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2012-10-31

Além da Terra, além do Céu - Carlos Drummond de Andrade (na efeméride dos 110 anos do nascimento do poeta)

Além da Terra, além do Céu,
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!
vamos conjugar
o verbo fundamental essencial,
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver.

Carlos Drummond de Andrade (n. Itabira, 31 de Outubro de 1902 — m. Rio de Janeiro, 17 de Agosto de 1987).

Sentimental
Mãos Dadas
Quero
Os Ombros Suportam o Mundo
O amor antigo
Indagação
Amar
Qualquer Tempo
A Língua Lambe
Quarto em Desordem
A Falta de Érico
A Hora do Cansaço

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2012-10-30

Flash político: e o burro sou eu?

Este Governo não só não acabou com as Fundações como já quer criar Refundações!

Este Governo ainda nem sequer aprovou o Orçamento e já apresenta Orçamento Rectificativo (para o caso das metas que o próprio Governo estima: PIB -1,0%? consumo privado -2,2%?, investimento -4,0%? ) não se verifiquem. É claro que não se verificam... vão ser muito piores...) ?

E o burro sou eu?

PS: Não falem muito sobre o furacão Sandy que atingiu alguns dos estados da América uma vez que o Ministro Gaspar já tem umas ideias a germinar: um lançamento de um novo imposto segundo o qual cada contribuinte (contribuinte ainda me podem chamar agora se me mandam uma notificação a chamar de sujeito passivo ainda vou às trombas do ministro),isto é, cada um de nós, tem de pagar imposto por cada dia em que não haja furacões em Portugal...

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Apagou-se, por fim, o incerto lume ... - Alfredo Guisado

Lume imagem daqui

Apagou-se, por fim, o incerto lume,
que, em volta do meu ser, ainda ardia,
e o velho alfange, de inquietante gume,
cortou o voo que meu sonho erguia.

Apagou-se, por fim, o lume incerto…
e fiquei-me entre as urzes, hesitante,
no local que pr’a o além era o mais perto
e pr’a voltar a mim o mais distante.

Abandonada, então, essa charneca,
vestida de silêncio, árida e seca,
rodeou-me a minha alma sonhadora.

Afastei-me. Acabei por me perder:
sem poder atingir o que quis ser
e sem poder voltar ao que já fora.


Alfredo Pedro de Meneses Guisado nasceu a 30 de Outubro de 1891 em Lisboa, onde faleceu a 2 de Dezembro de 1975. De ascendência galega, completou o curso de Direito, em 1921, na sua cidade natal, mas nunca exerceu a advocacia, dedicando-se antes ao jornalismo e à intervenção cívica: deputado do Partido Republicano Português, chegou a ser governador civil substituto e director-adjunto do diário «República». Colaborador da revista «Orpheu», foi um poeta paúlico e sensacionista, mais afim de Sá-Carneiro do que de Pessoa. Bilingue, tanto escrevia em português («Distância», 1914) como em galego («Xente d' Aldea», 1921) e ora assinava Alfredo Guisado ora Pedro de Meneses.

Soneto e nota biobibliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

Recordar
Outrora
O Baloiço
Um Poema de "Elogio da Desconhecida"
As Exéquias da Princesa II A Princesa a Seus Lábios Durante a Morte

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2012-10-29

FINAL DE UMA ODE - Ana Cristina Cesar

Acontece assim: tiro as pernas do balcão de onde via um sol de inverno se pondo no Tejo e saio de fininho dolorosamente dobradas as costas e segurando o queixo e a boca com uma das mãos. Sacudo a cabeça e o tronco incontrolavelmente, mas de maneira curta, curta, entendem? Eu estava dando gargalhadinhas e agora estou sofrendo nosso próximo falecimento, minhas gargalhadinhas evoluíram para um sofrimento meio nojento, meio ocasional, sinto um dó extremo do rato que se fere no porão, ai que outra dor súbita, ai que estranheza e que lusitano torpor me atira de braços abertos sobre as ripas do cais ou do palco ou do quartinho. Quisera dividir o corpo em heterônimos - medito aqui no chão, imóvel tóxico do tempo.


in Poesia Brasileira do Século XX Dos Modernistas à Actualidade, selecção, introdução e notas de Jorge Henrique Bastos, Antígona Editores

Ana Cristina Cruz Cesar (nasceu no Rio de Janeiro em 2 de junho de 1952, m. em 29 de outubro de 1983).

