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2014-02-05

Felicidade - Simões Dias (na passagem dos 170 anos sobre o seu nascimento)

Feliz quem descuidado a vida passa
No seio da opulência e do prazer
Quem nunca soube quanto amarga a taça
De empeçonhado e eterno padecer.

Feliz quem tem no coração ainda,
De um Deus piedoso, a abençoada paz,
Feliz quem nunca viu em face linda
Pérfidasd rosas de um amor falaz.

Venturoso na terra é por mil modos
Quem remorso não sente arfar-lhe o seio;
Feliz quem já morreu, mas sobre todos
Feliz quem nunca à luz do mundo veio!


José Simões Dias (nasceu na Benfeita, Arganil, a 5 de Fevereiro de 1844 e morreu em Lisboa a 3 de Março de 1899).

Ler do mesmo autor neste blog:
Sol entre nuvens
O Teu Lenço

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2014-02-04

Os Cinco Sentidos - Almeida Garrett

            São belas – bem o sei, essas estrelas,
            Mil cores – divinais têm essas flores;
            Mas eu não tenho, amor, olhos para elas:
                         Em toda a natureza
                         Não vejo outra beleza
                         Senão a ti – a ti!

           Divina – ai! Sim, será a voz que afina
           Saudosa – na ramagem densa, umbrosa.
           Será; mas eu do rouxinol que trina
                         Não oiço a melodia,
                         Nem sinto outra harmonia
                         Senão a ti – a ti!

           Respira – n’aura que entre as flores gira,
           Celeste – incenso de perfume agreste.
           Sei... não sinto, minha alma não aspira,
                        Não percebe, não toma
                        Senão o doce aroma
                        Que vem de ti – de ti!

           Formosos – são os pomos saborosos,
           É um mimo – de néctar o racismo:
           E eu tenho fome e sede... sequiosos,
                        Famintos meus desejos
                        Estão... mas é de beijos,
                        É só de ti – de ti!
          Macia – deve a relva luzidia
          Do leito – ser por certo em que me deito.    
         
          Mas quem, ao pé de ti, quem poderia           
                        Sentir outras carícias,                     
                        Tocar noutras delícias                     
                        Senão em ti – em ti!                      
          A ti! ai, a ti só os meus sentidos,                  
                        Todos num confundidos,                
                        Sentem, ouvem, respiram, 
                        Em ti, por ti deliram.
                        Em ti a minha sorte,
                        A minha vida em ti;
                        E quando venha a morte,
                        Será morrer por ti.


João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett (n. no Porto a 4 de Fev. 1799; m. em Lisboa 9 Dez. 1854)

Ler do mesmo autor:
Não Te Amo
A Rosa - Um Suspiro
Os Meus Desejos
Seus Olhos
Este Inferno de Amar
Rosa sem Espinhos
Seus Olhos
Destino

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Musical suggestion of the day - Iannis Xenakis: Rebounds B for percussion




Iannis Xenakis: Rebounds B. Der Maurer e Sebastiano de Gennaro live, 17.04.2012 Teatro San Leonardo, Bologna, Festival Angelica.

Iannis Xenakis, Greek: Ιάννης Ξενάκης; b. 29 May 1922 – d. 4 February 2001)

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2014-02-03

Silêncio! - Alfredo Brochado

Poente - foto de Reynaldo Monteiro

Foi-se na cor deste poente alado
O teu amor e o meu perdidamente.
Deixá-lo ir dormir eternamente
Como um sonho que mal fosse sonhado.

Deixá-lo ir assim, sem um pecado,
Dos outros este amor tão diferente.
Deixá-lo ir na luz deste Poente
O nosso amor meu Deus, tão desgraçado!

Deixá-lo ir assim ao fim do dia,
Como luz de penumbra ou sacristia,
Como flor que murchou sem um lamento.

Deixá-lo ir o meu amor enfim!
Deixá-lo ir meu Deus! Longe de mim
Que durma em paz no grande esquecimento


Extraído de Obra Poética de Alfredo Brochado, Edição de José Carlos Seabra Pereira, Lello Editores

Alfredo Monteiro Brochado (n. em Amarante a 3 de Fevereiro de 1897 e suicidou-se em Lisboa a 16 de Maio de 1949

Ler do mesmo autor neste blog:
Misticismo
Súplica
Confissão
Tríptico
Miniaturas
Desvio
Na Atitude Saudosa de Quem Chora

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2014-02-02

Afirmas que brigámos... - Rosa Lobato de Faria

Afirmas que brigámos. Que foi grave.
Que o que dissemos já não tem perdão.
Que vais deixar aí a tua chave
E vais à cave içar o teu malão.

Mas como destrinçar os nossos bens?
Que livro? Que lembranças? Que papel?
Os meus olhos, bem vês, és tu que os tens
Não te devolvo – é minha – a tua pele.

Achei ali um sonho muito velho,
Não sei se o queres levar, já está no fio.
E o teu casaco roto, aquele vermelho
Que eu costumo vestir quando está frio?

E a planta que eu comprei e tu regavas?
E o sol que dá no quarto de manhã?
É meu o teu cachorro que eu tratava?
É teu o meu canteiro de hortelã?

A qual de nós pertence este destino?
Este beijo era meu? Ou já não era?
E o que faço das praias que não vimos?
Das marés que estão lá à nossa espera?

Dividimos ao meio as madrugadas?
E a falésia das tardes de Novembro?
E as sonatas que ouvimos de mãos dadas?

De quem é esta briga? Não me lembro.


in Cem Poemas Portugueses no Feminino, selecção, organização e introdução de José Fanha e José Jorge Letria, Terramar

Rosa Maria de Bettencourt Rodrigues Lobato de Faria (nasceu em 20 de Abril de 1932 - m. 2 de Fevereiro de 2010)

Ler da mesma autoria, neste blog:
Quem me Quiser
Primeiro a tua mão sobre o meu seio

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