas
o estofo abrocadado do terceto.



Extraído de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições
Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

Alfredo Carneiro da Cunha nasceu no Fundão a 21 de dezembro de 1863 e faleceu em Lisboa a 25 de novembro de 1942.

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2016-11-24

Poema das Coisas Belas - António Gedeão (na passagem do 90º aniversário...)

Pôr do Sol

As coisas belas,
as que deixam cicatrizes na memória dos homens,
por que motivos serão belas?
E belas, para quê?

Põe-se o Sol porque o seu movimento é relativo.
Derrama cores porque os meus olhos vêem.
Mas por que será belo o pôr do sol?
E belo, para quê?

Se acaso as coisas não são coisas em si mesmas,
mas só são coisas quando percebidas,
por que direi das coisas que são belas?
E belas, para quê?

Se acaso as coisas forem coisas em si mesmas
sem precisarem de ser coisas percebidas,
para quem serão belas essas coisas?
E belas, para quê?

in Poesia Completa Antonio Gedeão, Edições João Sá da Costa, Lisboa

António Gedeão (pseudónimo de Rómulo Vasco da Gama de Carvalho) n. Lisboa, 24 de novembro de 1906; m. Lisboa, 19 de fevereiro de 1997)

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2016-11-23

Se houvesse degraus na terra... - Herberto Hélder

A fiery red Sun daqui

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.
Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.
Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

Herberto Hélder, Luís Bernardes de Oliveira (n. Funchal, Madeira em 23 de novembro de 1929, ~)

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2016-11-22

Perto Do Meu Corpo - Graça Pires (na passagem do 70º aniversário)

Conheço um rio sem destino,
confluência de mágoas e de sonhos,
onde os barcos navegam para o sul.

Perto do meu corpo nada é interdito,
a não ser um súbito verão
prolongado nas franjas da memória.

Amanhece na espessura dos desejos,
como se a madrugada descrevesse
a violência, em rotação azul,
ou crescessem papoilas nos olhos de quem ama.


Graça Pires (n. Figueira da Foz, 22 de novembro de 1946)

Blog da autora aqui

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2016-11-21

Canção de Todos - Raul de Leoni (na efeméride dos 90 anos do seu desaparecimento)



Duas almas deves ter...
É um conselho dos mais sábios;
Uma, no fundo do Ser,
Outra, boiando nos lábios!

Uma, para os circunstantes,
Solta nas palavras nuas
Que inutilmente proferes,
Entre sorrisos e acenos:
A alma volúvel das ruas,
Que a gente mostra aos passantes,
Larga nas mãos das mulheres,
Agita nos torvelinhos,
Distribui pelos caminhos
E gasta sem mais nem menos,
Nas estradas erradias,
Pelas horas, pelos dias...

Alma anônima e usual,
Longe do Bem e do Mal,
Que não é má nem é boa,
Mas, simplesmente, ilusória,

Ágil, sutil, diluída,
Moeda falsa da Vida,
Que vale só porque soa,
Que compra os homens e a glória
E a vaidade que reboa
Alma que se enche e transborda,
Que não tem porquê nem quando,
Que não pensa e não recorda,
Não ama, não crê, não sente,
Mas vai vivendo e passando
No turbilhão da torrente,
Través intrincadas teias,
Sem prazeres e sem mágoas.
Fugitiva como as águas,
Ingrata como as areias.

Alma que passa entre apodos
Ou entre abraços, sorrindo,
Que vem e vai, vai e vem,
Que tu emprestas a todos,
Mas não pertence a ninguém.
Salamandra furta-cor,
Que muda ao menor rumor
Das folhas pelas devesas;
Alma que nunca se exprime,
Que é uma caixa de surpresas
Nas mãos dos homens prudentes;
Alma que é talvez um crime,
Mas que é uma grande defesa.

A outra alma, pérola rara,
Dentro da concha tranqüila,
Profunda, eterna e tão cara
Que poucos podem possuí-la,
É alma que nas entranhas
Da tua vida murmura
Quando paras e repousas.
A que assiste das Montanhas
As livres desenvolturas
Do panorama das cousas

Para melhor conhecê-las
E jamais comprometê-las,
Entre perdões e doçuras,
Num pudor silencioso,
Com o mesmo olhar generoso,
Com que contempla as estrelas
E assiste o sonho das flores...

Alma que é apenas tua,
Que não te trai nem te engana,
Que nunca se desvirtua,
Que é voz do mundo em surdina.
Que é a semente divina

Da tua têmpera humana,
Alma que só se descobre
Para uma lágrima nobre,
Para um heroísmo afetivo,
Nas íntimas confidências
De verdade e de beleza:

Milagre da natureza
Transcorrendo em reticências
Num sonho límpido e honesto,
De idealidade suprema,
Ora, aflorando num gesto,
Ora, subindo num poema.

Fonte do Sonho, jazida
Que se esconde aos garimpeiros,
Guardando, em fundos esteiros,
O ouro da tua Vida.

Alma de santo e pastor,
De herói, de mártir e de homem;
A redenção interior
Das forças que te consomem,
A legenda e o pedestal
Que se aprofunda e se agita
Da aspiração infinita
No teu ser universal.

Alma profunda e sombria,
Que ao fechar-se cada dia,
Sob o silêncio fecundo
Das horas graves e calmas,
Te ensina a filosofia
Que descobriu pelo mundo,
Que aprendeu nas outras almas

Duas almas tão diversas
Como o poente das auroras:
Uma, que passa nas horas;
Outra, que fica no tempo.

Raul de Leoni Ramos (n. Petrópolis, Rio de Janeiro, 30 de outubro de 1895; m. Itaipava, Rio de Janeiro, 21 de novembro de 1926)

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2016-11-18

Completas - Manuel António Pina

A meu favor tenho o teu olhar
testemunhando por mim
perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.