Ler da mesma autoria:
Tu queres sono: despe-te dos ruídos
Sexta Feira da Paixão
Tenho uma folha branca
Encontro de Assombrar na Catedral

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2012-10-28

Liberta em Pedra - Natércia Freire


Livre, liberta em pedra.
Até onde couber
tudo o que é dor maior,
por dentro da harmonia jacente,
aguda, fria, atroz,
de cada dia.

Não importam feições,
curvas de seio e ancas,
pés erectos à luz
e brancas, brancas, brancas,
as mãos.

Importa a liberdade
de não ceder à vida
um segundo sequer.

Ser de pedra por fora
e só por dentro ser.

- Falavas? Não ouvi.
- Beijavas? Não senti.
Morreram? Ah! Morri, morri, morri!

Livre, liberta em pedra,
voltada para a luz
e para o mar azul
e para o mar revolto…
E fugir pela noite,
sem corpo, sem dinheiro,
para ler os meus santos,
e os meus aventureiros,
(para ser dos meus santos,
dos meus aventureiros),
filósofos e nautas,
de tantos nevoeiros.

Entre o peso das salas,
da música concreta,
de espantalhos de deuses,
que fará o Poeta?

(Liberta em Pedra, 1964)

Natércia Ribeiro de Oliveira Freire nasceu em Benavente, a 28 de Outubro de 1919 - faleceu em 17 de Dezembro de 2004.

Da mesma autoria no Nothingandall: Poema de Amor

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2012-10-27

Cartas de amor a Heloísa - Graciliano Ramos

Dizes que brevemente
serás a metade de minha alma.

A metade?
Brevemente?
Não: já agora és,
não a metade, mas toda.

Dou-te a minha alma inteira,
deixe-me apenas uma pequena parte
para que eu possa existir por algum tempo
e adorar-te.

(in Cartas de amor a Heloísa)

Graciliano Ramos de Oliveira (nasecu em Quebrangulo, Alagoas, 27 de outubro de 1892 —m. 20 de março de 1953, Rio de Janeiro)

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2012-10-26

BookCrossing blogueiro avança para a 5ª Edição


Esta é uma iniciativa do blog Luz de Luma, yes party que tem vindo a ter grande sucesso e adesão na blogosfera, especialmente, no nosso país irmão de além-AtlÂntico à qual o Nothingandall se associa. Assim, entre o dia 8 e 16 de Novembro próximo daremos pormenores sobre o livro que deixaremos intencionalmente ao acaso em lugar público.

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O RETRATO - José Bonifácio (O Moço)

Incline o rosto um pouco... assim... ainda;
arqueie o braço, a mão sobre a cintura;
deixe fugir-lhe um riso à boca pura
e a covinha animar da face linda.

Erga a ponta do pé... que graça infinda!
Quero nos olhos ver-lhe a formusura,
feitiço azul de orvalho que fulgura,
froco de luz suave, que não finda!

Há pouca luz... eu vejo-a... está sentada.
Passou-lhe a sombra de um cuidado agora,
na ruguinha da fronte jambeada.

Enfadou-se? Meu Deus, ei-la que chora!
Pois caiu-me o pincel. Que mão ousada!
Pintar de noite o levantar da aurora!


José Bonifácio de Andrada e Silva, o Moço, poeta, professor, orador e político, nasceu em Bordéus, França, em 8 de novembro de 1827 e faleceu em São Paulo, SP, em 26 de outubro de 1886

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2012-10-24

Os Búzios - Emanuel Félix

imagem daqui

Deixados pelos Deuses sobre a areia
Os búzios são cofres com pedaços da noite
Pequenos transistors para as noticias do mar
Encontrados pelas crianças na praia
Os búzios são caixas de música
São os ouvidos petrificados dos peixes
E um búzio separa
As crianças dos Deuses

in A Viagem Possível

Emanuel Félix Borges da Silva nasceu em Angra do Heroísmo a 24 de Outubro de 1936 e faleceu no dia 14 de Fevereiro de 2004

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2012-10-23

A DOIS BELOS OLHOS - Theóphile Gautier


Sois dona de um olhar misterioso e atraente...
Tal no fundo de um lago a lua refletida,
em vossos olhos rola a pupila, indolente,
onde estranha palheta esplende umedecida.

