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2013-08-31

Ah, venturosos e venturosas - Marina Tsvetáieva

Ah, venturosos e venturosas
que não sabem cantar. Para eles -
o derramar de lágrimas! Delícia -
derrama-se a dor como aguaceiro!

Para que trema algo sob a pedra.
Para mim - vocação a chicote -
no meio dos cantos fúnebres
manda o dever - cantar.

Porque David cantou reclinado
sobre o amigo que cortaram ao meio!
Se Orfeu não descesse ao Hades
mas mandasse lá a voz,

se apenas mandasse a voz às trevas
e se quedasse inútil à entrada,
Eurídice sairia pela voz
como por uma corda...

Por uma corda e para a luz,
sem regresso e às cegas
porque, se foi dada a voz,
poeta, foi-te tirado o resto.

Trad. Nuno Guerra e Filipe Guerra
in Rosa do Mundo, 2001 Poemas Para o Futuro, Assírio & Alvim, 2001

Marina Ivanovna Tsvetaïeva Марина Ивановна Цветаева (n. 8 Out 1892; m. 31 Ago 1941)

Da mesma autoria: Ainda Ontem...

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2013-08-30

Citação do Dia


Para quê esta ansiosa busca da rima se a vida é uma sinfonia desafinada?

Fernando Semana


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Adivinhação - Magdalena Léa (na passagem do centenário do nascimento)

Poema feito a propósito do Dia da Árvore

Hoje é o dia da árvore,
Colegas do coração,
E eu vou dar a vocês
Uma boa adivinhação:

Em casa tenho uma árvore
Plantada no meu quintal,
Que dá uma fruta linda,
Como outra não há igual.

De ouro é a sua casca
E nasce em pencas, podem crer.
Tão boa, nem tem caroço...
Tudo é para se comer...

Não há quem não goste dela,
Nem menino, nem menina,
E o doutor sempre diz
Que tem muita vitamina.

Não adivinham, pois não?
A árvore é bem brasileira!
Ah! vou dizer-lhes então:
Bananeira! Bananeira!

poema extraído daqui

Magdalena Léa Barbosa Correia nasceu em 30 de agosto de 1913, no bairro de São Cristóvão, Rio de Janeiro, tendo falecido no dia doze de junho de 200

Ler da mesma autora: Poema ao Homem Completo

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2013-08-29

O Jardim Negro - Manuel Machado

É noite. A imensa
palavra é silêncio...
Há no arvoredo
um grande mistério...
Dormem os rumores,
a cor já morreu.
A fonte está louca,
mudo está o eco.

Recordas-te?... Em vão
quisémos sabê-lo...
Que estranho! Que escuro!
Crispa-me inda os nervos
passando nesta hora
somente a lembrança,
como se me houvesse
roçado um momento
a asa peluda
de horrível morcego!...
Vem amada! Inclina
tua fronte em meu peito;
cerremos os olhos;
não oiçamos, silêncio...
Como dois meninos de medo!

A lua aparece,
as nuvens rompendo...
A lua e a estátua
dão um grande beijo.


in Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea, selecção e Tradução de José Bento, Assírio & Alvim

Manuel Machado y Ruizn (n. Sevilha, 29 Ago 1874; m. Madrid, 19 Jan 1947).

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2013-08-28

A Canção do Rei de Tule III - Johann Wolfgang von Goethe

Era uma vez um bom rei
Em Tule - essa ilha distante,
Ao morrer, deixou-lhe a amante
Um copo de oiro de lei.

 
Era um copo de oiro fino
Todo lavrado a primor;
Se fosse o cálix divino
Não lhe tinha mais amor.


Seus tristes olhos leais
Não tinham outra alegria:
E só por ele bebia
Nos seus banquetes reais.


Chegada a hora da morte
Põs-se o rei a meditar
Grandezas da sua sorte,
Seus reinos à beira-mar.


Deixava um rico tesoiro,
Palácios, vilas, cidades;
De nada tinha saudades,
A não ser do copo de oiro.


No castelo da devesa,
Naquelas salas sem fim,
Mandou armar uma mesa
Para o último festim.


Convidou sem mais tardar
Os seus fiéis cavaleiros,
Para os brindes derradeiros
No castelo à beira-mar.


Então, vazando-a de um trago,
E com entranhada mágua,
Pôs nas ondas o olhar vago
E atirou a taça à água.


Viu-a boiar suspendida,
'Té que as ondas a levaram
Os olhos se lhe toldaram,
E não bebeu mais na vida!


Trad. Antero de Quental  

Johann Wolfgang von Goethe 28 August 1749 – 22 March 1832)

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2013-08-27

O meu riso vai alto - JOYCE MANSOUR

O meu riso vai alto,
Mais alto que os chapéus dos cardeais
Mais alto que a esperança
Os meus seios riem quando o sol brilha,
Apesar dos meus fatos apesar do meu noivo.
Feia que sou, sou feliz.
Deus e os vampiros
Amam-me.