E aqueles que me assaltam
à noite na solidão do quarto
refugiam-se em obscuros sítios dentro de mim
quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.

Protege-me com ele, com o teu olhar,
dos demónios da noite e das aflições do dia,
fala em voz alta, não deixes que eu adormeça,
afasta de mim o pecado da infelicidade.


in Poesia, Saudade da Prosa - Uma Antologia Pessoal, Assírio Alvim

Manuel António Pina (nasceu em 18 de novembro de 1943 no Sabugal, m. Porto, 19 de outubro de 2012)

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2016-11-17

Porque o Fim de Um Caminho ... - José Bento


Caminho de Outono imagem daqui

Porque o fim de um caminho sempre me entregou
o limiar de outro caminho,
o verde de um campo ou de um corpo adolescente,
espero que regresse à minha voz
a luz que no primeiro dia a fecundou
e a terra que é o contorno dessa luz.

Porque espero ver crescer minhas mãos dessa terra
e de minhas mãos a água necessária à minha sede,
ergo de mim a noite residual do que vivi
e canto,
canto provocando a madrugada.

Porque outros entoarão meu requiem e outros cerrarão
minha pálpebras para defender meus olhos de suas lágrimas,
deixo essa glória aos outros
- e exalto o meu nascimento
e cada dia em que renasço e procuro
a boca ou o fruto onde se reflitam os meus lábios.

Porque, harmonizando-se no sangue o fogo e a água,
eu sou o fogo e a água:
por mim os cadáveres e quanto é feito de matéria dos cadáveres
libertar-se-ão em chamas, serão claridade
e chegarão a pão pela dádiva das cinzas,
a última dádiva, a total.

Poema extraído de «Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim»

JOSÉ BENTO de Almeida e Silva nasceu no concelho de Estarreja (distrito de Aveiro) a 17 de novembro de 1932.

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2016-11-16

Cinco Sentidos - Alberto d'Oliveira

Cinco sentidos são os cinco dedos
Com que o homem tacteia a escuridão,
Rodeado de sombras e segredos
De que busca, e não acha, a solução.

Mas decerto haverá mundos mais ledos
Onde outros seres, de maior visão,
Rompendo brumas, dissipando medos,
A treva finalmente vencerão.

E sendo sete as cores, e outros tantos
Os sons da escala, mas com mil matizes
Que prolongam seu eco e seus encantos,

Talvez nos seja um dia transmitido,
Por esses mundos fortes e felizes,
Um novo sexto e sétimo sentido!


Alberto de Oliveira (nasceu no Porto a 16 de novembro de 1873* e faleceu a 23 de abril de 1940, em S. Mamede de Infesta)

*Seguimos esta fonte

Não confundir com o poeta brasileiro Antônio Mariano de Oliveira (Saquarema, 28 de abril de 1857 — Niterói, 19 de Janeiro de 1937), que usou o pseudónimo literário de Alberto de Oliveira

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2016-11-15

O Acendedor de Lampiões - Jorge de Lima



Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!

Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite aos poucos se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.

Triste ironia atroz que o senso humano irrita: —
Ele que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade,
Como este acendedor de lampiões da rua.

Jorge Matheus de Lima (n. em União de Palmares, Alagoas a 23 de abril de 1893, m. no Rio de Janeiro a 15 de novembro de 1953)

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2016-11-14

Como esses bois que andam... - Alberto Bramão

Como esses bois que andam puxando às noras,
em passo melancólico e ronceiro,
sem alterar a marcha do ponteiro,
o meu relógio vai marcando as horas

Quer no céu brilhem rútilas auroras
ou caia e morra o sol no mar fragueiro,
o tempo segue o curso rotineiro,
sem paragens, sem pressas ou demoras.

Somente quando o nosso olhar enxuto
tem clarões de ventura fugidia,
cada hora é mais curta que um minuto...

Mas, nas horas de dor ou desengano,
cada minuto dura mais que um dia
e cada dia dura mais que um ano!


D. Alberto Allen Pereira de Sequeira Bramão (n. Almada, Nov. 1865; m. Lisboa, 14 Nov 1944)

in A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa- 2004 Edição Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, CRL.

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2016-11-11

E de repente, assim de repente, o mundo se tornou mais triste: Leonard Cohen faleceu



Leonard Norman Cohen (Montreal, 21 de setembro de 1934 - Los Angeles, 7 de novembro de 2016*)
* o anúncio da sua morte foi feito apenas a 10 de novembro

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Tornou-me o pôr-do-sol um nobre entre os rapazes - Sosígenes Costa



Queima sândalo e incenso o poente amarelo,
perfumando a vereda, encantando o caminho.
Anda a tristeza ao longe a tocar violoncelo.
A saudade no ocaso é uma rosa de espinho.

Tudo é doce e esplendente e mais triste e mais belo
e tem ares de sonho e cercou-se de arminho.
Encanto! E eis que já sou o dono de um castelo
de coral com portões de pedra cor de vinho.

Entre os tanques dos reis, o meu tanque é profundo.
Entre os ases da flora, os meus lírios lilases.
Meus pavões cor-de-rosa, os únicos do mundo.

E assim sou castelão e a vida fez-se oásis
pelo simples poder, ó pôr-do-sol fecundo,
pelo simples poder das sugestões que trazes.

Sosígenes Costa (n. em Belmonte, Bahia, Brasil, 11 de novembro de 1901 - m. no Rio de Janeiro, RJ, em 5 de novembro de 1968).