Eles têm do diamante o fogo, a intensa vida,
e são de água melhor que a pérola do Oriente!
E os cílios no agitar da pálpebra tremida,
longos, velam a meio o seu fulgor veemente.

Dois espelhos de chama, onde, em voejos infindos,
Cupidos vão mirar-se e ainda se acham mais lindos!
Neles se inflamam sempre os desejos, sem calma.

E tão nítidos são, que deixam ver vossa alma,
como celeste flor de cálice ideal
que se visse através de um límpido cristal


(Tradução de Álvaro Reis)

Pierre Jules Théophile Gautier (Tarbes, 31 de agosto de 1811 — Paris, 23 de outubro de 1872)

Ler do mesmo autor: A Ausência / L'Absence

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2012-10-22

Arrufos - Artur de Azevedo

Não há no mundo quem amantes visse
que se quisessem como nos queremos...
Um dia, uma questiúncula tivemos
por um simples capricho, uma tolice.

«Acabemos com isto!», ela me disse
e eu respondi-lhe assim: «Pois acabemos!»
E fiz o que se faz em tais extremos:
tomei do meu chapéu com fanfarrice

e, tendo um gesto de desdém profundo,
saí cantarolando... (Está bem visto
que a forma, aí, contrafazia o fundo).

Escreveu-me... Voltei. Nem Deus, nem Cristo,
nem minha mãe, volvendo agora ao mundo,
eram capazes de acabar com isto!


Artur Nabantino Belo Gonçalves de Azevedo nasceu em São Luís (MA) a 7 de Julho de 1855 e faleceu no Rio de Janeiro a 22 de Outubro de 1908. Era filho do cônsul português na capital do Maranhão e irmão do romancista Aluísio de Azevedo. Sem formação universitária, dedicou-se ao jornalismo e ao teatro, mas, no Ministério da Agricultura, ascendeu de amanuense a director-geral da Contabilidade. Foi, sobretudo, comediógrafo e contista. Como poeta, é um autor sarcástico.

Soneto e Nota biobliográfica extraídos de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

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2012-10-20

Sensação - Arthur Rimbaud

Relva, Prado, Campo imagem daqui

Nas tardes de verão, irei pelos vergéis,
Picado pelo trigo, a pisar a erva miúda:
Sonhador, sentirei um frescor sob os pés
E o vento há de banhar-me a cabeça desnuda.

Calado seguirei, não pensarei em nada:
Mas infinito amor dentro do peito abrigo,
E como um boémio irei, bem longe pela estrada,
Feliz – qual se levasse uma mulher comigo.

in Os dias do Amor, Um poema para cada dia do ano; recolha, selecção e organização de Inês Ramos. Prefácio de Henrique Manuel Bento Fialho. Ministério dos Livros

Jean Nicolas Arthur Rimbaud (b. in Charlevill, France 20 October 1854; d. in Marseille on 10 November 1891).

Ler do mesmo autor, neste blog: O Dorminhoco do Vale; Le Dormeur du Vale; Romance (in English); Vénus Anadyomène

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2012-10-19

Manuel António Pina faleceu hoje - Uma Sombra

Ouves os meus passos nas escadas?
Quando eu bater à porta
não me reconheceremos.
Voltarei de um dia de trabalho,
subirei as escadas
e perder-me-ei para sempre
em qualquer sítio fora de qualquer sítio.
Não foi o caminho de casa que perdi?
Não ficou alguém em qualquer sítio,
uma sombra passando diante de nós,
e principalmente fora de nós?
Agora quem sente
isto fora de mim,
quem é esse ausente?

Manuel António Pina (nasceu em 18 de Nov. 1943 no Sabugal, faleceu hoje 19 de outubro de 2012)

Ler do mesmo autor, neste blog: Café do Molhe; Saudade da Prosa; Lugares da Infância; Completas

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A Ausente - Vinicius de Moraes

Amiga, infinitamente amiga
Em algum lugar teu coração bate por mim
Em algum lugar teus olhos se fecham à idéia dos meus.
Em algum lugar tuas mãos se crispam, teus seios
Se enchem de leite, tu desfaleces e caminhas
Como que cega ao meu encontro...
Amiga, última doçura
A tranqüilidade suavizou a minha pele
E os meus cabelos. Só meu ventre
Te espera, cheio de raízes e de sombras.
Vem, amiga
Minha nudez é absoluta
Meus olhos são espelhos para o teu desejo
E meu peito é tábua de suplícios
Vem. Meus músculos estão doces para os teus dentes
E áspera é minha barba. Vem mergulhar em mim
Como no mar, vem nadar em mim como no mar
Vem te afogar em mim, amiga minha
Em mim como no mar...