Trad. Mário Cesariny
in Rosa do Mundo, 2001 Poemas Para o Futuro, Assírio & Alvim, 2001

Joyce Mansour nascida Joyce Patricia Adès, em Bowden, Inglaterra, no dia 25 de julho de 1928 - faleceu em Paris em 27 de agosto de 1986

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2013-08-26

Ir - Alberto de Lacerda

A minha intenção
se a tivesse
Era interromper de vez em quando as vossas falas
E fazer-vos voltar a cabeça silenciosos
Na única direcção em que os versos existem

in Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora

Carlos Alberto Portugal Correia de Lacerda, nasceu em 20 de setembro de 1928 em Lourenço Marques (actual Maputo), Moçambique e faleceu em 26 de agosto de 2007 em Londres.

Do mesmo autor ler, neste blog:
A Esperança é um Barco
Vento
To Night
Copo de Água
Hino ao Tejo
Poema
A Língua Portuguesa

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2013-08-25

A genealogia do amor - Aníbal Beça

E assim se fez verbo
o dom da palavra
para repartir-se
porque ele era só.

Da vértebra curva
veio para ouvir
aquela que se houve
para ser ouvida
na aventura a dois:
chamada Mulher
a chamado do Homem.

O primeiro grito
– parto da palavra –
se faz em sussurro
macio de gozo
veludo de ventos.

Anibal Augusto Ferro de Madureira Beça Neto nasceu em Manaus em 13 de setembro de 1946. m. 25 de agosto de 2009).

Ler do mesmo autor,em Nothingandall, Espelho

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2013-08-24

Sintonia para pressa e presságio - Paulo Leminski

Escrevia no espaço.
Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.
Soo na dúvida que separa
o silêncio de quem grita
do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
que a pausa, asa, leva
para ir do percalço ao espasmo.

Eis a voz, eis o deus, eis a fala,
eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala.


Paulo Leminski Filho (Curitiba, 24 de agosto 1944 – Curitiba, 7 de junho 1989)

Navio perdendo a rota
Isso de querer
Aviso aos Náufragos
Amor bastante;
Amor, então;
Iceberg

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2013-08-23

Nirvana - Menotti del Picchia (nos 25 anos do desaparecimento do poeta)

Quisera ficar a teu lado
No grande êxtase pacífico
do nosso silêncio.
Continuar indefinidamente
o diálogo mudo dos nossos olhos.

Quisera
diluir-me em ti como um aroma no vento
como dois rios que fundem suas águas
no abraço do mesmo leito
e correm para o mesmo destino...

Somos duas árvores solitárias
que entrelaçam suas ramas:
à mesma brisa estremecem
florescem
envelhecem
e morrem...


Paulo Menotti del Picchia (nasceu em São Paulo, SP, em 20 de março de 1892, e faleceu na mesma cidade em 23 de agosto de 1988).

Ler do mesmo autor:
Germinal I
Chuva de Pedra;
Noite;
Piedosa Mentira
Clássico.

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2013-08-22

SERENIDADE - Kori Bolivia

Serenidade invade esta noite
o olhar terno de um lago solitário.
Banha-se, brilha e rebrilha,
suave desliza
em jogo humano.

Serenidade, partes do fogo
que um dragão te lançou.
És jogo que jogo
e, aveludada,
esta noite
cintila
sem estrelas.


Trad. Anderson Braga Horta

Kori Yanne Bolivia Carrasco Dorado nasceu em La Paz, Bolívia, a 22 de agosto de 1949

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2013-08-21

Nesta curva tão terna e lancinante - Alexandre O'Neill

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.


in No Reino da Dinamarca, 1958

Extraído de Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XXI
Selecção, organização, introdução e notas de Jorge Reis-Sá e Rui Lage
Prefácio de Vasco Graça Moura
Porto Editora

Alexandre Manuel Vahía de Castro O'Neill (n. em Lisboa a 19 de Dez de 1924; m. em 21 de Agosto de 1986).

Ler do mesmo autor:
Um Adeus Português;
Gaivota;
A Meu Favor;
Há Palavras Que nos Beijam;
Dai-nos, meu Deus, um pequeno absurdo quotidiano que seja;
Toma Lá Cinco;
Auto-Retrato

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2013-08-20

Já Voa a Flor Magra / Già Vola il Fiore Magro - Salvatore Quasimodo


Não saberei nada da minha vida,
obscuro monótono sangue.

Não saberei quem eu amava, quem amo,
agora que aqui, recluso, reduzido aos meus membros,
no desfeito vento de Março
enumero os males dos dias decifrados.

Já voa a flor magra
dos ramos. E eu espero
a paciência do seu voo irrevogável.

Poemas traduzidos por Sílvio Castro em Poesias Escolhidas, Ed. Opera Mundi, Rio de Janeiro, 1973

Versão original 

Già vola il fiore magro

Non sapró nulla della mia vita,
oscuro monotono sangue.

Non sapró chi amavo, chi amo,
ora che qui stretto, ridotto alle mie membre,
nel guasto vento di marzo
enumero i mali dei giorni decifrati.

