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2015-04-12

Mãe-Terra - Costa Andrade



Terra vermelha do Lépi és minha mãe

Mãe-Terra que aos filhos dá
mais do que a vida uma razão

Razão de águia
águia transformada
no soba dos espaços
e das espinheiras cruas.

Terra vermelha do Lépi
calma sombra das mangueiras
sobre o chão vermelho
rocha negra do saber de ferro
a água sabe à voz materna

Águia de pedra
embala onde sentaram
régios Mussindas de vento
em gerações de luar
gritando ao vale profundo
aos muxitos
e ás mulembas velhas
a superfície larga do barro
do corpo negro dos filhos

A terra é sempre a mesma
o resto dirão os homens!

Francisco Fernando da Costa Andrade nasceu Lépi, Huambo, Angola a 12 de abril de 1936; faleceu em Lisboa, a 18 de Setembro de 2009

Da mesma autoria:
Dádiva
Autobiografia

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2015-04-10

Crepuscular - Sebastião da Gama



imagem daqui

Já não são horas, meu Amor…
A hora
passou
em que era grato a gente amar.
É um querer de Irmão este de agora.
Nem a Tarde
é já o cravo rubro de inda há pouco:
é um murmúrio quase… um lírio inexistente
dulcificando as coisas, perfumando-as
de carinhos…

Não é a hora, Amor.
Agora
deixa sorrir em nós a peregrina
ternura da Paisagem.
Não desprendas as mãos
das minhas…

Abandona-as, mas castas como berços…
E beija-me na testa…
Quando a Noite
mansa vier vindo,
Amor, beija de manso a minha testa…
De manso, meu Amor…
Como se o lírio da Tarde se fechasse…

Extraído de Cem Poemas Portugueses do Adeus e da Saudade, selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria, Terramar

Sebastião Artur Cardoso da Gama (n. em Vila Nogueira de Azeitão, Setúbal, a 10 de Abril de 1924; m. em Lisboa a 7 de Fevereiro de 1952)


Do mesmo autor ler, neste blog:
Louvor da Poesia
Largo do Espírito Santo, 2 - 2º
Nasci Para Ser Ignorante
Pequeno Poema
O Sonho
Madrigal
Poema da Minha Esperança
Anunciação
Meu País Desgraçado

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2015-04-06

Post Scriptum - Henrique Segurado

Por baixo das tílias
Há sombras, raízes.
Se escavarmos mais:
Palácios e casas
E lá mais no fundo:
Cidades, países,
Reis, imperatrizes
E formigas de asas…

Debaixo das tílias
Crescem os jacintos,
Os bicos de lacre
Mais os flamingos.
Debaixo das tílias
Mandam os instintos.
Debaixo das tílias
É sempre domingo!


Henrique Jorge Segurado Pavão (n. Lisboa, 6 de abril de 1930)

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2015-04-02

SONETOS DE ABRIL (VIII) - Ruth Maria Chaves

Pelas veredas lentas desse abril
chegarás, companheiro dos crepúsculos,
e silêncio tão vasto vinga em ti
que o azul retém seus pássaros mais bruscos.

Como ficaste em mim, de mim ausente!
Que constância de ti é meu socorro
agora (é mais que amor) que és dom e és tempo
e de tempo e de adeus se fez teu ouro.

Astro livrado às vastidões, mas fixo
aceso em sombras pelo céu se esbate
teu rosto irreversível, quase um signo,

que além do tempo tange eternidades.
Somos sombras de nós, abris remotos,
e as horas entardecem nos teus olhos.


poema extraído daqui

Ruth Maria Chaves de Oliveira Martins nasceu a 2 de abril de 1934 em Belém do Pará e faleceu em 30 de maio de 2013, em Campos,

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2015-04-01

AS ESTRELAS - Faustino Fonseca

Da minha alegre janela
Vejo uma nesga do céu;
É noite serena, bela,
Espaireço o olhar meu,

A contemplar as estrelas
Que cintilam diamantinas,
Recorda-me sempre ao vê-las
Tuas graças peregrinas.

Que queres, pois se te não vejo,
Como outrora, na varanda
Trocando frases amantes?

Por isso mando-te um beijo
Na brisa suave, branda,
Fitando os astros brilhantes.


Lisboa, 1891

(ortografia atualizada)

in LYRA DA MOCIDADE (Primeiros versos)
Angra do Heroismo 1892

Faustino da Fonseca (Angra do Heroísmo, 1 de abril de 1871 — Lisboa, 22 de outubro de 1918)

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