Extraído de Vinicius de Moraes - Antologia Poética, Publicações Dom Quixote

Vinicius de Moraes (n. Rio de Janeiro a 19 Out 1913; m. Rio de Janeiro, 9 Jul 1980)

Ler neste blog do/sobre o autor:
Sonata do Amor Perdido
Se o amor quiser voltar
Soneto da Separação
Saudades do Brasil em Portugal
Soneto do Amor Total
Poética I
Mar
Poema de Todas as Mulheres
Soneto de Fidelidade
Pela luz dos olhos teus
Dialectica
Aquarela
Amigos

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2012-10-18

Clara - Casimiro de Abreu

Não sabes, Clara, que pena
eu teria se — morena
tu fosses em vez de clara!
Talvez... quem sabe... não digo...
mas refletindo comigo
talvez nem tanto te amara!

A tua cor é mimosa,
brilha mais da face a rosa
tem mais graça a boca breve.
O teu sorriso é delírio...
És alva da cor do lírio,
és clara da cor da neve!

A morena é predileta,
mas a clara é do poeta:
assim se pintam arcanjos.
Qualquer, encantos encerra,
mas a morena é da terra
enquanto a clara é dos anjos!

Mulher morena é ardente:
prende o amante demente
nos fios do seu cabelo;
— A clara é sempre mais fria,
mas dá-me licença um dia
que eu vou arder no teu gelo!

A cor morena é bonita,
mas nada, nada te imita
nem mesmo sequer de leve.
— O teu sorriso é delírio...
És alva da cor do lírio,
és clara da cor da neve!

Casimiro José Marques de Timo Abreu (n. Barra de S. João - RJ, 4. Jan. 1839; m. Nova Friburgo - RJ, 18 Out. 1860)

A Valsa
Canção do Exílio
O Que é Simpatia
Meus oito anos
Quando ?!...
Amor e Medo
Minha Alma é Triste I
Minha Alma é Triste III
Canto de Amor IV

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2012-10-17

A FESTA DO SILÊNCIO - António Ramos Rosa

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

in Volante Verde

António Víctor Ramos Rosa nasceu em Faro a 17 de Outubro de 1924

Ler do mesmo autor neste blog:
Este Viver Comum
Vertentes;
Não posso adiar o amor...
Poema Dum Funcionário Cansado

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2012-10-16

Balada do Cárcere de Reading (excerto) II - Oscar Wilde

Seis semanas inteiras ele andou
com a veste usada que trazia.
Tinha um gorro de listas, e o seu passo
ligeiro e alegre parecia;
porém eu nunca vi homem que olhasse,
tão pensativo, a luz do dia.

Jamais, jamais vi homem contemplar,
com tão profundo sentimento,
essa breve, essa estreita faixa azul
que os presos chamam firmamento;
e as nuvens esgarçadas no horizonte,
- flocos de espuma errando ao vento!

Não retorcia as mãos, - tal como alguns
de ideia curta, e alma louçã,
que ousam crer, mesmo em negro Desespero,
numa Quimera estulta e vã:
ele fitava, calmo, a luz da aurora
sorvendo o ar puro da manhã.

Não retorcia as mãos e não chorava,
nem lamentava o seu inferno;
ia, apenas, bebendo o ar como um bálsamo,
bálsamo bom, bálsamo eterno...
Abria os lábios e bebia o Sol
como uma taça de falerno.

E eu, e todos os mais, - nós que penávamos
num outro pátio separado,
esquecemos de pronto as nossas faltas,
a nossa Sorte, o nosso Fado,
para seguir, com olhar de assombro, esse homem
que ia, entre nós, ser enforcado!

E era estranho que o víssemos andando,
- tão leve e alegre parecia...
E era estranho que o víssemos fitando,
tão pensativo, a luz do dia.
E era estranho lembrar que ele, a sua dívida,
de tal maneira a pagaria.

Tem lindas folhas o álamo e o carvalho,
que em maio brotam viridentes:
mas é medonha a forca, - árvore negra,
raiz mordida de serpentes:
e verde ou seca, morre o condenado
sem lhe avistar frutos pendentes.