Già vola el fiore magro
dei rami. Ed io attendo
la pazienza del suo volo irrevocabile.

In «Nuevas Poesías, 1936-1942»


Salvatore Quasimodo (nasceu em 20 Ago 1901 em Modica, Sicília; m. em Nápoles a 14 Jun 1968)

Ler do mesmo autor:
E de Repente é Noite
La Muraglia / A amurada

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2013-08-19

Cacilda do Pranto - Federico Garcia Lorca


Fechei a minha varanda
pois não quero ouvir o pranto
mas por trás dos pardos muros
não se ouve mais que o pranto.

Há poucos anjos que cantem,
muito poucos cães que ladrem,
mil violinos cabem na palma desta mão.
Mas o pranto é um cão imenso,
o pranto é um anjo imenso,
o pranto é um violino imenso,
as lágrimas amordaçam o vento,
e não se ouve nada mais que o pranto.

in Antologia  da Poesia Espanhola Contemporânea
Selecção e Tradução de José Bento
 
Federico García Lorca (Fuente Vaqueros, 5 de junho de 1898 — Granada, 19 de agosto de 1936)


Ler do mesmo autor, neste blog:
Alma Ausente
Pequenas baladas dos três rios
Balladilla de los tres rios

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2013-08-18

Começa bem o campeonato: E agora quanto tempo vão falar de Capela?

Penalty para um e não penalty para outro. Expulsão para um e não expulsão para outro. Bola que entra e não é golo... porque não interessa...

Na Madeira também houve um penalty para um .. mas para o outro... fecha-se os olhos. Em cartões amarelos o Benfica já deve andar à frente...

Primeira jornada e o campeão (que ganhou o último jogo decisivo com um penalty que não foi....) começa logo a ganhar avanço. Convém... A máquina continua oleada... e agora nem sequer há escutas... por isso...

Capelas venham elas... ou será eles?




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2013-08-17

Ideal - Fagundes Varela

Não és tu quem eu amo, não és!
Nem Teresa também, nem Ciprina;
Nem Mercedes a loira, nem mesmo
A travessa e gentil Valentina.

Quem eu amo te digo, está longe;
Lá nas terras do império chinês,
Num palácio de louça vermelha
Sobre um trono de azul japonês.

Tem a cútis mais fina e brilhante
Que as bandejas de cobre luzido;
Uns olhinhos de amêndoa, voltados,
Um nariz pequenino e torcido.

Tem uns pés... oh! que pés, Santo Deus!
Mais mimosos que uns pés de criança,
Uma trança de seda e tão longa
Que a barriga das pernas alcança.

Não és tu quem eu amo, nem Laura,
Nem Mercedes, nem Lúcia, já vês;
A mulher que minh'alma idolatra
É princesa do império chinês.

Luís Nicolau Fagundes Varela nasceu em Santa Rita do Rio Claro (RJ) a 17 de Agosto de 1841 e faleceu em Niterói (RJ) a 18 de Fevereiro de 1875.

Ler do mesmo poeta, neste blog:
Eu Passava Na Vida Errante;
Flor do Maracujá
Soneto: Desponta a estrela d'alva, a noite morre
Juvenília V

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O Coelho e o Macaco - Óscar Ribas

Amigo Macaco procurou o amigo Coelho e disse-lhe:
– Vavó Leoa teve filhos! Como ela só está bem a matar vamo-nos oferecer para lhe criar os filhos. Depois matamo-los à fome, e a ela também.
Amigo Coelho achou bem. Mas quando se apresentaram a avó Leoa quis matá-los.
Aiii, vavó, não nos coma só, somos crianças, a nossa carne não chega para te acabar a fome! Se queres, vamos-te buscar os maiores, como vavô Pacaça, tio Javali e outros… Suplicaram ambos.
Avó Leoa aquiesceu.
– E vavó, para eles virem, tens de te fingir morta, envolvida em capim. Alvitrou amigo Macaco.
Os dois, colocando-se à porta de casa, começaram a tocar uma goma, cantando:
Morreu vavó Leoa,
Livres ficámos!
Morreu vavó Leoa,
Livres ficámos!
A bicharada, ouvindo tal cantiga, tão satisfeita ficou, que até se pôs a dançar dentro do quarto. Hela! Vavó Leoa morta! Até parecia mentira! E todos, em redor do monte de capim, dançavam, dançavam, dançavam.
Amigo Coelho e amigo Macaco, já a batucada ia rija, saem e fecham a porta. Avó Leoa salta do capim, e nhão-nhão-nhão – mata aqui, mata ali, mata a todos eles. Não satisfeita com o morticínio, vai ter com o amigo Coelho e amigo Macaco, igualmente para os matar.
– Ai, vavó, não nos mates só, a gente vai-te buscar lenha para assares esta carne toda! Aiii, não queres? – Propõe amigo Macaco.
Avó Leoa concordou. E os dois foram ao mato. Mas avô Quitassele quis comê-los.
– Ai vavô não nos mates só, espera que te trazemos um grandalhão como tu. Somos crianças, não temos carne para ti. – Rogou o amigo Macaco.
A serpente anuiu.
– Vavó, estávamos para ser comidos por vavô Quitassele. O melhor é ires connosco. – Informou amigo Macaco.
Avó Leoa foi. Ao chegarem, amigo Macaco avisa avô Quitassele:
– O grandalhão como tu já cá está.
Avô Quitassele sai do esconderijo e mata avó Leoa.
– Vavô em casa tem muita carne. Vamos prepará-la. – Convida amigo Macaco.
Os três vão para casa. Mas amigo Coelho e amigo Macaco carretam lenha.
– Vavô agora é preciso fogo. Vamos nas lavras. – Alvitra amigo Macaco.
As pessoas, vendo a cobra, deitaram a fugir:
– Cobra! Cobra!
Aproveitando a fuga, amigo Macaco aconselha:
– Vavô, acenda já.
A serpente que trazia capim na cauda e cabeça, virou primeiro uma parte, depois a outra. E avô Quitassele morreu queimado.


