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2013-05-20

Perdimento - Maria Teresa Horta

De tanto eu amar-te
e desejar-te
a tirar da paixão seu alimento

Não sei se é agrura
se sustento
este lento caminhar pelo incêndio

E de tanto misturar
meu corpo ao teu
e ao teu desdizer meu pensamento

Não entendo se amar-te
me sustém
ou se pelo avesso é perdimento


in Os dias do Amor, um poema para cada dia do ano, Ministério dos Livros

 Maria Teresa Horta (nasceu em Lisboa a 20 de Maio de 1937)

Ler da mesma autora, neste blog:
Segredo
Poema sobre a recusa
Morrer de Amor
Joelho

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2013-05-19

Além-tédio - Mário de Sá-Carneiro

Nada me expira já, nada me vive -
Nem a tristeza nem as horas belas.
De as não ter e de nunca vir a tê-las,
Fartam-me até as coisas que não tive.

Como eu quisera, enfim de alma esquecida,
Dormir em paz num leito de hospital...
Cansei dentro de mim, cansei a vida
De tanto a divagar em luz irreal.

Outrora imaginei escalar os céus
À força de ambição e nostalgia,
E doente-de-Novo, fui-me Deus
No grande rastro fulvo que me ardia.

Parti. Mas logo regressei à dor,
Pois tudo me ruiu... Tudo era igual:
A quimera, cingida, era real,
A própria maravilha tinha cor!

Ecoando-me em silêncio, a noite escura
Baixou-me assim na queda sem remédio;
Eu próprio me traguei na profundura,
Me sequei todo, endureci de tédio.

E só me resta hoje uma alegria:
É que, de tão iguais e tão vazios,
Os instantes me esvoam dia a dia
Cada vez mais velozes, mais esguios...


Mário de Sá-Carneiro (n. Lisboa a 19 Mai 1890, m. em Paris (suicidio) a 26 Abr 1916)

Ler do mesmo autor:
Quase;
Dispersão;
Último Soneto
O Recreio
Fim
Crise Lamentável
Escavação
Ápice
Quasi
I lost myself within myself... (tradução parcial do poema Dispersão)
A Queda
IX - Como eu não possuo

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2013-05-17

ARTE POÉTICA - José Emílio-Nelson

Demão depois da lixa, zarcão e betume na madeira, a sonoridade
da tinta nas passagens em que deixei que os crisântemos que
se interpunham fossem mais do verso que os espelhasse. Li até
escurecer os olhos. Abandonado, vale dizer.
Para uns, ainda, a poesia não dispensa
que o autor nas horas certas contemple as flores de papel. Era
assim pacientemente a florescência de um verso crescia no
canteiro. Eu, no toucador, agora debruçado escrevo
vírgulas que, de algum modo, dificultam pelo esforço da repetição
o andar da tarde. E o entardecer deixa que, na dobra das
nuvens, toque o canto rouco que escreve sem balbucios a única
página celeste folheada.


(in Mosaico)

José Emílio de Oliveira Marmelo e Silva, que usa o pseudónimo de José Emílio-Nélson, nasceu em Espinho, em 17 de Maio de 1948

Ler do mesmo autor, neste blog:
Canção Punitiva
Mahler

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2013-05-16

Tríptico - Alfredo Brochado

Olaia
Caiu agora uma folha
De uma olaia da Avenida!
Ela tomba e ninguém olha
A morte daquela vida.

No entanto, mesmo caindo
Com suavíssima leveza,
É qualquer coisa de findo
À face da natureza.

Tua vida, a minha vida,
A nossa vida, afinal,
É aquela folha caída,
Num dia de vendaval.

Extraído de Obra Poética de Alfredo Brochado, Edição de José Carlos Seabra Pereira, Lello Editores


Alfredo Monteiro Brochado (n. em Amarante a 3 de Fevereiro de 1897 e suicidou-se em Lisboa a 16 de Maio de 1949).

Ler do mesmo autor neste blog:
Misticismo
Miniaturas
Desvio
Na Atitude Saudosa de Quem Chora
Súplica
Confissão
Silêncio

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2013-05-15

Por cousas que nan tem cura - João de Meneses

Por cousas que nan têm cura
hei por mor desaventura
qualquer dita que me vem,
nem desejo nenhum bem
por nam ver quam pouco dura.

Ditoso de quem viver
livre, fora d'esperança,
digo eu sem no saber,
coitado de quem alcança
ganhá-la para a perder.
Pois tudo tam pouco dura,
seguro que nam segura
nam no quero de ninguém
nem desejo nenhum bem
com despreços de mestura.


in Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Assírio & Alvim

D. João de Meneses, c. 1460 - Azamor, Marrocos 15 de maio de 1514

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