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2016-11-10

Soneto - Coreia Garção

A uma senhora a quem o autor chamava Mãe


Comigo minha Mãe brincando um dia
a namorar c'os olhos me ensinava,
mas Amor que em seus olhos me esperava
com mil brilhantes farpas me feria.

De quando em quando mais formosa ria
porque incapaz do ensino me julgava.
Porém tanto a lição me aproveitava
que suspirar por ela já sabia.

Em poucas horas aprendi a amá-la.
Ditoso se tal arte não soubera
Não me custara a vida não lográ-la.

Certo que aprender menos melhor era
pois não soubera agora desejá-la
nem de tão louco amor enlouquecera.

in Parnaso Lusitano ou Poesias Selectas dos Auctores Portuguezes Antigos e Modernos, Tomo III, Paris, em casa de J.P. Aillaud, M DCCC XX VII.

Pedro António Correia Garção (Lisboa, 13 de junho 1724 — Lisboa, 10 de novembro 1772

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2016-11-09

CONTEMPLANDO O CÉU - Pereira da Silva



Contemplo o céu noturno - o belo, fundo,
Constelado esplendor que me fascina
E me faz pressentir que tudo é oriundo
Do só poder da emanação divina.

Agora, neste instante, me domina
Uma única ideia: é que se o mundo
É vil e a nossa mente pequenina,
O sentimento humano é bem profundo!

Que importa a Dor? Que importa a imensidade
Implacável da Dor num tal momento,
Em que a graça dos deuses nos invade

Se, de espírito em êxtase, olhar fito
Nos céus – gozamos o deslumbramento
De ser outro infinito ante o infinito?

Beatitudes (1919)

Pereira da Silva (Antônio Joaquim P. da S.), jornalista e poeta, nasceu em Araruna, Serra da Borborema, PB, em 9 de novembro de 1876, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 11 de janeiro de 1944.

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2016-11-08

Além de Mim - Teixeira de Pascoaes

Quando o sol é um sorriso desfazendo
A escuridão soturna,
Nos meus olhos, também amanhecendo,
É beijo aceso a lágrima nocturna…
E quando a noite, espectro de outro mundo,
Por sobre a terra desce,
Todo o meu ser—tão pálido!—arrefece
E se torna sem margens e sem fundo…
Assim a minha vida é o fim das Cousas,
Seu estranho e fantástico destino!
As serras fragorosas
E o sol, astro divino,
Perdem-se no meu corpo em tempestade…
Meu corpo…ignoto mar;
Enlouquecida estátua de saudade,
A sonhar, entre nuvens, e a falar…
Que existe além de mim?
Silêncio, fria treva, solidão;
Um vago Azul sem fim,
A sombra da futura Criação

Extraído de Cem Poemas Portugueses do Adeus e da Saudade, selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria, Terramar

Teixeira de Pascoaes (Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos) nasceu em 8 Nov 1877 (*) em Amarante; m. em 14 Dez. 1952.
(*) Conforme assento oficial de nascimento; de algumas fontes biográficas consta a data de 2 de novembro

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2016-11-07

Se Eu Fossa Apenas - Cecília Meireles



Se eu fosse apenas uma rosa,
com que prazer me desfolhava,
já que a vida é tão dolorosa
e não te sei dizer mais nada!

Se eu fosse apenas água ou vento,
com que prazer me desfaria,
como em teu próprio pensamento
vais desfazendo a minha vida!

Perdoa-me causar-te a mágoa
desta humana, amarga demora!
- de ser menos breve do que a água,
mais durável que o vento e a rosa...


in 366 poemas que falam de amor, uma antologia organizada por Vasco Graça Moura, Quetzal Editores

Cecília Benevides de Carvalho Meireles (Rio de Janeiro, 7 de novembro de 1901 — Rio de Janeiro, 9 de novembro de 1964)

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2016-11-04

Face - Augusta Faro


Nada me contenta,
em nada me encontro,
quando me virem escutando o canto
das sereias ao meio-dia.

São horas de espanto
de assustada lenda,
que me refletem em ramagens,
brancos os meus cabelos
e dedos barrocos
como rocas e retratos
Quando me virem de boca selada,
um relógio de sol estático
é meu espanto,
nada me contenta,
em nada me encontro.

Augusta Faro Fleury de Melo é natural de Goiânia, Goiás, Brasil onde nasceu a 4 de novembro de 1948.

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2016-11-03

NÃO ME DEIXES - Gonçalves Dias

Purple flower riverFlores perto dum regato imagem daqui

Debruçada nas águas dum regato, A flor dizia em vão À corrente, onde bela se mirava… "Ai, não me deixes, não!" "Comigo fica, ou leva-me contigo Dos mares à amplidão: Límpido ou turvo, te amarei constante; Mas não me deixes, não!" E a corrente passava; novas águas Após as outras vão; E a flor sempre a dizer, curva na fonte: "Ai, não me deixes, não!" E das águas que fogem incessantes À eterna sucessão, Dizia sempre a flor, e sempre embalde: "Ai, não me deixes, não!" Por fim desfalecida e a cor murchada, Quase a lamber o chão, Buscava inda a corrente por dizer-lhe Que a não deixasse, não. A corrente impiedosa a flor enleia, Leva-a do seu torrão; A afundar-se dizia a pobrezinha: "Não me deixaste, não!"

in Cinco Séculos de Poesia, Antologia da Poesia Clássica Brasileira; Selecção e Introdução de Frederico Barbosa, Landy Editores.

Antônio Gonçalves Dias (nasceu no dia 10 de agosto de 1823, nos arredores de Caxias, no Maranhão. Faleceu ao regressar de uma viagem à Europa, no naufrágio do "Ville de Boulogne", já próximo do Maranhão, a 3 de novembro de 1864).