In: Afroletras. - n. 3 (2000), p 11

Óscar Bento Ribas nasceu a 17 de agosto de 1909, em Luanda, Angola; faleceu a 19 de junho de 2004, em Lisboa


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2013-08-16

Sobra a nudez forte da Verdade - o manto diáfano da Fantasia - Eça de Queiroz

"Sobre a nudez forte da Verdade – o manto diáfano da Fantasia" é o subtítulo do romance A Relíquia, de Eça de Queiroz, publicado em 1887.

«Decidi compor, nos vagares deste verão, na minha quinta do Mosteiro (antigo solar dos condes de Lindoso), as memórias da minha vida - que neste século, tão consumindo pelas incertezas da inteligência e tão angustiado pelos tormentos do dinheiro, encerra, penso eu e pensa meu cunhado Crispim, uma lição
lúcida e forte.
Em 1875, nas vésperas de Santo Antonio, uma desilusão de incomparável amargura abalou o meu ser; por esse tempo minha tia, D. Patrocínio das Neves, mandou-me do Campo de Santana onde morávamos, em romagem a Jerusalém; dentro dessas santas muralhas, num dia abrasado do mês de Nizam, sendo Poncio Pilatos procurador da Judéia, Élio Lama, Legado Imperial da Síria, e J. Cairás, Sumo Pontífice, testemunhei, miraculosamente, escandalosos sucessos; depois voltei, e uma grande mudança se fez nos meus bens e na minha moral.
São estes casos, espaçados e altos numa existência de bacharel como, em campo de erva ceifada, fortes e ramalhosos sobreiros cheios de sol e murmúrio, que quero traçar, com sobriedade e com sinceridade, enquanto no meu telhado voam as andorinhas, e as moutas de cravos vermelhos perfumam o meu pomar.
Esta jornada à terra do Egito e à Palestina permanecerá sempre como a glória superior da minha carreira; e bem desejaria que dela ficasse nas letras, para a posteridade, um monumento airoso e maciço. Mas hoje, escrevendo por motivos peculiarmente espirituais, pretendi que as páginas íntimas, em que a relembro, se
não assemelhassem a um Guia Pitoresco do Oriente. Por isso (apesar das solicitações da vaidade), suprimi neste manuscrito suculentas, resplandecentes narrativas de ruínas e de costumes...» - É assim, que começa esta obra.

Discípulo do escritor francês Gustave Flaubert, de quem recebeu grande influência literária, tê-lo-á suplantado no dizer de Emile Zola, a propósito d' «O Crime do Padre Amaro»: «Queirós is far greater than my own dear master, Flauber»...

Eça de Queiroz foi um dos pioneiros da literatura realista em Portugal. «Os Maias», «A Cidade e as Serras», «A Ilustre Casa de Ramires» , o controverso e já referido «O Crime do Padre Amaro», «O Primo Basílio», «A Tragédia da Rua das Flores», (entre outras) são obras maiores dum grande nome autor da literatura portuguesa e que profissionalmente desempenhou carreira diplomática.

José Maria de Eça de Queirós faleceu em Paris a 16 de agosto de 1900 - motivo por que falamos dele hoje - tendo nascido na Póvoa de Varzim, a 25 de novembro de 1845.

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2013-08-15

O Elixir do Pajé - Bernardo Guimarães

Que tens, caralho, que pesar te oprime
que assim te vejo murcho e cabisbaixo
sumido entre essa basta pentelheira,
mole, caindo pela perna abaixo?
Nessa postura merencória e triste
para trás tanto vergas o focinho,
que eu cuido vais beijar, lá no traseiro,
teu sórdido vizinho!

Que é feito desses tempos gloriosos
em que erguias as guelras inflamadas,
na barriga me dando de contínuo
tremendas cabeçadas?
Qual hidra furiosa, o colo alçando,
co'a sanguinosa crista açoita os mares,
e sustos derramando
por terras e por mares,
aqui e além atira mortais botes,
dando co'a cauda horríveis piparotes,
assim tu, ó caralho,
erguendo o teu vermelho cabeçalho,
faminto e arquejante,
dando em vão rabanadas pelo espaço,
pedias um cabaço!