É para o céu, para o azulado empíreo,
que o anseio humano se alevanta!
Mas quem, do alto da forca, atado a um laço,
com a corda presa na garganta,
ergue seu turvo olhar ao firmamento
quando o carrasco se adianta?

Dançar, ao som de um violino, enleva,
se a Vida é bela e é belo o Amor;
dançar, ao som de flautas e alaúdes,
é raro, fino, embalador...
Mas é horrível, no ar, com os pés ligeiros,
dançar, num último estertor!

Curiosamente, mudos, consternados,
o vigiávamos dia a dia,
pensando que talvez nosso destino
igual ao dele acabaria:
pois ninguém sabe a que horroroso inferno
a Sorte bárbara nos guia.

Por fim, deixei de vê-lo entre os mais presos,
sempre sozinho, vagamundo...
Soube então que o levaram; que jazia
em negro cárcere profundo,
e que eu, jamais, de novo o enxergaria,
neste belo, divino mundo...

Dois navios perdidos que se cruzam
em ruim paragem tormentosa,
- nós nos cruzamos, mudos, sem um gesto,
numa atitude silenciosa:
pois de dia nos vimos (não de noite)
e a luz é casta, é vergonhosa.

Muros de uma prisão nos circundavam,
éramos réus por nossos danos.
Deus e o seu mundo, inexoravelmente,
nos repeliram desumanos;
e a sinistra armadilha do Pecado
nos seduziu com seus enganos.

Trad. de Gondin da Fonseca

in Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro

Oscar Fingal O'Flahertie Wills Wilde (Dublin, Irlanda 16 Out. 1854 – Paris, França, 30 November 1900)

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Noite - Fernando Semana

 (Des)inspirado pela proposta do mais tenebroso Orçamento
de Estado a que assisti desde que aprendi a ler
 (e o burro sou eu?)


À noite: mágoas, angústias, pesadelos
Discorrem num leito tumultuoso
Em vez do refúgio no teu olhar mavioso,
E a mão na macieza dos teus cabelos.

De dia: sempre esta soturna monotonia
Deste estar sem ser
Nem a negra nuvem nem o radioso sol
Afastam a melancolia
De te não ver…

Fernando Semana nasceu em Valbom, concelho de Gondomar, a 12 de Outubro de 1957

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2012-10-15

Nuvens - Mikhail Lermontov


Ó nuvens pelos céus que eternamente andais!
Longo colar de pérolas na estepe azul,
exiladas como eu, correndo rumo ao sul,
longe do caro norte que, como eu, deixais!

Que vos impele assim? Uma ordem do Destino?
Oculto mal secreto? Ou mal que se conhece?
Acaso carregais o crime que envilece?
Ou só de amigos vis o torpe desatino?

Ah não: fugis cansadas da maninha terra,
e estranhas a paixões e ao sofrimento estranhas
eternas pervagais as frígidas entranhas.
E não sabeis, sem pátria, a dor que o exílio encerra.

Tradução de Jorge de Sena

Mikhail Yuryevich Lermontov (Russian: Михаи́л Ю́рьевич Ле́рмонтов; 15 Out [O.S. 3 Out ] 1814 – 27 Jul [O.S. 15 Jul] 1841)

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2012-10-14

Envelheces, Rapaz - Sebastião Alba


Palavras, cascalho desabrido
que em cada manhã, suspirando,
realinho nos canteiros
e que, sem fé, sagro
de cal idílica.
A vizinha chega-se ao muro,
diz "bom dia".
Vem duma comunidade
com juízo; apercebe-se
de que a minha saudação
carreta as pedras
dum mutismo lavrado.
Acabará por julgar
que há ali uxoricídio, e eu velo
para que ele não fique a descoberto.
Há-de ver
o meu bilhete de identidade, auge
de quem sou,
santo-e-senha, vínculo
que nem a morte pui.
Nada feia. No dia em que
um giro de andorinhas nos aureole,
dir-lhe-ei que tive
relações conjugais, sim!,
mas com a beleza, etc.
Não tardará que ela me escolha
as palavras e os chinelos
a seu gosto.