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2016-11-02

A Diferença Que Há - Jorge de Sena

A diferença que há entre os estudiosos e os poetas
É que aqueles passam a vida inteira com o nariz num assunto
A ver se conseguem decifrá-lo, e estes
Abrem o livro, lêem três páginas, farejam as restantes
(nem sequer todas) e sabem logo do assunto
o que os outros não conseguiram saber. Por isso é que
os estudiosos têm raiva dos poetas,
capazes de ler tudo sem ter lido nada
(e eles não leram nada tendo lido tudo).
O mal está em haver poetas que abusam do analfabetismo,
E desacreditam a gaya Scienza

in VISÃO PERPÉTUA (1982)

Jorge Cândido de Sena (n. em Lisboa a 2 de novembro de 1919; m. em Santa Bárbara, Califórnia a 4 de junho de 1978)

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2016-11-01

PAISAGEM - Francisca Júlia

Ganso africano Foto: Roched Seba daqui

Dorme sob o silêncio o parque. Com descanso,
Aos haustos, aspirando o finíssimo extrato
Que evapora a verdura e que deleita o olfato,
Pelas alas sem fim das árvores avanço.

Ao fundo do pomar, entre as folhas, abstrato
Em cismas, tristemente, um alvíssimo ganso
Escorrega de manso, escorrega de manso
Pelo claro cristal do límpido regato.

Nenhuma ave sequer sobre a macia alfombra
Pousa. Tudo deserto. Aos poucos escurece
A campina, a rechã sob a noturna sombra.

E enquanto o ganso vai, abstrato em cismas, pelas
Selvas adentro entrando, a noite desce, desce...
E espalham-se no céu camândulas de estrelas...


Francisca Júlia da Silva Munster (n. antiga Vila de Xiririca, hoje Eldourado, no vale do Ribeira, São Paulo a 31 de agosto de 1871 e faleceu em São Paulo a 1 de novembro de 1920).

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2016-10-31

Verdade - Carlos Drummond de Andrade


A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Carlos Drummond de Andrade (n. Itabira, 31 de outubro de 1902 — m. Rio de Janeiro, 17 de agosto de 1987).

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2016-10-28

Poema de Amor - Natércia Freire


Teu rosto, no meu rosto, descansado.
Meu corpo, no teu corpo, adormecido.
Bater de asas, tão longe, noutro tempo,
Sem relógio nem espaço proibido.

Oh, que atónitos olhos nos contemplam,
Nos sorriem, nos dizem: Sossegai!
Românticos amantes, viajantes eternos,
Olham por nós na hora que se esvai!

Que música de prados e de fontes!
Que riso de águas vem para nos levar?
Meu rosto, no teu rosto de horizontes,
Meu corpo, no teu corpo, a flutuar.

in Os dias do Amor, um poema para cada dia do ano, recolha, selecção e organização de Inês Ramos, prefácio de Henrique Manuel Bento Fialho

Natércia Ribeiro de Oliveira Freire nasceu em Benavente, a 28 de outubro de 1919 - faleceu em 17 de dezembro de 2004.

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2016-10-27

Desaparecido - Carlos Queirós


Sempre que leio nos jornais:
«De casa de seus pais desapar’ceu...»
Embora sejam outros os sinais,
Suponho sempre que sou eu.

Eu, verdadeiramente jovem,
Que por caminhos meus e naturais,
Do meu veleiro, que ora os outros movem,
Pudesse ser o próprio arrais.

Eu, que tentasse errado norte;
Vencido, embora, por contrário vento,
Mas desprezasse, consciente e forte,
O porto do arrependimento.

Eu, que pudesse, enfim, ser eu!
- Livre o instinto, em vez de coagido.
«De casa de seus pais desapar’ceu...»
Eu, o feliz desaparecido!

in Desaparecido e Outros Poemas
Lisboa, Livraria Bertrand, 1950

José Carlos Queirós Nunes Ribeiro (n. Lisboa a 5 de abril de 1907; m. em Paris, 27 de outubro de 1949)

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2016-10-26

Soneto XXI - António Lobo de Carvalho

Ao mesmo Padre Macedo, que pregando em Santa Joana na ação de
graças que se fez pelo restabelecimento do Conde de S. Vicente,
abateu o Marquês de Pombal, tendo-o aí mesmo
 louvado noutras ocasiões

Ontem nessa cadeira da verdade
Por maior dos heróis o conheceste
E no mesmo lugar hoje o fizeste
O monstro mais cruel d’iniquidade!

Explica-nos enfim por piedade,
Já que tanto o exaltaste, e o abateste,
Se é mentira o que então nos propuseste
Ou o que essa oração nos persuade?

Se foi mau, porque teve então louvores?
E se é bom, porque é monstro, e causa medo?
Eu não posso entender tais oradores!

Para mudar o ser é muito cedo
Homem tudo era luz, tudo hoje horrores
Mas enfim, são discursos do Macedo!

in Poesias Joviaes e Satyricas, Cadix, MDCCCLII

António Lobo de Carvalho nasceu em Guimarães, pelos anos de 1730 pouco mais ou menos, tendo falecido em Lisboa a 26 de outubro de 1787

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2016-10-25

Tuas Cartas Rasguei - Humberto de Campos

imagem daqui

Tuas cartas rasguei uma por uma:
cento e catorze páginas e tiras
de juramentos, de promessas, em suma
de perfídias, de sonhos, de mentiras.

Mas... chorei ao rasgá-las! Tinha alguma
cousa a implorar nelas por ti; e as iras
foram-se e, agora, cólera nenhuma
neste peito haverá, por mais que o firas.