Um cabaço! Que era este o único esforço,
única empresa digna de teus brios;
porque surradas conas e punhetas
são ilusões, são petas,
só dignas de caralhos doentios.
Quem extinguiu-te assim o entusiasmo?
Quem sepultou-te nesse vil marasmo?
Acaso pra teu tormento,
indefluxou-te algum esquentamento?
Ou em pívias estéreis te cansaste,
ficando reduzido a inútil traste?
Porventura do tempo a destra irada
quebrou-te as forças, envergou-te o colo,
e assim deixou-te pálido e pendente,
olhando para o solo,
bem como inútil lâmpada apagada
entre duas colunas pendurada?

Caralho sem tensão é fruta chocha,
sem gosto nem cherume,
lingüiça com bolor, banana podre,
é lampião sem lume
teta que não dá leite,
balão sem gás, candeia sem azeite.
Porém não é tempo ainda
de esmorecer,
pois que teu mal ainda pode
alívio ter.

Sus, ó caralho meu, não desanimes,
que ainda novos combates e vitórias
e mil brilhantes glórias
a ti reserva o fornicante Marte,
que tudo vencer pode co'engenho e arte.
Eis um santo elixir miraculoso
que vem de longes terras,
transpondo montes, serras,
e a mim chegou por modo misterioso.

Um pajé sem tesão, um nigromante
das matas de Goiás,
sentindo-se incapaz
de bem cumprir a lei do matrimônio,
foi ter com o demônio,
a lhe pedir conselho
para dar-lhe vigor ao aparelho,
que já de encarquilhado,
de velho e de cansado,
quase se lhe sumia entre o pentelho.
À meia-noite, à luz da lua nova,
co'os manitós falando em uma cova,
compôs esta triaga
de plantas cabalísticas colhidas,
por sua próprias mãos às escondidas.
Esse velho pajé de pica mole,
com uma gota desse feitiço,
sentiu de novo renascer os brios
de seu velho chouriço!
E ao som das inúbias,
ao som do boré,
na taba ou na brenha,
deitado ou de pé,
no macho ou na fêmea
de noite ou de dia,
fodendo se via
o velho pajé!

Se acaso ecoando
na mata sombria,
medonho se ouvia
o som do boré
dizendo: "Guerreiros,
ó vinde ligeiros,
que à guerra vos chama
feroz aimoré",
— assim respondia
o velho pajé,
brandindo o caralho,
batendo co'o pé:
— Mas neste trabalho,
dizei, minha gente,
quem é mais valente,
mais forte quem é?
Quem vibra o marzapo
com mais valentia?
Quem conas enfia
com tanta destreza?
Quem fura cabaços
com mais gentileza?"
E ao som das inúbias,
ao som do boré,
na taba ou na brenha,
deitado ou de pé,
no macho ou na fêmea,
fodia o pajé.

Se a inúbia soando
por vales e outeiros,
à deusa sagrada
chamava os guerreiros,
de noite ou de dia,
ninguém jamais via
o velho pajé,
que sempre fodia
na taba na brenha,
no macho ou na fêmea,
deitando ou de pé,
e o duro marzapo,
que sempre fodia,
qual rijo tacape
a nada cedia!

Vassoura terrível
dos cus indianos,
por anos e anos,
fodendo passou,
levando de rojo
donzelas e putas,
no seio das grutas
fodendo acabou!
E com sua morte
milhares de gretas
fazendo punhetas
saudosas deixou...

Feliz caralho meu, exulta, exulta!
Tu que aos conos fizeste guerra viva,
e nas guerras de amor criaste calos,
eleva a fronte altiva;
em triunfo sacode hoje os badalos;
alimpa esse bolor, lava essa cara,
que a Deusa dos amores,
já pródiga em favores
hoje novos triunfos te prepara,
graças ao santo elixir
que herdei do pajé bandalho,
vai hoje ficar em pé
o meu cansado caralho!
Vinde, ó putas e donzelas,
vinde abrir as vossas pernas
ao meu tremendo marzapo,
que a todas, feias ou belas,
com caralhadas eternas
porei as cricas em trapo...
Graças ao santo elixir
que herdei do pajé bandalho,
vai hoje ficar em pé
o meu cansado caralho!

Sus, caralho! Este elixir
ao combate hoje tem chama
e de novo ardor te inflama
para as campanhas do amor!
Não mais ficará à-toa,
nesta indolência tamanha,
criando teias de aranha,
cobrindo-te de bolor...

Este elixir milagroso,
o maior mimo na terra,
em uma só gota encerra
quinze dias de tesão...
Do macróbio centenário
ao esquecido mazarpo,
que já mole como um trapo,
nas pernas balança em vão,
dá tal força e valentia
que só com uma estocada
põe a porta escancarada
do mais rebelde cabaço,
e pode em cento de fêmeas
foder de fio a pavio,
sem nunca sentir cansaço...