Extraído de Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora

Dinis Albano Carneiro Gonçalves nasceu em Braga, a 11 de Março de 1940, mas viveu a maior parte da sua vida em Moçambique. Morreu em Braga, no dia 14 de Outubro de 2000

Pai; quando falava no futuro

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2012-10-13

O poema que hei-de escrever para ti - Cristovam Pavia

O poema que hei-de escrever para ti, dando notícias
Do último reduto das coisas, das profundidades intactas,
Nasce, adormece e referve-me no sangue
Com a íntima lentidão dos teus seios desabrochando,
Porque, sei, não estás longe (nem da minha vida!), meu mistério fiel.

Hoje a nossa companhia é a tua inconsciência e o teu instinto: puro

Instinto que eu, de longe, embalo e velo
E acordará («em frente!») às primeiras palavras
Do poema, quando ele despontar.

Cristovam Pavia é o pseudónimo literário de Francisco António Lahmeyer Flores Bugalho, nascido na freguesia de Alcântara, Lisboa a 7 de Outubro de 1933 e faleceu na mesma cidade a 13 de Outubro de 1968.

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2012-10-12

Sou - Aroldo Ferreira Leão

 
           Sou ESquisito,
                 EStranho,
                 EStrambótico. Em mim
               mESmo atuam a
                lESma e a águia. À
                 ESmo, vagueio procurando os
                gEStos que se dissolveram nas
                bEStialidades
 contundentES
           destES
      presentES 
       distantES dos passados não
       ausentES. 

(in Alfabetizando a Alma, 1997)

Aroldo Ferreira Leão nasceu em Parnamirim/RN a 12 de outubro de 1967

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Autografia - Fernando Semana

Eu quero ser eu.
Mas qual?
Talvez, o eu que não sou,
Sentir-me onde não estou
Assim, fugir de mim.
Mas quem sou eu?
Eu que não sei o que sou,
Nem sequer para onde vou...
Uma ponte entre eu e mim
Um enigma, uma inequação
Em constante resolução
Sem conclusão… até ao fim.

Fernando Semana, economista, nasceu em 12 de outubro de 1957, em Valbom, concelho de Gondomar

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2012-10-11

Esboço - Fausto Guedes Teixeira

Negro o cabelo, a fronte iluminada,
O nariz curvo, a boca pequenina,
Nos olhos escuríssimos cravada
Uma estrela no fundo da retina;

Nas faces uma rosa desmaiada
E outra rosa nos lábios purpurina,
Seus pequeninos pés os duma fada
E o seu corpo um corpinho de menina;

Todos os traços cheios de expressão,
Nas mãos um fogo estranho que lhas beija,
Porque eu lhe pus nas mãos o coração:

Eis o esboço rápido de aquela
Que, sempre que na vida alguém a veja,
Nunca mais vê ninguém senão a ela!


in A Circulatura do Quadrado - Alguns dos mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas: António Ruivo Moutinho, Unicepe

Fausto Guedes Teixeira (nasceu na freguesia de Almacave, em Lamego, em 11 de Outubro de 1871 — morreu em Lamego, 13 de Julho de 1940)

Fo mesmo autor, em Nothingandall:
Todas São Belas
Horas Amargas
Amar ou Odiar

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2012-10-10

DUPLICIDADE - Antônio Tavernard

Minha linda boneca de pelúcia,
Com sutis redondezas de mulher
Tens um nome romântico — Alba Mucia
E um perfume que canta — Chanteclair.

Roubaste às gatas a felina astúcia
Que alcança tudo o que almeja e quer
Esse jeito de andar, essa fidúcia
E essas unhas de um jaspe rosicler.

À noite, quando sais do inexistente
E vens viver alucinadamente
Entre um grande soluço e um grande beijo

Nas páginas do livro onde te lanço
Sinto que és carne porque te desejo
Sinto que és sonho porque não te alcanço.

Antônio de Nazaré Frazão Tavernard nasceu na Vila São João de Pinheiro, atual Icoaraci, em Belém, Pará, a 10 de outubro de 1908 — m. Belém a 26 de maio de 1936

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2012-10-09

Lisboa: aventuras - José Paulo Paes

tomei um expresso
                    cheguei de foguete
subi num bonde
                    desci de um elétrico
pedi cafezinho
                    serviram-me uma bica
quis comprar meias
                    só vendiam peúgas
fui dar à descarga
                    disparei um autoclismo
gritei "ó cara!"
                     responderam-me "ó pá!"

                     positivamente
as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá

José Paulo Paes (nasceu em Taquaritinga - SP, em 22 de julho de 1926; faleceu em 9 de outubro de 1998 em São Paulo, SP)

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2012-10-08

Amores Infelizes - Alberto de Serpa

A Afonso Lopes Vieira


Amor de olhos nos olhos e silêncios,
de grandes palavras irremediáveis: sempre... nunca...,
de beijos nos olhos húmidos e nas frontes enrugadas,
de mãos nas mãos e nada mais...