Eram mentiras, eu bem sei... No entanto,
cada rompida página era um cardo
que enterrava no peito em cada canto.

E eis porque, ajoelhado, após instantes,
os pedaços juntei... e agora os guardo
com mais amor do que os guardava dantes!


Humberto de Campos (n. Miritiba, Maranhão, Brasil, 25 de outubro de 1886; m. Rio de Janeiro, 5 de dezembro de 1934)

in A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa - Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, CRL, 2004

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2016-10-24

Os Búzios - Emanuel Félix

imagem daqui

Deixados pelos Deuses sobre a areia
Os búzios são cofres com pedaços da noite
Pequenos transistors para as noticias do mar
Encontrados pelas crianças na praia
Os búzios são caixas de música
São os ouvidos petrificados dos peixes
E um búzio separa
As crianças dos Deuses

in A Viagem Possível

Emanuel Félix Borges da Silva nasceu em Angra do Heroísmo a 24 de outubro de 1936 e faleceu no dia 14 de fevereiro de 2004

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2016-10-21

Poesia Infantil - Carlos Francovig

Elefante
O ELEFANTINHO

Uma nuvem
lá no céu
se transformou
num bonito elefantinho.

Outra nuvem, já maldosa
de pirraça e sem graça
foi fazendo um ratinho.

Tão feio era ele
que espantou
o meu bichinho.



Passarinhos

BEM-TE-VI

À tardinha
os galhos da árvore da rua
se enchem de passarinhos.

Uns brancos, outros pretos
vermelhos
azul
e um outro que tem o peitinho amarelo.

E todos dormem
nos galhos da árvore.

De manhãzinha
quando o sol está nascendo
todos vão embora.

E o passarinho do peito amarelinho
vai gritando:

— Bem-te-vi! Bem-te-vi!

Ora, ora
quem será que ele bem vê?

— Bem-te-vi! Bem-te-vi!


Compota
DOCES

Quando anoitece
(e todos dormem)
as formigas
e os dedos
clandestinamente
invadem
o pote de doces.

Carlos Alberto Francovig Filho nasceu em Londrina, Paraná a 21 de outubro de 1960.

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2016-10-20

Sensação - Arthur Rimbaud

Relva, Prado, Campo imagem daqui

Nas tardes de verão, irei pelos vergéis,
Picado pelo trigo, a pisar a erva miúda:
Sonhador, sentirei um frescor sob os pés
E o vento há de banhar-me a cabeça desnuda.

Calado seguirei, não pensarei em nada:
Mas infinito amor dentro do peito abrigo,
E como um boémio irei, bem longe pela estrada,
Feliz – qual se levasse uma mulher comigo.

in Os dias do Amor, Um poema para cada dia do ano; recolha, selecção e organização de Inês Ramos. Prefácio de Henrique Manuel Bento Fialho. Ministério dos Livros

Jean Nicolas Arthur Rimbaud (n. em Charlevill, França, em 20 de Outubro de 1854; m. em Marselha em 10 de novembro de 1891).

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2016-10-19

Uma Sombra - Manuel António Pina

Ouves os meus passos nas escadas?
Quando eu bater à porta
não me reconheceremos.
Voltarei de um dia de trabalho,
subirei as escadas
e perder-me-ei para sempre
em qualquer sítio fora de qualquer sítio.
Não foi o caminho de casa que perdi?
Não ficou alguém em qualquer sítio,
uma sombra passando diante de nós,
e principalmente fora de nós?
Agora quem sente
isto fora de mim,
quem é esse ausente?

Manuel António Pina (nasceu em 18 de novembro de 1943 no Sabugal, faleceu ño Porto, em 19 de outubro de 2012)

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2016-10-18

Canção do Exílio - Casimiro de Abreu



Se eu tenho de morrer na flor dos anos
Meu Deus! não seja já;
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o sabiá!
Meu Deus, eu sinto e tu bem vês que eu morro
Respirando este ar;
Faz que eu viva, Senhor! dá-me de novo
Os gozos do meu lar!

O país estrangeiro mais belezas
Do que a pátria não tem;
E este mundo não vale um só dos beijos
Tão doces duma mãe!

Dá-me os sítios gentis onde eu brincava
Lá na quadra infantil;
Dá que eu veja uma vez o céu da pátria,
O céu do meu Brasil!

Se eu tenho de morrer na flor dos anos
Meu Deus! não seja já!
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o sabiá!

Quero ver esse céu da minha terra
Tão lindo e tão azul!
E a nuvem cor-de-rosa que passava
Correndo lá do sul!

Quero dormir à sombra dos coqueiros,
As folhas por dossel;
E ver se apanho a borboleta branca,
Que voa no vergel!

Quero sentar-me à beira do riacho
Das tardes ao cair,
E sozinho cismando no crepúsculo
Os sonhos do porvir!

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
Meu Deus! não seja já;
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
A voz do sabiá!

Quero morrer cercado dos perfumes
Dum clima tropical,
E sentir, expirando, as harmonias
Do meu berço natal!

Minha campa será entre as mangueiras,
Banhada do luar,
E eu contente dormirei tranquilo
À sombra do meu lar!
As cachoeiras chorarão sentidas
Porque cedo morri,
E eu sonho no sepulcro os meus amores
Na terra onde nasci!

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,
Meu Deus! não seja já;
Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,
Cantar o sabiá.