Eu te adoro, água divina,
santo elixir da tesão,
eu te dou meu coração,
eu te entrego a minha porra!
Faze que ela, sempre tesa,
e em tesão sempre crescendo,
sem cessar viva fodendo,
até que fodendo morra!
Sim, faze que este caralho,
por tua santa influência,
a todos vença em potência,
e, com gloriosos abonos,
seja logo proclamado,
vencedor de cem mil conos...
E seja em todas as rodas,
d'hoje em diante respeitado
como herói de cem mil fodas,
por seus heróicos trabalhos,
eleito rei dos caralhos!

Universidade da Amazônia, O Elixir do Pajé de Bernardo Guimarães
NEAD – NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA, Belém, Pará

Bernardo Joaquim da Silva Guimarães nasceu no dia 15 de agosto de 1825, em Ouro Preto, Minas Gerais - Morre em Ouro Preto em 10 de março de 1884

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2013-08-14

A Mulher Grávida - Jaime Cortesão

Eu sou a mulher pejada.
Minha boca apetecida,
Com outra boca colada,
Deu beijos para dar Vida.

Em mim é santo o Desejo,
É santo por ser fecundo:
Puz toda a alma num beijo,
E fui a origem do mundo.

Olhai: caminho por entre
Todo o povo sem receio,
Pois trago um filho no ventre
E uma fonte em cada seio.

Quem sentir vida tam alta
Não se furte, não a esconda;
Vêde-a… em meu ventre se exalta,
Sobe toda numa onda.

Um filho todas as vezes,
Que é de mãe enternecida,
Trá-lo o ventre nove meses
E o coração toda a vida.

Que imenso poder eu tenho
- Dar vida por ser o amor;
Não há poeta tamanho,
Nem génio mais criador!

E por meu ventre sagrado
Vou falar: escutai bem.
Fala o verbo revelado
No meu instinto de mãe.

Eu vejo para além da vista,
Ouço pra além dos ouvidos:
Oh! Que terra nunca vista,
Que heróis jamais concebidos!

Ouço em mim vozes estranhas,
A minha Alma deita luz…
Trago nas minhas entranhas
Outro menino Jesus.

Meu Filho amostra-me a face,
Faze-te Aurora nascida,
Embora a luz me queimasse,
Inda que eu perdesse a Vida.

Sou o Céu da Madrugada,
A minha carne anda em brilho;
Sinto-me ébria de Alvorada
Rompe o Sol: nasce o meu filho!


Jaime Zuzarte Cortesão (n. Ançã, Cantanhede, 29 de Abril de 1884 — m. Lisboa, 14 de Agosto de 1960)

Do mesmo autor neste blog:
Oração do Deus-Menino
Canção Vermelha
Canção Violeta
Renascimento
Sonho Árabe

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2013-08-13

Canção do exílio - Murilo Mendes

Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.
A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.

Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!


Murilo Monteiro Mendes (n. em 13 de Maio de 1901 em Juíz de Fora, Minas Gerais — m. em Lisboa a 13 de agosto de 1975)

Ler do mesmo autor, neste blog:
A Tentação
Jandira
Metafísica da Moda Feminina
Choro do poeta actual
Reflexão n°.1

Nota do webmaster: Toda a canção do exílio é assim: a nossta terra é a melhor apesar de todos os defeitos que tenha. Ao ler este poema é impossível não lembrar o poema com o mesmo título «Canção do exílio» de Casimiro de Abreu (ler aqui) ou até de Alberto Caeiro o extraordinário poema «O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, / Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia /Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia"...

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2013-08-12

Lembrança - Miguel Torga

Lisboa, Cadeia do Aljube, 6 de Dezembro de 1939

Ponho um ramo de flores
na lembrança perfeita dos teus braços;
cheiro depois as flores
e converso contigo
sobre a nuvem que pesa no teu rosto;
dizes sinceramente
que é um desgosto.

Depois,
não sei porquê nem porque não,
essa recordação desfaz-se em fumo;
muito ao de leve foge a tua mão,
e a melodia já mudou de rumo.

Coisa esquisita é esta da lembrança!
Na maior noite
na maior solidão,
vem a tua presença verdadeira,
e eu vejo no teu rosto o teu desgosto,
e um ramo de flores, que não existe, cheira!


in 'Diário I', 1941
Extraído de POESIA COMPLETA - MIguel Torga, 1ª Edição, Publicações Dom Quixote, pág. 116-117

Adolfo Correia da Rocha que usou o pseudónimo de Miguel Torga, nasceu em São Martinho de Anta, Sabrosa, Trás-os-Montes, a 12 de Agosto de 1907; morreu em Coimbra a 17 de Janeiro de 1995.