Amor de longas confidências ao luar e às estrelas,
de ciúmes que fazem insónias e sonetos pessimistas,
de aventurosos planos que se sabe impossíveis,
de perigos pneumónicos nas noites chuvosas, sob uma janela...

Amor de olhar as águas rápidas e nocturnas do rio fundo,
com pensamentos românticos de suicídio fatal,
sentindo já no corpo o frio arrepiante da morte...

Amor de ir à igreja, depois, em manhã clara de Primavera,
e de acabar num hábito suportável e tranquilo...

in «366 Poemas que falam de Amor», uma antologia organizada por Vasco Graça Moura,
Quetzal Editores

Alberto de Serpa Esteves de Oliveira (nasceu no Porto a 12 de Dezembro de 1906 - m. na mesma cidade a 8 de Outubro de 1992)

Ler do mesmo autor, neste blog: Incerteza
Um Jovem Camarada
Poema III
Interferência
Névoa

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2012-10-06

Esparsa - Guilherme de Faria

Homens incertos e vários
De vontade e pensamento,
Que em desejos tumultuários
Viveis e, alfim, alcançais
Ora um mesquinho tormento,
Ora o nada que tentais!

E vós, tristes deserdados
Das graças da humana sorte,
Que vos sonhais (bem divino!)
Talvez eleitos da morte,
Filhos do céu bem amados,
De Deus, que é vosso destino;
Vós todos,irmãos, que sois
- À luz de sonhos ansiosos -
Puros, simples, venturosos,
Poetas, santos, heróis,
Sabei a essência e o fim
Dos sonhos,- ilusão pura...
Mas, com seu mal ou ventura,
Meus irmãos, vivei assim.
E sorride a toda a sorte
Que é tormento de ansiedade,
Sempre vão, sempre mesquinho;
Pois bem, nossa só a morte,
E para a sua verdade
Qualquer caminho é caminho

in Antologia de Poemas Portugueses Modernos por Fernando Pessoa e António Botto, Ática Poesia

Guilherme de Faria nasceu em Guimarães em 6 de Outubro de 1907, e faleceu em Lisboa a 4 de Janeiro de 1929

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2012-10-05

É esta porventuta a praia amena - Cruz e Silva

É esta porventura a praia amena
do manso Tejo? É este o monte erguido,
onde nuns negros olhos escondido,
me fez contente amor com minha pena?

É este bosque, que aura tão serena
derramava do vento sacudido?
Ou este o verde choupo em que esculpido
deixei o nome que meu mal serena?

Quão outro tudo está, tão desmudado!
Perdeu graça, perdeu formosura
do alegre tempo por meu mal passado;

mas oh, como se engana a conjectura!
'Inda tudo conserva o antigo estado,
somente se mudou a minha ventura.

António Dinis da Cruz e Silva (n. em Lisboa a 4 Jul 1731, m. no Rio de Janeiro a 5 Out 1799)

Soneto extraído de «A Circulatura do Quadrado - Alguns dos Mais Belos Sonetos de Poetas cuja Mátria é a Língua Portuguesa. Introdução, coordenação e notas de António Ruivo Mouzinho. Edições Unicepe - Cooperativa Livreira de Estudantes do Porto, 2004.

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2012-10-04

Musical suggestion of the day: O mar fala de ti - Mafalda Arnauth



Mafalda Arnauth nasceu em Lisboa a 4 de Outubro de 1974

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Words - Anne Sexton

Be careful of words,
even the miraculous ones.
For the miraculous we do our best,
sometimes they swarm like insects
and leave not a sting but a kiss.
They can be as good as fingers.
They can be as trusty as the rock
you stick your bottom on.
But they can be both daisies and bruises.

Yet I am in love with words.
They are doves falling out of the ceiling.
They are six holy oranges sitting in my lap.
They are the trees, the legs of summer,
and the sun, its passionate face.

Yet often they fail me.
I have so much I want to say,
so many stories, images, proverbs, etc.
But the words aren't good enough,
the wrong ones kiss me.
Sometimes I fly like an eagle
but with the wings of a wren.