Casimiro José Marques de Abreu (n. Barra de São João, Rio de Janeiro, em 4 de janeiro de 1839, e faleceu em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, em 18 de outubro de 1860)

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2016-10-17

A Festa do Silêncio - António Ramos Rosa

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

in Volante Verde

António Víctor Ramos Rosa (nasceu em Faro a 17 de Outubro de 1924; faleceu em Lisboa, 23 de setembro de 2013)

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2016-10-14

Pai: quando falava no futuro - Sebastião Alba

Pai: quando falava no futuro
a que se referia – ao meu tempo?
Nunca, na ascensão em espiral
de qualquer culto,
dominámos um frouxo de tosse.
Abro o livro (o seu era L’espoir):
Se o malogro das personagens não é certo,
Por certo o é o do autor.
Bem sucedido, morrerá: fim.
E isso nenhum estilo o redime.
Sorrio congeminando
Que o seu tinha uma encadernação durável.
Os meus filhos sorrirão doutra coisa.
Eis como o sorriso propaga.


in Cem Poemas Portugueses sobre a Infância
selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria

Dinis Albano Carneiro Gonçalves nasceu em Braga, a 11 de março de 1940, mas viveu a maior parte da sua vida em Moçambique. Morreu em Braga, no dia 14 de outubro de 2000

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2016-10-13

Soneto L Moral (Formosura, e Morte, advertidas por um corpo belíssimo, junto à sepultura) - Francisco Manuel de Melo

Armas do amor, planetas da ventura
Olhos, adonde sempre era alto dia,
Perfeição, que não cabe em fantasia,
Formosura maior que a formosura:

Cova profunda, triste, horrenda, escura,
Funesta alcova de morada fria,
Confusa solidão, só companhia,
Cujo nome melhor é Sepultura:

Quem tantas maravilhas diferentes
Pode fazer unir, senão a Morte?
A Morte foi em sem-razões mais rara.

Tu, que vives triunfante sobre as gentes.
Nota (pois te ameaça uma igual sorte)
Donde pára a beleza, e no que pára.


D. FRANCISCO MANUEL DE MELO nasceu em Lisboa a 23 de novembro de 1608 e morreu em Alcântara, Lisboa a 13 de outubro de 1666

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2016-10-12

A la piedra del molino - Dionisio Ridruejo

El recto andar del agua prisionera
se hizo círculo y copla en tus ardores,
pan de roca, en tu danza molinera,
alegres de tus albas mis rumores.

Sol de espigas, tus labios giradores,
labios del llanto, pesadez ligera,
enmudecen tu amarga primavera,
luna muerta en el llanto de las flores.

Hoy te miro, descanso del camino,
moneda del recuerdo abandonada
en la quieta nostalgia del molino.

Cíclope triste, el ojo sin mirada
y la forma andadora sin destino,
en el eje del aire atravesada.

Dionisio Ridruejo Jiménez (Burgo de Osma, Soria, 12 de octubre de 1912 – Madrid, 29 de junio de 1975

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Cai a tarde - Fernando Semana


Cai a tarde, desvanece-me a alma
O dia esvai-se a caminho do fim
Lá fora sibila o vento - um açoite -
E corre o frio bem cá dentro de mim.

Como um náufrago abraço a calma
Das marés sem correnteza deste amor.
Mas quando o dia se espraia na noite
Sinto demais as saudades do seu fulgor.

À noitinha, afogo-me nas estrelas
E adormeço as mágoas no meu leito
Vêm-me salvar, no sonho, as sereias,
Avivar a esperança no meu peito...

Porém, como a manhã renasce bela
E com o Sol a bater-me na janela,
Logo olvido o que na véspera foi mau
E sigo, acertando o compasso da nau.

Fernando Semana é natural de Valbom, do concelho de Gondomar, onde nasceu em 1957; contabilista e economista de profissão é aprendiz de poeta nas horas vagas; é o autor do blog Nothingandall (www.nothingandall.blogspot.com)

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2016-10-11

Esboço - Fausto Guedes Teixeira

Negro o cabelo, a fronte iluminada,
O nariz curvo, a boca pequenina,
Nos olhos escuríssimos cravada
Uma estrela no fundo da retina;

Nas faces uma rosa desmaiada
E outra rosa nos lábios purpurina,
Seus pequeninos pés os duma fada
E o seu corpo um corpinho de menina;

Todos os traços cheios de expressão,
Nas mãos um fogo estranho que lhas beija,
Porque eu lhe pus nas mãos o coração:

Eis o esboço rápido de aquela
Que, sempre que na vida alguém a veja,
Nunca mais vê ninguém senão a ela!



in A Circulatura do Quadrado - Alguns dos mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas: António Ruivo Moutinho, Unicepe

Fausto Guedes Teixeira (nasceu na freguesia de Almacave, em Lamego, em 11 de Outubro de 1871 — morreu em Lamego, 13 de Julho de 1940)

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2016-10-10

DUPLICIDADE - Antônio Tavernard

Minha linda boneca de pelúcia,
Com sutis redondezas de mulher
Tens um nome romântico — Alba Mucia
E um perfume que canta — Chanteclair.

Roubaste às gatas a felina astúcia
Que alcança tudo o que almeja e quer
Esse jeito de andar, essa fidúcia
E essas unhas de um jaspe rosicler.

À noite, quando sais do inexistente
E vens viver alucinadamente
Entre um grande soluço e um grande beijo

Nas páginas do livro onde te lanço
Sinto que és carne porque te desejo
Sinto que és sonho porque não te alcanço.

Antônio de Nazaré Frazão Tavernard nasceu na Vila São João de Pinheiro, atual Icoaraci, em Belém, Pará, a 10 de outubro de 1908 — m. Belém a 26 de maio de 1936

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2016-10-07

O poema que hei-de escrever para ti - Cristovam Pavia

O poema que hei-de escrever para ti, dando notícias
Do último reduto das coisas, das profundidades intactas,
Nasce, adormece e referve-me no sangue
Com a íntima lentidão dos teus seios desabrochando,
Porque, sei, não estás longe (nem da minha vida!), meu mistério fiel.