Ler do mesmo autor, neste blog: Mãe; Preservação; Súplica; Adeus; Depoimento; Procura; Ficam as Sombras; Sei um ninho; Queixa; Hora de amor; Mea culpa; Anátema; Livro de Horas; Encontro; Quase um poema de amor; Perfil; Exorcismo; Bucólica; Arquivo; Rogo; Glória; Poema melancólico não sei a que Mulher

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2013-08-10

Princípio do dia - Rui Knopfli

Rompe-me o sono um latir de cães
na madrugada. Acordo na antemanhã
de gritos desconexos e sacudo
de mim os restos da noite
e a cinza dos cigarros fumados
na véspera.
Digo adeus à noite sem saudade,
digo bom-dia ao novo dia.
Na mesa o retrato ganha contorno,
digo-lhe bom-dia
e sei que intimamente ele responde.

Saio para a rua
e vou dizendo bom-dia em surdina
às coisas e pessoas por que passo.

No escritório digo bom-dia.
Dizem-me bom-dia como quem fecha
uma janela sobre o nevoeiro,
palavras ditas com a epiderme,
som dissonante, opaco, pesado muro
entre o sentir e o falar.

E bom dia já não é mais a ponte
que eu experimentei levantar.
Calado,
sento-me à secretária, soturno, desencantado.

(Amanhã volto a experimentar).


Rui Knopfli (n. em Inhambane, Moçambique, 10 de agosto de 1932 - m. Lisboa, 25 de dezembro de 1997)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Amor das Palavras
Nenhum Monumento
Testamento

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2013-08-09

Lembra-te - Mário Cesariny (na passagem dos 90 anos sobre o seu nascimento)

Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos


in "Pena Capital"

Mário Cesariny de Vasconcelos (n. em Lisboa a 9 Ago 1923; m. em Lisboa a 26 Nov 2006)

Ler do mesmo autor neste blog:
Em Todas as Ruas te Encontro
Outra Coisa
Pastelaria
história de cão

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2013-08-08

Cólofon ou Epitáfio - Ruy Belo (no 35º aniversário do seu desaparecimento)

Trinta dias tem o mês
e muitas horas o dia
todo o tempo se lhe ia
em polir o seu poema
a melhor coisa que fez
ele próprio coisa feita
ruy belo portugalês
Não seria mau rapaz
quem tão ao comprido jaz
ruy belo, era uma vez


[in Todos os Poemas, vol. 1, Assírio & Alvim)

Ruy de Moura Ribeiro Belo nasceu em São João da Ribeira, Rio Maior a 27 de Fevereiro de 1933 e faleceu em Queluz a 8 de Agosto de 1978.

Ler do mesmo autor:

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2013-08-07

Se é assim que desejas - Rabindranath Tagore


Se é assim que desejas,
se for assim do teu gosto,
cessarei de cantar!
Se com isso agitar
teu coração,
do meu olhar o triste brilho
desviarei do teu rosto...
e se eu, de súbito te assustar
no teu passeio despreocupado,
afastar-me-ei do teu lado
e tomarei outro brilho...

Se eu te embaraçar – ai de mim –
quando teceres as tuas flores,
flor encantada,
esquivar-me-ei do teu
solitário jardim
e da tua doce imagem...
E se eu tornar a água turva
e agitada,
jamais remarei a minha barca
para a tua margem...

Trad. Victor de Sá Coelho
in Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Porto Editora

Rabindranath Tagore ou Rabíndranáth Thákhur (रवीन्द्रनाथ ठाकुर) (b. 7 May 1861 in Calcutta, British India; d. 7 August 1941 in Calcutta, British India)

Ler do mesmo autor, neste blog:
If you would have it so
Canção
A Mulher Inspiradora
Cãntico da Esperança



Trad. Victor de Sá Coelho

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Oh Coimbra do Mondego - Edmundo de Bettencourt, na voz de José Afonso


Imagens de Coimbra, fado "Saudades de Coimbra" com letra de Edmundo Bettencourt, música de Mário Faria Fonseca; interpretado por José Afonso

Oh Coimbra do Mondego
e dos amores que eu lá tive
quem te não viu anda cego
quem te não ama não vive

Do Choupal até à Lapa
foi Coimbra os meus amores
a sombra da minha capa
deu no chão abriu em flores

Edmundo de Bettencourt nasceu no Funchal no dia 7 de agosto de 1899, faleceu em Lisboa a 1 de fevereiro de 1973

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2013-08-06

Gramática da noite e do teu corpo - Albano Martins

A noite é uma página escrita onde há uma vírgula depois de cada
Letra, um ponto depois de cada palavra, uma exclamação no fim de cada frase.
Ao fim de cada período está o teu corpo, aberto num parêntese
longo, que explica a súbita eclosão de auroras nocturnas.
No fim de tudo estão os teus olhos, redondos como duas afirmações,
loiros e despenteados.

Albano Dias Martins nasceu na aldeia do Telhado, concelho de Fundão em 6 de Agosto de 1930)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Crepúsculo de Agosto
E me disseste: vem
Entardecer na Praia da Luz

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2013-08-05

AUTORRETRATO - Antonio Miranda


Às vezes sou um, às vezes sou outro:
todo mundo é assim, ou é assado.

Eu, sem fugir à regra, transgredi.

