Blog Widget by LinkWithin

2012-05-03

Beatriz - Francisco Serra Azul

É mais formosa que a Beatriz do Dante,
Porque, se aquela fosse assim tão bela,
O poeta não teria tido aquela
visão de inferno e glória ao mesmo instante

Porque quem vir Beatriz, estou que cante
Somente a glória que ela vive, em si, revela
E só poderá ver inferno adiante
Ou purgatório, estando ausente dela.

Assim, para a beleza ser completa,
É preciso ter na alma a formosura
Que se ajuste à do corpo em linha reta.

E esta Beleza da alma se apresenta
Em Beatriz, na virtude e na ternura
De que a beleza dela se ornamenta.

Francisco Henrique Leite, depois Francisco Leite Serra Azul, nasceu no sítio de Pau Branco no riacho do Tipi de Aurora, CE, no dia 03 de maio de 1893. Faleceu em Fortaleza em 29 de outubro de 1983.

Poema extraído daqui; dados biográficos daqui

Ler do mesmo autor: Alice


Read More...

2012-05-02

Quando não mais o Número e a Figura ... - Novalis

Quando não mais o Número e a Figura
Sejam chaves de toda a Criatura,
Quando aqueles que cantam ou que beijam
Mais sábios que os mais sábios inda sejam,
Quando o mundo, que a vida livre esquece,
À vida e a si próprio já regresse,
E quando a luz e as trevas se casarem
Pra claridade vívida gerarem,
Quando virmos que a história universal
Só na poesia e lenda é que é real,
Brotará do mistério de um só verbo
O renovado Ser que andava enfermo.

Tradução de A. Herculano de Carvalho

Extraído de Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Porto Editora

Novalis, pseudónimo de Georg Philipp Friedrich Freiherr von Hardenberg (n. em Oberwiederstedt, Electorate of Saxony, Germany 2 maio 1772; f. 25 março 1801 em Weißenfels, Germany)

Read More...

Há 50 anos o Benfica foi bi-Campeão Europeu!

Estádio Olímpico em Amesterdão
Assistência 61.257
Image Hosted by ImageShack.us
Benfica 5 - 3 Real Madrid


Benfica: Costa Pereira; Mário João e Angelo; Cavém, Germano e Cruz; José Augusto, Eusébio, Águas (cap.), Coluna e Simões. Treinador : Bela Guttman
Real Madrid: Araquistain; Casado, Miera, Felo, Santamaria; Pachin, Tejada, Del Sol, Di Stefano; Puskas e Gento. Treinador: Miguel Muñoz
Árbitro: Leo Horn (Holanda)
Golos: 0-1 Puskas (17'); 0-2 Puskas (22'); 1-2 Águas (25'); 2-2 Cavém (34'); 2-3 Puskas (37') Intervalo : 2-3
3-3 Coluna (51'); 4-3 Eusébio (62' de g.p.); 5-3 Eusébio (68').

Image Hosted by ImageShack.us
Altura da marcação do livre por Águas que deu o 1-2.

Read More...

2012-05-01

Vista cansada - Otto Lara Resende

Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa idéia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.

Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.

Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.

Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.

Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.

Texto publicado no jornal “Folha de S. Paulo”, edição de 23 de fevereiro de 1992.

Extraído daqui

Otto de Oliveira Lara Resende nasceu no dia 1°. de maio de 1922, em São João del Rei, Minas Gerais; faleceu em 28 de dezembro de 1992 no Rio de Janeiro.

Read More...

A Elegia das Grades - Mário Beirão


A fome, um dia, arrastou-me
Para as grades da prisão:
Sou o bastardo sem nome,
O deserdado sem pão!

Meu ar é dúbio, suspeito:
Vinte prisões conto já,
Vinte facadas no peito,
Na alma quantas não há!

Ninguém me quer, sou da vasa;
N as minhas carnes espúrias
Marcaram, a ferro em brasa,
Tatuagens rubras de injúrias!

Quando eu canto, o povo em massa
Chora ouvindo a minha voz;
Novo Camões da desgraça,
Canto a dor de todos nós!

Nas lajes do corredor
Ressoam passos... Quem vem?
Ferrolhos, chaves, rumor...
Encarceraram alguém!
Ferros de El-rei! Que ironia!
Soubesse El-rei da traição,
E caridoso viria
Dar-nos lágrimas e pão!

Aqui, em torpe igualdade,
Anicham-se os pais e os filhos;
Cabeças fora da grade,
Famintos e maltrapilhos!

A sombra, espertando o instinto,
Espessa de ardis, oprime;
Abismam-se as almas ... Sinto
Correr-me a larva do crime!

Noites de febre e miasmas,
De delírios e cruezas ...
Perpassam brancos fantasmas,
Brandões, fogueiras acesas!

Aos areais da desgraça
Lançou-me torva maré ...
Vejo toda a minha raça
Ardendo em autos-de-fé!

Adeus, a noite vai alta!
Por entre névoas, mui cedo,
Vou de súcia com a malta,
Na leva para o degredo!
Que importa morrer de todo
Nos ermos de água sem fim?
Eu já morri de algum modo:
Sou a lembrança de mim!

Saudades, brumas, acenam ...
Eu, no escuro, a murmurar:
«- Os crimes dos que condenam
Nem o inferno os quer julgar!»

Çala a tua alta Epopeia,
O povo de Pedro Sem!
Maré cheia, maré cheia,
Já se não salva ninguém!

Extraído de Antologia de Poemas Portugueses Modernos por António Pessoa e António Botto, Ática Poesia

Mário Pires Gomes Beirão (n. em Beja a 1 Mai 1890; m. em Lisboa a 19 Fev. 1965)

Ler do mesmo autor e neste blog:
Adeus
O Vago
Ausência
Cintra

Read More...