Hoje a nossa companhia é a tua inconsciência e o teu instinto: puro

Instinto que eu, de longe, embalo e velo
E acordará («em frente!») às primeiras palavras
Do poema, quando ele despontar.

Cristovam Pavia é o pseudónimo literário de Francisco António Lahmeyer Flores Bugalho, nascido na freguesia de Alcântara, Lisboa a 7 de outubro de 1933 e falecido na mesma cidade a 13 de outubro de 1968.

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2016-10-06

Naufrágio - Amália Rodrigues (na passagem do 17º aniversário do seu desaparecimento)

Amália da Piedade Rodrigues (Lisboa, 23 de Julho de 1920 — Lisboa, 6 de Outubro de 1999)





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2016-10-05

[Não quero o Deus de Aristóteles nem de Espinosa] - Cyro dos Anjos


Não quero o Deus de Aristóteles nem de Espinosa.
Quero o Deus de grandes barbas repartidas ao meio
que eu via nas estampas da História Sagrada,
sujeito a zangas e birras tal qual meu pai,
mas infinitamente bom e justo.

É no regaço desse Deus que hei-de ser acolhido.
Ele me puxará as orelhas, brincalhão: Vai, Belmiro,
perdoados são os teus pecados!
Fique naquela nuvenzinha cor de laranja
a ver os anjinhos brincarem de roda.

in Poemas Coronários

Ciro Versiani dos Anjos (Montes Claros, Minas Gerais, 5 de outubro de 1906 — Rio de Janeiro, 4 de agosto de 1994)

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2016-10-04

Cancion De Las Simples Cosas - Mercedes Sosa

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Cancion De Las Simples Cosas

Uno se despide insensiblemente de pequeñas cosas
Lo mismo que un árbol en tiempo de otoño
se queda sin hojas
Al fin la tristeza es la muerte lenta
de las simples cosas
Esas cosas simples que quedan doliendo en el corazón.

Uno vuelve siempre a los viejos sitios
en que amo la vida
Y entonces comprende como están de ausentes
las cosas queridas
Por eso muchacho no partas ahora soñando el regreso
Que el amor es simple
y las cosas simples se las devora el tiempo.

Demórate aquí en la luz mayor de este mediodía
Donde encontraras con el pan al sol la mesa tendida
Por eso muchacho no partas ahora soñando el regreso
Que el amor es simple y las cosas simples las devora
el tiempo...

Mercedes Sosa (n. San Miguel de Tucumán, 9 de julho de 1935 — m. Buenos Aires, 4 de outubro de 2009)

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2016-10-03

Formosura Ideal - Zeferino Brasil

Esta visão que em sonhos me aparece,
e que, mesmo sonhando, me resiste,
por que foge, por que desaparece,
mal eu desperto, apaixonado e triste?

Por que, branca e formosa resplandece
como uma estrela, e a torturar-me insiste,
se é certo, - oh! dor cruel que me enlouquece!...
que ela somente no meu sonho existe?

Cheia de luz e de pureza e graça,
- alma de flor e coração de estrela -
ela, sorrindo, nos meus sonhos passa...

E sempre a mesma angústia dolorida:
branca e formosa dentro d'alma tê-la,
sem poder dar-lhe forma e dar-lhe vida!


Zeferino Antônio de Souza Brazil, nasceu em 24 de Abril de 1870, em Porto Grande, Taquari, Rio Grande do Sul e faleceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul a 3 de Outubro de 1942).

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2016-09-30

Soneto [Venho de longe, trago o pensamento] de Paulo Bomfim na passagem do 90º aniversário


Venho de longe, trago o pensamento
Banhado em velhos sais e maresias;
Arrasto velas rotas pelo vento
E mastros carregados de agonia.

Provenho desses mares esquecidos
Nos roteiros de há muito abandonados
E trago na retina diluídos
Os misteriosos portos não tocados.

Retenho dentro da alma, preso à quilha
Todo um mar de sargaços e de vozes,
E ainda procuro no horizonte a ilha

Onde sonham morrer os albatrozes...
Venho de longe a contornar a esmo,
O cabo das tormentas de mim mesmo.

Paulo Lébeis Bomfim (n. em São Paulo, SP, Brasil, 30 de setembro de 1926)

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2016-09-29

EM SINTRA - Luís Miguel Nava


As águas maravilham-se entre os lábios
e a fala, rápidos
em Sintra espelhos surgem como pássaros,
a luz de que se erguem acontece às águas,
à flor da fala
divide os lábios e a ternura. Da linguagem
rebentam folhas duma cor incómoda, as de que
maravilhado de água surges entre
livros, algum crime, um
menino a dissolver-se ou dele os lábios e ergues
equívoca a luz depois. Rápidos
espelhos então cercam-te explodindo os pássaros.


Películas (1979); In Poesia Completa 1979-1994; Lisboa, Dom Quixote, 2002

Luís Miguel de Oliveira Perry Nava (nasceu em Viseu, 29 de setembro de 1957 — m. Bruxelas, 10 de maio de 1995)

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2016-09-28

CANÇÃO - Emílio Moura



Que consciência dividida
me faz ser dois e, em seguida,
me torna um só, mas sem vida?

Quem me trouxe a este degredo?
Quem me jogou desde cedo
em labirintos de medo?

Que sombra, estigma ou segredo
se grava, trêmulo, a medo,
em minha face plural?

Quem te conta o que não digo
e dorme sempre comigo
sono de pedra e de cal?