Fui, ao mesmo tempo, eu e o outro
—um para dentro, outro para os outros
mas, confesso, sou igual a todos
num disfarce que é a outra face
de uma falsa dicotomia.

Maniqueísmos? Planger ou prazer?

Nem religioso eu sou, nem romântico,
muito menos ideólogo ou assumido
de qualquer coisa, na minha infidelidade,
falta de fé. E, no entanto, obstinado
quase otimista porque realista
- na reversão da contradição.

Sou um pouco o Orlando da Virginia Woolf
o Patinho Feio disfarçado de Dorian Gray
fui herói de histórias em quadrinhos
namorei estrelas de Hollywood ou,
mais terrestre, da Vera Cruz e da Atlântida
ganhei o Prêmio Nobel, a Comenda Maior
da Confraria dos Poetas Ególatras e Suicidas.

Li uma montanha inexpugnável de livros
tentei reescrevê-los, sem qualquer humildade
subi, letra a letra, degraus estonteantes
delirantes, construindo arquiteturas etéreas
no círculo vicioso das virtualidades banais.

Deveria rasgar todas as frases deletérias
todas as imprecações, todas as contrafações
verbais e venais que produzi – lixo execrável.

Deveria envergonhar-me de minha falsa polidez
de minha insensatez, minhas impropriedades
mas sempre tenho a firmeza dos inseguros
enquanto os crédulos, os convictos
não resistem às próprias contradições.

Transgredi mas, juro, apenas verbalmente.
No mais, sou casto na minha perversidade.
Sou beato na minha mais íntima heresia.
E mais despretensioso do que a minha soberba.

Quero dizer: no fundo sou inseguro e fiel
a princípios de que nem participo.

Deu para entender? Nem Deus pressente
aquela dor que finjo que deveras sinto
ao plagiar aquele poeta que nem mesmo venero.

Vou na contra-mão da ordem estabelecida
mas, disfarçando, eu vou é de costas
e não estou sozinho, participando assim
de uma nova modalidade olímpica ou acadêmica.

Os que são de Bacabal que me sigam
os que usam botas de ferro, brinco de osso
que rezam constrangidos, os desamados
os sem-biblioteca, os sem sentido.

Extraído daqui

Antônio Lisboa Carvalho de Miranda (Bacabal, Maranhão, 5 de agosto de 1940)

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2013-08-03

Momento... - Políbio Gomes dos Santos

Não sei qual seja agora o meu querer:
Se ver-te para não ter mais saudades
Se as saudades de te ver,
Que ver-te a dois passos me faz desejar-te
Mais perto
E mais perto
Esmagada comigo
Num rito brutal ─ os dois sangues trocados!

Mas eu sei que ficaremos
Separados
Como valvas de marisco
No cisco da praia!
─ Duas peças do engenho de Deus
Avariado,
Enquanto o Homem não descobre o Mundo.


Políbio Gomes dos Santos (n. Ansião, 7 de Agosto de 1911 — m. Ansião, 3 de Agosto de 1939)

Do mesmo autor, neste blog:
Radiografia
Poema da Voz que Escuta
Testamento Aberto
Genesis

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2013-08-02

Musical suggestion of the day: Cantigas do Maio - José Afonso (na passagem dos 84 anos do nascimento)




José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos (n. Aveiro, 2 de Agosto de 1929 — m. Setúbal, 23 de Fevereiro de 1987)

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O medo do menino - Elias José

Que barulho estranho,
vem lá de fora,
vem lá de dentro?!

Que barulho medonho
no forro,
no porão,
na cozinha,
ou na despensa!...

Será fantasma
ou alma penada ?
Será bicho furioso
ou barulhinho de nada ?

E o menino olha
na escura escada
e não vê nada.
Travesseiro
E olha na vidraça
e uma sombra o ameaça.

Quem se esconde ?
Esconde onde?

Se vem alguém passo a passo
Na rua deserta
O medo aumenta.
Passos de gente de casa
Encolhe o medo.
Se somem vozes e passos
De gente de casa,
No ato, no quarto,
Vem o arrepio

E o menino encolhe,
Fica todo enroladinho.
E se embrulha nas cobertas,
Enfia a cabeça no travesseiro
E devagar, devagarinho,
Sem segredo,
Vem o sono
E some o medo


Elias José (Santa Cruz da Prata, MG – 25 de agosto de 1936 – Santos , SP – 2 de agosto de 2008)

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2013-08-01

Nascente - António Osório (na passagem do 80º aniversário)

Quando sinto de noite
o teu calor dormente
e devagar
para que não despertes
digo: cedro azul,
terra vegetal,
ou só
amor, amor;
quando te acaricio
e devagar
para que não despertes
tomo na mão direita
as duas fontes, iguais, da vida,
procuro a nascente
e adormeço
nela essa mão depositando.


in O Lugar do Amor


António Gabriel Maranca Osório de Castro (n. em Setúbal a 1 Ago 1933)

Ler do mesmo autor, neste blog:
Paciências
Um Sentido
Aqui em Siena
Prado e Cofre

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