But I try to take care
and be gentle to them.
Words and eggs must be handled with care.
Once broken they are impossible
things to repair.


Anne Sexton (November 9, 1928, Newton, Massachusetts – October 4, 1974, Weston, Massachusetts)

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2012-10-03

Triste Filosofia - Carlos de Laet

Ia Rosa vestir-se, e do vestido
Uma voz se desprende e assim murmura:
"Muitas morremos de uma morte escura,
Porque te envolva sérico tecido"...

Ia toucar-se, e escuta-se um gemido
Do marfim que as madeixas lhe segura:
"Por dar-te o afeite desta minha alvura,
Jaz na selva meu corpo sucumbido!".

Põe um colar, e a pérola mais fina:
"Para pescar-me, quantos párias, quantos!
Padeceram no mar lúgubres sortes!"

E Rosa chora: - "Oh! desditosa sina!
Todo sorriso é feito de mil prantos,
Toda vida se tece de mil mortes!"


Carlos Maximiliano Pimenta de Laet (Rio de Janeiro, 3 de outubro de 1847 — Rio de Janeiro, 7 de dezembro de 1927)

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2012-10-02

Fugaz - Rodrigo Garcia Lopes

passagem por uma paisagem,
lugar do onde, do ontem, do quando,
quantas palavras ficaram faltando
na boca cheia de imagens.
o outro é aquele que ficou à margem,
no espanto de um pronome,
no corpo de uma brisa suave;
o outro é como uma fome
pluma à deriva, à distância, ou quase.

estranho em sua própria viagem,
garrafa com uma mensagem,
olhar durando numa flor,
sem nome, secreta, selvagem.

Desterro, água bebida num trem,
peça incompleta, festa adiada, vertigem,
a cabeça sempre em alguém,
eu outro, eu todos, ninguém.

Rodrigo Garcia Lopes nasceu em Londrina, Paraná, Brasil), a 2 de outubro de 1965.

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Six Significant Landscapes - Wallace Stevens

I

An old man sits
In the shadow of a pine tree
In China.
He sees larkspur,
Blue and white,
At the edge of the shadow,
Move in the wind.
His beard moves in the wind.
The pine tree moves in the wind.
Thus water flows
Over weeds.

II
The night is of the colour
Of a woman's arm:
Night, the female,
Obscure,
Fragrant and supple,
Conceals herself.
A pool shines,
Like a bracelet
Shaken in a dance.

III
I measure myself
Against a tall tree.
I find that I am much taller,
For I reach right up to the sun,
With my eye;
And I reach to the shore of the sea
With my ear.
Nevertheless, I dislike
The way ants crawl
In and out of my shadow.

IV
When my dream was near the moon,
The white folds of its gown
Filled with yellow light.
The soles of its feet
Grew red.
Its hair filled
With certain blue crystallizations
From stars,
Not far off.

V
Not all the knives of the lamp-posts,
Nor the chisels of the long streets,
Nor the mallets of the domes
And high towers,
Can carve
What one star can carve,
Shining through the grape-leaves.

VI
Rationalists, wearing square hats,
Think, in square rooms,
Looking at the floor,
Looking at the ceiling.
They confine themselves
To right-angled triangles.
If they tried rhomboids,
Cones, waving lines, ellipses -
As, for example, the ellipse of the half-moon -
Rationalists would wear sombreros.

Wallace Stevens (b. October 2, 1879 in Reading, Pennsylvania, United States - d. August 2, 1955)

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2012-10-01

Folha Caída - Mafalda Chambel

No coração uma sombra do dia que passou
Nele não exististe além da memória e da saudade.

Promete-me que não ficarás acordada
quando tudo dorme ao nosso redor
memória, promete-me isso!

No copo e na pele dos sedos
vestes o beijo,
perfumas o Tempo,
soltas os cabelos
e descansas onde só há Tempestade.

Promete-me que não ficarás acordada
enquanto o sono é o fado menor
memória, promete-me isso!

in Os dias do Amor, Um poema para cada dia do ano; recolha, selecção e organização de Inês Ramos; prefácio de Henrique Manuel Bento Fialho, Ministério dos Livros

Mafalda Sofia Sousa Chambel, nasceu a 1 de Outubro de 1987, em Lisboa.

Da mesma autoria: Amizade

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