Emílio Guimarães Moura (14 de agosto de 1902, Dores do Indaiá, Minas Gerais, Brasil — 28 de setembro de 1971, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil)

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2016-09-27

As Andorinhas - Rodrigues de Abreu


Bastou para eu amá-las isto apenas:
Uma tarde chegando ao meu recanto
Deram momentos de alegria e encanto,
Calor de ninhos, maciez de penas...

E homem de fel, tornei-me bom e santo!
Charco imundo, coalhei-me de açucenas
— Só por elas, sem pejo e sem espanto,
A mim baixarem do alto céu serenas.

E do alto céu sereno elas trouxeram
Todo o mundo vibrante das cantigas
Dos que hoje gozam e que já sofreram,

Povoando do meu ser a soledade,
Vivendo nele, eternamente amigas,
Na perpétua presença da saudade.

Benedito Luís Rodrigues de Abreu (n. Capivari (SP) a 27 de setembro de 1897; m. em Bauru (SP) a 24 de novembro de 1927)

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2016-09-26

Declaração de amor – Luis Fernando Verissimo

Tentei dizer quanto te amava, aquela vez, baixinho...
mas havia um grande berreiro, um enorme burburinho
e, pensando bem, o berçário não era o melhor lugar.
Você de fraldas, uma graça, e eu pelado lado a lado,
cada um recém-chegado,
você sem saber ouvir, eu sem saber falar...

Tentei de novo, lembro bem, na escola.
Um PS no bilhete pedindo cola,
interceptado pela professora como um gavião...
Fui parar na sala da diretora e depois na rua,
enquanto você, compreensivelmente, ficou na sua...
A vida é curta, longa é a paixão.

Numa festinha (ah, nossas festinhas...), disse tudo:
"Eu te adoro, te venero, na tua frente fico mudo"
E você não disse nada... E você não disse nada...
Só mais tarde, de ressaca, eu atinei:
Cheio de amor e "Cuba", me enganei
...e disse tudo para uma... almofada!

Gravei, em vinte árvores, quarenta corações.
O teu nome, o meu, flechas e palpitações:
No mal-me-quer, bem-me-quer, dizimei jardins.
Resultado: sou persona pouco grata,
corrido aos gritos de "Mata!! Mata !!"
por conservacionistas, ecólogos e afins...

Recorri, em desespero, ao gesto obsoleto:
"Se não me segurarem, eu faço um soneto!"
E não é que fiz, e até com boas rimas?
Você não leu, e nem sequer ficou sabendo....
Continuo inédito e eu, por teu amor sofrendo...
Mas fui premiado num concurso em Minas.

Comecei a escrever com pincel e piche
em muro branco, o asseio que se lixe,
todo o meu amor para a tua ciência.
Fui preso, aos socos, e fichado.
Dias e mais dias interrogado:
era PC, PC do B ou alguma dissidência?

Te escrevi com lágrimas, sangue, suor e mel
(você devia ver o estado do papel!...)
uma carta longa, linda e passional.
De resposta nem uma cartinha
nem um cartão, nem uma linha!...
Vá se confiar no Correio Nacional!

Com uma serenata, sim, uma serenata
como nos tempos da Cabocla Ingrata
me declararia, respeitando a métrica.
Ardor, tenor, a calçada enluarada…
havia tudo sob a tua sacada
menos tomada pra guitarra elétrica.

Decidi, então, botar a maior banca no céu
e escrever com fumaça branca:
“Te amo, assinado..” e meu nome bem legível.
Já tinha avião, coragem, brevê
tudo para impressionar você
mas veio a crise, faltou o combustível!...

Ontem você me emprestou seu ouvido
e na discoteca, em meio do alarido,
despejei meu coração.
Falei da devoção ha anos entalada
e você disse “Não escuto nada!”.
Curta é a vida, longa é a paixão.

Na velhice, num asilo, lado a lado
em meio a um silêncio abençoado
direi o que sinto, meu bem.
O meu único medo é que então,
empinando a orelha com a mão,
você me responda só: “Hein?”


Luis Fernando Verissimo (nasceu em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil em 26 de setembro de 1936)

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2016-09-23

Para Que Tu Me Ouças - Pablo Neruda

Para que tu me ouças
as minhas palavras
adelgaçam-se por vezes
como o rasto das gaivotas sobre a praia.

Colar, guizo ébrio
para as tuas mãos suaves como as uvas.

E vejo-as tão longe, as minhas palavras.
Mais que minhas são tuas.
Vão trepando pela minha velha dor como a hera.

Elas trepam assim pelas paredes húmidas.
Tu é que és a culpada deste jogo sangrento.
Elas vão a fugir do meu escuro refúgio.
Tu enches tudo, amada, enches tudo.

Antes de ti povoaram a solidão que ocupas,
e estão habituadas mais que tu à minha tristeza.

Agora quero que digam o que eu quero dizer-te
para que tu ouças como quero que me ouças.

O vento da angústia ainda costuma arrastá-las.
Furacões de sonhos ainda ainda por vezes as derrubam.
Tu escutas outras vozes na minha voz dorida.
Pranto de velhas bocas, sangue de velhas súplicas.
Ama-me, companheira. Não me abandones. Segue-me.
Segue-me, companheira, nessa onda de angústia.

Mas vão-se tingindo com o teu amor as minhas palavras.
Ocupas tudo, amada, ocupas tudo.

Vou fazendo de todas um colar infinito
para as tuas brancas mãos, suaves como as uvas.


Tradução de Fernando Assis Pacheco
Extraído de "miguel veiga, os poemas da minha vida, Público"

Pablo Neruda [Ricardo Eliecer Neftalí Reyes Basoalto] (n. 12 Jul 1904, Parral, Chile; m. 23 Set 1973 em Santiago, Chile).

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