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2011-09-08

Márcia! Márcia! ai de mim! ... - Natividade Saldanha

Márcia! Márcia! ai de mim! está chegado
O momento cruel, que eu mais temia;
Sinistro mocho, que a meu lado pia,
Há longo tempo o tinha anunciado!

Já deixei o surrão, e o meu cajado
Quebrei a doce flauta, em que tangia,
E o rafeiro fiel, que me seguia,
Definhou; definhou também meu gado.

Tudo acabou; e a negra desventura
Quer que os laços de amor a ausência corte;
Que eu deixe, ó Márcia, a tua formosura.

Céus! que Fado cruel! que imiga sorte
Eu desespero, eu morro ... Ó Parca dura,
Já que Márcia perdi, vem dar-me a morte.

José da NATIVIDADE SALDANHA nasceu em Santo Amaro do Jaboatão (PE) a 8 de Setembro de 1795 e morreu exilado em Bogotá, capital da Colômbia, em 30 de Março de 1830.

Ler do mesmo autor:
À Sombra Deste Cedro Venerando;
Os teus olhos gentis encantadores...

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2011-09-07

Singra o navio. Sob a água clara - Camilo Pessanha


Singra o navio. Sob a água clara
Vê-se o fundo do mar, de areia fina...
- Impecável figura peregrina,
A distância sem fim que nos separa!

Seixinhos da mais alva porcelana,
Conchinhas tenuemente cor de rosa,
Na fria transparência luminosa
Repousam, fundos, sob a água plana.

E a vista sonda, reconstrui, compara,
Tantos naufrágios, perdições, destroços!
- Ó fúlgida visão, linda mentira!

Róseas unhinhas que a maré partira...
Dentinhos que o vaivém desengastara...
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos...


(Clepsidra 1920)
Extraído de Poemas Portuguesdes Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora

CAMILO de Almeida PESSANHA nasceu em Coimbra a 7 de Setembro de 1867 e morreu, tuberculoso, em Macau (China) a 1 de Março de 1926.

Ler neste blog, do mesmo autor:
Água Morrente
Fonógrafo
Interrogação
Desce em Folhedos Tenros a Colina
Estátua
Foi um dia de inúteis agonias
Quem poluiu quem rasgou os meus lençois de linho
Floriram por engano as rosas bravas
Caminho I
Ao longe os barcos de flores
Queda

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DESPEDIDA - Carlos Magalhães de Azeredo

Não me coroes, Alma querida, de rosas: o encanto
da Juventude é efêmero; e a minha é quase extinta.

Também não me coroes de louros: a Glória não fala
ao coração, nem o ouve; passa, longínqua e fria.

Coroa-me das heras, que abraçam as graves ruínas:
são da humildade símbolo, e da tristeza eterna ...


Procelárias (1898)
Extraído daqui

Carlos Magalhães de Azeredo nasceu no Rio de Janeiro, em 7 de setembro de 1872, e faleceu em Roma, Itália, em 4 de novembro de 1963

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2011-09-06

Biografia - Pedro Homem de Mello


Com lírios nas mãos de neve,
Subi ao último andar
A haver farda, era tão leve
Que fui subindo a cantar!
E fui subindo, subindo…
Só parei no patamar,
Abri portas e janelas
Para poder respirar.
Tudo o que se via delas
Tinha a cor do meu olhar.
Da varanda me inclinei,
Para medir-lhe o tamanho.
Ai! dos vassalos de El-Rei
Aos quais El-Rei fica estranho!
Lá do alto, cá em baixo, o rio
Transformara-se em regato.
Reparei que, debruçadas,
Sobre o seu leito vazio,
Faias, apontando espadas,
Lhe exigiam um retrato.
Soprou, de súbito, o vento!
Varreu a noite a direito,
Rindo... Que risada fria!
Entanto o solar, ao vento,
Erecto, fazendo peito,
Resistia, resistia...
Mas, das brechas do telhado,
Água, sôfrega, escorrera.
E o torreão do solar
- Ameias de pedra ou cera?
Era um pássaro assustado
Sem asas para voar!
Vendo o palácio desnudo,
Mandei chamar mil pedreiros.
Quiseram-me apunhalar
Consigo levaram tudo:
As alfaias, os dinheiros
E até as rosas do altar!
Todavia, de repente,
Serenou. E a Torre tinha
Não só pálpebras de gente
Como a luz do meu olhar.
E na casa, outra vez minha,
Recomecei a cantar
Tonto, cada vez mais tonto,
De pé, aquele solar,
Parando,
De vez em quando
Sem saber até que ponto
Podia a noite voltar!


(Fandangueiro, 1971)
in Poemas Portugueses Antologia da Poesia Portuguesa do Séc. XIII ao Séc. XXI, Porto Editora

Pedro da Cunha Pimentel Homem de Mello (n. Porto em 6 de Setembro de 1904 - m. Porto, 5 de Março de 1984).

Ler do mesmo autor, neste blog:
Oásis
Véspera
Berço
Obrigado
O Bailador de Fandango
Uma Ânsia de Nudez
Povo que lavas no rio
Fado
Não choreis os mortos
Revelação


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2011-09-05

João de Melo

Navego à vontade no teu dongo
aliso-lhe como se fosse uma mulher
primeiro o dorso as curvas
perfeitas da embarcação
por fim as pernas balançando
nervosas como palmeiras
ah amada o azul terrível do mar
está todo nos teus olhos negros
eu oiço o grito da Kianda
e ximbico sem parar sem parar.

in O Caçador de nuvens, União dos Escritores Angolanos, 1993

Aníbal João da Silva Melo nasceu a 5 de Setembro de 1955 em Luanda, Angola.

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