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2012-08-31

OS ARGONAUTAS - Francisca Júlia



The Argonauts, 1949-50, Max Beckmann
Oil on canvas triptych, center panel 80 1/4 X 48";
side panels each 74 3/8 X 33"
Private collection, New York
daqui


Mar fora, ei-los que vão, cheios de ardor insano;
Os astros e o luar — amigas sentinelas —
Lançam bênçãos de cima às largas caravelas
Que rasgam fortemente a vastidão do oceano.

Ei-los que vão buscar noutras paragens belas
Infindos cabedais de algum tesouro arcano...
E o vento austral que passa, em cóleras, ufano,
Faz palpitar o bojo às retesadas velas.

Novos céus querem ver, miríficas belezas,
Querem também possuir tesouros e riquezas
Como essas naus, que têm galhardetes e mastros...

Ateiam-lhes a febre essas minas supostas...
E, olhos fitos no vácuo, imploram, de mãos postas,
A áurea bênção dos céus e a proteção dos astros...

Francisca Júlia da Silva Munster (n. antiga Vila de Xiririca, hoje Eldourado, no vale do Ribeira, São Paulo a 31 de Agosto de 1871 e faleceu em São Paulo a 1 de Novembro de 1920).

Ler da mesma autoria neste blog:
Musa Impassível
À Noite
Inverno
Paisagem
A Um Artista

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A Ausência / L'Absence - Teophile Gautier

Regressa, regressa, minha bem amada!
Como uma flor longe do sol,
A flor da minha vida está fechada,
Longe do teu sorriso de rubi.

Entre os nossos corações tanta distância,
Tanto espaço entre os nossos beijos!
Ó sorte amarga! Ó dura ausência!
Ó grandes desejos não apaziguados!

Regressa, regressa, minha bem amada ...

Entre nós tantas campinas,
Tantas cidades e aldeias,
tantos vales e montanhas,
Para cansar os cascos dos cavalos.

Regressa, regressa, minha bem amada ...
Tradução - RDP - Maria de Nazaré Fonseca

(original)
L'Absence

Reviens, reviens, ma bien-aimée!
Comme une fleur loin du soleil,
La fleur de ma vie est fermée
Loin de ton sourire vermeil!

Entre nos coeurs, quelle (tant de) distance!
Tant d'espace entre nos baisers!
Ô sort amer, ô dure absence!
Ô grands désirs inapaisés!

Reviens, reviens, ma bien-aimée ...

D'ici là-bas que de campagnes,
Que de villes et de hameaux,
Que de vallons et de montagnes,
À lasser le pied des chevaux!

Reviens, reviens, ma bien-aimée ...

Pierre Jules Théophile Gautier (Tarbes, 31 de agosto de 1811 — Paris, 23 de outubro de 1872)

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2012-08-30

INCANSÁVEL - Carmen Cinira

Velho sonho de amor que me fascina,
causa das mágoas que me têm pungido
e que, entanto, conservo na retina
como a fonte de um bem inatingido...

Flana velada, cântico em surdina
de uma alma triste, um coração ferido,
nem pode haver liguagem que defina
o que eu tenho, em silêncio padecido!

Mas, ainda que mal recompensado
meu amor há de sempre desculpar-te
humilde, carinhoso, devotado...

Bendito seja o dia em que te vi,
pois não há maior glória do que amar-te
nem melhor gozo que sofrer por ti!

Cinira do Carmo Bordini Cardoso, de nome literário Carmen Cinira, nasceu no Rio de Janeiro, em 16 de julho de 1902, e faleceu em 30 de agosto de 1933

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2012-08-29

Morir, Dormir - Manuel Machado

«Hijo, para descansar,
es necesario dormir,
no pensar,
no sentir,
no soñar...»

«Madre, para descansar,
morir».

Manuel Machado y Ruiz (n. Sevilha, 29 Ago 1874; m. Madrid, 19 Jan 1947).

Ler do mesmo autor no Nothingandall:
Adelfos;
O Jardim Negro;
O Querer;
Seguiriytas Ciganas;
La Toná de la Frágua (Seguiriyas Gitanas).

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2012-08-28

Anoitecer, na Praia - Hermes Fontes

Junto ao mar, as crianças
são mais alegres; as mulheres são
mais harmoniosas,
mais naturais.
E, enquanto a ondulação
das águas marulhosas
arma, em seu ritmo, imprevistas danças
isócronas, mas sempre desiguais;
e a escumilha na praia arma frouxéis de rosas,
efêmeros, sutis, quase irreais;
e as crianças, à beira da água, armam castelos
na úmida areia,
sob os olhos da miss, ou da ama que as ladeia,
e o distraído encanto dos papais;
e os velhos, em seus trajos mais singelos,
sob os toldos velados,
repousados,
sorriem cachimbando,
recordando
coisas imemoriais, —
cada mulher que passa é atávica sereia;
é atávico tritão
cada atleta que emerge à ondulação
da correnteza rejuvenescente;
é atávico tritão
aquele nadador adolescente
ora a subordinar o mar fremente
que resfolega e ondeia,
ao ritmo do seu próprio coração...

(...)


Hermes Floro Bartolomeu Martins de Araújo Fontes (nasceu em Boquim, Sergipe a 28 de agosto de 1888 – m. Rio de Janeiro (suicidio) a 25 de dezembro de 1930).

Ler do mesmo autor:
Suave Amargor
A Cigarra
Pouco acima Daquela Alvíssima Coluna
Jogos de Sombras;
Mãe;
Solenemente;
Diário de Um Sonho (IV)

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